Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

Vida de um Cinéfilo

24
Jul17

Logan (2017) - Crítica


Francisco Quintas

     Depois de uma longa maratona dos filmes dos X-Men, finalmente pude ver Logan. Perdoem-me cinéfilos, mas eu nunca tinha visto nenhum filme dos X-Men. A última semana contribuiu bastante para eu me atualizar e para conhecer um dos melhores personagens do cinema moderno. O Wolverine sem o Hugh Jackman não valerá nada.

     O filme começa em El Paso, no Texas, em 2029, e segue um velho, fraco e desgastado Logan que deve interromper o seu trabalho como motorista para salvar uma misteriosa mutante, numa era em que os mutantes que Logan conhecia se extinguiram.

Logan One Last Time HD Wallpaper 2017.jpg

     O filme foi co-escrito e realizado pelo James Mangold, que volta ao mesmo cargo depois de The Wolverine, de 2013. Mais uma vez, ele e o Hugh Jackman sabem exatamente o que devem fazer aqui. O filme de 2013, mesmo não sendo espetacular, definiu aquilo que um filme solo do Wolverine deve ser: envolvente, sangrento e provocador. Depois do sucesso de Deadpool, cuja receita foi de 781 milhões de dólares, a Fox finalmente percebeu que os filmes rated R de super-heróis podem ser bons (respeitando a essência dos seus personagens) e fazer dinheiro ao mesmo tempo, uma coisa bastante rara nos dias de hoje, principalmente quando comparados aos filmes da Marvel dos estúdios Disney. Algo que a Disney provavelmente nunca irá fazer é um filme rated r. Finalmente o James Mangold pôde fazer o que quis, este é disparado o filme mais violento e um dos melhores da franchise inteira dos X-Men.

    Mais uma vez, o universo que o realizador desenvolve é aquele que o Wolverine precisava e merecia. As cenas de ação são extraordinárias, não são muitos os filmes que conseguem conduzir a história filosoficamente enquanto chocam o público, algumas pessoas habituadas ao estilo PG-13 dos filmes anteriores podem se desiludir, mas quem esperava um filme do Wolverine mesmo sangrento terá tudo aquilo que quiser: sangue, suor, decapitação e muita garra (literal e metaforicamente). É de referir também o ótimo trabalho de maquilhagem. Por vezes torna-se mais incómodo ver o Logan ferido do que assistir propriamente às batalhas e às mortes.

logan-hugh-jackman.jpg

     Há muitos elementos típicos do James Mangold, presente noutros filmes dele. Uma forte homenagem ao seu protagonista, um retrato humanamente digno do mesmo, um visual distópico (mérito da fotografia do John Mathieson) e uma escolha de músicas sensacional. A música “Hurt”, interpretada pelo Johnny Cash, pode nem aparecer no filme, mas foi a escolha perfeita para (no trailer) resumir o estado de espírito do protagonista. No fundo, Logan é um filme sobre mágoa, arrependimento, angústia e a infelicidade que se carrega às costas durante uma vida. A voz do próprio Johnny Cash não podia ser substituída.

thumb-1920-794336.jpg

    O Hugh Jackman continua a ser a melhor coisa nos seus filmes solo, é um dos atores mais dedicados e brutalmente carismáticos da atualidade. É verdade que a (ótima) maquilhagem lhe ajuda bastante na sua performance, mas o que realmente teve peso aqui foi a sua presença. Foram 17 anos a interpretar este personagem e, num filme com este tom incomodamente triste, era impossível que o seu trabalho não se destacasse de tudo o resto. Ele convence perfeitamente como um homem cansado e engolido pela vida que teve, que apenas quer procurar um espaço para morrer numa circunstância que não lho permite. Que venha um Tom Hardy, um Michiel Huisman, um Jon Bernthal, ou um Ben Foster, o Hugh Jackman será sempre o Wolverine.

DF18976.jpg

     A Dafne Keen foi a derradeira surpresa do filme, aliás, este é o seu primeiro grande trabalho no cinema. A sua interpretação vai muito além de uma menina agressiva que passa o tempo a gritar e a fazer cara de má. A sua (bem construída) história de origem torna-a numa criança perturbada e arrepiante, especialmente nas cenas de ação, quando vemos o quão talentosa é ela. Sendo também de realçar a sua excelente química com o Hugh Jackman, o arco dos dois começa por ser engraçado e muito agitado, mas vai ficando progressivamente mais comovente e bonita quando a situação em que os dois se encontram evolui.

timg-10-3.jpg

     Eu fiquei sem palavras para descrever a performance do Patrick Stewart. Tal como o Hugh Jackman, este já interpreta o Charles Xavier há 17 anos, por isso o falhanço era praticamente impossível. Já não é o Professor X, é apenas um velho de 90 anos destroçado e incapacitado com poderes debilitadíssimos. É bastante triste observá-lo.

logan_still.jpg

     O ponto fraco do filme é o Boyd Holbrook. O problema não é do ator, ele é bom, já provou isso em Narcos. Ele pode não ser o principal antagonista, na verdade ele tem um carisma suficientemente temível, mas, para mim, ele é um William Stryker reinventado e apenas ligeiramente mais sádico. Ele pode nem comprometer muito o filme, mas são quase inexistentes os momentos surpreendentes dele, eu precisava de algo novo nesse aspeto.

Logan-Boyd-Holbrook-as-Pierce.jpg

     Verdade seja dita, filmes de super-heróis, mesmo que maior parte sejam bons, já estão prestes a chegar ao seu limite. Cada vez mais estreiam uns atrás de outros, porém sem um estilo diferente, são poucos aqueles que podemos considerar realmente originais. James Mangold mostra aquilo que um bom filme de super-heróis deve ser, como é importante ir num caminho menos convencional.

767048.jpg

     Logan é um filme diferente, é filosófico, melancólico, violento, comovente e capaz de construir uma despedida digna ao Wolverine que conhecemos, uma despedida digna ao Hugh Jackman. Para além disso, mostra os novos e importante caminhos em que os universos dos super-heróis podem ser desenvolvidos no cinema, de uma maneira equilibradamente realista.

 

Nota: A

24
Jul17

Grave (Raw, 2017) - Crítica


Francisco Quintas

     Eu não ia fazer a crítica deste filme, acho que passou ao lado de toda a gente e quase ninguém viu. Mas acho que, quando o fator surpresa é maior do que nós estávamos à espera, os filmes merecem ganhar destaque.

   Justine é uma jovem vegetariana que começa a estudar medicina veterinária. Ao longo da sua estadia naquele que se revela ser um ambiente sujo, esta começa a desenvolver instintos canibais.

rawbanner.png

     Trata-se do directorial debut da Julia Ducournau, que também escreveu o guião. Graças a este filme, ela tornou-se numa das realizadoras mais controversas deste ano. Se procurarem, encontrarão alguns vídeos dela a promover o filme em festivais enquanto alguém na sala a confronta. Tal como ela, o filme é provocador, fascinantemente misterioso e, acima de tudo, corajoso. A primeira impressão com que fiquei foi a de uma mulher que simplesmente quer-se expressar para aqueles que a admiram, sem se preocupar com aqueles que não gostam. Dito isto, Grave vai certamente dividir opiniões. Em montes de perguntas que lhe já foram feitas sobre o verdadeiro significado do filme, esta respondeu que não tem uma resposta certa, a história trata-se de uma metáfora bastante ambígua. Sendo assim, algumas pessoas adorarão e outras odiarão. Antes de se falar mal de um filme é preciso refletir.

raw-movie-with-director-interview-read-22d77991-8c

     Algo que ela fez muito bem foi elevar o fator surpresa além daquilo que o público esperava. Há vários pequenos e grandes twists aqui, uns mais inesperados que outros, mas igualmente bons. Os planos não fogem muito do vulgar, mas são mais que funcionais. Há planos gerais para ostentar a grandiosidade da escola e das festas universitárias, assim como muitos close-ups e outros planos claustrofóbicos nas situações mais convenientes. Falando nas festas, o filme é rated R, há muito sexo, sangue, violência e o esperado de um drama coming-of-age numa universidade, só que, por vezes, bem mais explícito do que filmes como American Honey, por exemplo.

     O filme é bizarro, surreal e um pouco perturbador, dependendo da tolerância de cada um. Eu sou fã de filmes violentos, é um gosto adquirido. Se canibalismo for algo demasiado forte para vocês, aconselho a não escolherem este filme para uma noite de sábado. Por outro lado, é um filme bastante reflexivo, filosófico, ambíguo e inquietamente intrigante, principalmente devido à sua curta duração (98 minutos). O filme não perde tempo e, fora apenas dois pequenos momentos um pouco inúteis, não inclui cenas arrastadas desnecessárias, é uma experiência muito ágil.

raw_gb_0.png

     São vários os elementos técnicos que contribuem para a natureza surreal e violenta de Grave: a maquilhagem, a banda sonora e a fotografia. A maquilhagem é mais que eficiente, não chega a ser horrível ao nível de 13 Reasons Why, nem espetacular ao nível de The Revenant, ainda quando se conta com um orçamento de apenas 3,5 milhões de euros, o que para uma produção franco-belga, é baixo.

     A banda sonora é sensacional! Ambos os temas originais e a seleção de músicas são brutais (pelo verdadeiro significado na palavra). Há uma escolha de música eletrónica suja e incómoda, mas deliciosamente estranha, assim como um violino ríspido, irritante, porém suave e agradável que chega até a lembrar o de Game of Thrones. Uau! E a fotografia, mesmo não muito original, consegue criar tons sombrios e coloridos, lembrando o trabalho do Kubrick, o suficiente para um filme deste “género”.

503d5400-dea7-11e6-a4a3-1f37c9e6e1ba_20170119_RAW_

     A Garance Marillier está fantástica, é muito provavelmente uma das melhores interpretações femininas do ano! Mesmo no seu estado mais sano e estável, ela consegue, de uma maneira inexplicável, convencer-te que há qualquer coisa errada com ela, mesmo que todas as suas atitudes e opiniões te mostrem o contrário. É um ótimo estudo de personagem e o mais impressionante é que, mesmo quando sabemos para onde o filme vai, quais serão as cenas seguintes, há sempre qualquer coisa inesperada, maior parte das vezes graças a ela. Ela é tímida, introvertida e inocente, mas quando a sua personagem começa a evoluir, há uma presença animalesca que nunca mais desaparece. E aqueles olhos são extremamente arrepiantes.

voraz-2.jpg

     De resto, o elenco secundário é “ok”. Não são muitos os personagens realmente importantes ou influentes, mas os que mais interagem com a protagonista fazem um bom trabalho. Destaque para a Ella Rumpf, que acaba por ser a única com uma personalidade com camadas e que resolve dignamente o seu arco, não é de todo uma personagem secundária unidimensional.

158851.jpg-r_640_360-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg

     Se me permitem uma opinião mais profunda, trata-se de um filme relevante. Consoante algumas pesquisas que tive de fazer, a conclusão mais concreta e fundamentada que consigo retirar daqui é que tudo se trata de um estudo da violência, dos desejos mais violentos e crus (raw) do ser humano, assim como a destruição da sua inocência quando se permite integrar num ambiente socialmente degenerado. Mas cada um cria o seu debate, prefiro não me alongar mais.

raw_01.jpeg

     Grave é um dos melhores filmes do ano até aqui. Parece que os projetos mais independentes de suspense/terror continuam a surpreender pela positiva, enquanto grandes blockbusters continuam a desiludir. O filme é uma grande discussão sobre a natureza humana e digamos, sobre morais, é uma experiência agressiva, porém convidativa, filosófica, provocadora e satírica.

 

Nota: A-

22
Jul17

Dunkirk (2017) - Crítica


Francisco Quintas

   Chega-nos mais um filme que prova que Christopher Nolan é um dos realizadores mais subvalorizados da atualidade. Parecem gostar muito dele, ainda assim, ele não é só “aquele que fez o Batman”, é sim um dos melhores a exercer a sua profissão.

    O filme decorre em Dunquerque, em 1940, e segue o exército inglês e as tentativas da marinha e dos civis de resgatar os soldados para a Inglaterra.

kirk_N4ZFoNE.jpg

     O filme foi escrito e realizado pelo Christopher Nolan. Estar o nome dele na cadeira de realização significa quase imediatamente que o filme vai ser bom. Ele não faz filmes maus. Uma coisa bastante difícil que ele fez aqui foi relatar uma história quase num estilo de documentário enquanto cria um ambiente de guerra que lembra clássicos como Full Metal Jacket e Saving Private Ryan, sem jamais parecer uma imitação. É um filme distinto, é o tão esperado filme de guerra do Nolan. E isso deve-se fundamentalmente ao acontecimento em questão (já que maior parte dos clássicos relatam a participação americana na 2ª Guerra e na Guerra do Vietname) e aos aspetos técnicos vistos anteriormente noutros filmes do realizador que os fãs naturalmente identificarão.

     Comecemos por aí. A fotografia do Hoyte van Hoytema (que trabalhou com Nolan em Interstellar, de 2014) é uma das mais bonitas e diversificadas do género. Ao contrário de filmes passados num ambiente tropical, Dunkirk é um filme frio, cinzento, visualmente monótono, mas grandioso.

349769EA00000578-3608386-Back_on_the_beaches_Army_

    A banda sonora é sensacional, mesmo podendo-se dizer que nem sequer está entre as 10 melhores do Hans Zimmer (o que já seria bom anyway). Uma pessoa sabe que está perante uma boa música quando ela causa um incómodo físico, uma vontade de tapar os ouvidos. Alguns podem se queixar dizendo que foi um exagero, que foi uma banda sonora demasiado agressiva, mas é importante saber em que situação é que os soldados ingleses estavam metidos, o perigo que corriam, a esperança a diminuir e o medo a aumentar, principalmente durante as cenas mais violentas do filme. O Hans Zimmer compôs novamente uma jóia.

    Falando nas cenas de ação, há momentos de pura tensão, carnificina, e genialidade por parte do realizador. Chamem-me fanboy, mas o Christopher Nolan é um dos grandes. O seu foco não é a violência do inimigo, não era isso que lhe interessava. Sim, as cenas de ação são brutais, são sangrentas, mas quem esperar uma abertura semelhante à de Saving Private Ryan, vai se desiludir. O foco está no desespero dos personagens e nas suas consequentes decisões e atitudes. Maior parte dos críticos americanos queixaram-se que o real problema deste filme era a falta de desenvolvimento dos personagens. Para um guião do Nolan, há pouquíssimos diálogos, por vezes chega a lembrar The Revenant, de 2015, o que é um elogio. Dito isto, para os espectadores mais interessados nos personagens, o desenvolvimento é bastante claro.

dunkirk-2017-large-picture.jpg

    Como já disse, há pouco “sangue”. Há destruição, há tragédia, há tensão (muita). Mas quem quiser sequências de ação únicas terá confrontos aéreos sensacionais entre os ingleses e os alemães. Todas elas gravadas com uma “pseudo-câmara escondida” e uma edição precisa e frenética como nenhuma outra, sem nunca apelar à câmara tremida. Obrigado Nolan!

    O elenco é ótimo, isso também graças ao facto de não existir um personagem principal. O Tom Hardy está excelente como um homem focado mais na sua missão do que na sua própria sobrevivência. Ele passa o tempo todo calado ou com a cara tapada, por isso era muito difícil interpretar fosse quem fosse, mas graças à sua expressividade e carisma, é muito fácil torcer por ele.

maxresdefault.jpg

     O Mark Rylance dá novamente uma performance muito reservada e calada. Ele desenvolve um homem muito comum: inteligente, perspicaz, calmo, diria até estranhamente calmo. Ele sabe controlar o seu medo melhor que ninguém e impõe muito respeito.

mark-rylance-in-dunkirk-2017-large-picture.jpg

     O Cillian Murphy, mais uma vez, surpreendeu. É um ator muito underrated e esta performance não é inferior às outras. Ele interpreta um jovem destroçado, traumatizado e consequentemente assustador devido à sua imprevisibilidade e desequilíbrio mental.

screen-shot-2016-12-15-at-10-18-53.png

     O Kenneth Branagh é o que tem menos tempo em cena, mas o que consegue captar mais rapidamente a nossa atenção num curto espaço de tempo. Com a sua presença inabalável, ele convence perfeitamente como um comandante dividido entre a sua esperança e o seu pessimismo e medo, mesmo sabendo tomar precauções e pensar corretamente sob stress.

kenneth-branagh-in-dunkirk.png.jpeg

     E o trio Fionn Whitehead, Aneurin Barnard e (a surpresa) Harry Styles são uns ótimos soldados para conduzir e acompanhar o público nesta história e metê-lo dentro da experiência. Para além de terem conflitos internos bastantes realistas, ainda sabem desenvolver o drama e meter carga emocional e carisma nos seus personagens.

Dunkirk-1481731923.jpg

   Atenção, se não souberem nada sobre a evacuação de Dunquerque, aconselho a não fazerem nenhum tipo de pesquisa. Eu apenas sabia o mínimo e, como regularmente faço, usei o filme como um método de ensino, como o cinema ainda deve ser utilizado. Ver um filme às cegas é o melhor!

4271C4D300000578-0-image-m-45_1500371746255.jpg

   Dunkirk corresponde as altas expectativas, aliás, consegue ir muito além delas. É um filme tenso, inspirador, grandioso e genuinamente bonito. Para além de um espetacular retrato da guerra, é uma prova que o lado bom da Humanidade tem mais peso que o seu lado egoísta e cruel.

 

Nota: A+

18
Jul17

13 Reasons Why (Por Treze Razões, 2017) - Crítica S1


Francisco Quintas

     Quero começar a fazer críticas de algumas aqui no blog, nomeadamente de Dear White People, Taboo, Stranger Things, The Crown e Narcos. Vamos ver no que vai dar. Desculpem por esta crítica ser tão longa, eu tinha muita coisa apontada.

     Baseado no livro homónimo de Jay Asher, publicado em 2007, a série segue o jovem Clay Jensen, na sua tentativa de desmistificar a origem do suicídio da sua amiga Hannah Baker a partir de cassetes que esta anteriormente gravou.

13ReasonsWhy [www.imagesplitter.net].jpeg

     Bem … por onde começar? A série foi um sucesso no mundo inteiro, mas será que “sucesso” é sinónimo de “qualidade”? Como acontece com quase todo o conteúdo audiovisual, as críticas são subjetivas. Vai sempre haver quem adorará e quem não gostará. Agora, podemos nem sempre levar os filmes e séries a sério, mas haja bom senso. É preciso que as pessoas pensem. Tenho de tirar uma coisa do caminho, a história é ridícula, ilógica e absurda em vários sentidos. Não sou a primeira pessoa a dizê-lo e não serei a última. Há o mínimo valor de entretenimento nos episódios, pelo menos o suficiente para ela não ser uma tortura absoluta, quer seja graças aos bons personagens e aos seus respetivos arcos. Se assumirmos que a história não vale o nosso tempo, vamos apanhar uma grande seca. Mas uma coisa é verdade, alguém com pensamentos genuinamente suicidas jamais teria a cabeça no lugar para montar um plano daqueles.

     Nunca uma pessoa com depressão se daria ao (enorme) trabalho de gravar um monte de cassetes, marcá-las com papéis coloridos e enumerá-las, de marcar pontos num mapa gigantesco e garantir que todas pessoas destinadas ouviriam as cassetes. É verdade, são alguns os casos em que alguém se suicidou e deixou um bilhete ou mesmo uma gravação. É possível, mas esta série é um exagero e ainda tem o descaramento de se levar a sério, demais até. Uma pessoa que chegue à conclusão de que não aguenta viver nem mais um dia não se comportaria desta maneira. Porém, há algo que a série faz bem, a intenção da história não é má de todo. O principal problema é o facto de os criadores terem querido arrastar o material fonte para 13 episódios. “13 Reasons” e “13 episódios”, porque não? Foi uma decisão parva, a série foi exageradamente longa.

MV5BMjE1OTMxOTU3OV5BMl5BanBnXkFtZTgwOTgwNjA0MTI@._

     O ritmo da série é lento demais, há inúmeras cenas vazias e expositivas que não precisam de estar incluídas. Chega a parecer uma novela. São 13 episódios de 50 a 60 minutos e podiam perfeitamente ser 6 ou 7, no máximo, com apenas 45 minutos cada. Cada episódio é dedicado exclusivamente a uma “razão” e a justificação dada é ridícula.

     E (tal como nas novelas portuguesas), os criadores não confiam no público e parecem não entender o universo que relatam. Por exemplo, o personagem Clay anda a série toda com um penso na testa, usado numa ferida que levaria dias a sarar. Perto do fim, há outro personagem que leva uma tareia enorme e as suas feridas desaparecem mais rapidamente. O penso serve apenas para o público saber quando a história está no passado ou no presente. É um erro idiota. Aliás, o trabalho de maquilhagem é horrível. Tanto o suor, os cortes e os olhos negros são extremamente notáveis.

MV5BMTUxMTYxNzY0NF5BMl5BanBnXkFtZTgwNTEzNTQwMjI@._

   Tanto a presença da Hannah Baker e a fotografia evidenciam suficientemente quando a série visita os flashbacks. A fotografia aliás, bastante boa, oscila entre uma cor quente nos momentos do passado e um tom frio e triste nos do presente. É um dos pontos mais positivos da série. Destaque também para a banda sonora, há uma ótima seleção de músicas, assim como bons temas originais.

   Falando do elenco, a Katherine Langford é, sem duvida, o melhor elemento. A atriz constrói uma adolescente muito honesta: insegura, atrevida, sarcástica, precipitada, dramática demais, por vezes e, claro, juvenil. Observamos uma rapariga cuja boa-disposição está constantemente a ser atacada e engolida pela sua depressão.

MV5BOTU2MzQzMzM1OV5BMl5BanBnXkFtZTgwMjEzNTQwMjI@._

     Algumas pessoas criticaram bastante a série por não ser honesta em relação à depressão da sua protagonista e por ser uma espécie de propaganda do suicídio. Sim, houve críticos que afirmaram isso. Eu discordo totalmente. É compreensível que, um jovem que assista à série, se possa identificar com alguns acontecimentos. Eu próprio me identifiquei, mas o arco da protagonista nunca me deu a vontade de tomar a mesma atitude dela. Se há jovens com pensamentos suicidas, não é a série que lhes vai dar uma confirmação. A Baleia Azul é uma questão semelhante. Se houve jovens que se mataram, com ou sem jogo, eram pessoas com problemas na cabeça e que se matariam de qualquer maneira. Mas essa discussão é demasiado complexa para eu trazer aqui. No entanto, leva-nos ao próximo tópico: as “razões”.

MV5BNWM0N2Q2YmMtNTlmOC00ZmY2LTliYjYtMmI5ZmVkZjgyMz

     As principais razões pelas quais ela se suicida são fortes. Mas entre as 13 razões, maior parte delas são mesquinhas e insignificantes. São coisas que facilmente um adolescente esquece com o tempo. Amizades que acabam, fotos que circulam pela escola, encontros que correm mal são coisas mesquinhas. Bullying, eu ainda percebo, é uma coisa que já levou à morte na “vida real”. Ainda assim, o bullying hoje em dia é desnecessariamente visto como um crime tão horrendo como o homicídio, mas isso é outra discussão.

     Voltando ao elenco, eu gostei muito do Dylan Minnette. Eu já tinha gostado dele em Don’t Breathe, de 2016, e fiquei bastante interessado. Ele é um ótimo ator e dentro daquilo que a série lhe dá, ele faz o melhor que consegue, na verdade ele tem uma grande capacidade de elevar o material que lhe dão. É um personagem que passa muito tempo calado e com os auscultadores nos ouvidos, por isso a performance tinha de ser boa, tinha de ser expressiva. Para além disso, a sua dinâmica com a Katherine Langford é excelente. Assim que os vemos, só queremos vê-lo juntos e é muito triste que isso já não seja possível.

MV5BMTk2NTE4NDI0M15BMl5BanBnXkFtZTgwNjAzNTQwMjI@._

     Por outro lado, a série abusa de momentos de “sonho” do Clay. São sequências em que este pensa estar a ouvir ou ver determinada situação e afinal é tudo fruto da sua cabeça. Se esse recurso fosse usado apenas quando necessário, resultaria. Agora quando todos os episódios vão por esse caminho, torna-se cansativo e repetitivo. Sobretudo quando ele percebe que estava a sonhar, as cenas tornam-se dramáticas demais e até risíveis (cringe). São momentos em que a série se leva a sério demais e acaba por perder a sua credibilidade, que já era pouca.

MV5BYWI2YTE2ODEtNWM5MS00ZDZkLWFhODMtOTdlMWYxZDFhZT

     O Chris Navarro foi uma surpresa! À primeira vista, parece um ator no nível do elenco de High School Musical. Mas o personagem é muito carismático e, depois dos protagonistas, era o que me mais interessava.

MV5BYjAyYzg4MjUtNTAzYS00Mzg3LThhM2QtMWYyZTA4YTliZj

     Por enquanto, falando em High School Musical, o resto do elenco varia entre funcional e mau. Maior parte dos adolescentes são da escola dos filmes e séries da Disney. Alguns deles até têm bons momentos, mas no resto do tempo são desajudados por diálogos muito mal escritos.

MV5BYWZjOTRjOGMtNDM2OC00OTVmLWE4ZDAtNWFhZmM4ZDRkY2

     Ainda assim, o elenco é salvo pelos pais da Hannah Baker. A Kate Walsh e o Brian d'Arcy James estão ótimos. Era muito importante que as suas interpretações não fossem superficiais, dessa maneira, a série seria ainda pior. Eles têm imensa química e convencem perfeitamente como um casal destroçado que acabou de sofrer uma perda inimaginável. Inclusive, essa tristeza passa para o público instantaneamente.

MV5BMTM0ZTE4ODItZjVhYS00MDVlLThlMDMtMDlmM2Q4ZjVmYm

     Destaque também para o Derek Luke, que interpreta o psicólogo da escola, eu gostei muito da sua interpretação e do próprio personagem, é uma pessoa muito generosa e simpática.

8f30878b-4650-472e-87af-937222fbe7b6.jpg

     A série foi também controversa devido aos outros temas que aborda: álcool, droga, depressão na adolescência, amadurecimento, arrependimento, angústia, sexualidade, a difícil comunicação entre pais e filhos e a hipocrisia que surge depois da morte de alguém. Para mim, todos estes assuntos tiveram tratamentos dignos e minimamente eficientes, mesmo que nem todas as sub-tramas sejam igualmente interessantes ou bem executadas.

13-reasons-crop.jpg

     13 Reasons Why não é horrível, a série é intrigante e até constrói um bom mistério com base nos bons personagens e nos melhores arcos. Porém, pegar numa história curta e arrastá-la numa série de 13 episódios, cada um com momentos vazios e que apenas dizem mais do mesmo não permitiu que o seu visionamento fosse tão agradável como era suposto. Alguns episódios foram uma tortura e foi cansativo chegar até ao fim, felizmente o fim podia ser bem pior. Agora é esperar para ver o que é que eles vão fazer na segunda temporada, que provavelmente será horrível. O que é que podem fazer mais? Ressuscitar a Hannah Baker?

 

Nota: D

14
Jul17

Kong: Skull Island (Kong: Ilha da Caveira, 2017) - Crítica


Francisco Quintas

     Em 2014, com a estreia de Godzilla, deu-se início a um novo universo da Warner Bros. Pictures chamado MonsterVerse, baseado nas histórias dos monstros clássicos Godzilla e King Kong. Godzilla: King of the Monsters e Godzilla vs. Kong já foram anunciados para 2019 e 2020, respetivamente. Godzilla não foi excecional, foi somente bom (em breve farei uma crítica desse filme). Será Kong: Skull Island o mesmo caso?

     O filme passa-se em 1973 e segue uma equipa de cientistas e soldados numa viagem de exploração a uma ilha desconhecida no Pacífico. Depressa os integrantes percebem que têm de lutar para sobreviver perante a descoberta de monstros perigosíssimos.

maxresdefault.jpg

     Esta é a segunda longa-metragem do Jordan Vogt-Roberts. Ele fez muitas curtas, documentários e trabalhos para a televisão. A sua primeira longa foi o filme The Kings of Summer, de 2013. Com um orçamento de 185 milhões de dólares para um filme dentro do MonsterVerse, era quase imperdoável se este realizador falhasse.

     O filme certamente se venderá pelos aspetos técnicos. São utilizados muitos planos gerais, abertos mais que suficiente para ostentar a grandiosidade da Skull Island. Aliás, a ilha é fantástica! Basicamente é uma floresta tropical gigante. Ela é densa, perigosa e quente, muito quente. E isto graças à fotografia, o visual e as cores do filme são elementos espetaculares! Em relação ao visual, este filme já teve muitas comparações (merecidas) com Apocalypse Now. A cor constante do filme é um castanho dourado fervente, muito presente nos clássicos de guerra na floresta tropical, como Platoon e, mais uma vez, Apocalypse Now. Sem se esquecer claro, da linda lua e do céu escuro da noite. Descobri que o Larry Fong (diretor de fotografia de Watchmen) era o responsável. Está explicado. Referindo também a banda sonora deliciosa composta por rock dos Anos 70! Magistral!

MV5BNjQ3NTgwOTk2NF5BMl5BanBnXkFtZTgwODkxMDc2MTI@._

     A fotografia ajuda muito bem nas cenas de ação, mas tais cenas quase que mereciam um texto inteiro só paras elas. Eu não faço ideia como é que o realizador conseguir imprimir tanta beleza em cenas tão violentas e brutais. As cenas de ação são absolutamente monumentais, o que falta de substância aqui, sobra em estilo, não é todo o filme que consegue quase se redimir nesse aspeto. A destruição, a violência, o espetáculo visual e os confrontos de humanos contra monstros e monstros contra monstros são de deixar cair o queixo. Tudo funciona: as cenas em slow motion, a interação entre os personagens e os monstros criados em CGI.

     Logo a primeira aparição do King Kong é absurda. É um ótimo trabalho de câmara, os takes são longos e a edição é frenética, sem nunca deixar a cena confusa. Porém, algo me incomodou. A cena começa com um céu típico de uma tarde normal. Durante a batalha entre os helicópteros e o Kong, aparece um lindo pôr-do-sol. Depois já é de dia outra vez. É um erro de continuidade muito grave. Outro grande erro foi o número de sobreviventes desse mesmo confronto. Muitos personagens sofrem quedas absurdas dos helicópteros e, ainda assim, sobrevivem. Há certas equipas que apenas se salvariam com um milagre. E isso leva-nos ao elenco.

10KONGSKULLISLAND1-master768.jpg

     O principal problema aqui não é maus desenvolvimentos, mas sim o excesso de bons atores (desperdiçados) e um número exagerado de personagens. O realizador não conseguiu equilibrar todos arcos. O ator que mais facilmente se destaca é o Samuel L. Jackson. O filme faz um comentário breve, mas eficiente, sobre a guerra. A natureza da guerra está entranhada na personalidade desse coronel e vemos um homem quase sensibilizado pela destruição que não se imagina fora de um ambiente de guerra. É um ator fantástico!

990d9ff0-f3a1-11e6-9ae8-e9b40df6bd8d_0a1bf410-f331

     A Brie Larson e o Tom Hiddelston são uma dupla de ação carismática e funcional, mas o desenvolvimento dos personagens é mau. A Brie Larson é uma excelente atriz, mas não convence como uma fotógrafa de todo, andar com uma câmara a tirar fotos a tudo não é ser fotógrafa. Já o Tom Hiddelston é corajoso e … mais nada, não sabemos grande coisa sobre ele. Trata-se só do típico herói durão de Hollywood.

14891419679793.jpg

     O John C. Reilly, para além de ser um alívio cómico muito engraçado, é ainda o personagem mais interessante do filme. É um personagem carregado de carisma, presença e deixa o público à espera do seu próximo passo.

MV5BMTcxODcwNzg3MF5BMl5BanBnXkFtZTgwMzAyMDc2MTI@._

     De resto temos uma turma enorme de bons atores completamente subutilizados: John Goodman, Corey Hawkins, Jason Mitchell, Shea Whigham, Thomas Mann e outros mais.

MV5BMjE4NTkxNzg2MV5BMl5BanBnXkFtZTgwNzgxMDc2MTI@._

     Todo o CGI do filme é excelente. Obviamente, nós sabemos que os monstros se tratam de efeitos visuais, acho que, nos dias hoje, esta tecnologia não pode evoluir mais. Apenas fiquei na dúvida se o King Kong era uma performance de motion capture ou se era “só” CGI. Depois descobri que o Toby Kebbell e o Terry Notary foram os responsáveis pela criação do Kong. Está explicado. Aliás o Kong tem mais personalidade desta vez e é retratado como um ser mais protetor, preocupado pelos mais fracos e até um Rei solitário. E graças ao motion capture, os seus olhos são muitos expressivos e bonitos!

kong-skull-island-4.jpg

     Kong: Skull Island não é tão mau como têm andado a dizer. As personagens humanas esquecíveis e genéricas não permitiram ao filme ser melhor do que Godzilla. Ainda assim, é muito fácil gostar deste filme. A introdução ao King Kong é satisfatória e o grande ponto atrativo é o conjunto das sensacionais cenas de ação, que redimem tudo o que o filme faz de mal. Por isso, preparem pipocas e divirtam-se!

 

Nota: B-

13
Jul17

Prevenge (2017) - Crítica


Francisco Quintas

     Esta semana vi os filmes Wilson e The Space Between Us. Estava indeciso sobre qual crítica faria. Decidi então ver mais um que me foi recomendado para desempatar. Parece que vou deixar os filmes maus de lado e falar de um bom.

    Uma viúva grávida de 7 meses chamada Ruth começa a desenvolver uma forma de comunicação psíquica com o seu bebé e inicia uma série de homicídios a sangue frio.

maxresdefault (2).jpg

     O filme é escrito, realizado e protagonizado pela atriz Alice Lowe e eu desconhecia-a completamente. Ela é atriz de televisão e já participou em várias curtas. Este é o seu directorial debut. O que ela retrata aqui é o estado mais absurdo, violento e extremo da mentalidade de uma futura mãe. Claro que não posso falar por experiência própria, sendo homem, engravidar não está nos meus planos, mas eu diverti-me com o filme. O filme é definitivamente um slasher, ou seja, não se deve levar tanto a sério, por isso quem não gostar de clássicos (dos Anos 70 e 80) como Halloween, Nightmare on Elm Street ou Friday the 13th, provavelmente não vai gostar de Prevenge. Este filme pode nem ser tão violento como eu esperava, mas eu digo “provavelmente” porque, se estiver alguma futura mãe a ler isto, se calhar vai ficar interessada, afinal as mulheres (críticas) devem ter adorado este filme muito mais que os homens. Como era de esperar, a personagem Ruth tem emoções e passa por situações pelas quais nenhum homem passou ou passará. Por isso, futuras mães, divirtam-se e riam-se. Não é um trabalho suficiente para eu ficar de olho na Alice Lowe, pois houve algumas coisas que podiam ter sido alteradas.

     A fotografia e a banda sonora são espetaculares. Ambos transmitem muito bem o conceito “absurdo” do filme. Durante a primeira metade, a cor é bem insípida e sem vida, mas assim que o filme se torna gradualmente mais interessante, as cores tornam-se vibrantes e bastante vivas, é um espetáculo de cor. Já a banda sonora é composta por temas psicadélicos e irritantes, que se tornaram muito adequados para a conexão psíquica entre a mãe e a filha.

prevengesubway.jpg

     E o mais engraçado é essa mesma relação. O filme pode ser considerado uma comédia, afinal, um slasher não precisa de ser levado muito a sério e todo o conceito do filme é absurdo, como já disse. Há momentos engraçados? Há, alguns. Se estivermos atentos saberemos quando nos devemos rir. Mesmo assim, acho que o filme precisava de um pouco mais leveza. O humor é “saboroso”, é sarcástico, negro e situacional. Mas não é um humor para “chorar a rir”, o que não é necessariamente mau. Apenas, por vezes, senti que o filme estava a ser seco demais. Com mais algumas lines cómicas, tudo podia ser melhorado.

     A Alice Lowe é uma excelente protagonista! Ela convence muito bem como uma mulher perigosamente assustada e confusa, que não sabe lidar com a situação em que se encontra, ao mesmo tempo que se “beneficia” e desfruta dos atos horrendos e das coisas bizarras que diz. É feito um ótimo estudo de personagem, e tal como a boa realizadora/atriz que é, a Alice Lowe constrói muito bem a evolução emocional da sua personagem.

wQB7jz9e8tiKhhU1fCWm2TpnHR1.jpg

     O elenco restante é só funcional. Devido ao facto de as câmaras estarem constantemente apontadas para a Alice Lowe, não houve grandes oportunidades para algum ator secundário “brilhar”, todos eles cumprem o seu papel. Aquela que mais facilmente tem um arco próprio é a Jo Hartley, que interpreta a médica da Ruth. Ela é basicamente o grilo do ombro da Ruth, é a sua voz da razão.

prevenge_johartley.png

     Os assassinatos são ótimos! Os primeiros podem até chocar quem for mais sensível a imagens como estas, mas assim que compramos este “universo”, todos eles começam a ser divertidos para nós. A violência no cinema é um gosto adquirido. Alguns dos homicídios chegaram até a lembrar algumas coisas que o Tarantino fez. Por isso, se gostarem de filmes sangrentos e bem explícitos, divirtam-se!

MV5BMTU0MTk1NjQ5N15BMl5BanBnXkFtZTgwMzc5NzAxMTI@._

     O que me incomodou acerca dos homicídios é que nunca há a mínima participação da polícia. Eu sei que a polícia é sempre inútil na maioria dos slashers, mas este aqui passa-se num mundo um pouco mais credível do que o universo de um Michael Myers ou de um Freddy Krueger. E mais, quando uma mulher mata uma série de pessoas num curtíssimo espaço de tempo, todos envolvidos no mesmo “caso”, era de suspeitar que existia uma serial killer na Inglaterra.

     O filme é bem curto, apenas tem 1 hora e 28 minutos. A estrutura é de 3 atos, é uma construção bem organizada e simples. Como já disse, o filme vai sendo progressivamente mais interessante, tanto devido à sua violência e sangue, como devido ao seu conceito, ao seu debate e à sua “proposta”. Dito isto, acho que o ato final foi um pouco dececionante. O final não foi de maneira nenhuma ambíguo, mas sobrou um moralismo (nem sei se se pode chamar isso) que estorvou todo o divertimento que me estava a ser dado, comprometeu um bocado o final.

MV5BN2EzNTdlOGEtNWViZC00MmE5LWFiNzgtOTIzODNlMjBjM2

     Mesmo assim, Prevenge é um slasher incomum, um ótimo estudo de personagem e, mesmo com a necessidade de alguns ajustes, não deixou de ser surpreendentemente sarcástico, negro, colorido, filosófico e divertido.

 

Nota: B+

13
Jul17

War for the Planet of the Apes (Planeta dos Macacos: A Guerra, 2017) - Crítica


Francisco Quintas

     Nos dias de hoje, é muito difícil um remake/reboot ser bom. Mais difícil ainda é uma franchise inteira de reboots ser boa. Mais difícil ainda é os filmes de uma franchise de reboots serem progressivamente melhores que o seu antecessor. Ainda há fé no cinema contemporâneo!

   Depois dos acontecimentos significativos do filme anterior, Caesar tenta preservar a paz do povo dos macacos, ainda a habitar escondidos na floresta. Assim que um Coronel sádico aparece para destabilizar tudo aquilo pelo qual o Caesar lutou, este decide iniciar uma jornada para terminar o próximo confronto.

warfortheplanet-banner-700x292.jpg

    Mais uma vez, o filme é realizado pelo Matt Reeves. Agora ele é também co-guionista, o que permitiu que ele tivesse mais um pouco de controlo sobre o material do filme, o que foi uma decisão certa, para além de ser merecedora do talento dele. Ele volta a mostrar que é bom … muito bom! Ele não foge muito do tom do filme anterior. É um filme pesado, envolvente, emocionante, mas também frenético e ágil. Por outro lado, o realizador admite que a “guerra” não está só título. É um blockbuster com uma narrativa de guerra! E que guerra! Se já o Dawn of the Planet of the Apes, de 2014, era significativo e simbolicamente poderoso, então este nem merece palavras para o descrever. Mais do que originar um debate moral na cabeça do espectador, este filme emociona, ele comove e consome o público, quase que o leva para dentro das experiências dos próprios personagens. Mais uma vez, o filme começa com os macacos, o Matt Reeves mostra a “resistência” e a bela comunidade deles, assim como os laços da família do Caesar. Podemos novamente ver o Blue Eyes, a Cornelia e o filho mais novo dele, o Cornelius. Porém, o filme é um pouco mais fúnebre que o anterior, o que não foi definitivamente um problema, mas falaremos disso mais adiante.

    Como já disse, este filme é um blockbuster com uma narrativa de guerra. Para além da discussão moral estar aberta ao público, sem obrigá-lo a aceitar determinada opinião, o filme ainda “denuncia” isso muito bem. O spin-off é uma arte. Há realizadores que sabem fazer spin-off, há outros que simplesmente não. É uma discussão para outro dia. O que fica claro é que o Matt Reeves sabe o que faz. Por exemplo, a introdução do Caesar fica muito clara, o plano utilizado é exatamente o mesmo do filme Paths of Glory, do Kubrick. Aquele tracking shot pela trincheira em que os soldados se afastam para deixar o comandante passar demonstra respeito, admiração e é uma ótima caracterização do Caesar. Desta maneira, o realizador brinda e prepara o público para o filme. Há outros momentos de “homenagem”, mas decidi falar só deste. Descubram vocês os restantes, divirtam-se.

War-for-the-Planet-of-the-Apes-Caesar-holding-a-gu

    As sequências de ação são muito bem editadas, precisas, nada confusas e absolutamente brutais. Tanto “brutal” no sentido de espetáculo visual e de emoção durante as batalhas e os mais pequenos confrontos, como “brutal” no que diz respeito à carnificina e violência do filme. O filme até pode nem ser rated R, mas é sangrento e, por vezes, duro de assistir. E eu assisti em 3D (uma coisa que não fazia há anos), e maior parte do filme, a partir das sequências na neve, merece ser visto em 3D, vale a pena. Aliás, a fotografia deste filme é absolutamente linda, tanto nas cenas na floresta tropical, como na neve, é um elemento que contribui para a ação e especialmente para o frio. Estava muito calor na sala de cinema, mas ao assistir àquela fantástica neve, o clima até parece que ficou amenizado. E a banda sonora, porém mais minimalista, contribui para a grandiosidade que as cenas de ação tanto mereciam, assim como outras cenas de diálogos mais sérios e provocadores.

gallery3-gallery-image.jpg

    Quanto ao elenco … uau! O Andy Serkis merece finalmente uma nomeação ao Óscar, será uma falta de reconhecimento de talento se isso não acontecer. O personagem Caesar continua a ser aquela figura grandiosa, acolhedora, inteligente, piedosa, porém corajosa e orgulhosa. Ele está ligeiramente mais sombrio desta vez devido à sua revolta interior e ao seu enorme desejo de vingança, mas permanecerá como um dos meus personagens “novos” favoritos do cinema. Por favor, nomeiem este homem!

thumbnail_25249.jpg

    Eu já gostava muito do Woody Harrelson como ator dramático e cómico, mas ele surpreendeu-me muito! Que ator sensacional! Que performance espetacular. Por favor, nomeiem-no também! O Coronel é um autêntico bárbaro, é um dos personagens mais violentos que já vi, chegou-me até a lembrar o Amon Göth, do Schindler's List. E quando digo “violento” não digo “impiedoso”, não digo “brutalmente cruel”. A sua violência resume-se na sua indiferença e insensibilidade perante a vida, no seu desprezo não só pelos macacos, mas também pela raça humana. Eu esperava um antagonista igual ao Gary Oldman, do último filme, um vilão que queria destruir os macacos para satisfazer uma vontade pessoal e para “salvar a Humanidade”, dizia ele. O Coronel move-se devido a algo mais pequeno, mas certamente inesperado e sádico, é um personagem absolutamente temível e odiável.

Woody-Harrelson-in-War-for-the-Planet-of-the-Apes.

    A Karin Konoval continua excelente a interpretar o Maurice. O personagem é novamente o coração do filme, é o macaco mais emotivo e mais pacífico, assim como o mais compreensivo. É um personagem muito amigável e relacionável.

set5_karin konoval as maurice_after photo_WAR FOR

    Eu gostei muito do Steve Zahn. O personagem dele é muito engraçado e era minimamente necessário, um filme tão triste, revoltante e pesado como este precisava de momentos de leveza e do humor mais simples. E ele tem aqueles olhos adoráveis, mesmo sendo um personagem que passou por muitos males.

badape.jpg

   Outra grande surpresa foi a Amiah Miller. Ela está fantástica aqui, ela é muito expressiva e emocionalmente reservada, é uma performance que passa muito sentimento, sem deixar isso óbvio ou afetado. Ela é principalmente o elemento mais puro da Humanidade, é basicamente uma personificação da inocência. Não deve ter sido nada fácil para a atriz, especialmente por ser muito nova e por este ser o seu primeiro grande blockbuster. No seu currículo apenas está o filme Lights Out, de 2016.

MV5BOTA5MjJiZDUtZGI5MC00YWU2LTg3MTEtNDQxMTE3ZmQ3Mz

    Mais uma vez, o comentário sobre a Humanidade é fortíssimo e simbólico, desta maneira, o filme pôde comentar sobre temas como aprisionamento, sacrifício, trabalho forçado, escravidão e traição. O filme quer que o público acompanhe os macacos e não os humanos, até porque, desta vez, fora a Amiah Miller, não há humanos bons. O Matt Reeves não quer que o público fique dividido, até porque seria estranho se ficasse, visto que ele caracteriza o ser humano como uma máquina manipuladora e facilmente manipulável, um comentário que um drama de guerra certamente faria. Oh Yeah!

film-warplanetoftheapes-1.jpg

    War for the Planet of the Apes é o melhor filme desta franchise de reboots. As 2 horas e 20 passaram a correr! É um filme filosófico, violento, emocionante, importante e, quem diria … irretocável!

 

Nota: A+

11
Jul17

Dawn of the Planet of the Apes (Planeta dos Macacos: A Revolta, 2014) - Crítica


Francisco Quintas

     O ano de 2014 foi um dos melhores anos para o cinema recente. Esse ano deu-nos obras primas espetaculares que, futuramente, tornar-se-ão clássicos magníficos. Birdman, Whiplash e Enemy são alguns deles … Dawn of the Planet of the Apes também pertence a esse grupo!

     10 anos passaram desde os acontecimentos do filme passado. Agora, Caesar constituiu uma família e mantém o seu esforço para defender o seu povo dos humanos e evitar uma possível guerra.

movie_dawn-of-the-planet-of-the-apes-2014.jpg

    A realização desta vez foi do Matt Reeves, que fez anteriormente o excelente Cloverfield, de 2008. Ele é um realizador ainda em ascensão, mas cedo demonstrou ser ótimo a criar histórias originais de sci-fi. Aqui ele sentou-se na cadeira de realizador, mas contou com a produção e com o guião do Rick Jaffa e da Amanda Silver, um casal que já tinha trabalhado nas mesmas funções em Rise of the Planet of the Apes. Por isso, este filme tinha de funcionar. Algo que o Matt Reeves fez muito bem, e melhor do que o Rupert Wyatt, foi usar planos sequências e adaptá-los a montes de perspetivas. Ele usou muitos trackings shots e algum movimento horizontal e mostrou-se igualmente bom a dirigir o elenco em diálogos extremamente profundos e a fazer cenas de ação bem tensas e melhores do que a sequência da ponte de São Francisco no filme anterior.

   Mas agora confirmo, este filme foi definitivamente melhor que o seu antecessor …, mas de longe. Mesmo que gostem do primeiro um pouco mais, há que admitir que o segundo filme vai mais além e permite simultaneamente desenvolver personagens, novos ou antigos, enquanto nunca se esquece do drama do passado. Depois do forte comentário sobre humanidade, evolução cientifica e revolução que moldou o primeiro filme, Dawn of the Planet of the Apes decidiu ir noutro caminho. Desta vez o filme começa ironicamente. O público observa a comunidade dos macacos que vivem harmoniosamente entre si e reconhece uma maior humanidade neles do que nos humanos. E ainda assim, eles vivem como primatas: sem luz, sem gás, etc. Desta vez, os humanos são os “animais”. Enquanto os macacos desenvolveram emoções básicas, os humanos estão vulneráveis e nem sequer sem eletricidade se sabem defender. Parece que a tecnologia criada para cooperar com o modo de vida do ser humano apenas o deixa mais fraco e desesperado. Foi a excessiva ambição humana do filme anterior que levou o ser humano a cavar a sua própria sepultura. Da mesma maneira, o filme analisa o facto de que, qualquer sociedade subdesenvolvida tecnologicamente, tornar-se-á mais cruel, sádica e corrupta perante o progresso tecnológico, sendo o personagem Koba um exemplo disso. Assim que este tem acesso a armas de fogo, abandona os valores morais que representavam a sua comunidade pura e estável. Mas falarei daqui a pouco sobre os personagens.

1404958088000-xxx-dawn-planet-apes-mov-jy-630-6539

     A fotografia lembra o mais sombrio filme de guerra, seria algo como pegar no Platoon, de 1986, só que 10 vezes mais sombrio e tenso. Sim, este filme consegue ser tão ou mais tenso que um filme de guerra. E essa atmosfera é complementada pela ótima banda sonora, que recria muito bem os temas do filme anterior, sem nunca parecer imitação. O mesmo se pode dizer da caracterização dos macacos. Os padrões nas caras dele são a mais simples representação de uma guerra prestes a acontecer.

dawn-planet-apes5.jpg

     Falando finalmente do elenco. O Andy Serkis está novamente sensacional! É uma grande pena que o ator nunca tenha recebido o número de nomeações merecidas. É uma performance merecedora de Óscar e isto não é exagero. Como já disse na crítica anterior, motion capture acting não é fácil e não são todos os atores que conseguem praticá-lo. Mais uma vez, ele carrega o filme às costas, até mesmo quando não precisa, visto que este filme anda pelas próprias pernas. Mas o ator está mais uma vez empenhadíssimo e não era possível estar mais dedicado ao personagem.

planet-apes.jpg

     Eu já tinha gostado do Koba no filme anterior, mas foi definitivamente o trabalho de motion capture do Toby Kebbell que fez a sua performance. Ele está espetacular aqui, parece que o ator teve bastante cedo um enorme talento para este tipo de performance, especialmente para interpretar personagens maus. Ele é o pior elemento ganancioso e corrupto de uma sociedade e representa tudo aquilo que há de mau no mundo: uma mente perversa, manipuladora e má, muito má.

koba-dawn-planet-apes.jpg

      A Karin Konoval continua ótima como o Maurice. Não é o macaco mais importante da história, mas é sem dúvida um dos mais interessantes e amigáveis. No meio de tanta coisa que acontece ao mesmo tempo, ela é uma presença muito calorosa, acolhedora, pacífica e compreensiva. É um dos macacos mais convidativos de todo o filme. E o mais espantoso é que ela é uma mulher a interpretar um macaco macho! Não vemos isto todos os dias.

Maurice.jpg

     De resto, também macacos, há boas performances de Terry Notary, Judy Greer, Nick Thurston (que interpreta o filho do Caesar, o Blue Eyes) e Doc Shaw, todos a interpretar bons macacos.

769341148_3631663907001_Dawn-a.jpg

     Um receio que tinha a primeira vez que vi este filme (acho que em 2015), era os humanos serem personagens fracas. Bem, o Jason Clarke está ótimo. Não era uma performance que eu esperava dele. Ele é muito meigo e calmo, representa perfeitamente o homem bom que quer evitar uma guerra ao mesmo tempo que morre de medo dos macacos. Ele é uma excelente personificação da esperança da humanidade, aquele pouco de brilho que nos guia para o caminho mais correto, porém, igualmente duvidoso.

Jason-Clarke.jpg

     A Keri Russel pode não estar tão bem como o Jason Clarke, mas dá uma performance muito boa e convence como alguém que passou por um processo de luto, isso está bem explícito nos olhos dela.

dawn_of_the_planet_of_the_apes_16.jpg

     Infelizmente, não se pode dizer o mesmo do Kodi Smit-McPhee. Este rapaz deu uma performance sensacional em The Road, de 2009! Como é que é possível que o Matt Reeves o tenha desperdiçado desta maneira? Ele não está mau, mas também não está bem, nota-se uma indiferença pelo filme, pelo menos foi assim que eu vi a interpretação dele. Ele raramente muda de expressão e não é um personagem indispensável. Eu odeio ver talento desperdiçado.

kodi-smit-mcphee-dawn-of-the-planet-of-the-apes.jp

     Já o Gary Oldman é um excelente segundo antagonista. É facilmente um dos melhores atores de sempre! Ele nem é uma má pessoa. De certa forma, podemos afirmar o contrário, mas ele acreditava mesmo que estava a salvar a Humanidade, por isso não há como não sentirmos pena dele, principalmente quando a sua família também foi vítima da Gripe Símia. É muito difícil ficar contra ele, apesar de rapidamente nos apercebemos acerca da sua ignorância e da sua insensibilidade para com os outros, principalmente quando se metem no seu caminho.

Gary-Oldman.jpg

     Algumas pessoas podem se aborrecer por os macacos não falarem tanto como no original Planet of the Apes, de 1968, ou até mesmo por não haver tanta ação assim. Há, na verdade, muita ação e, a que há, é muito boa. Mas o filme é bom devido aos diálogos, devido à sua força de criar um debate moral na cabeça do público. Os diálogos são ótimos, mesmo quando falados em língua gestual entre os macacos, o que foi bastante frequente no primeiro ato, quando praticamente não há diálogos nenhuns. Volto a dizer, ainda há realizadores que entendem o que é cinema. “Show, don’t tell!” é cinema!

dawn-of-the-planet-of-the-apes-caesar-hold.jpg

     Dawn of the Planet of the Apes é uma excelente sequela, não haja dúvida. Tem um ótimo desenvolvimento do conflito, dos personagens, assim como uma boa introdução ao tema do futuro terceiro filme, sem deixar a mesma introdução forçada ou apressada. O Matt Reeves devia mostrar ao Michael Bay como se faz um blockbuster a sério. Por favor, que o terceiro filme seja bom!

 

Nota: A

10
Jul17

Rise of the Planet of the Apes (Planeta dos Macacos: A Origem, 2011) - Crítica


Francisco Quintas

     War for the Planet of the Apes está a chegar. Em outubro de 2016, o Andy Serkis confirmou que um quarto filme está a ser preparado. Por isso, mesmo que já não se possa chamar trilogia a esta franchise, esta é sem dúvida uma das melhores séries reboot de sempre. Quem diria que uma franchise de remakes/reboots podia ser tão boa?

     Uma substância destinada para curar o Alzheimer permite a um macaco evoluir intelectualmente num nível absurdo. Desta maneira, perante a violência e a injustiça contra os da sua espécie, o macaco decide liderar uma inevitável revolta.

2011_rise_of_the_planet_of_the_apes-wide.jpg

     O filme foi realizado pelo Rupert Wyatt. Este foi apenas o terceiro filme que ele realizou, mas, desde 2011, ainda não conseguiu ter um sucesso igualmente bom, o que é uma pena, visto que ele é um realizador com muito potencial. Em 2011, ele introduziu aquele que seria o impulsionador de uma das melhores franchises da década. O material é um repensamento do filme Planet of the Apes, de 1968 (que, na sua vez, fazia um forte comentário sobre a Guerra Fria) porém, como já disse neste blog, um dos objetivos dos remakes/reboots deve ser, na minha opinião, sempre expandir horizontes, desenvolver novos personagens e, se possível, desenvolver cometários relevantes.

     Trata-se de mais um filme sobre humanidade e a sua tentativa falhada dos humanos de controlar a natureza, sabendo que esta é mais forte do que eles. Os macacos lutam contra o controlo a violência excessiva praticada pelos humanos contra eles e originam uma das maiores revoltas fictícias do cinema.

A_free_Caesar.jpg

     Vamos começar por falar dos efeitos visuais. Uau! Eu sei que a trilogia The Lord of the Rings foi também um impulsionador do motion capture acting com o personagem Gollum (também interpretado pelo Andy Serkis) nos Anos 2000 (depois da evolução dos efeitos visuais nos Anos 90), mas provavelmente a década de 2010 permitiu a esta tecnologia explodir realmente e demonstrar a sua verdadeira importância e capacidade. Filmes como Warcraft e até mesmo Beauty and the Beast (ler crítica) são exemplos disso. É realmente um método extraordinário. Em 2011, o Andy Serkis disse, e passo a citar: “(…) it's really another way of capturing an actor's performance. That's all it is, digital make-up.”.

APES_WETA_VFX_02A.jpg

     A fotografia do filme casa perfeitamente com a banda sonora e com os outros aspetos técnicos. Ambos esses dois elementos criam um ambiente de revolta e de uma possível guerra prestes a emergir num ambiente considerado pacífico e livre de problema. Os temas musicais dos macacos parecem marchas de guerra. O filme passa-se nos dias de hoje, por isso não era preciso um valor de produção tão grande.

     O elenco é totalmente elevado pelo Andy Serkis, sem ele o filme não seria tão bom, sem qualquer dúvida. Este papel era dele! Independentemente do ator que esteja junto dele, a presença é o fator essencial para que o filme fosse convincente. Usar motion capture e ser expressivo é uma tarefa extremamente difícil, por isso é que nem todos os atores aderem a este método. O Andy Serkis faz isso parecer fácil. Algo que prende a sua interpretação ao público é a sua capacidade de transmitir humanidade num personagem "animal" extremamente inspirador. Ele passa instantaneamente de um ser inocente e medroso para um líder grandioso, importante e, por vezes, necessariamente cruel. E o mais importante é que ele não é posto no lugar do antagonista, o bom da fita aqui é ele e todas as mudanças pelas quais passa, os atos que comete, moldam-no na figura icónica que ele se tornaria no futuro.

rise-of-the-planet-of-the-apes-movie-image-031.jpg

     O James Franco não é o ator mais apelativo neste filme, mas ele convence como um cientista e parece mesmo preocupado com o seu macaco, como se este fosse um membro de família. Não é um dos melhores papéis do ator, mas ele não faz nada de mal. Ele é carismático, o público defende-o e quer vê-lo a ter sucesso, principalmente quando este quer cuidar do Alzheimer do pai.

james_franco_-_rise_of_the_planet_of_the_apes___-.

     O John Lithgow está fantástico como um doente de Alzheimer. O mínimo gesto ou diálogo dele são interpretados de maneira brilhante e, para além disso, ele dá pena, muita tristeza é transmitida quando este está nas suas maiores crises. O que foi muito triste foi definitivamente despedirmo-nos dele.

rise-of-the-planet-of-the-apes-james-franco-and-jo

    O David Oyelowo, já bastante cedo, começou a mostrar as suas capacidades de ator. Mesmo que esta performance já tenha sido feita mais do que uma vez, ele cria um homem ganancioso e odiável que prefere fazer os seus empregados correr riscos do que perder dinheiro. É um personagem previsível, mas não é mal feito.

Rise_of_the_Planet_of_the_Apes-09.jpg

     Gostei também do Tom Felton. Alguns podem-se queixar de a sua performance ser um pouco over the top, mas eu acho que o filme precisava de um personagem assim. Era importante que a ignorância e a violência do humano fossem suficientemente cruéis para que os macacos começassem uma revolta. E quando o Caesar se levanta e grita “Não!” à frente dele … uau! A primeira vez que vi o filme, não fiquei surpreendido porque sabia que o macaco era extremamente inteligente, em vez disso, fiquei muito satisfeito, demonstrou que o Caesar finalmente se impôs e que se recusou a ser uma vítima. É um dos melhores momentos da franchise inteira.

rise-of-the-planet-of-the-apes-tom-felton.jpg

     Ainda assim houve personagens que eu não gostei. A Caroline, a namorada do James Franco, interpretada pela Freida Pinto, não me disse nada. Ela vê o Caesar a crescer durante cinco anos, os mesmos cinco anos de namoro com o Will e só se questiona sobre a sua origem quando o macaco também se questiona. Em cinco anos ela nunca teve interesse em perguntar nada ao Will? Só agora? Para além disso, ela é inútil. Ela foi veterinária do Caesar, porque é que não fez parte das experiências e dos testes do Will? Era uma boa maneira de evoluir a personagem, ela anda atrás do namorado constantemente e é completamente dispensável.

james-franco-freida-pinto-new-rise-of-the-planet-o

     Assim como o vizinho do Will. As duas primeiras aparições dele são boas e importantes. À terceira vez, quando este encontra o Franklin contaminado, a sua presença era dispensável, bastava aparecer o Franklin à procura do Will a espirrar sangue. A sua cena a meio dos créditos pode não ser totalmente dispensável, mas é desinteressante.

rise-of-the-planet-of-the-apes-caesar.jpg

     Rise of the Planet of the Apes mostra exatamente como se deve fazer um blockbuster. É um filme para todos os gostos: para quem gosta de ficção cientifica, de ação, de um “simples” blockbuster, ou para aqueles (como eu) que gosta de ser desafiado e refletir sobre o significado de um filme. Nem acredito que este já foi feito há 6 anos.

 

Nota: B+

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D