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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

18
Jul17

13 Reasons Why (Por Treze Razões, 2017) - Crítica S1


Francisco Quintas

     Quero começar a fazer críticas de algumas aqui no blog, nomeadamente de Dear White People, Taboo, Stranger Things, The Crown e Narcos. Vamos ver no que vai dar. Desculpem por esta crítica ser tão longa, eu tinha muita coisa apontada.

     Baseado no livro homónimo de Jay Asher, publicado em 2007, a série segue o jovem Clay Jensen, na sua tentativa de desmistificar a origem do suicídio da sua amiga Hannah Baker a partir de cassetes que esta anteriormente gravou.

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     Bem … por onde começar? A série foi um sucesso no mundo inteiro, mas será que “sucesso” é sinónimo de “qualidade”? Como acontece com quase todo o conteúdo audiovisual, as críticas são subjetivas. Vai sempre haver quem adorará e quem não gostará. Agora, podemos nem sempre levar os filmes e séries a sério, mas haja bom senso. É preciso que as pessoas pensem. Tenho de tirar uma coisa do caminho, a história é ridícula, ilógica e absurda em vários sentidos. Não sou a primeira pessoa a dizê-lo e não serei a última. Há o mínimo valor de entretenimento nos episódios, pelo menos o suficiente para ela não ser uma tortura absoluta, quer seja graças aos bons personagens e aos seus respetivos arcos. Se assumirmos que a história não vale o nosso tempo, vamos apanhar uma grande seca. Mas uma coisa é verdade, alguém com pensamentos genuinamente suicidas jamais teria a cabeça no lugar para montar um plano daqueles.

     Nunca uma pessoa com depressão se daria ao (enorme) trabalho de gravar um monte de cassetes, marcá-las com papéis coloridos e enumerá-las, de marcar pontos num mapa gigantesco e garantir que todas pessoas destinadas ouviriam as cassetes. É verdade, são alguns os casos em que alguém se suicidou e deixou um bilhete ou mesmo uma gravação. É possível, mas esta série é um exagero e ainda tem o descaramento de se levar a sério, demais até. Uma pessoa que chegue à conclusão de que não aguenta viver nem mais um dia não se comportaria desta maneira. Porém, há algo que a série faz bem, a intenção da história não é má de todo. O principal problema é o facto de os criadores terem querido arrastar o material fonte para 13 episódios. “13 Reasons” e “13 episódios”, porque não? Foi uma decisão parva, a série foi exageradamente longa.

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     O ritmo da série é lento demais, há inúmeras cenas vazias e expositivas que não precisam de estar incluídas. Chega a parecer uma novela. São 13 episódios de 50 a 60 minutos e podiam perfeitamente ser 6 ou 7, no máximo, com apenas 45 minutos cada. Cada episódio é dedicado exclusivamente a uma “razão” e a justificação dada é ridícula.

     E (tal como nas novelas portuguesas), os criadores não confiam no público e parecem não entender o universo que relatam. Por exemplo, o personagem Clay anda a série toda com um penso na testa, usado numa ferida que levaria dias a sarar. Perto do fim, há outro personagem que leva uma tareia enorme e as suas feridas desaparecem mais rapidamente. O penso serve apenas para o público saber quando a história está no passado ou no presente. É um erro idiota. Aliás, o trabalho de maquilhagem é horrível. Tanto o suor, os cortes e os olhos negros são extremamente notáveis.

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   Tanto a presença da Hannah Baker e a fotografia evidenciam suficientemente quando a série visita os flashbacks. A fotografia aliás, bastante boa, oscila entre uma cor quente nos momentos do passado e um tom frio e triste nos do presente. É um dos pontos mais positivos da série. Destaque também para a banda sonora, há uma ótima seleção de músicas, assim como bons temas originais.

   Falando do elenco, a Katherine Langford é, sem duvida, o melhor elemento. A atriz constrói uma adolescente muito honesta: insegura, atrevida, sarcástica, precipitada, dramática demais, por vezes e, claro, juvenil. Observamos uma rapariga cuja boa-disposição está constantemente a ser atacada e engolida pela sua depressão.

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     Algumas pessoas criticaram bastante a série por não ser honesta em relação à depressão da sua protagonista e por ser uma espécie de propaganda do suicídio. Sim, houve críticos que afirmaram isso. Eu discordo totalmente. É compreensível que, um jovem que assista à série, se possa identificar com alguns acontecimentos. Eu próprio me identifiquei, mas o arco da protagonista nunca me deu a vontade de tomar a mesma atitude dela. Se há jovens com pensamentos suicidas, não é a série que lhes vai dar uma confirmação. A Baleia Azul é uma questão semelhante. Se houve jovens que se mataram, com ou sem jogo, eram pessoas com problemas na cabeça e que se matariam de qualquer maneira. Mas essa discussão é demasiado complexa para eu trazer aqui. No entanto, leva-nos ao próximo tópico: as “razões”.

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     As principais razões pelas quais ela se suicida são fortes. Mas entre as 13 razões, maior parte delas são mesquinhas e insignificantes. São coisas que facilmente um adolescente esquece com o tempo. Amizades que acabam, fotos que circulam pela escola, encontros que correm mal são coisas mesquinhas. Bullying, eu ainda percebo, é uma coisa que já levou à morte na “vida real”. Ainda assim, o bullying hoje em dia é desnecessariamente visto como um crime tão horrendo como o homicídio, mas isso é outra discussão.

     Voltando ao elenco, eu gostei muito do Dylan Minnette. Eu já tinha gostado dele em Don’t Breathe, de 2016, e fiquei bastante interessado. Ele é um ótimo ator e dentro daquilo que a série lhe dá, ele faz o melhor que consegue, na verdade ele tem uma grande capacidade de elevar o material que lhe dão. É um personagem que passa muito tempo calado e com os auscultadores nos ouvidos, por isso a performance tinha de ser boa, tinha de ser expressiva. Para além disso, a sua dinâmica com a Katherine Langford é excelente. Assim que os vemos, só queremos vê-lo juntos e é muito triste que isso já não seja possível.

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     Por outro lado, a série abusa de momentos de “sonho” do Clay. São sequências em que este pensa estar a ouvir ou ver determinada situação e afinal é tudo fruto da sua cabeça. Se esse recurso fosse usado apenas quando necessário, resultaria. Agora quando todos os episódios vão por esse caminho, torna-se cansativo e repetitivo. Sobretudo quando ele percebe que estava a sonhar, as cenas tornam-se dramáticas demais e até risíveis (cringe). São momentos em que a série se leva a sério demais e acaba por perder a sua credibilidade, que já era pouca.

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     O Chris Navarro foi uma surpresa! À primeira vista, parece um ator no nível do elenco de High School Musical. Mas o personagem é muito carismático e, depois dos protagonistas, era o que me mais interessava.

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     Por enquanto, falando em High School Musical, o resto do elenco varia entre funcional e mau. Maior parte dos adolescentes são da escola dos filmes e séries da Disney. Alguns deles até têm bons momentos, mas no resto do tempo são desajudados por diálogos muito mal escritos.

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     Ainda assim, o elenco é salvo pelos pais da Hannah Baker. A Kate Walsh e o Brian d'Arcy James estão ótimos. Era muito importante que as suas interpretações não fossem superficiais, dessa maneira, a série seria ainda pior. Eles têm imensa química e convencem perfeitamente como um casal destroçado que acabou de sofrer uma perda inimaginável. Inclusive, essa tristeza passa para o público instantaneamente.

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     Destaque também para o Derek Luke, que interpreta o psicólogo da escola, eu gostei muito da sua interpretação e do próprio personagem, é uma pessoa muito generosa e simpática.

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     A série foi também controversa devido aos outros temas que aborda: álcool, droga, depressão na adolescência, amadurecimento, arrependimento, angústia, sexualidade, a difícil comunicação entre pais e filhos e a hipocrisia que surge depois da morte de alguém. Para mim, todos estes assuntos tiveram tratamentos dignos e minimamente eficientes, mesmo que nem todas as sub-tramas sejam igualmente interessantes ou bem executadas.

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     13 Reasons Why não é horrível, a série é intrigante e até constrói um bom mistério com base nos bons personagens e nos melhores arcos. Porém, pegar numa história curta e arrastá-la numa série de 13 episódios, cada um com momentos vazios e que apenas dizem mais do mesmo não permitiu que o seu visionamento fosse tão agradável como era suposto. Alguns episódios foram uma tortura e foi cansativo chegar até ao fim, felizmente o fim podia ser bem pior. Agora é esperar para ver o que é que eles vão fazer na segunda temporada, que provavelmente será horrível. O que é que podem fazer mais? Ressuscitar a Hannah Baker?

 

Nota: D

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