Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

40 Anos de Star Wars

     Hoje, 25 de maio de 2017, Star Wars faz 40 anos! O filme apenas chegou a Portugal dia 6 de dezembro do mesmo ano e ao Brasil no dia 30 de janeiro de 1978. É óbvio que falamos de um mercado muito menos evoluído, o mercado de cinema dos anos 70. Não havia antecipação como há hoje, mas, mesmo que houvesse, os filmes estreavam no seu país de origem e demoravam meses a chegar a Portugal. Claro que ninguém antecipava que Star Wars se tornaria num divisor de águas do cinema. Historiadores de cinema comentam desde sempre que existe cinema “antes” e “depois” de Star Wars.

star wars uk poster.jpg

     Muitos apreciadores de cinema ou simples espectadores casuais atualmente, gostando ou não da franchise, pode não saber, mas Star Wars foi o responsável por catapultar para sempre o género do Blockbusters. Tudo o que é filme da Marvel ou da DC Comics deve muito a Star Wars. Não necessariamente pelo tema, visto que todos os Blockbusters que aparecem hoje têm uma base óbvia. Todo o Universo Marvel tem todos os personagens que pode adaptar.

     Star Wars é diferente, a tão conhecida fórmula narrativa do protagonista improvável, porém corajoso que lentamente mudará a sua personalidade durante o processo de entrar numa missão de luta do Bem contra o Mal onde nunca se imaginava ganhou impacto aqui. George Lucas fez História!

la-et-hc-flashback-george-lucas-making-star-wa-001

     Esta estrutura está mais que usada nos dias de hoje. Há também que perceber a razão do impacto absurdo que o filme teve. O filme foi importante no que dizia respeito a apresentar uma nova forma de fazer cinema, em métodos revolucionários de construir espaço e personagens de maneira a envolver o público. Em 1975 a Guerra do Vietnam acabou e depois de quase 2 décadas de Hollywood a produzir filmes mais realistas, ambíguos e adaptáveis à realidade em que se vivia naquela altura do século, era altura de ver o cinema novamente, mas ao mesmo tempo, como uma forma de entretenimento. Os heróis bonzinhos voltaram a aparecer e novos surgiram, (Luke Skywalker, Rocky e Indiana Jones).

star-wars-r2-d2-and-c-3po.jpg

     Mas claro que Star Wars é muito mais que um filme de ação “pipoca” exclusivo para entreter o público. Os anos 70 retrataram tudo no cinema menos leveza. Filmes como The Godfather, Mean Streets, The Conversation, Taxi Driver, The Deer Hunter e Apocalypse Now eram o melhor retrato dos períodos de medo e paranoia vividos nas décadas anteriores. Devido a inúmeros factos como a guerra, assassinatos de figuras americanas e medo da tecnologia. Um pouco antes, em 1968, 2001: A Space Odyssey apavorou o mundo. Ao apresentar Hal 9000, Stanley Kubrick provou que, com o inevitável avanço da tecnologia, era possível que a raça humana fosse ameaçada de uma maneira que nunca pensou. Óbvio que 2001 é muito mais que isso, mas a essência foi contada e o objetivo claro de Kubrick em aterrorizar as pessoas para sempre foi cumprido.

gallery-darth-vader.jpg

     Star Wars, estranho ou não, (para mim, claríssimo como à agua) também aborda temas semelhantes, mas de uma maneira mais divertida e pacífica. A Força é algo que requere fé, é algo que, para aqueles que sabem lidar com ela, está presente em tudo e em todos. Os Rebeldes e o Império Galáctico são polos opostos, representativos do Bem e do Mal respetivamente. O Obi-Wan ensina o Luke a confiar na Força ao invés da tecnologia. No outro lado, está um exército comandado por alguém que é mais máquina que homem e que toda a fé é posta nos recursos tecnológicos, mais especificamente na Death Star. Este apego à tecnologia leva ao caos, à destruição e à guerra. Enquanto o Luke vive em harmonia com o ambiente natural, consegue encontrar paz e vitória mais facilmente. O Império representa uma das mais perigosas ideologias do Mundo, o fascismo.

Star-Wars-Luke-Skywalker-Tatooine.jpg

     Todos os generais do Império usam roupas representativas dos níveis de hierarquia. As cores utilizadas estão ali por propósitos óbvios – para diferenciar o Bem do Mal: nos confrontos de Sabres de Luz, estão sempre duas cores, o Darth Vader tem um fato completamente preto, o Luke e a Leia usam branco, o Han Solo usa os dois porque é um “malandro” e os Stormtroopers usam um fato branco, mas onde são bem visíveis espaços em preto, o que sugere os reais objetivos do Império debaixo de toda aquela propaganda sobre segurança e paz que oferecem. E claro, “Stormtroopers” era o nome que Hitler dava aos seus soldados e “Vater” quer dizer “Pai” em alemão. Coincidência? Provavelmente não …

stormtroopers-featured_dc01b2fe.jpeg

   Star Wars foi e ainda é um dos maiores movimentos comerciais de sempre e iniciou uma nova forma de monetização. O filme resultou em sequelas, prequelas, jogos, t-shirts, brinquedos, canecas e posters, coisa que até hoje se mantém.

     Contudo, como toda a gente sabe, o filme não é perfeito. Há algumas coisinhas quase insignificantes que, mesmo não comprometendo o filme inteiro, estão lá. A lentidão da luta do Obi-Wan com o Darth Vader teve sempre um propósito, mas não acho que precisasse de ser assim tão lenta. Para não falar de algumas pequenas frases soltas que podiam perfeitamente ser retiradas. Mas tudo bem, nada de muito grave. Por isso, a minha nota final seria provavelmente um A-.

     Star Wars é um marco do cinema americano, mudou para sempre o cinema em montes de aspetos e merece ser visto por toda a gente para sempre. A série vai continuar o que para alguns pode ser uma má notícia. Depois do Episódio 7, The Force Awakens, que apresentou personagens novos para uma nova geração, sem se esquecer dos clássicos, e de Rogue One, o Episódio 8, Star Wars Episode VIII: The Last Jedi, e o spin-off de Han Solo, ainda sem título, vão mesmo acontecer. Mas de qualquer maneira, bons ou maus, nunca mancharão a imagem que os fãs têm do original que é absolutamente perfeito e que, depois de décadas, não vai ser esquecido.

sw-the-last-jedi-tall-B.jpg

Top 10 Melhores Filmes de 2016

     Quase meio ano de atraso, mas tudo bem. Vamos listar os 10 melhores filmes que 2016 nos deu. O ano não foi dos melhores para determinadas grandes franchises americanas, mas foram os filmes mais inesperados (ou não) que salvaram o ano. A minha lista de filmes para ainda assistir de 2016 ainda é grande, mas vi aqueles que eu considero essenciais para se fazer uma lista. Até hoje foi um total de 78 filmes. Digam o que disserem, eu acho que este foi um dos melhores anos da década, que ainda não acabou, por isso, é so esperar por obras melhores. O Barry Jenkins aprova, portanto, vamos lá!

la-et-mn-moonlight-barry-jenkins-feature-20161006-

10º Lugar: Manchester by the Sea

     Eu adoro bons diálogos, bons personagens, e um bom conflito. Já que este ano não houve Tarantino para ninguém, tive de me contentar com este drama deliciosamente pesado, e ainda bem que assiti. Marcou definitivamente as carreiras do Casey Affleck, do Lucas Hedges e do Kenneth Lonergan. Não é para todos, mas devia ser. A enorme carga de infelicidade é contagiosa, mas se nos deixarmos levar, embarcamos numa das histórias mais comoventes do ano!

6000196785158.jpg

9º Lugar: Hacksaw Ridge (O Herói de Hacksaw Ridge)

     Mel Gibson está de volta! Já estava à espera de dizer isto há uma data de tempo. Não é só um dos filmes de guerra mais violentos e emocionantes em anos, mas sim um alívio para o género. O século 21 não deu grandes filmes de guerra que, daqui a uns anos, possam se juntar aos grandes. The Hurt Locker é overrated, não me serve. Com um lindo estudo de personagem e uma história envolvente, Mel Gibson e Andrew Garfield criaram uma das experiências mais inquietantes do ano!

8erujyyy.jpg

8º Lugar: Deadpool

     A Marvel não pára. Mesmo que alguns flops do género continuem a aparecer, Deadpool é sobretudo um alívio para o género, tanto para aqueles que já estão saturados, tanto para aqueles que querem um desenvolvimento de personagem revigorado e diversificado. O Ryan Reynolds e o Tim Miller permitiram isso. O protagonista tem um carisma inegável e uma violência de verdade para adultos que não se vê com frequência em filmes de super-heróis. Para uma boa noite de gargalhadas e entretenimento, merece ser visto!

7ajvdavw.jpg

7º Lugar: Swiss Army Man

     É verdade que muita gente saiu dos cinemas nos EUA, mas essa razão não é legítima para se dispensar esta maravilhosa obra. Swiss Army Man é comovente, engraçado, filosófico e muito original, um dos mais originais do ano, atenção. O Paul Dano continua a surpreender cada vez mais e a marcar o seu lugar como um dos atores mais underrated da sua geração, o Daniel Radcliffe foi uma surpresa ainda maior, dando uma das performances físicas mais impressionantes dos últimos anos e a melhor da sua carreira, depois de Harry Potter. Os realizadores Daniels conseguiram reservar um lugar especial no meu coração por fazerem um filme com que eu nunca imaginei que me iria identificar tanto!

swast_89_m2-0v4-0.jpg

6º Lugar: Silence (Silêncio)

     Martin Scorsese não desilude ... nunca! Apesar de ser disparada a sua obra mais pessoal e de estar longe de outras obras enormes como Raging Bull ou até mesmo The Wolf of Wall Street (outro que se tornará um clássico), é uma daquelas experiências que ficam connosco durante uma data de dias. Pode não ter sido apreciado por todos devido às suas 3 horas de duração, mas para mim, essa mesma duração provocou um sentimento semelhante ao dos personagens ... desespero. Andrew Garfield brilhou mais uma vez naquela que eu considero a sua melhor interpretação até hoje e numa direção de elenco do Scorsese, Liam Neeson, Adam Driver e Issey Ogata não ficam muito atrás. Saí do cinema com a cabeça a fervilhar completamente!

silence-2017-4.jpg

5º Lugar: Forushande (O Vendedor)

    Ainda bem que descobri o senhor Asghar Farhadi antes de fazer esta lista. Confesso que, se não fossem os Óscares, eu nem saberia da existência deste filme, mas a minha enorme curiosidade levou-me a assistir a um dos retratos mais honestos e genuínamente assustadores da natureza humana que vi no ano inteiro. O realizador mostrou com uma facilidade absurda uma capacidade espetacular de transformar um assunto aparentemente banal numa discussão de morais que fica presa na consciência de qualquer espectador. É triste, é tenso, mas acima de tudo, é importante!

THE-SALESMAN-FINAL-ART-_70X100-360x526.jpg

4º Lugar: Ah-ga-ssi (A Criada) (ler crítica)

     Estão fartos de cinema convencional e previsível? Cinema Sul-coreano é a solução. Os personagens são fantásticos, os twists são tudo menos previsíveis e o espectador é levado numa das viagens mais alucinantes do ano. Para além de ser um dos melhores thrillers que já vi na vida, é um sedutor, impiedoso, violento e hipnotizante retrato do desespero e da depressão coletiva. Aquelas 2 horas e meia passaram a voar, era bem capaz de assistir a 5 horas se fosse preciso. Pena é que o aluguer só durou 2 dias. Park Chan-wook entrou definitivamente para a minha lista de realizadores obrigatórios, algo me diz que a sua filmografia vai ser uma das minhas favoritas de sempre!

handmaiden.jpg

3º Lugar: Moonlight

     É uma pena muito grande que aquela peça nunca tenha sido lançada para o mundo. Se In Moonlight Black Boys Look Blue estreasse em Portugal, assistiria àquela peça todas as vezes possíveis. Barry Jenkins fez tudo certo aqui ... tudo, absolutamente tudo. O guião é lindo, os personagens são riquíssimos, a história é envolvente, e a estruta de 3 atos mete o público no lugar do protagonista. Há muitas razões para se considerar Moonlight como um dos futuros grandes, mas enquanto não se torna um clássico, deve ser estudado, apreciado e recomendado. Uma verdadeira obra-prima do cinema comtemporâneo!

11670_a_3073.jpg

2º Lugar: The Witch (A Bruxa)

     Mais um que fez o público sair das salas de cinema. Eu não sou muito fã do género de terror. Adoro slashers, são divertidos! Fora isso, nunca dei assim tanta importância a filmes cujo o único objetivo era assustar. Talvez não gostasse por ficar aborrecido ou por ter mesmo receio e medo. Se calhar estava apenas a procurar o filmes errados. Eu estava enganado. The Witch proporcionou-me provavelmente a noite em que mais pensei sobre um filme o ano inteiro. A pesquisa intensa e as conversas longas em busca de significado valeram a pena. Nem sei como foi possível para o Robert Eggers, um realizador tão novo, em apenas 5 anos, recriar o século XVII tão perfeitamente. A Anya Taylor-Joy e o Ralph Ineson dão um show monstruoso e o Black Philip fez-me lembrar o porquê de eu gostar de filmes sobre religião, sem necessariamente ser totalmente religioso!

the-witch-poster-big.jpg

1º Lugar: La La Land (Melodia do Amor)

     O subtítulo é idiota e desnecessário, já todos reparámos nisso. Digam o que disserem, La La Land pode não ter superado os filmes anteriores em todos os aspetos, mas foi o filme que mais me tocou pessoalmente. Apenas os Óscares me deram alguma raiva ao filme, o que foi estranho. Sim, a Isabelle Huppert merecia mais aquele Óscar que a Emma Stone. Sim, o Ryan Gosling não merecia sequer uma nomeação. Nem sequer a nomeação para Argumento Original era válida. Mas não interessa, eu gosto de musicais. O Damien Chazelle conquistou-me pela segunda vez depois de Whiplash, mas mesmo ainda gostando mais de Whiplash, La La Land foi simplesmente aquela cena. Foi a melhor experiência que tive no cinema no ano inteiro. Sai da sala a sorrir e não me lembro de sair tão satisfeito com outro filme qualquer. É por essas e outras que considero La La Land, o melhor filme de 2016!

1.jpeg

Menções Honrosas:

Ghost in the Shell (Cidade Assombrada, 1995) - Crítica

     Anime não é um dos meus géneros preferidos. Claro que como toda a gente, eu vi Pokemon, Digimon, Doraemon, One Pice e até um pouco de Mermaid Mellody, não me julguem. Fora o erotismo óbvio, eu nunca me senti muito atraído nem pelo género nem pela animação em si, apesar de reconhecer a sua qualidade. Ghost in the Shell já chegou a Portugal, por isso eu decidi dar uma oportunidade ao original dos anos 90. Eu subestimei o género e estava errado.

   Baseado no manga do mesmo nome, Ghost in the Shell decorre no futuro, no ano de 2029, onde existe a possibilidade de transferir a consciência dos seres humanos para corpos robóticos e segue uma equipa de policias que tentam capturar um hacker que rouba dados do governo.

2037266_0.jpg

    O filme é realizado pelo Mamoru Oshii, responsável por montes de bons animes, tanto no cinema como na televisão japonesa. O que ele faz aqui não foi especial o suficiente para me fazer escrever o nome dele no meu caderno de realizadores obrigatórios. Como já disse, eu não assisto anime porque não me atrai, porém, acredito que consigo gostar, mas não é um género que irei procurar regularmente para satisfazer a minha sede de cinéfilo. Não entrarei numa grande discussão, nem farei uma crítica muito elaborada, pois não conheço o género.

    Mas falando de Ghost in the Shell. O filme é bom, mesmo bom, tanto como obra cinematográfica e discussão filosófica. Os anos 90 foi, provavelmente, a maior e mais produtiva e progressiva década da história do cinema no que diz respeito ao avanço tecnológico da animação e do CGI. Ghost in the Shell e o resto dos animes são exemplo disso. Porém, este filme é um pouco diferente. Esta obra serviu de inspiração para muitos filmes nos anos seguintes como, por exemplo, Dark City de 1998 do Alex Proyas, The Matrix de 1999 dos Wachowski, e até Westworld, a série de 2016. Todo o conceito de inteligência artificial e hacking eram coisas pouco exploradas, porém muito relevantes, não só nos anos 90, mas praticamente desde sempre, o medo da tecnologia existia, também devido a obras como 2001: A Space Odyssey e Blade Runner.

     O filme pode ser visto tanto pelo fator de entretenimento, que já seria suficiente para o seu autossustento, uma vez que tanto a animação e as cenas de ação são brutais. Mas Ghost in the Shell é também uma obra que merece reflexão, merece que se criem teorias sobre o seu material, merece que o público pense nele. São feitas muitas perguntas, e nem sempre temos uma resposta clara, o que foi propositado, o filme confia no público. Perguntas como: “O que significa ser-se humano?”; “Inteligência artificial pode ser considerada uma forma de vida?”; “Quando as duas identidades se unem, será que a artificialidade pode corromper e/ou extinguir a humanidade ainda existente no corpo?”. São perguntas pesadas, interessantes e importantes e nunca há uma resposta clara, e ainda bem, seria até presunçoso se houvesse.

25931_ghost_in_the_shell.jpg

    Em termos técnicos, não posso fazer uma grande análise. Não sei o é que uma boa edição ou mixagem de som. Conheço e percebo os conceitos, mas não vou avaliá-los. Mas algo que eu posso avalia é a banda sonora, que é sensacional! É incomoda, inquietante, mas espetacularmente fascinante, é uma melodia e um coro que nem parece real. Mesmo não percebendo japonês, eu fiquei completamente hipnotizado pelo tema do Kenji Kawai.

     Os personagens são interessantíssimos e cobertos de mistério. É verdade que nem todos têm o desenvolvimento que eu queria. A Motoko e o Batou são uma excelente dupla, é um embate de personalidades muito carismático e convidativo. O resto dos personagens passa despercebido. O Chief Aramaki é o único que me entreteu e foi útil de uma maneira mais frenética. O Ishikawa e o Togusa não me disseram nada. Sobre estes apenas (menos o Togusa) sabemos que têm uma certa parte do corpo artificial e mais nada. Mas para um filme de apenas 83 minutos, era difícil garantir um desenvolvimento para todos os personagens. Talvez se o filme um pouco mais longo era melhor.

ghost-in-the-shell-1995.jpg

     Outro assunto que o filme também discute é identidade de género. Muitas vezes vemos a Motoko no seu fato cor-de-pele justo que lhe permite camuflagem termo-óptica, mas nunca olhando para si, para o seu corpo, como o dela. Ela foi criada artificialmente, apenas a sua consciência se mantém, mas, por outro lado, praticamente não se identifica como uma mulher, ou nem sequer como um ser humano. Ela nunca repara que os outros possam olhar para ela sexualmente ou se preocupa em esconder-se quando está praticamente nua. O mínimo de humanidade que lhe resta, a chamada “Ghost”, permite-lhe ter sentimentos, na verdade, dos sentimentos mais humanos possíveis: curiosidade, medo, inquietação, ansiedade, entre outros. Quando esta nada no mar, discute ou luta, sente todas as emoções naturais do ser humano, o que lhe permite estar em contacto com o mínimo de consciência que lhe resta. É aí que vemos que o Batou é mais “humano” que ela. Ele sente-se envergonhado por vê-la nua, evita olhar para ela e cobre-a com o seu casaco, demonstrando respeito.

maxresdefault (2).jpg

     Ghost in the Shell é uma das animações mais provocativas e importantes, e um dos grandes filmes dos anos 90. É tenso, enérgico, colorido, ambíguo, violento e pessimista. Merece ser visto pelo público em geral, goste ou não de anime.

 

Nota: A-

20th Century Women (Mulheres do Século XX, 2016) - Crítica

     Chega-me um filme extremamente melancólico e confortável ao mesmo tempo. Eu pensei em dispensá-lo por não me sentir assim tão interessado na história, mas Annette Bening no elenco convenceu-me a assistir. E ainda bem que eu o fiz, senão quem perdia era eu.

     O filme passa-se em Santa Barbara, na Califórnia em 1979 e segue uma mãe chamada Dorothea numa altura da sua vida em que esta se sente ultrapassada pelos anos que decorrem e durante a sua tentativa de voltar a ter uma conexão com o filho de 15 anos, Jamie.

centurywomenposter.jpg

     O filme é escrito e realizado pelo Mike Mills, responsável pelo bom drama de família Begginers de 2011, que deu o tão esperado Óscar de Melhor Ator Secundário ao Christopher Plummer. O que ele faz aqui não é muito diferente. Sendo um drama de família era muito fácil cair em reconciliações forçadas ou que se resumiam simplesmente em colocar um personagem a encontrar refúgio noutro. Em 2016 Manchester by the Sea explorava um mesmo tipo de narrativa e que funcionou muito bem. Aqui não é exceção. E ainda, sendo este um filme praticamente autobiográfico, maioritariamente baseado nas relações do próprio realizador com a mãe e com a irmã, nota-se muita naturalidade nos diálogos e mesmo existindo muitos momentos que vão “chocar” o público por terem serem ditas algumas coisas que simplesmente não são esperadas. O filme é muito engraçado, é um humor seco, cruel e sarcástico. Deve-se estar atento para procurar os exatos momentos para se rir, e quando se finalmente se consegue acha-los, a experiência é deliciosamente cómica e imprevisível. O Mike Mills fez um excelente guião.

     Tanto a fotografia, o guarda-roupa e o design de produção são riquíssimos e minimalistas simultaneamente. Mesmo com um orçamento baixo, acha-se uma maneira mais que eficiente de repintar os anos 70 de maneira poluída e colorida ao mesmo tempo.

     A música deste filme é espetacular! Tanto a seleção de músicas e os temas originais são brilhantemente úteis para o contexto. O Sean Porter compôs um tema extremamente melancólico, sedutor e harmonioso. E quem gostar de rock vai ter um prato cheio aqui! Mesmo não conhecendo todas as bandas, eu diverti-me como se estivesse num concerto, é essa a sensação que me foi passada. Já o elenco, mesmo muito bom, tem altos e baixos.

     A Annette Bening é uma atriz fantástica e, mais uma vez, constrói uma mulher com várias paredes que escondem a sua personalidade: destroçada, infeliz, inquieta e ultrapassada pelas novas tecnologias, culturas e, principalmente, músicas que vão aparecendo. E mesmo passando maior parte do seu tempo com um cigarro na mão sem dizer uma única palavra, ela é charmosa e atrai o público muito facilmente.

20th-century-women-trailer-annette-bening-spicypul

     O Lucas Jade Zumann não está tão bem como ela, mas quem está? Porém é uma pena que ele não acompanhou a interpretação da Annette Bening como eu esperava, provavelmente por o ator ser muito novo. Ele tem com uma posição importante e relevante para a história, mas no início não se vê muita ambição na sua expressão, por vezes pareceu-me que ele estava desinteressado. À medida que tudo avança, isso felizmente muda e, a seu tempo, o ator ganha carisma e camadas também, o que foi bom.

la-et-mn-20th-century-women-mike-mills-lucas-jade-

     A Greta Gerwig está sensacional! Em Jackie, ela deu uma interpretação apenas “ok”, mas desta vez ela brilhou completamente. Assim como a Annette Bening, ela constrói uma mulher, à primeira vista, antipática, maldisposta e com falta de vontade de viver. Mas é exatamente aí, nessa inexpressividade, que ela acha a consciência da sua personagem, a sua cara diz muito, principalmente aqueles olhos brilhantes e aquelas olheiras tão negras. A infelicidade, o vazio e a insatisfação na sua vida, são todos sentimentos muito verdadeiros.

2017%2F3%2F21%2Ff2dad4cd-e2ee-40df-b973-d644e570ab

     Já a Elle Fanning tem um papel semelhante e igualmente relevante, mas na sua falta de expressão faltou-me qualquer coisa. É também uma personagem deprimida e incompleta. Tem diálogos bons e a sua química e cenas com o Lucas Jade Zumann são muito interessantes e bonitas. Mas faltou-lhe sentimento, energia e presença, na verdade não é um problema assim tão grande, não comprometeu o filme, afinal a atriz é boa, mas era só mais um pouco de esforço.

elle-site.jpg

     O Billy Crudup é um ator que eu vejo poucas vezes. Também entrou em Jackie e, por acaso, fazia um personagem completamente unidimensional e sem camadas. Mas esta é uma das melhores interpretações que eu já vi dele até agora. Ele é muito carismático, alegre, amigável, atenciosos e tem muita presença. Acompanha muito bem a Annette Bening e estes geram um contraste muito engraçado. Ela é agitada e irónica, ele é muito calmo e esperançoso, dá certo. Só não gostei da maneira de como o seu desenvolvimento foi feito. Com os restantes personagens, há sempre uma montagem muito bonita, mas com ele é apenas feita uma narração, o que me frustrou um pouco. Mas, tudo bem, as narrações de cada ator também são boas, nada do que reclamar.

200_s.gif

     20th Century Women é um melancólico, sereno, sarcástico e divertido retrato de família, amor, compreensão e da cultura punk rock dos anos 70. É um dos filmes mais minimalistas e originais de 2016. Merece ser visto por todos.

 

Nota: B+

Paterson (2016) - Crítica

     Seria um grande erro dispensar este filme. Embora não seja um dos mais interessantes, é um dos filmes mais “obrigatórios” de 2016. Vamos lá.

     Adam Driver é Paterson, um motorista de autocarro cujo dia se resume a trabalhar, escrever poesia e passar tempo com a namorada Laura. O filme acompanha uma semana na vida do homem, mostrando-nos a sua rotina.

paterson-movie-1.jpg

     O filme é escrito e realizado pelo Jim Jarmusch, um dos realizadores mais autorais em atividade. O que ele faz aqui é basicamente uma viagem de quase duas horas sobre o quotidiano de um ser humano de New Jersey, e que acaba por não ser para todos, pois se alguém esperar um filme com uma trama específica, esse alguém vai se dececionar. Sem querer entrar muito em comparações, até porque o este filme é diferente de todos os outros, é mais ou menos a mesma experiência que Boyhood. Aproveito para dizer que Boyhood é um dos filmes mais overrated de 2014, as enormes expectativas não compensaram e eu, de facto, esperava o melhor filme de sempre. Paterson trata dos mesmos assuntos, como rotina, as mesmas caras e locais que vemos todos os dias e pensamentos da vida em geral. Eu tinha algumas expectativas para Paterson, e desta vez, elas foram superadas.

     O filme é deliciosamente bonito, confortável, filosófico e sereno. Não houve nenhum momento em que me pareceu que o Jim Jarmusch estivesse a imitar Boyhood, levou-me a crer que se começar a ver a filmografia completa dele, iria estar prestes a ver uma das mais diversificadas que já vi.

     A fotografia ligeiramente acinzentada do filme é ao mesmo tempo poluída e colorida, o que lhe permite adaptar-se à “história” do filme sem problemas. A banda sonora não sai muito daquele piano levezinho e ainda bem, por que se o Carter Logan se tentasse exceder, seria um erro grave.

     Tudo é muito regular e consistente, tanto no tom, tanto no desenvolvimento da cidade e dos personagens e tanto na abordagem de determinados temas. Mas Paterson não se compromete e a falar de nada em específico, é o retrato de uma semana na vida daquele casal e dos seus amigos e vizinhos. É uma experiência que até permite sentir orgulho pelos personagens, uma sensação bastante estranha, mas muito interessante, uma vez que os acompanhamos no seu modo de vida mais simples.

     Desta maneira, os planos usados são praticamente sempre os mesmos, nomeadamente quando ele vai trabalhar e desce as escadas, quando está na cave a escrever poesia ou quando se senta a olhar para as cataratas do Passaic River. Se calhar mudar os planos de vez em quando à medida que a semana avançava seria mais vantajoso para o filme ter mais ritmo. Dito isto, chega-se à conclusão que o filme tem um ritmo lento, o que não é uma coisa má, eu gosto quando os filmes levam o seu tempo ao início, mas num filme em que, mesmo sendo interessante, praticamente não acontece nada, era necessária mais agilidade, e era aqui que a edição também podia ajudar com uma mudança de planos ligeiramente mais frenética.

    E como já disse, é muito saboroso acompanhar os personagens. O Adam Driver dá uma performance extremamente natural e genuína. Ele jamais parece estar a despejar texto com a atriz ou ator ao seu lado, ele está mesmo a desfrutar os pequenos momentos. Os intervalos do trabalho usados para escrever poesia, as conversas ao fim do dia com a namorada, o passeio com o cão e a noite a beber cerveja no bar. Ele encontra o equilíbrio perfeito entre vivacidade, timidez, melancolia e serenidade. É claramente a melhor interpretação da carreira dele até aqui.

paterson-adam-driver.jpg

     A Golshifteh Farahani também está ótima, para além de ela e o Adam Driver terem uma química incrível, ela acha também uma maneira genial, porém subtil, para conduzir os momentos em que está sozinha. Ela é carismática, alegre, pensativa e, apesar de ser um pouco mais agitada que o Adam Driver, consegue acompanhá-lo sem problemas, ao mesmo tempo que conhecemos os seus gostos, sonhos e pensamentos.

116741.jpg

     O Marvin, o cão deles, também funciona como um personagem do filme. Enquanto outros filmes usariam o cão do casal apenas para gerar cenas fofinhas, este para além de o meter numa posição que o faz fazer seguir com a história, também tem os seus momentos mais ternurentos e até mais irritantes para os donos, como qualquer cão faria.

still_478557.jpg

     De resto no elenco temos Masatoshi Nagase, Sterling Jerins, que estão muito bem no pouco tempo que têm, e Barry Shabaka Henley e Rizwan Manji, os dois muito engraçados e à vontade com os seus papéis, mas o show é todo do Adam Driver e da Golshifteh Farahani. Só não gostei do William Jackson Harper, que não está necessariamente mal, mas acho que ele teve tempo demais no filme e houve uma cena qu o envolvia que caiu um bocado para a estupidez.

    Fãs de filmes sobre o dia-a-dia do ser humano vão gostar muito. Terão diálogos extremamente naturais e verdadeiros e um retrato dos nossos dias como deve ser, objetivo, filosófico e ambíguo, tal como filmes como Aquarius e Certain Women, também de 2016. Eu gostei muito. Agora, pessoal da ação e dos blockbusters que recusam outro tipo de obras, fiquem longe deste tipo de filmes não vale a pena falar mal daquilo que não percebem.

1af9d050-85d0-11e6-b270-edf4b16cae3d_20160929_Pate

     Paterson é um lindo retrato do quotidiano. É minimalista, poético, sereno, reservado, filosófico e, sobretudo, agradável. Não é para todos, mas quem quiser algo para relaxar e, quem sabe, refletir, este filme é a escolha certa.

 

Nota: B+

Hidden Figures (Elementos Secretos, 2016) - Crítica

     Mais vale tarde do que nunca, vamos falar de um dos filmes americanos mais patriotas e até mais overrated de 2016.

     Baseado no livro de não-ficção da Margot Lee Shetterly publicado em 2016, o filme passa-se nos anos 60 e conta o progresso profissional de três mulheres negras que contra todas as expectativas, revolucionaram os métodos de trabalho na NASA, permitindo assim aos EUA levar o primeiro homem americano ao espaço.

Hidden-Figures-movie-wallpaper-FullHD-film-2017-po

     O filme é escrito e realizado pelo Theodore Melfi que realizou, em 2014, a boa comédia St. Vincent com o Bill Murray. Algo que ele faz bem, não sendo nada de extraordinário, é causar uma boa vibe, ou seja, é bom ver na categoria do Óscar de Melhor Filme um filme bonitinho e fofinho como este, mas isso não significa que ele mereça estar lá.

     A América tende a sobrevalorizar filmes que demonstram um enorme patriotismo. Mas qual será a razão de terem incluído este filme nos Óscares ao invés de Patriots Day. Talvez por o Theodore Melfi não ser tão sincero como o Peter Berg e não ofender ninguém com os temas que aborda. Na verdade, Patriots Day e Deepwater Horizon são melhores porque não têm medo de mostrar os defeitos dos americanos, e apenas depois é que decidem glorificar os seus personagens. E como todos sabemos, a América não gosta de ser ridicularizada.

     Mas falando de Hidden Figures, é de facto muito fácil sentir-se contente e confortável enquanto se assiste a este filme. É um feel good movie e todos nós gostamos de filmes assim, mas isso não é sinónimo de qualidade. Quando se aborda temas como racismo, sexismo, machismo e subestimação em geral, o filme fica por vezes um bocado em cima do muro, isto é, parece que vez em quando tem medo de ofender o público, e concorrendo contra filmes como Moonlight e Fences, Hidden Figures passa facilmente ao lado.

     A paranoia existente na América nos anos 60 é retratada maioritariamente graças ao esforço do Kevin Costner, ele sim retrata um homem exageradamente rígido, competitivo e paranoico face aos progressos da União Soviética. Nota-se que o ator está se a divertir com o papel e que está completamente à vontade com aquilo que diz, e se calhar o problema é esse, o guião não vai mais além. Não quero ser mal interpretado, eu não considero o filme cobarde, há de facto algumas cenas que me espantaram pela sua realidade, apenas acho que certas coisas podiam ser feitas com um pouco mais de brutalidade. Até são mostrados os pontos de vista das filhas de uma das mulheres principais e coisas que elas aprendem na escola, o que foi muito desnecessário e até lamechas demais.

     Por falar em lamechas, há uma cena em que uma personagem precisa de ir à casa de banho e queixa-se que a casa de banho das mulheres negras fica do outro lado do edifício. Então o Kevin Costner pega num pé de cabra e parte a placa que indicava para quem as casas de banho se destinavam. A cena impressiona e é forte, mas o que ele fala de seguida é muito piegas e lamecha, até me fez rir quando era suposto eu ficar surpreendido.

Hidden-Figures-I.png

     Mas falando das coisas boas e suaves do filme. Algo que gostei muito a banda sonora, especialmente a música do Pharrel Williams, que fica facilmente presa na cabeça. Por vezes a música tema surge quando o melhor que o filme podia dar era alguns silêncios. O filme abusa de musiquinhas tristes onde o racismo seria mais cruel e mais seco se nada estivesse a tocar por detrás.

     O elenco, por outro lado, é muito competente e carismático, mas talvez não digno dos prémios que recebeu. Fences, Moonlight, Manchester by the Sea ou Captain Fantastic mereciam todos mais o SAG de Melhor Elenco.

     A Taraji P. Henson faz muito bem o papel de uma mulher tímida e desajeitada que nunca demonstra a sua real frustração, mas ela não convence como uma matemática de verdade, nota-se que não sabe metade das coisas que está a dizer e que aquele texto foi muito bem decorado, não é esse o trabalho de uma atriz.

hidden-figures-taraji-p-henson.jpg

     A Janelle Monáe ao mesmo tempo que é atrevida é também muito confiante e altiva, mesmo o ambiente não lhe permitir certas atitudes, o que torna a personagem relacionável e fácil de se torcer por.

MonaeMAGheader.jpg

     A Octavia Spencer é mais uma vez aquela mulher extremamente séria, educada e disciplinada que não gosta nunca de levar o trabalho alguma vez na brincadeira, e isso faz a performance dela muito engraçada, porém a nomeação ao Óscar de Melhor Atriz Secundária foi um pouco exagerada.

octavia-spencer.jpg

     O ano de 2016 foi ótimo para o Mahershala Ali e, mais uma vez, ele injeta uma presença muito acolhedora e calorosa, mesmo este filme sendo incomparável a Moonlight. É um ator muito fácil de assistir e de gostar.

thumbnail_25205.jpg

     Por fim, a Kirsten Dunst e o Jim Parsons têm ambos um bom desenvolvimento psicológico e um arco de personagem bem feito, pelo que mudam bastante as suas opiniões ao longo do decorrer do filme.

hiddenfigures_0.jpg

     Hidden Figures não chega a dececionar, é um feel good movie e como outro qualquer, ele entretém, informa e diverte. Podia ser melhor no que diz respeito ao seu comentário social, mas graças ao seu otimismo e ao seu elenco carismático, é possível ter-se uma boa experiencia aqui.

 

Nota: B-

Patriots Day (Unidos por Boston, 2016) - Crítica

     Chega-nos mais um filme que glorifica a coragem e o patriotismo americano de maneira que chega até a lembrar a exaltação dos feitos dos portugueses em Os Lusíadas. Ok isto é uma piada, o filme é muito mais compromissado e emocionante que isso.

     O filme recria o dia do Atentado à Maratona de Boston em 2013 e o posterior procedimento de caça ao homem que se desenvolveu nos cinco dias seguintes.

hB8UpOqDF1CykGGFY5aK3KPWqsm.jpg

     O filme é realizado pelo Peter Berg, alguém que ao mesmo tempo é muito bom a retratar o heroísmo americano tão projetado nos dias de hoje, tanto como parte do cinismo que o envolve, ele fez isso eficientemente em Lone Survivor e fê-lo de maneira excelente em Deepwater Horizon. Uma coisa que eu adoro nos filmes dele, é que, tanto como o Paul Greengrass, ele utiliza a câmara tremida como um recurso útil e bem aproveitado. Ao contrário do Michael Bay, ele ao mesmo tempo que consegue causar uma sensação constante de energia e agitação, nunca deixa o público ficar com tédio até mesmo em cenas que apenas envolvem burocracia. E isso deve-se sobretudo ao movimento de câmara, à edição frenética e aos diálogos, que se resumem a provocações, descobertas, injeções de energia frequentes e muita tensão. Depois de Deepwater Horizon, é um trabalho espetacular, porém inferior.

     A tensão do filme é espetacular e digna de palmas. Aconselho a quem não sabe detalhadamente o que se passou em Boston a não fazer nenhuma pesquisa, pois é provável que se surpreenda facilmente, pelo menos eu fiquei surpreendido mais do que uma. Ambas as explosões e tiroteios são recriados de maneira honesta e original, foi aí que eu notei a mão do Peter Berg. Por vezes, esqueço-me que estou um thriller dramático patriota e penso que estou a ver um simples filme de ação, e isso é bom.  Principalmente a primeira explosão, que imediatamente instala o caos e o pânico como nenhum outro filme recente. Vê-se de tudo, crianças perdidas, pernas e pés separados dos corpos, lixo espalhado, ambulâncias.

     Claro que nem tudo o que acontece pode ser necessariamente verdade, mas o Peter Berg não mudou alguns factos apenas porque lhe apeteceu. Mais do que um filme que glorifica a América, é um filme que vê a cidade como uma personagem. Boston é vista como uma entidade e os cidadãos também ajudam no processo. As pessoas envolvidas na caça ao homem estão desesperadas pela opinião pública e pelo procedimento que pode arriscadamente envolver mais cidadãos, para não falar dos constantes shots aéreos, que são absolutamente vistosos sobretudo à noite com toda aquela luz.

     A fotografia acentua principalmente em tons de azul, branco e vermelho, cores da bandeira americana, óbvio. A música mesmo não sendo memorável, funciona. E claro, há muita antecipação e momentos em que só me apetecia levantar e saltar para dentro do filme. Mas nada é perfeito, o filme sofre um problema grave. Há personagens demais.

     O realizador consegue extrair carisma de todos os polícias e vítimas e de todo o resto, o problema é que nem todos os personagens são interessantes, úteis ou memoráveis. Sim, depois daquela enorme tragédia, é fácil sentir empatia e se preocupar com toda a gente, mas nem toda a gente tem o desenvolvimento que merece. Nem todos dão alguma contribuição. O foco do Peter Berg devia ser o elenco principal e não quase totalmente os cidadãos. A sensação de liderança e amor da cidade seria passada de qualquer maneira, por isso não era preciso estar constantemente no primeiro ato só a apresentar mais pessoas.

     O Mark Wahlberg está ótimo como sempre. O ator tem um carisma quase instantâneo e transmite de maneira muito boa a sua personalidade perspicaz, agitada e preocupada pelas pessoas.

RT_mark_wahlberg_patriots_day_jt_160418_16x9_992.j

     Atores como o John Goodman, o Kevin Bacon, a Michelle Monaghan, o Jimmy O. Yang e o J.K. Simmons estão bastante confortáveis com os seus papéis e dão performances sólidas. Apenas o Kevin Bacon e o John Goodman é que mereciam mais desenvolvimento. Mas tudo bem, eles já fizeram estes papéis antes, portanto não há nada do que reclamar sobre eles. Outra coisa é que até mesmo no sistema americano podemos ver rivalidades, algo que podia ser facilmente ignorado pelos produtores. Podemos ver os dois lados da moeda, há conflito e um stress inquietante.

patriots-day-mark-wahlberg-kevin-bacon-john-goodma

     O Alex Wolff e o Themo Melikidze estão excelentes! Cada um com uma personalidade bem caracterizada e que encaixa no contexto do filme. Um é mais calmo e infantil, o outro é sério e paranoico, há contraste, funciona. Eles têm as suas discussões, mas a irmandade entre os dois é muito forte.

alex-wolff-themo-melikidze.jpg

     Claro que o realizador tinha de meter na mesa algumas questões sobre o 11 de Setembro, e é aqui que entram as questões sobre o cinismo e o falso patriotismo americano. Claro que cada um tem a sua, mas o que ainda gostava que o filme tivesse feito era mais um pouco dessa discussão moral. Há uma sessão onde eu pensava que ainda ia aumentar, mas não foi levado para a frente. Compreensível, pois, o objetivo do filme não é esse, mas ficar no muro com medo não é melhor que nada.

patriots-day.jpg

     Patriots Day é um ótimo retrato do patriotismo americano, do terrorismo e da coragem coletiva em alturas de crise. Prova que não é preciso esperar décadas até se fazer um filme sobre um assunto tão delicado como este. Pode ter personagens a mais e isso pode mudar constantemente o foco do filme, mas como um que se compromete a glorificar os feitos daqueles que lutaram constantemente para castigar os responsáveis por um dos atentados mais graves dos últimos anos, é uma ótima escolha para quem estiver interessado.

 

Nota: B+

Aftermath (2017) - Crítica

     O problema em adaptar grandes histórias não americanas para o cinema americano é muito óbvio. Às vezes simplesmente não há mentes capazes de compreender o potencial de uma história verídica quando esta é contada no seu local de origem. Não há qualquer razão em adaptar esta história para a América senão uma questão financeira. E isso é triste!

     A história é baseada na colisão real de duas aeronaves ocorrida em 2002 no espaço aéreo da Alemanha onde morreram 71 pessoas. Já o filme é levado para a América na mesma altura e segue o emigrante Roman Melnik, interpretado pelo Arnold Schwarzenegger, enquanto este procura vingança pela mulher e filha, que iam a bordo num dos aviões.

hqdefault.jpg

     O filme é realizado pelo Elliott Lester. O seu trabalho mais conhecido é o filme da HBO de 2015, Nightingale, protagonizado pelo David Oyelowo. Hoje fiquei com uma impressão desagradável da sua oferta de realização, pelos vistos não passa de um “fazendeiro” de Hollywood, é simplesmente mais um para se juntar aos tantos que existem. Não há nada no movimento de câmara, no estilo de filmagem, no ritmo ou no tom que me vá fazer lembrar dele. Parece um filme de televisão.

     A fotografia do filme é meia acinzentada, meia insípida que se encaixa bem no contexto do filme e no estado de espírito dos personagens. O cenário que envolve o acidente é bem recriado, mas é aí que tudo começa a cair. Todo o processo psicológico tanto da vítima e do responsável da catástrofe é feito sem a mínima imaginação narrativa. É um filme praticamente previsível num todo. É chato, aborrecido e lento, muito lento, mesmo tendo apenas uma hora e meia, que parecem mais duas e meia.

     O curioso é que na hora de as pessoas se encontrarem ao pé dos destroços, o protagonista encontra mesmo o corpo da filha e um colar dela. Eu não compro isto. Como é que vou acreditar que num avião com 157 pessoas colidiu no ar e foi parar todo ao mesmo sítio. É absurdo! E essa é outra, originalmente, no acidente morreram 71 pessoas, 60 passageiros e 4 pilotos. Não há razão para mudar esses factos, não percebo a necessidade das produtoras de constantemente fazer isto com todas as histórias verídicas “estrangeiras”. Já era suficiente mudar o local, as pessoas e nomes reais.

     Todo o moralismo que o filme põe na mesa e todas as perguntas que faz só são feitas graças ao elenco, que nem é assim tão espantoso.

     O Arnold Schwarzenegger não é um bom ator dramático. Lá de vez em quando vai fazendo um ou outro bom trabalho, mas o ator nunca conseguiu sair do genérico e do esquecível. Ele convence facilmente como um homem sedento por vingança e por justiça, mas quando comparado com o Hugh Jackman em Prisoners, passa completamente ao lado. Ele nunca parece realmente abalado, há cenas em que era exigido que ele chorasse mais ou que ficasse mesmo destroçado. No resto do processo ele mostra-se apenas como um homem zangado.

arnold-aftermath-main2.jpg

     Agora, o Scoot McNairy convence realmente como uma pessoa destroçada pelo aquilo que se sente responsável. O ator consegue transacionar bem de um estado rotineiro para um absoluto estado de culpa. O problema é que o seu processo psicológico é aborrecido e genérico: ele age violentamente coma mulher, o filho chora, a mulher deixa-o temporariamente, ele é abordado pela televisão claustrofobicamente e nunca passa disso.

aftermath-2.jpg

     E a Maggie Grace, mesmo com talento, não faz absolutamente nada. Ela é inútil, unidimensional, não tem camadas e é apenas a mulher que discute com o marido. E para piorar, todas as performances são estragadas por diálogos expositivos e artificiais, usados sempre que alguém precisa de se expressar, como se o realizador não confiasse no seu elenco.

maggie-grace-aftermath-mvoie-image.png

     Existem algumas coisas que passariam despercebidas facilmente, mas causaram-me um ligeiro incómodo. Por exemplo, no início reparamos rapidamente no carisma e na boa-disposição do Arnold Schwarzenegger, e o que o filme mete? Uma pessoa a chocar com ele numa fila sem qualquer razão. É um recurso preguiçoso e não tem nenhuma justificação. E ainda há uma que até me fez rir. O Schwarzenegger estava à espera de um telefonema e finalmente recebe a chamada. Aí entra uma fala banal da outra pessoa em linha e ele desliga o telemóvel e começa a andar. Nenhuma informação é dada e ele simplesmente começa a se deslocar para um determinado sítio. É absurdo e ilógico.

     A música, ou pelo menos o tema original até é bom, começa com um pianinho jazz e transforma-se em algo bem mais pesado consoante a tensão. Mas é esse o problema, não há tensão praticamente nenhuma. O filme vende-se como um thriller, mas os únicos momentos de tensão só acontecem a partir da primeira hora, onde finalmente a perseguição e a vingança acontece, algo que eu queria mesmo ver. Durante a primeira hora vemos um enchimento de chouriça como nenhum outro. O problema é que, a “cena” acontece e ainda faltam quinze minutos de filme, e é aqui que tudo cai. O filme toma uma decisão irrealista e desnecessária que nunca aconteceria na vida real.

med_1486735238_image.jpg

     Aftermath tem o mínimo de entretenimento, mas desilude no tratamento de uma das maiores tragédias aéreas de sempre, falha nas suas questões morais, é aborrecido, genérico, previsível, preguiçoso, ilógico em certos momentos e estúpido noutros. Não vale a pena a hora e meia que desperdicei.

 

Nota: D+

Other People (2016) - Crítica

    Depois de filmes como Ah-ga-ssi e Toni Erdmann, Other People era exatamente aquilo que eu precisava. Nada melhor que um mix de leveza e drama!

    David é um jovem guionista gay que volta à sua cidade natal em Sacramento, uma zona pacata na Califórnia, para se reencontrar com a família e amigos e para começar a cuidar da mãe Joanne, que está a morrer de cancro.

other-people-jesse-plemons-molly-shannon-620x360.j

     O filme é o debut escrito e realizado pelo Chris Kelly, que já escreveu muita coisa boa para o Saturday Night Live. Nota-se muito bem o talento e a vontade dele de escrever diálogos e momentos engraçados, mas ao mesmo tempo ele acha um equilíbrio praticamente perfeito que ajuda a, simultaneamente, a separar e a misturar drama com comédia. O controlo que ele tem sobre o material é muito impressionante! Os diálogos ao mesmo tempo que são banais, são interpretados de maneira excelente pelo elenco e conseguem meter humor em cenas dramáticas e o oposto sem nunca ficar forçado, coisa que comédias dramáticas correm sempre o risco de conter. Quanto ao movimento de câmara e aos planos, ele também se safa muito bem. Recorre muito aos planos estáticos e à câmara na mão e faz tudo com um cuidado muito subtil, reforçando a ideia de rotina e de cansaço existente naquela família devido ao cancro da mãe. A edição é um bom auxílio, uma vez que é tomada a decisão de meter a mãe e o filho a andarem por um parque diariamente em alturas diferentes do ano, o que mostra o estado (evolução e queda) da Joanne.

     E tudo é realçado pela linda fotografia que funciona no seu melhor nas cenas aéreas, há paisagens lindíssimas e apaixonantes e, ao mesmo tempo, uma simplicidade muito acolhedora. Conclui-se desta maneira que o filme tecnicamente é simples, objetivo e mais que eficiente. Mas quando entramos nos temas que o filme aborda, entramos numa montanha russa de emoções que vão abalar o seu público. O Chris Kelly confirma que maior parte dos acontecimentos são inspirados na sua família, e nota-se que muitos momentos são naturais demais até para estarem num filme, isto dito no bom sentido, há cenas muito genuínas e realista, coisas que não parecem que foram escritas por um guionista.

     E o elenco está muito esforçado, diria até que eles estavam numa missão quando lhe deram os seus papéis. O Jesse Plemons é disparado a melhor peça do elenco no filme inteiro. Eu não esperava ver o rato do Black Mass tão bem num drama familiar. Toda a tristeza, cansaço, desilusão, timidez, vulnerabilidade e doçura são transmitidos de maneira excelente. E mesmo com apenas alguns momentos mais dramáticos, o ator nunca se esquece da sua situação, mesmo em cenas cómicas vemos a carga que ele carrega aos ombros. Vou ficar de olho no ator.

othrprle_1-e1477425344285.jpg

     A Molly Shannon é outra que engole o resto do elenco no filme. Mesmo aparecendo menos que o Jesse Plemons, ela consegue acompanhar a presença dele e ela tem cenas que vão conseguir emocionar quem a vê. O amor que ela sente pelos filhos é muito verdadeiro, a sua vivacidade e alegria vão morrendo com ela e eu apenas queria vê-la a recuperar e a ganhar força, mesmo sabendo que eventualmente ela morrerá.

a6174c30-4525-11e6-b70a-77e17d310679_20160708_Othe

     O Bradley Whitford está bem mais uma vez e desta vez injeta ambos uma onda de confiança e carisma, mas também um pequeno ódio devido a coisas que se sabe que o personagem fez no passado.

     O problema é que o filme não aproveita as irmãs do David, interpretadas pela Maude Apatow e pela Madisen Beaty. Estas são reduzidas a apenas essa informação, não há qualquer desenvolvimento das duas para além da preocupação que ambas sentem pela mãe. Mais valia o David ter apenas uma irmã ou nenhuma. Era uma hipótese visto que o filme, tendo apenas uma hora e meia, mais ou menos, consegue ser bem organizado em termos de tempo.

232.jpg

     Também temos, durante algumas cenas, o Zach Woods e o John Early, ambos muito bem, mas aqui o assunto discutido é mais importante do que as suas performances. É aqui que entra o tema da homossexualidade. Há algumas cenas em que são postas na mesa algumas perguntas relevantes e que merecem ser discutidas, mas é preciso muito cuidado para não haver exageros ou estereótipos. Todas as conversas são retratadas como coisas extremamente naturais e reais, coisa que são (como é óbvio). O filme insere-se bem na comunidade dos bares gays e das discotecas e há momentos bem interessantes que merecem ser visto. Porém, há um determinado personagem que, mesmo sendo muito simpático, é o mais esquisito e bizarro do filme. Eu sei que a homossexualidade está presente em qualquer faixa etária, mas, para além de o personagem desaparecer completamente, foi um pouco cringe e desnecessário. Mas que fique esclarecido que não tenho problemas nenhuns com o tema, mas sim com a maneira que se decidiu abordá-lo.

     Mas o ato final e o corte deste filme são perfeitos. Reflete de uma maneira muito saborosa a essência de um filme raro, simples e bonito como este. Não são todos os filmes que me comovem num nível mais pessoal.

other-people-jesse-plemons-molly-shannon.jpg

     Other People é um filme lindíssimo. É delicado e pesado ao mesmo tempo, engraçado, melancólico e elabora uma discussão muito comovente sobre amor, família, aceitação, desilusão, perdão e esperança.

 

Nota: A-

Toni Erdmann (2016) - Crítica

   Posso estar um pouco atrasado, mas acho que um filme tão diferente como este merece destaque independentemente da altura em que a sua crítica é feita. Definitivamente 2016 foi um ano espetacular para filmes estrangeiros, vou ficar de olho nos filmes alemães a partir de agora.

     A ação central do filme decorre em Bucareste, na Roménia e segue um professor de música alemão que, espontaneamente, visita a bem-sucedida filha numa tentativa desesperada de reconciliar a sua relação e acabar o afastamento existente entre ambos.

toni-erdmann-poster.jpg

     O filme é escrito e realizado pela alemã Maren Ade e este é apenas o seu terceiro de realização. Mais um nome para a minha lista de realizadores obrigatórios! Uma coisa a que ela recorre e que faz muito bem é a constante câmara na mão. Não são todos os realizadores que conseguem usar este recurso sem o deixar mal feito ou cansativo. Jean-Marc Vallée e Andrea Arnold são uns dos poucos que conseguem e que o fazem muito bem.

     Algo que eu também gostei foi o facto de não haver cenas manipulativas, ou seja, sendo este um filme sobre uma reconciliação familiar, o risco de existir uma cena emocional forçada demais era bem grande, é uma coisa bem regular em filmes deste género. Felizmente nada disso acontece aqui.

     Agora falando na reconciliação em si, pode-se dizer que este filme é um dos mais realistas já feitos. Os silêncios usados são extremamente constrangedores e esse é o melhor elogio que se pode dar neste caso. É bastante difícil recriar momentos akward no cinema, mas é graças ao cuidado narrativo, à química e à dedicação dos atores que tudo corre bem.

     Há muita genuinidade e sinceridade nos diálogos e tal como em Moonlight, por exemplo, há muitas conversas entre os dois protagonistas em que um silêncio diz mais que as palavras, que muitas vezes são excluídas e dão lugar a olhares de dúvida, desilusão e infelicidade, coisas que preenchem por completo os momentos mais tocantes da trama principal.

     O Peter Simonischek está fantástico! É um dos mais verdadeiros retratos da solidão depois de One Hour Photo e também de tristeza e vazio presentes na altura em que uma pessoa se sente mais incompleta devido a coisas que fez na vida. Ele é engraçado, carismático, brincalhão, interativo, atencioso, mas nem o ator nem a realizadora se esquecem do drama do personagem. O homem passou os últimos anos a ansiar pela reconciliação com a filha e isso é muito notável. Ele sempre espera pelo melhor momento e até a uma cena específica que ele percebe que, para voltar a ter a relação com a filha que sempre quis, precisa de tomar medidas mais drásticas, e isso torna o personagem muito imprevisível.

toni-erdmann-5-rcm0x1920u.jpg

     A Sandra Hüller é um contraste ótimo do pai. Ela é mais séria, sisuda, controlada e dedicada à carreira. Aliás, ela dá muita importância a certos encontros com presidentes e representantes importantes e sempre que o pai dela está sempre presente, gera um clima de inquietação muito engraçado. Mas à medida que a personagem revela as suas camadas, mostra um lado mais frustrado, infeliz, incompleto e arrependido do que estava à espera.

tonierdmann_02.jpg

     O resto do elenco é simplesmente funcional, não há nenhuma performance secundária que chama muito à atenção, mas claro que não há nenhuma que comprometa o filme.

     Agora o que compromete um bocado o filme são as (quase) três horas de duração, que chegam a pesar. Eu adoro filmes que levam o seu tempo, Ben-Hur, The Godfather e The Godfather Part II, por exemplo, são alguns dos meus filmes preferidos. No entanto, o tempo aqui devia ter sido melhor preenchido. A lentidão serve o propósito para mostrar ao público como é a relação deles, mas também há lentidão demais onde não devia haver e cenas aborrecidas e desnecessárias. Por exemplo, a sub-trama da Sandra Hüller consiste na sua tentativa de ascensão na sua profissão. É tudo bem feito, menos o ritmo. Para um filme tão consiste, ou aquelas cenas eram cortadas mais cedo ou eram aceleradas com uma edição mais frenética ou diálogos mais dinâmicos, pois não é algo assim tão interessante.

     Outra coisa que me incomodou foram duas cenas bem específicas que pareciam não pertencer a este filme. Uma envolve uma cena de sexo e outra decorre num bar. Eu não reclamo de sexo em filmes, mas quando aquilo me dá vontade de rir sem querer, era sinal que não era aquela a sensação que a realizadora queria que eu sentisse. E a outra envolve uma conversa entre um casal homossexual onde parecia que a Maren Ade queria fazer um comentário social, o que me incomodou não foi o comentário (óbvio), mas sim o uso despropositado daquela cena.

     E o ato final é perfeito! Definitivamente não é algo que o público espera, mas posso dizer que é muito original, bizarro, mas também emocionante e inesquecível. É mais uma cena que não me vai sair da cabeça tão cedo.

toni-erdmann-3-rcm0x1920u.jpg

     Toni Erdmann é um lindo retrato de solidão, amor, família, compreensão, aceitação, significado de vida e felicidade. Pode não ser para todos e as três horas podem pesar. Mas se se investir na experiência, assistir-se-á a uma das obras mais ternurentas, interessantes e divertidas de 2016.

 

Nota: B+

Pág. 1/2