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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

John Wick (2014) - Crítica

     John Wick: Chapter 2 estreou em fevereiro. Provavelmente devia ter começado este blog mais cedo. Dessa maneira, teria feito antecipadamente a review de John Wick, de 2014. Mas mais vale tarde do que nunca, até porque um thriller neo-noir de ação como este merece atenção! Aproveito para dizer que esta crítica terá spoilers moderados.

     Jonathan Wick, um assassino reformado, volta ao ativo em busca de vingança depois do seu cão ser morto e o seu carro roubado durante um assalto, sendo o cão e o carro a única lembrança da sua mulher recém-falecida.

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     A realização é da dupla Chad Stahelski e David Leith. O Chad Stahelski manteve-se como realizador da sequela, mas desta vez solo. Já o David Leith foi confirmado como o realizador de Deadpool 2, que sairá em 2018. Ambos são coordenadores de duplos e isso foi muito notável. Muito frequentemente vemos filmes de ação com duplos mal feitos. John Wick não é o caso, é um alívio, nesse e noutros sentidos. A começar pelo estilo. Alguns críticos afirmaram que o filme tinha mais estilo do que substância. Na verdade, era difícil ter assim muita substância. O filme preferiu manter-se pela simplicidade, visto que a trama é bastante simples e até genérica. Mais uma vez se provou que o que importa não é a trama, mas sim a execução da mesma. E isso acontece quando um filme é tão objetivo como este, John Wick não perde tempo a mostrar como é que um personagem passa de A para B. Os realizadores confiam no público e não querem perder tempo, eles querem dar o máximo de ação e violência.

     A fotografia do filme é espetacular! É muito colorida e brilhante. Oscila entre várias cores bastantes vivas ou sujas, dependendo de quais elas são. As mais presentes são o cinzento, o azul, o roxo e o preto. Há uma cena espetacular feita com sépia em que o John Wick vai apenas fazer umas derrapagens e a atmosfera lembra um western. Aliás, há vários elementos aqui que lembram westerns.

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     A primeira vez que vi, pensei que fosse baseado numa graphic novel, é essa a impressão que o filme dá. Algo que eu gostei muito é que, durante as cenas de ação, quando os seguranças russos comunicam entre si, as legendas em inglês aparecem espalhadas pelo ecrã e com diferentes cores. É original e muito bonito.

     Algo que me interessou bastante foi a forma como o mundo dos criminosos foi desmistificado. Aquele hotel e aquele bar está cheio de assassinos a conviverem. É muito curioso, é uma sociedade na qual ninguém pode “resolver” nem falar de “negócios”. Eu gostei, é uma maneira única de ver este mundo, já que a história em si não sai muito do convencional. E é com o Lance Reddick que o filme acha as suas cenas mais soft e engraçadas. Eu gostei muito dele, foi uma ótima escolha para tornar o tom mais leve.

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     A música é outro elemento espetacular. O melhor tema consiste numa guitarra elétrica bem pesada, diria até suavemente agressiva, complementada com uma percussão numa fusão com eletrónica … Uau! Mas um momento que eu não esperava era a cena da discoteca. Assim que o John Wick começa a matar todos os seguranças, aquilo que julgava que ia ser uma música bem frenética e agitada, foi na verdade uma melodia que mais parecia uma musica de embalar. Isso torna uma cena de homicídios numa coisa poética, não é algo que se veja muitas vezes. Isso torna o filme agradavelmente cínico, chegou-me a lembrar Guardians of the Galaxy, que tem uma cena semelhante.

     O Keanu Reeves nunca foi um ator com um alcance dramático muito grande, mas ele está ótimo aqui. Ele tem bons momentos dramáticos, mas é no silêncio e no tom monocórdico do personagem que este acha a sua voz. É um estudo de personagem é muito bom e o Keanu Reeves parece mesmo um hitman. E como um hitman, ele é extremamente inteligente e não desperdiça o seu tempo com ninguém. Ele mata os adversários com um tiro fácil na cabeça e avança para o próximo.

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     E por falar em hitman, a ação é espetacular, tanto os confrontos como as perseguições. O CGI é bom, mas é usado poucas vezes, e ainda bem. As lutas são muito bem coreografadas e usam muitos efeitos práticos. É minimalista, mas extremamente bem feito.

     O Michael Nyqvist (descanse em paz) é um ótimo antagonista! É uma pena que o ator tenha morrido recentemente, ele era realmente muito bom, não só aqui claro. Ele cria um vilão imprevisível, cínico e bastante apático. A maneira como o ator interpreta o texto torna o personagem agradavelmente temível e carismático de certa forma. Ao princípio ele é um vilão genérico (russo, forte, com barba, tatuado, etc.), mas felizmente essas coisas são esquecidas pelo seu enorme talento de ser mau, de ser realmente cruel.

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     O Willem Dafoe é bom ator, mas aqui é subutilizado, eu odeio ver talento desperdiçado. Aquele que podia ser um parceiro no crime do John Wick passou a ser quase um acessório. A morte dele foi de facto a sua melhor cena, foi aí que vimos a vontade do Willem Dafoe em assumir um papel mais importante. E já agora como é que ele sabia que a Ms. Perkins apareceria àquele exato momento? Foi ilógico.

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     Falando nela, a Adrianne Palicki também cumpriu o seu dever e teve uma boa morte, mesmo não sendo a personagem mais interessante. É um filme com boas mortes! De resto temos Ray Winstone e John Leguizamo, que mesmo aparecendo pouco, tiveram excelentes cenas!

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     John Wick é objetivo, minimalista, cínico, divertido, violento, enérgico e, o melhor de tudo, original. É um dos melhores filmes de ação da década e é um bom impulsionador de uma futura franchise (que até já começou). Espero que a sequela seja boa!

 

Nota: A-

The LEGO Batman Movie (Lego Batman: O Filme, 2017) - Crítica

     The LEGO Movie, de 2014, foi um dos filmes mais injustiçados nos Óscares. Para além de ser uma das animações mais originais do ano (e de nem ter sido nomeado), ainda nem o Óscar de Melhor Canção Original ganhou, sendo este o único prémio para o qual foi nomeado. Começo a achar que a Academia tem mesmo um problema. Será The LEGO Batman Movie igualmente bom? Vamos ver.

     Desta vez é-nos apresentado um Batman bem mais narcisista do que o costume, embora também muito solitário. Agora, ele deve aprender a trabalhar em equipa para derrotar o Joker de maneira a salvar Gotham mais uma vez.

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     A realização desta vez foi do Chris McKay, que foi supervisor de animação em The LEGO Movie. O guião e a história são mais uma vez da dupla Phil Lord e Christopher Miller. A meu ver, foram boas escolhas, o Chris McKay é realizador de televisão e o seu melhor trabalho é Robot Chicken: Star Wars Episode III, que é muito bom! Mesmo assim, não é uma realização com muita alma. É bastante competente, o filme é bom, mas parece que ele ficou o tempo inteiro atrás da realização do Phil Lord e do Christopher Miller. Sendo este o mesmo universo e alguns dos mesmos personagens, eu percebo que era difícil se distanciar muito do primeiro filme. Ele até se distancia, mas já vamos lá.

     O ponto mais forte do filme é o conjunto das cenas de ação e as cenas musicais típicas de animações. É um filme cheio de cor, cheio de energia e cheio de boa disposição. É também muito engraçado, o filme dá-nos uma piada atrás da outra e não para … não para mesmo! É um humor semelhante a Robot Chicken, é verdade, mas isso é bom. Começou imediatamente nos créditos inicias e é um humor que requer algum conhecimento do universo Batman, tanto do cinema como dos próprios comics. Tal como em Deadpool, por exemplo, há humor non-sense, humor referencial da cultura popular e, claro, um humor familiar, este filme vai agradar a toda a gente quase sem dúvida. Devido às inúmeras referências, é um filme de animação virado para adultos que gostam do Batman, mas sendo uma animação e tendo ação explosiva, as crianças também vão ter um prato cheio.

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     Porém, isso não quer dizer que o filme rejeita momentos mais sensíveis. Por vezes, vemos o lado mais pessoal e até ridículo do Batman, bem como a sua maneira de lidar com a solidão e com a necessidade de uma família e de amigos. Eu gostei de maior parte desses momentos, alguns são bem comoventes até. Mas alguns diálogos caíram para a infantilidade e para o sentimentalismo forçado, não resultou tão bem.

     Falando no Batman, o elenco é impecável! Por favor, não assistam a este filme no idioma nacional. Os nossos dobradores são bons, mas o filme não é português. Há dezenas de trabalhos de voice-acting que apenas funcionarão para quem entender as referências. Eu entendi maior parte delas, por isso, diverti-me.

     O Will Arnett não é o melhor Batman da história, mas é um dos melhores que já interpretou o personagem apenas com a voz. Ele acha um equilíbrio muito claro entre a rigidez do Cavaleiro das Trevas e a sensibilidade escondida do Bruce Wayne. Logo em The LEGO Movie deu vontade de ver um filme solo. Ainda bem que o Will Arnett não desiludiu.

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    O Rosario Dawson foi uma escolha acertada para a Barbara Gordon. Por acaso, ela é mais uma Barbara Gordon do que uma Batgirl. Ela é perspicaz, altiva e sabe lutar tão bem como o Batman. Instala-se um clima forte entre dois e as faíscas são grandes. Os atores têm bastante química. Houve apenas uma coisa que me incomodou. Mais para o final, ela reage de uma maneira esquisita. Ela conhece uma personagem há coisa de 5 minutos e chora por ele quando há um maior momento de tensão. Não vou dizer o que acontece, mas foi ilógico.

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   O Michael Cera está hilariante como o Robin! O próprio ator tem a personalidade ideal para conduzir um personagem como este. A vulnerabilidade, a admiração pelo Batman e o fascínio pela sua nova vida e jornada, são todas emoções muito bem passadas. No entanto, a burrice dele foi exagerada. Há um detalhe que ele não se apercebe durante toda a história e achei isso um pouco ridículo. Ninguém é assim tão cego.

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     O Ralph Fiennes foi definitivamente a escolha perfeita para o Alfred! Acho que não vou conseguir pensar num ator de voz melhor para esse personagem nos próximos anos. Não havia que enganar, o Ralph Fiennes era o ator certo.

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    E o Zach Galifianakis até pode não ser o primeiro ator que nos vem à cabeça quando se fala no Joker, mas mesmo assim é inegável dizer que ele fez um ótimo trabalho. Não é tão descontrolado ou carismático como o Mark Hamill, mas, quem é?

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     Eu falei antes que o filme foi, por vezes, um pouco ilógico. Eu adoro humor non-sense, é um dos que mais me faz rir, mas houve coisas que não deviam ter mesmo acontecido. Por exemplo, uma vez o Batman vem disparado de um sítio e faz uma “ferramenta” em 30 segundos. Não faz sentido, uma coisa daquela nunca podia ter sido feita naquele instante. Eu gosto de lógica. Felizmente, algo tão absurdo como aquilo não voltou a acontecer.

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   The LEGO Batman Movie é divertido, engraçado, enérgico, lindamente animado e conta com músicas espetaculares! Tem algumas coisas que não o permitiram ser perfeito, mas enquanto fizer rir o seu público, é uma excelente comédia.

 

Nota: B

Split (Fragmentado, 2017) - Crítica

     Eu adoro o filme Unbreakable, é um dos meus preferidos … tipo, da vida. Chega-me aos ouvidos que Split partilhava o mesmo universo. Foi quase impossível não me distanciar da ideia de poder ver o David Dunn ou o Elijah Price novamente, mas tudo bem, tive de baixar um bocado as expectativas porque este filme é bem diferente. Era isso, ou podia me dececionar a valer. Vamos lá!

     Três raparigas são raptadas por Kevin, um homem diagnosticado com transtorno dissociativo de identidade. A doença consiste num número de personalidades que vivem no seu corpo e que se manifestam voluntariamente. As jovens devem tentar escapar antes que uma nova personalidade perigosa surja e que ponha em risco as suas vidas.

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     O filme é escrito e realizado pelo M. Night Shyamalan, que realizou filmes extraordinários como The Sixth Sense e Unbreakable, ele é muito bom. Porém, é um dos maiores floppers dos últimos anos. Ultimamente as pessoas só o vêm como o desastrado que fez Lady in the Water, The Happening e The Last Airbender, por isso … temos aqui um caso especial. Eu acredito que um realizador com talento verdadeiro nunca desaprende a fazer cinema. É o seu caso.

     Coisa que as pessoas devem esquecer é que ambos os filmes partilham o mesmo universo cinematográfico. É verdade que há elementos de Unbreakable, mas se formos ver Split apenas com a intenção de ver novamente o David Dunn ou o Elijah Price, vamos nos dececionar e vamos perder um filmaço. É o mesmo caso dos filmes Cloverfield, de 2008, e 10 Cloverfield Lane, de 2016. Partilham o mesmo universo, mas são contados em diferentes perspetivas, apresentam novas personagens e temas, e têm um conflito completamente diferente, assim com uma narrativa pertencente a outro género. Por isso, calma.

     Os planos são os típicos do M. Night Shyamalan: close-ups na cara dos atores, contra-plongées, steady cam em cenas de conversa, assim como tracking shots complementados com planos sequência, que chegaram até a lembrar o Kubrick. Nada do que reclamar. Assim como o tom do filme. Tal como Unbreakable, o tom é pesado, mas ao invés de triste, é assustador. Porém, o filme consegue se beneficiar da mínima leveza das “transições” das personalidades do Kevin, que consegue gerar algumas cenas engraçadas. E isto leva-nos às interpretações.

     O James McAvoy está sensacional! É um trabalho agressivo e assustador. Não há muitas palavras que possam descrever esta interpretação. Ele adota todo o tipo de tiques para caracterizar as suas “personagens” e, logicamente, um comportamento e uma postura distintos para cada uma. O intenso esforço físico e a carga emocional são trabalhados de forma impecável. Há de tudo, uma voz diferente, uma expressão facial diferente, até os olhos são diferentes. Se tiverem dúvidas sobre ver o filme ou não, vejam simplesmente por ele, não é uma performance que se vê todos os dias. Como era de esperar, o único problema é que não há tempo para se explorar as 24 personalidades totalmente. Deve ter havido uma razão para o M. Night Shyamalan ter escolhido esse número, mas apenas 8 identidades vêm à tona. O facto de nem todas serem exploradas tem um propósito útil e eu não duvido que desenvolver tantas seja possível, eu não estou a questionar a ciência. Mas pelo bem do personagem, esse número devia ter sido reduzido.

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     A Anya Taylor-Joy também está ótima, não ao nível do James McAvoy claro, mas se a atriz continuar a fazer filmes de terror como este e se, no futuro, se mostrar mais versátil, provavelmente se tornará numa das minhas atrizes favoritas. Depois de The Witch, eu quero ver mais trabalhos dessa atriz. É muito bom ver personagens inteligentes em filmes de “terror”, especialmente quando estas têm o devido desenvolvimento.

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     A Haley Lu Richardson e a Jessica Sula estão bem, fazem cara de assustadas, movimentam a história, porém são performances esquecíveis e sem nada de especial. Elas apenas cumprem o seu papel. Houve só uma decisão que elas tomaram que me incomodou, não pela decisão em si, mas sim pelo momento da decisão, que podiam ter sido mais prévio.

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     A Betty Buckley impressionou-me quase de imediato. Ela convence muito facilmente como uma psiquiatra extremamente empenhada num paciente que parece desesperadamente desorientado. Ela percebe do que está a falar, basicamente é isso que faz toda a sua interpretação. Houve só um momento em que pensei que a personagem ia ser completamente desperdiçada, mas felizmente não foi o caso.

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     A fotografia é bem suja. O filme passa-se quase inteiro numa cave, mas nas cenas ou de flashback ou na sala da psiquiatra do Kevin, já há um ambiente bem banal, sem nunca evidenciar se está tudo bem ou não. Isto é, devido à presença do James McAvoy, há sempre uma sensação de que algo de errado se passa ali.

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     A música é também um fator essencial. É suja, parece uma orquestra estragada, até me fez lembrar de The Shining. Talvez não tão irritante, mas também assusta. Ah e está uma surpresa no final que vai satisfazer os fãs de Unbreakable. Desta vez, descaí-me eu sei.

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     Split é um fantástico thriller de terror e suspense sobrenatural que vai agradar aos fãs do M. Night Shyamalan que esperavam ver algo bom dele. Prova que o realizador não desaprendeu a fazer cinema. Quem quiser também um James McAvoy inspirado e a dar a melhor interpretação da sua carreira, também vai ficar bem servido.

 

Nota: A-

Unbreakable (O Protegido, 2000) - Crítica

     Hoje vi o filme Split, que estreou em fevereiro. Unbreakable foi lançado há 17 anos e é um dos meus filmes preferidos de sempre. Eu ainda pensei em esperar por 2020, quando o filme eventualmente faria 20 anos de existência. Mas 3 anos ainda demoram, juntando isso ao facto de eu querer fazer críticas de clássicos daqui para a frente. Aproveito para dizer que esta crítica terá spoilers. Já agora, porque não chamar ao filme "Inquebrável"? Ok, não interessa ... vamos a isto!

     David Dunn, um homem infeliz e cansado, é o único sobrevivente de um catastrófico acidente de comboio. Elijah Price, um estranho colecionador de bandas desenhadas, encontra-o e tenta convencê-lo que este é um super-herói.

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    O filme foi escrito e realizado pelo M. Night Shyamalan que, em 1999, surpreendeu o mundo com The Sixth Sense, ganhando assim aclamação imediata. Mesmo que a trama de Unbreakable seja um pouco bizarra para o ambiente em que decorre, maior parte das pessoas estava à espera de um novo The Sixth Sense. Claro que ficaram desiludidas. O twist final não foi satisfatório para algumas, e daí Unbreakable ser hoje um dos filmes mais underrated alguma vez feitos.

     O público também não sabia o que esperar. O marketing descrevia o filme com um thriller sobrenatural, tal como fora The Sixth Sense. Pois, na verdade Unbreakable deve ser considerado apenas como um filme de super-heróis, o mais original de sempre. O mais fascinante é que foi lançado há 17 anos, antes da explosão dos filmes de super-heróis, que hoje gera pelo menos 3 filmes por ano. Apenas Superman, de 1978, e Batman, de 1989, eram os grandes, mas estavam num canto, não conseguiam sair da sua própria sombra. Unbreakable é o tipo de filme que, se saísse nos dias de hoje, os críticos adorariam, iriam se sentir aliviados.

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     Logo na primeira cena, no nascimento do Elijah, sentimo-nos dentro da história quase de imediato. Confesso que esta é uma das cenas mais tristes e incómodas que vi na vida. O choro daquele bebé é horrivelmente desconfortável. À medida que o filme avança, é impossível não desenvolver empatia ou pena por ele. Graças à doença que o perturbou durante a vida inteira (Osteogénese imperfeita), foi muito fácil o filme também estender as suas ideias sobre infância, solidão e incompreensão. Realmente, 54 fraturas ósseas durante a vida é algo assustador. E este é apenas o 1º nível da doença.

     O Samuel L. Jackson pode não ter passado por um método elaboradíssimo de construção de personagem, mas desde cedo provou que é um dos atores mais talentosos, versáteis e empenhados de sempre. O Elijah Price é um dos personagens mais misteriosos e interessantes do cinema moderno. Tal como o David, este está também desesperado na sua busca por significado. Quem tiver interesse em questões de existencialismo, vai ter uma viagem enorme aqui. Somando essas questões ao tom sombrio e melancólico do filme, tudo se torna ainda mais delicioso. Ainda bem que Glass chega aos cinemas em 2019, eu quero o Elijah!

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     O David Dunn, ao contrário daquilo que podem esperar, não é um protagonista de Hollywood que luta contra os maus, ele é um homem completamente normal. Na primeira vez que vi o filme, desenvolvi logo uma pequena apatia com ele na cena do comboio. É aí que aprendemos muita coisa sobre ele. Vemo-lo a tirar o anel de noivado perante uma rapariga mais nova, a contar que já jogou futebol americano, que tem medo de água e outras coisas apenas através do seu olhar. Trata-se de um homem triste. Não faz o que gosta, não sabe o seu lugar no mundo, tem uma relação instável com a mulher e afastou-se do filho há algum tempo. Honestamente, eu acho que este é melhor trabalho dramático que o Bruce Willis já fez na vida. O Bruce Willis é o John McClane, sem dúvida, mas ultimamente o ator não tem feito grande coisa que o pusesse na ribalta de novo como ele merece. É um ator com muito para dar, mas que teve muito poucas oportunidades.

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     Vale também comentar as distinções entre o David e o Elijah, por exemplo, as cores que os rodeiam. Maior parte da roupa do David é um verde sujo, assim como a pintura da sua casa. Já o Elijah usa blazers estranhos “elásticos” e roxos. Da mesma maneira que tudo o que o envolve é estranho. A sua bengala de cristal, a sua casa, o seu escritório, aquela conversa com o cliente … tudo!

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     O Spencer Treat Clark está ótimo. Tendo desta vez mais câmaras apontadas para ele (depois de Gladiator, também em 2000) foi esta oportunidade que teve para mostrar o seu talento. Não chega a ser uma das grandes performances infantis, mas o personagem é também muito bom e consegue transmitir uma semelhante empatia e pena para o público. Vemos um rapaz que sente a falta do pai e quer se envolver na mesma jornada que ele, mesmo não tendo a maturidade suficiente.

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     A Robin Wright enquanto a Audrey, mesmo não sendo a personagem mais interessante do filme, cria também um vínculo que vem quase instantaneamente com a personagem. Facilmente torcemos por ela e queremos vê-la junta do David, queremos que eles se reconciliem.

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     A música do James Newton Howard é magistral. Eu gosto muito do John Williams, mas este sim foi a escolha perfeita para compor a música de Unbreakable. É tão triste e tão inspiradora ao mesmo tempo, dá vontade de a ouvir enquanto dormimos. É tão suave, tão sublime, tão perfeita!

     Depois de uma viagem tão fixe e tão surpreendente como esta, eis que chegamos à 2ª metade do filme. O David começa a duvidar do Elijah, uma crise familiar instala-se, este lembra-se que já se afogou e o perigo que a água representa para ele, o acidente de automóvel revela-se falso, e finalmente ele desenvolve os seus “poderes”. O seu poder resume-se ao instinto, um sentido completamente banal do ser humano. Visto desta forma, esta escolha do M. Night Shyamalan foi genial, aliás o ato final é genial. Desde a ida do David à estação de metro até ao salvamento daquela família sequestrada, Unbreakable torna-se na experiência cinematográfica mais inspiradora desde Rocky de 1976. Vemos o David finalmente salvar as pessoas, a fazer aquilo que deve fazer, aquilo pelo o qual veio ao mundo – salvar os restantes da Terra … tal como o Elijah disse. E adoro o facto de o cloke de segurança dele se torna a sua capa de super-herói.

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     É então que tudo parece correr bem para o protagonista. Ele livra-se da sua tristeza, reconcilia-se com a mulher e o filho e não podia estar mais satisfeito. É então que o grande twist, a grande reviravolta é revelada. Elijah Price/Mr. Glass é o responsável pelos recentes atos de terrorismo no mundo, ele é o vilão da banda desenhada. Algo que, se virmos bem, era a coisa mais previsível do filme inteiro. Numa banda desenhada, o vilão é o exato oposto do herói, sendo que os dois apenas partilham a mesma fraqueza. É uma sensação inexplicável, foi algo completamente inesperado para mim. Pensava eu que o M. Night Shyamalan não conseguia achar um final decente, e aí ele me dá algo inesquecível.

     Para não falar daquelas frases pré-créditos: “David Dunn led authorities to Limited Edition where evidence of three acts of terrorism was found.” e “Elijah Price is now in an institution for the criminally insane.”. Perfeito! À primeira vista, pareciam declarações de um filme baseado em factos reais e faz sentido. Tal como o Elijah disse anteriormente: “Os super-heróis existem e estão entre nós.”. Todos nós podemos escolher quem somos. Heróis ou Vilões.

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     Unbreakable é um filme monumental! É perfeito e discutivelmente um dos melhores do género de super-heróis e um dos melhores de sempre. É uma jóia do cinema hipster, realizado por um dos realizadores mais desprezados de Hollywood e mais à frente do seu tempo.

 

Nota: A+

Top 10 Melhores Filmes do Stanley Kubrick

     Voltei, e em grande! Depois de algum tempo sem escrever nada, decido fazer algo que quero levar para a frente com este blog - Tops 10. Seja de géneros, de performances ou, neste caso, de realizadores. Apenas agora acabei de assistir a todos os filmes de 2016 listados (que acabaram por ser no total 93), por isso, bons filmes como os sul-coreanos Goksung e Miljeong, e os de idioma inglês All the Way, Batman: The Killing JokePersonal Shopper e American Pastoral não vão ter crítica. Vou começar a fazer as críticas de 2017 que me restam, mas, por enquanto, vamos falar de um dos homens que exercia a sua profissão melhor que os outros e um dos grandes responsáveis por mudar o cinema. Stanley Kubrick!

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10º Lugar: The Killing (Um Roubo no Hipódromo, 1956)

     Provavelmente, este foi o filme que pôs definitivamente Stanley Kubrick no mapa. Mesmo não sendo perfeito, demonstrou a sua capacidade de, nunca esquecendo a importância da simplicidade na suas obras, contar uma história não muito complexa mas, claro, rica e bem construída. A pequena parceria entre o Kubrick e o Sterling Hayden contribui para a carreira de ambos e proporcionou filmes cada vez melhores.

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9º Lugar: Eyes Wide Shut (De Olhos Bem Fechados, 1999)

     Longo, preverso, surreal, e até um pouco assustador, a banda sonora da Jocelyn Pook ainda hoje me persegue. Foi neste tom que Kubrick decidiu acabar a carreira. Mesmo tendo morrido apenas 4 dias depois do lançamento sem nunca ter visto o produto final, o realizador considerava esta a sua melhor obra. Pode não ser tanto, pode não estar nos calcanhares das outras, mas, como todos os restantes filmes dele, merece ser visto (não por todos claro). Para não falar que quem gostar de um Tom Cruise ou de uma Nicole Kidman inspirados, no auge das suas carreiras e nas mãos de um realizador extremamente perfecionista, não há recomendação melhor.

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8º Lugar: The Shining (Shining, 1980)

     Por que é que este filme não teve o título igual ao original? Nunca vamos saber ... Pondo isso à parte, devemos considerar este filme de terror como um dos mais manhosos e importantes, sem me querer contradizer. A verdade é que, hoje, muitos cineastas de terror escolhem elementos de The Shining e maior parte deles são muito bem trabalhados. Outra verdade é que pouca gente gostou disto nos Anos 80. Não havia internet e era muito mais difícil perceber um filme destes. Depois de 2001: A Space Odyssey, este era o trabalho mais estranho de Kubrick. Mas se estivermos focados e empenhados, facilmente temos uma das experiências de terror mais gratificantes e diferentes da nossa vida. Somando isso à performance monumental do Jack Nicholson, que é uma das melhores alguma vez vistas, era impossível o ator fazer melhor do que aquilo.

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7º Lugar: Spartacus (1960)

     Vá lá, um título decente! Pode ser bem longo, mas aquelas 3 horas valem bem a pena, percebe-se isso facilmente quando 1 hora parece 15 minutos, quando isso acontece significa que aquilo vai ser bom! A pequena parceria do Kubrick com o Kirk Douglas pode ter acabado cedo demais devido às largas discussões no set e pela saturação dos dois um pelo outro, mas engana-se quem disser que não foi bom enquanto durou. Spartacus é um dos épicos mais épicos da História, qualquer filme atual do mesmo género deve muito a Spartacus. Gladiator é um dos meus filmes preferidos e deve muito. Ridley Scott até pode ter reanimado o gosto do público por batalhas e sangue, mas Kubrick criou-o. Esta carnificina serviria mais tarde para Quentin Tarantino se tornar um dos melhores da sua área e para, mais uma vez, Kubrick ser posto no topo.

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6º Lugar: Lolita (1962)

     A história pode ser incómoda para alguns, mas extremamente divertida para outros. Os personagens, os diálogos, os conflitos e a ansiedade fazem de Lolita um dos trabalhados mais diferentes do Kubrick. Depois de Spartacus, este decidiu voltar às origens e fazer um filme mais calmo, simples, mas não inferior. Para além de muito engraçado, foi também muito controverso e polémico, o que para os fâs do realizador provavelmente não foi novidade. O público constantemente vê-se numa posição em que acompanha um homem subtilmente desprezível, porém carismático e charmoso ao mesmo tempo, não há inquietação maior que essa, por vezes até nos sentimos mal connosco próprios. E o James Mason e a Sue Lyon dão um show de interpretação!

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5º Lugar: Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (Doutor Estranhoamor, 1964)

     É uma pena que este filme apenas tenha 1 hora e meia. Poderá haver comédia negra mais negra que esta? Se calhar não. De facto, é preciso o mínimo conhecimento histórico da Guerra Fria e do clima de inquietação e medo que andava no ar especialmente na América. Qualquer realizador olharia para esse clima e faria uma obra séria, amígua e "socialmente importante". Kubrick vai mais além e demonstra que o cinismo é uma das armas mais fortes da filosofia, principalmente quando aplicado no humor negro. O tom propositadamente sério torna o humor ainda melhor, as interpretações são espetaculares, os personagens são absurdamente engraçados, e há ainda um total à vontade do Kubrick no que toca a abordar determinados assuntos, só faz com que a minha admiração por ele seja maior. E o Peter Sellers, para além de nos brindar com uma das melhores performances de sempre, ainda nos dá três personagens hilariantes: Capt. Lionel Mandrake, President Merkin Muffley e, claro, Dr. Strangelove!

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4º Lugar: Full Metal Jacket (Nascido Para Matar, 1987)

     Trata-se de um filme bastante anti-guerra e o derradeiro grande último filme do mestre Kubrick, Eyes Wide Shut é bom, mas não tanto. Pode não ter tanta ação como outros do género, apesar do último ato provar quase imediatamente que o Kubrick sabe fazer tudo. Um último ato perturbador como aquele foi o ingrediente perfeito para o final. O filme é muito tenso, provocador e, claro, anti-guerra. Ele não se compromete a manifestar constantemente contra a insanidade que foi a Guerra do Vietname, ao invés disso, o filme resume-se a uma excelente sátira com momentos pesados sobre frequentar um ambiente de guerra e a desumanização dos soldados. A música "Hello Vietnam" do Johnny Wright é soberba e mostra isso perfeitamente. A ambiguidade das atitudes do Soldado Joker provam isso e essas dúvidas passam para o público muito rapidamente. Eu gosto de filmes de guerra e de filmes que me façam refletir, por isso eu gosto de Full Metal Jacket.

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3º Lugar: 2001: A Space Odyssey (2001: Odisseia no Espaço, 1968)

     Este sim foi feito para dividir opiniões. É um filme extremamente ambíguo sobre ciência, monólitos, evolução, morte e renascimento. Poderá haver retrato da humanidade mais honesto do que este? Esta sim é considerada a obra-prima do Kubrick, alguns cinéfilos podem-se chatear por 2001 não estar no 1º lugar. Verdade é que 2001: A Space Odyssey é, discutivelmente, o melhor filme de sempre, dependendo do gosto de cada pessoa. Pode até não ser o melhor, mas é um dos mais importantes já feitos. Talvez aquilo que melhor define o ser humano é o 1º capítulo. Quando o macaco se levanta com o osso, é para matar ... e depois ri-se. O ser humano é aquilo, o ser humano é naturalmente violento. Tal violência seria até mostrada noutras obras do Kubrick mais tarde, mas o que se destaca aqui não é a violência, mas sim os métodos inovadores de se fazer cinema: contar uma história apenas com imagens, detalhes absurdos, música clássica, planos impossíveis, um tom fúnebre e um ritmo que, mesmo arrastado por vezes, definido. É assim que se faz um filme!

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2º Lugar: Paths of Glory (Horizontes de Glória, 1957)

     Filmes de guerra são difíceis. Mais um bastante anti-guerra e um dos mais obscuros. Para um filme de guerra, é bem curto, talvez até demais, é essa a única fraqueza que eu encontro. Claramente foi um problema de orçamento, mas o importante aqui não é a sua duração, mas sim o seu significado, o seu impacto, especialmente quando foi lançado (nos primeiros anos da Guerra do Vietnam). O Kirk Douglas dá uma interpretação bem contida, interior e furiosamente reservada. É um homem que quer fazer o bem e salvar aqueles soldados, mas está no meio da hipocrisia, da injustiça e da maldade humana. Poucos filmes são tão fortes como este, poucos são aqueles que conseguem realmente passar a mensagem de que soldados são brinquedos pequenos e facilmente substituíveis. É um filme sem qualquer tipo de leveza, mas muito importante. Com apenas 28 anos, o Kubrick mostrou-se capaz de muito coisa.

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1º Lugar: A Clockwork Orange (Laranja Mecânica, 1971)

     Para mim, não podia ser diferente. Eu adoro dramas sociais e políticos, principalmente distopias como esta. Só que a cena é essa. Não há nenhum filme comparável a este. Mais uma vez, o Kubrick não teve qualquer reconhecimento nem da Academia nem de outras organizações no geral. The French Connection é muito bom, mas A Clockwork Orange está lá em cima. É mais poderoso, fascinante e socialmente importante. Não há como separar o Malcolm McDowell do Alex. Ele é Ele! O Alex é um dos personagens mais interessantes do cinema. Ele apresenta-se como o "humilde narrador" e acha um equilíbrio perfeito entre a comodidade da sua narração e a brutalidade das suas ações. Quando toda a gente começa-se a vingar dele, o público sente pena. Nós sentimos pena de um violador assassino. Como Kubrick, como?! O conceito da Terapia de Ludovico é algo, mesmo inútil até certo ponto, assustadoramente plausível na minha opinião, mas acho que independentemente das ideologias políticas de cada um, é possível todos nós termos um debate moral. Todos nós já pensamos o que seria se um homicida ou um violador fizesse mal aos nossos. O que eramos nós capazes de fazer? Qual seria o nosso limite? Vingança seria a coisa certa? Ou seria a coisa errada? Será que o governo deve castigar os criminosos? Os criminosos mais desumanos merecem ser torturados? É impossível não criar um debate! Por estas e outras, eu considero A Clockwork Orange uma pérola do cinema e o melhor filme do Stanley Kubrick!

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Menções Honrosas:

  • Barry Lyndon (1975)
  • Fear and Desire (1953)
  • Killer's Kiss (1955)

Kevin Hart: What Now? (2016) - Crítica

   Pode parecer que este filme não mereça uma crítica como as outras, só que comparando um filme de concerto/stand-up/documentário deste género com um, por exemplo, do Robin Williams não é fácil. O Kevin Hart teve uma ideia que me ajudou a querer ver este filme.

     O stand-up comedian Kevin Hart atua à frente de um público composto por 50 000 pessoas no Lincoln Financial Field em Filadélfia.

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     Portanto, o início trata-se de uma paródia dos filmes do James Bond. O humor chega até a parecer-se com o de Deadpool, aquele humor cheio de referências da cultura popular e absurdista. Mas claro, quem gosta do humor típico do Kevin Hart vai ter um prato cheio. Um humor típico dos negros americanos já não é novidade, são montes de atores que têm a mesma personalidade de humor principalmente no Saturday Night Live e hoje são prestigiados stand-up comedians ou atores de TV ou do cinema. O elenco reúne Halle Berry, Don Cheadle, Ed Helms e David Meunier, interpretando eles mesmos. Apenas não gostei do facto de o Ed Helms ser subutilizado, eu gosto do ator e acho que podiam ter feito muitas piadas com ele. Maior parte das piadas são non-sense, broncas, negras (algumas muito negras) e, claro, puramente Kevin Hart. As suas reações, expressões e gritos são hilariantes. Todas elas são excelentes e, mais uma vez, este homem prova que filmes de paródia conseguem ter piada e que podem ser muito bons. Apenas um momento da Halle Berry é que me incomodou um pouco, não por causa da atriz, mas por causa de uma ação sua que para mim não tinha qualquer propósito.

     As cenas de “ficção” foram realizadas pelo Tim Story e o espetáculo foi gravado pela Leslie Small, o que pouco importa, o que eles precisavam de fazer era apenas meter lá uma câmara. Para além do Kevin Hart, os responsáveis pelo guião (tanto na ficção como no stand-up) foram Harry Ratchford e Joey Wells. Mas obviamente, o filme é do Kevin Hart, sem discussão.

     São vários os temas do espetáculo: storytelling, relação do comediante com a mulher/filhos/pais, situações absurdas e, claro, sexo. Devo dizer que o Kevin Hart é um dos melhores performers americanos vivos. Realmente, quando um comediante é bom no cinema ou na TV, é ainda melhor num palco, é esse o berço de todos os humoristas, e onde todos se sentem mais confortáveis. Demorei também pouco tempo para perceber que o “humor americano”, se é que pode chamar assim, não é muito diferente do “humor tuga”. Claro que há diferenças, mas somos todos humanos, o que nos faz rir, normalmente, são sempre as mesmas situações.

     Apenas não gostei do final. Assim que o espetáculo acaba, a história “James Bond” no casino inicial continua, mas em vez de ter um final concreto, o Kevin Hart decidiu deixar aquilo aberto para retomar a sua tour mundial, ou seja, ele diz para a câmara que vai continuar a fazer stand-up comedy. Agora, se se puseram no compromisso de criar uma trama fictícia no início, mais valia acabá-la.

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     Kevin Hart: What Now? é um dos espetáculos de stand-up mais surpreendentes que vi na vida. Não esperava que o “humor americano” me fizesse rir tanto. Se alguma vez o Kevin Hart vier a Portugal, eu pagarei para vê-lo.

 

Nota: B+

Gold (Ouro, 2016) - Crítica

     Este filme foi um flop absoluto. Com um orçamento de 20 milhões de dólares, o que para Hollywood é baixíssimo, conseguiu fazer apenas pouco mais do que 11 milhões no mundo inteiro. E como se já não fosse mau, teve um rating de apenas 43% no Rotten Tomatoes. O filme não foi o melhor do ano, mas é bom o suficiente para não ser tão desprezado.

     Baseado no caso real de 1993, Kenny Wells, um explorador desesperado por um rasgo de sorte, decide começar uma busca por ouro na Indonésia com a ajuda de um geólogo, busca essa que originou mais tarde um dos maiores escândalos na bolsa.

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     O filme é realizado pelo Stephen Gaghan, e esta é apenas a sua terceira longa-metragem. Anteriormente ele realizou Syriana de 2005, que deu um Óscar ao George Clooney, mas também fez Abandon de 2002, um filme de terror considerado um wannabe de Fatal Attraction. Gold não é uma coisa nem outra. No início, parecia-me que ia ver uma imitação foleira de The Wolf of Wall Street, apenas num diferente contexto. Eu estava enganado. Não quer isso dizer que o filme é espetacular, na verdade está longe de ser um dos melhores de 2016. Mas ele surpreendeu-me pela positiva, ele mostra ter um formato típico desse género, mas ainda com uma história verídica o realizador consegue manter o filme constantemente interessante. O trabalho de câmara não tem muita identidade, mas funciona, não há muito que reclamar em relação a isso. Duas coisas que impressionaram foram mesmo a banda sonora e a fotografia.

     Primeiro a banda sonora é bastante complexa. Começa bem com uma orquestra com vários instrumentos de percussão, até típicos de filmes destes, mas lá para o final entram alguns temas de guitarra acústica e eu pensei “Boa!”, até porque um final daqueles precisava de algo para relaxar. E ainda conta com a música espetacular “Gold” cantada pelo magnífico Iggy Pop, composta por Danger Mouse, Daniel Pemberton e pelo próprio Stephen Gaghan.

     E a fotografia do Edward Elwist, que ganhou o Óscar por There Will Be Blood de 2007, mais uma vez é composta por uma palheta de cores que não se diferencia muito daquele tom meio dourado meio sujo, que se encaixa bem no contexto da história e também no ambiente da Indonésia, onde o calor passa para o público e até o suor e a chuva incomodam.

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     Agora claro, nem tudo é excelente. Há algo que pode funcionar ou pode fracassar muito facilmente neste género, a narração. Personagens como o Jordan Belfort, interpretado brilhantemente pelo Leonardo Dicaprio em The Wolf of Wall Street, é o narrador, mas o homem quase não leva isso a sério, e nesse caso resulta, é algo quase satírico. Neste caso, nem tanto. O Matthew McConaughey tem uma voz fixe, todo o mundo sabe isso, nem todas as mulheres gostam dele, mas as que gostam, gostam mesmo. A voz do ator é sedutoramente invejável para um homem. Mas isso não quer dizer que a narração será automaticamente ótima, pois o mais importante é o guião. Não que ele seja mau, mas há certas informações que seriam fáceis de entender se o público continuasse a ver o filme atentamente, há coisas que são desnecessárias de se estar constantemente a relatar. Como já disse, o guião não é mau, há diálogos muito bons, é um script com altos e baixos. Por exemplo, há uma discussão muito bem representada, o problema está na sua origem, e não naquilo que é discutido. O filme cai naquele erro de meter o protagonista a meter-se com uma mulher mais bonita do que a esposa. Quando a história continuou, nada disso se torna relevante, por isso mais vaia esse arco nem existir.

     Mas falando nele, o Matthew McConaughey dá mais uma vez uma performance que eleva a sua carreira. Dito isto não quero dizer que ele está melhor aqui do em Dallas Buyers Club, longe de mim dizer isso. Mas cada interpretação que ele vai dá na sua carreira permite ao ator nunca mais ser confundido com aquele antigo ator de rom coms. Ele está um pouco acima do peso, o trabalho de maquilhagem é também muito (o cabelo, os dentes e até as mãos). Para não falar que, para além de carismático, agitado, precipitado e muito bêbado, ele é até um pouco alucinado. Se alguém tiver dúvidas sobre ver este filme, veja apenas pelo Matthew McConaughey. É ele o responsável por o filme não ser pior.

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     O Édgar Ramírez acompanha bem a energia do Matthew McConaughey e mais uma vez mostra que é um ator com muito potencial e, mesmo já com 40 anos, ainda tem uma grande carreira futura. E claro, a sua química dos dois foi fundamental para a trama, especialmente a amizade que nasce entre os dois personagens.

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     Já a Bryce Dallas Howard, que é uma ótima atriz, fica reduzida à mulher do protagonista que discute com ele e que o deixa quando este “se porta mal”.

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     O Toby Kebbell é outro exemplo. 2016 foi o ano dele, Warcraft e A Monster Calls são ambas boas performances. Só que mesmo ele convencendo como um agente do FBI, é uma performance esquecível e sem aquele peso necessário.

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     De resto temos Corey Stoll e Craig T. Nelson, ambos bem como sempre, mas também sem muita coisa para fazer, pelo menos dão boas interpretações no pouco tempo que têm.

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     Gold beneficia-se principalmente pela sua história “original”, pelo seu ritmo cativante e pelo seu fator surpresa. Não evita desperdiçar algumas oportunidades de usar o seu elenco corretamente, mas o Matthew McConaughey permite que toda a experiência seja válida pela sua interpretação massivamente carismática.

 

Nota: B

I Am Not Your Negro (Não Sou o Teu Negro, 2016) - Crítica

    Esta crítica vai ser bem mais curta do que o habitual. Não é meu costume ver documentários, não é um género que me chame muito à atenção. Agora eu não podia ignorar um filme cujo narrador era Samuel L. Jackson e que foi massivamente elogiado e premiado em tudo o que era festival.

    Baseado no manuscrito de memórias inacabado Remember This House do escritor e crítico social James Baldwin, o filme aborda os pensamentos pessoais do autor sobre o racismo na América moderna e os ativistas Malcolm X, Martin Luther King Jr. e Medgar Evers.

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    Este deve ser muito provavelmente o segundo documentário completo que vejo na vida. Lembro-me de receber o DVD do Michael Jackson: The Life of an Icon. Devia ter uns 12 anos. Vi-o mais do que uma vez, mas sinceramente sempre achei o género um pouco chato. Na altura, ainda não percebia como funcionava verdadeiramente o cinema como uma forma de arte. Hoje, com 16, entendo a importância do conhecimento e da informação. Sempre mostrei interesse sobre o racismo, e procurava filmes que me ensinassem aquilo que eu precisava de saber, sem saber se era aquilo que queria. Hoje, depois de assistir a um filme fundamentalmente informativo, sinto-me enormemente inspirado e com a cabeça a fervilhar. Posso não incluir I Am Not Your Negro no meu Top 10 de 2016, mas adorei-o à mesma.

    O filme é realizado pelo haitiano Raoul Peck, cujo trabalho mais recente é The Young Karl Marx, que já estreou em 2017. Sendo ele, maior parte do tempo, um realizador de documentários, é difícil fazer uma análise muito complexa, mais uma vez digo, eu não sei avaliar um filme destes porque não faço ideia quais são os critérios. Sei que ele foi o responsável pela montagem dos clipes do James Baldwin e pela “supervisão” do manuscrito. Como uma enorme pesquisa, o filme funciona e muito bem. Agora, a meu ver, ele sobressai-se principalmente pela realidade, honestidade e temor das palavras.

    Primeiro, por ser um assunto interessante, eu estava dentro. Foi muito fácil ficar agarrado e escutar com atenção tudo o que era relatado. Os conflitos, as entrevistas e os discursos são muito fortes e cumprem o seu objetivo: fazer o público sentir-se mal com ele próprio, independentemente de ser racista ou não. Eu não acredito que preconceito e injustiças acabarão neste mundo, é simplesmente impossível. Por enquanto, a minha função não é escrever um texto 100% expositivo, se não nunca mais saíamos daqui. O importante é que as pessoas tenham uma real noção daquilo que é falado, pensando em reavaliar os seus conceitos de viver em sociedade.

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     A crítica social é fortemente seca, não há sequer um momento de leveza aqui e isso resulta. Visto que o assunto do racismo por vezes é ignorado para não gerar polémica, era necessário aparecer um realizador “sem papas na língua” capaz de dizer tudo aquilo que era necessário. É um filme brutalmente honesto, crítico, violento nas suas imagens e preocupante no seu material. Muitas vezes a humanidade tenta-se convencer que está tudo bem, quando nos dias de hoje ainda é preciso olharmos para dentro de nós e questionarmos as nossas verdadeiras ideologias. Mas falando daquilo que interessa, algo que eu gostei muito foi a contextualização do tema com o mercado de Hollywood e da televisão nas décadas 20-60. Marlon Brando, John Wayne, Audrey Hepburn, Bob Dylan, Charlton Heston, Gary Cooper e Joan Crawford aparecem, mas aqueles que interagem mais são Sidney Poitier e Harry Belafonte, e graças à sua evolução profissional, percebemos como o racismo facilmente afetou e afetará para sempre a cultura popular de cada geração.

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    Como qualquer outro filme, um documentário deve ser coerente. O filme segue a linha de tempo do Século XX enquanto mostra algumas imagens de eventos como a eleição do Obama, eventos importantíssimos. Houve apenas um conflito de 2014 colocado nos primeiros 20 minutos que apareceu um pouco do nada e acaba por não gerar muita discussão, foi só esse erro que impediu o filme de ser perfeito.

    Felizmente, o interesse está sempre aceso, tanto devido ao estilo visual original do filme, tanto graças à brilhante narração do Samuel L. Jackson, um homem que nunca desilude e que interpreta o guião de maneira ambas suave, acolhedora, cruel e seca. O próprio ator nasceu num determinado período da história e sabe daquilo que se aborda. Sente-se numa missão, tendo a consciência que não podia falhar para que este projeto não fracassasse.

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    I Am Not Your Negro desafia o público constantemente e pinta um retrato da sociedade tão seco, realista e violento como nenhum outro visto. Não tem medo de assumir o medo que os negros americanos sentem diariamente, sem se esquecer da importância das suas figuras políticas centrais. É curto, vale a pena e até pode não ser para todos, só que não é todos os dias que aparece um filme destes. "The story of the Negro in America is the story of America. It is not a pretty story ...".

 

Nota: A

A United Kingdom (Um Reino Unido, 2016) - Crítica

    Ava DuVernay, Mira Nair e agora Amma Asante. Dizem que a indústria cinematográfica continua a ser muito machista e racista. Estas três realizadoras de raças diferentes permitirão um dia que passe a existir uma Hollywood mais aberta e que produza menos whitewashing, esse é um sonho antigo.

    Baseado no livro Colour Bar da Susan Williams lançado em 2006, o filme passa-se em Londres, em 1947, e conta a história real do romance inter-racial entre a secretária inglesa Ruth e Seretse, o futuro rei da tribo de Bechuanalândia. Perante a situação política daquela era, os dois enfrentam as injustiças e preconceitos, lutando pelos seus direitos e contra o apartheid.

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    O filme é realizado pela Amma Asante e esta é apenas a sua terceira longa-metragem. Mais uma vez, surge uma realizadora não caucasiana com vontade de falar mais alto e desafiar os padrões normais de cinema. Mesmo caindo em algumas formulas típicas do género, ela consegue imprimir um estilo próprio, coisa que poucos realizadores conseguem fazer hoje em dia, ainda quando se consegue obter toda a informação do filme fazendo-se uma pequena pesquisa. A começar pela fotografia linda do Sam McCurdy, que cria um contraste ótimo entre as duas nações. Quando a ação decorre em Londres, o céu é escuro, encoberto e as ruas são insípida e sem muita vida. Já no sul de África, o ambiente é caloroso e acolhedor, concentrando-se nos tons sépia e amarelo, ajudado também pela iluminação quase toda natural. E os mesmos elogios podem ser feitos ao design de produção e ao guarda-roupa. Agora, a banda sonora, mesmo grandiosa, é esquecível, eu já não me lembro da melodia.

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    O filme tem uma estrutura habitual de 3 atos e o ritmo manteve-se constante e cativante. Apenas a partir do segundo ato é que os lapsos de tempo começam a ficar confusos. Nomeadamente em relação à gravidez da Ruth, em cerca de 25 minutos ela engravida e dá à luz. Nesse e noutros aspetos, o filme precisava de ser um pouco maior.

    Por exemplo, a química do casal não é má, aliás é muito natural e quase imediata, mas acho que aqueles primeiros encontros deviam ser prolongados. A realizadora está tão preocupada em não perder tempo que acaba por acelerar o pedido de casamento e os conflitos posteriores a ele. Mas falando nos conflitos, eu gostei muito do equilíbrio com que ela conseguiu manifestar os sentimentos das duas famílias. Nem a família da Ruth ou do Seretse são totalmente antagonizados, ambas as mentalidades de cada povo são muito realistas e o público consegue ver as duas faces da moeda, isto graças maioritariamente aos atores Vusi Kunene e Nicholas Lyndhurst, ambos muito bem.

    E agora sobre o elenco. O David Oyelowo continua a surpreender a cada filme que faz e mesmo que esta performance não seja tão boa como a que ele deu em Queen of Katwe de 2016, o ator está-se a tornar especialista em filmes biográficos sobre figuras importantíssimas na defesa dos direitos dos negros. O ator tem personalidade, bondade, carisma e uma simpatia quase imediata. No entanto, mesmo com a sua capacidade de elevar o material de qualquer projeto, ele sofreu um pouco devido ao guião.

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   Basicamente, há alguns bons momentos inspiradores e 3 discursos em grande escala, quando apenas 2 são realmente importantes. O discurso final foi previsível, uma decisão foi tomada no ultimo ato e o público já sabia o que o Seretse Khama ia dizer ao seu povo.

    A Rosamund Pike, embora que tenha um papel bem diferente do seu em Gone Girl, dá outro show. Facilmente se vê uma mulher triste pelo povo que a despreza e pela ausência do seu marido, principalmente quando esta se vê no meio de uma cultura completamente diferente e à qual não se consegue adaptar.

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    A Terry Pheto está também ótima, não chega a ser uma performance secundária que rouba cada cena, mas ela mostra uma preocupação e uma insegurança muito boas, nomeadamente quando está em cena com a Rosamund Pike.

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    O Jack Davenport, mesmo não se distanciado muito do seu papel como o Norrington na franchise Pirates of the Caribbean, incita o ódio e a maldade de forma muito eficiente, juntamente com o Tom Felton, que é pouco menos severo e cínico, mas também odiável.

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    Uma coisa que me incomoda quase sempre em filmes biográficos é, depois dos lapsos de tempo, é a “maquilhagem” usada durante o envelhecimento dos personagens. O filme decorre num período de cerca de 10 anos e os personagens não mudam absolutamente nada. Isso é chato e preguiçoso.

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    A United Kingdom, mesmo com alguns deslizes típicos do género biografia, consegue levar-se a sério e manter-se relevante mesmo nos dias de hoje. Fala sobre independência, liderança e pátria. Só que não é essa a história que está a ser contada. O que mais importa neste filme é percebemos que quando as pessoas se apaixonam, é importante não desprezar ou recusar essa relação, principalmente quando esta pode ser fundamental num movimento contra o racismo e contra o controlo excessivo que uma metrópole pode exercer sobre a sua colónia quando os seus motivos vão muito além daqueles que são declarados.

 

Nota: B

Malapata (2017) - Crítica

    O cinema nacional é inconsistente. Este ano, São Jorge superou todas as minhas expectativas, mas Jacinta apenas suportou a minha ideia de que é quase impossível afastar o formato das novelas do cinema. Comédias é o forte de Portugal, ou se calhar talvez não.

     Depois de ganhar a lotaria, dois colegas de trabalho têm o pior dia das suas vidas assim que se envolvem numa data de acontecimentos inesperados e lamentáveis.

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   O filme é escrito e realizado pelo Diogo Morgado, que apenas fez algumas curtas e é hoje conhecido internacionalmente por ter interpretado Jesus Cristo nas produções americanas The Bible e Son of God. Como ator, ele é muito bom. Como realizador, nem tanto. Nota-se que, mesmo com a sua filmografia, ainda tem muito a amadurecer como realizador. Rapidamente mostra as suas limitações tanto a criar uma história como a desenvolvê-la. Ele trabalha bem com uma câmara na mão e consegue criar um leve movimento sem cair no exagero de nunca parar quieto. Agora ele abusa das tomadas aéreas, eu percebo que todo o Algarve é um autêntico paraíso, mas chegava apenas uma montagem dessas, não cinco (pelo menos as que eu contei). Chega a parecer uma novela, a narrativa começa a ficar pobre porque o Diogo Morgado não acha outra maneira de passar da cena A para a cena B. Ao contrário de Patriots Day, por exemplo, a cidade não é a personagem principal. Pelo menos a fotografia ligeiramente alaranjada consegue captar as lindíssimas paisagens vivas e calorosas do Algarve.

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    A banda sonora é outro ponto fraco. Embora que haja uma boa música da Ana Malhoa, o resto resume-se a músicas tristes ou enérgicas, dependendo da situação. E isto leva-nos a outro ponto. O filme é uma comédia, o seu objetivo é fazer rir. Claro que o drama não é algo dispensável, mas há aqui cenas e conversas entre os dois protagonistas que são apenas ridículas, fazem rir quando é suposto nos comoverem, quem vir o filme perceberá.

     E isso desta vez, leva-nos ao guião que, mesmo não sendo mau, tem mais baixos do que propriamente altos. O filme é engraçado, o seu conceito geral é interessante, mas todo o potencial que podia originar uma das melhores comédias do ano, ainda por cima com dois dos grandes atores/humoristas portugueses da atualidade, mas tudo o que podia se fazer é ignorado e a partir do segundo ato o filme começa a cair em clichê atrás de clichê, lembrando os maus anos da trilogia Hangover, só que desta vez num diferente contexto. Os diálogos expositivos começam a aparecer, entram flashbacks desnecessários e a história, mesmo tomando um rumo inesperado e interessante, tem um twist que parece pertencer a outro filme. Resume-se à participação especial do Luís de Matos, uma aparição carismática e intrigante, embora que, no mínimo, esquisita. Eu adoro humor non-sense, mas o que aconteceu aqui nem comédia foi. Os escritores nem se deram ao trabalho de confiar no público para criar uma linha de pensamento e usar a lógica para descobrir a verdades sobre o mistério que se instala. Pegaram no Marco Horácio e fizeram-no dizer tudo aquilo que o espectador precisava de saber quando o personagem não devia saber o que se estava a passar, foi um dos piores momentos de exposição que vi na vida.

     E como em todo o guião fraco, há coincidências, acasos inacreditáveis, momentos convenientes e, claro, um final “feliz”.

    Felizmente o elenco, tanto o secundário como o principal, salva o filme de ser um fracasso. A química do duo principal é inegavelmente hilariante. O choque de personalidades, a discussão dos ideais e os desejos de cada um são palpáveis. E o mais importante é que todos as ações que eles tomam parecem reais, nesse casso os atores e o guião funcionam bem juntos. Todos nós nos podemos identificar, já todos imaginámos o que gostávamos de fazer se ganhássemos o Euromilhões.

     O Marco Horácio faz muito bem aquele papel do crominho incompreendido que apenas gostava que os seus dias fossem mais alegres e menos solitários. A crush que ele tem pela Luciana Abreu e o seu medo de se meter em problemas maiores são chaves muito engraçadas para cenas brilhantemente representadas.

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     O Rui Unas é charme, carisma e presença no seu máximo. O ator é um pouco como o Galo de Barcelos, não é? É um símbolo nacional! A verdade é que o seu personagem chega a lembrar um pouco o Tomané, na sua última novela. Ele é sabichão, precipitado, acelerado e é quem tem uma maior sede por dinheiro. Para mim foi o personagem mais divertido. Trabalhar com o Rui Unas é um sonho antigo.

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     O humor do Manuel Marques é impagável, é o ator que provavelmente melhor imita o sotaque algarvio por esse ecrã fora, além de a sua figura baixinha ser um extra alívio cómico mais que funcional.

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    O Diogo Morgado vinga-se na interpretação ao contrário do seu trabalho como realizador, ele é um homem misterioso, mas tem a sua elegância e um pouco de imponência.

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   O resto do elenco é esforçado e até foi bem escolhido, destaque também para as pequenas aparições de celebridades, que são igualmente divertidas. A Luciana Abreu mesmo não tendo muita personalidade ou camadas, está minimamente bem e pelo menos não incomoda. E o Mário Bomba teve uma curta aparição que eu gostei.

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     Malapata tem o seu valor de entretenimento, começa muito bem e tem dois protagonistas fortes. Mas não resiste a ir no caminho do previsível, formulaico e desinteressante, para além de desperdiçar aquela que podia ser uma grande comédia.

 

Nota: D+

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