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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

War Machine (Máquina de Guerra, 2017) - Crítica

     A Netflix já provou ser mais que capacitada para fazer boas sátiras sobre a sociedade americana. War Machine não é das melhores, mas com o carisma do Brad Pitt é difícil ficar insatisfeito.

    Baseado no livro de não-ficção The Operators, escrito por Michael Hastings e publicado em 2012, o filme acompanha o general americano Glen McMahon, que, em 2010, contra os inimigos e aliados, ambiciona uma operação de renovação no Afeganistão.

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     O filme foi escrito e realizado pelo australiano David Michôd, responsável por Animal Kingdom e The Rover, os quais eu nunca vi. Sendo esta apenas a sua terceira longa-metragem, é compreensível que este, mesmo com alguma experiência, ainda tenha dificuldade em adaptar material sobre uma história controversa. E mesmo o filme tendo problemas consideráveis, foi-lhe fácil se divertir com o guião ao mesmo tempo que conta uma história séria e relevante.

     Os nomes dos personagens foram todos alterados com exceção das figuras políticas mais conhecidas. Sendo assim, hoje vamos começar pelas interpretações. O Brad Pitt nunca teve dificuldade em interpretar robustos e rígidos membros do exército, muito menos quando protagonista. Inglourious Basterds, Fury e Allied são ótimos exemplos do caso. Mas desta vez, é uma performance visualmente muito mais engraçada, o personagem comporta-se como um desenho animado e tem uma fisicalidade propositadamente risível, mas digna da sátira. Fora os aspetos físicos, o Brad Pitt demonstra facilmente o lado mais íntimo e conflituoso de um homem muito respeitado, embora que ainda pequeno e sem quase influência nenhuma.

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     E a sua figura é ostentada suavemente com a narração do Scoot McNairy, que consegue elaborar um estilo de narração quase de documentário enquanto explicita toda a ironia presente no guião. No entanto, há informações às quais eu facilmente podia reter e/ou que já tinha retido, acontece quando a narração se torna excessiva.

     O Ben Kingsley convenceu-me desde o início. Ele tem pouco tempo em cena, mas exemplifica perfeitamente aquilo que deve ser uma interpretação cómica de uma figura política. Nunca se viu uma “imitação” tão hilariante do Hamid Karzai. É o cinismo no seu auge!

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     Fora esses dois, o elenco é muito mal organizado. Um dos principais problemas é o enorme elenco e número de personagens. O grupo de oficiais é excessivamente grande, não dá para toda a gente se desenvolver. E por desenvolvimento não se entende uma narração apressada sobre cada um. Mesmo as interações do grupo sendo boas, se o mesmo fosse reduzido para 4 ou 5 membros seria muito mais fácil. Até porque o filme não precisava de 2 horas. Há demasiadas sub-plots. Se alguns arcos, personagens e cenas fossem excluídas, teríamos um filme muito mais sólido.

     Por exemplo, a Meg Tilly interpreta a mulher do general. Apesar de ser uma boa atriz, é desperdiçada e a personagem é completamente dispensável e chata. Eu nunca vi alguma utilidade na relação.

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     No entanto, há atores que surpreenderam com os pequenos momentos. A Tilda Swinton mostra numa cena o porquê de ser considerada uma das melhores character actresses.

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     O Will Poutler e o Lakeith Stanfield são uma boa dupla, embora raramente apareçam juntos. A liderança desesperada de um complementa-se com a coragem enfraquecida do outro. O retrato dos soldados é competente.

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     Dentro do grupo dos oficiais, o único que se destaca é o Anthony Michael Hall. É também uma performance raivosa e propositadamente afetada e exagerada. O personagem é um dos mais engraçados. Já Topher Grace, RJ Cyler, Anthony Hayes e muitos outros não me disseram nada.

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     Visualmente, o filme é impecável! A fotografia acastanhada típica dos filmes de guerra encaixa-se na perfeição com os diferentes cenários e atmosfera suja constante do filme. A banda sonora é muito interessante, há músicas completamente opostas àquilo que um realizador normalmente escolheria, mas aqui casam de maneira muito fluída com as montagens mais ágeis.

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     Outra coisa desnecessária foi o uso de um clipe original de um discurso do Obama. É assim … quando um filme decide (por questões evidentes) mudar os nomes das figuras desconhecidas intervenientes num período polémico da História, trata-se de uma situação compreensível. Claro que o Obama e outras personalidades políticas poderosíssimas da altura iriam ser referidas, uma vez que há uma enorme crítica ao governo americano, mas era preferível mostrar apenas o áudio, já que depois aparece um ator parecido com o Obama para contracenar com o Brad Pitt. Ás vezes, menos é mais. Mas tudo bem, esse não foi o maior dos problemas.

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     Como uma sátira social e política sobre a Guerra do Afeganistão, War Machine é uma boa escolha se quisermos aprender qualquer coisa. Maior parte do elenco é empenhado e o guião é inteligente e engraçado o suficiente. Mas personagens e sub-plots inúteis tornaram o filme inchado e desajudado por um ritmo muito problemático. A Netflix conseguia melhor.

 

Nota: B-

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To the Bone (2017) - Crítica

     A Netflix é muito boa! É verdade que aparecem, de vez em quando, umas coisas más por lá, mas a verdade é que há filmes ótimos. Ainda não consegui ver Beasts of No Nation, de 2015, o seu primeiro filme original, mas acredito que seja muito bom!

     Ellen, uma jovem anorética de 20 anos, é internada pela quinta vez numa casa destinada a acolher pessoas com distúrbios alimentares. No percurso, esta luta para vencer a depressão e se reencontrar.

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     O filme foi escrito e realizado pela Marti Noxon e este trata-se do seu primeiro grande trabalho no cinema, depois de trabalhar muito na televisão e de escrever o fraco I Am Number Four e o razoável Fright Night, ambos de 2011. Sou sincero, quantas mais mulheres tiverem a oportunidade de virarem realizadoras melhor. Verdade é que a indústria cinematográfica é ainda muito machista, pior ainda quando há assuntos que uma mulher pode tratar de maneira única. A impressão que dá é que To the Bone é uma obra bastante pessoal, há diálogos que não me disseram nada, embora eu tenha a certeza que há pessoas que se identificarão.

     To the Bone consegue ser engraçado quando é preciso e realista e honesto quando certas cenas pedem, a realizadora sabe aproveitar os momentos com um potencial cómico sem nunca se esquecer do drama. Na verdade, o filme não se chega a diferenciar muito do típico teen drama, mas há diferenças originais e significativas. A protagonista não é uma drama queen, os arcos com os personagens secundários não são apressados ou forçados e há cenas genuinamente incómodas.

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     O filme não explora a fundo os distúrbios alimentares no geral, nós sabemos apenas o necessário. O foco esteve muito mais nos danos emocionais causados na própria pessoa e naqueles que gostam dela, assim como a perspetiva de alguém que fala daquilo que não percebe. Existem algumas cenas em que a madrasta da Ellen tenta achar justificações para a anorexia dela e maior parte daquilo que diz é absurdo. Por outro lado, dei por mim a pensar “Há pessoas que pensam assim …”.

     Os diálogos são honestos e suavemente ágeis, não há aquela fluidez de insultos e provocações que costumamos ver nos filmes do John Hughes, o que acaba por dar mais realismo ao filme, embora que haja sempre uma vibe acolhedora e coerente, não houve de todo momentos aborrecidos ou arrastados. O filme tem uma fotografia azulada, capaz de transmitir uma frieza que acompanha bem a depressão da protagonista. Porém, há cenas mais quentes e acolhedoras que trazem um pouco de leveza bem-vinda.

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     A Lily Collins está fantástica! Sou sincero, nunca dei muita atenção à atriz, mas ela convenceu-me totalmente aqui e se continuar com performances destas vai me ganhar a mim e ao mundo. O que ela fez aqui não foi apenas uma transformação física brutal, ainda que olhar para aquela cara e corpo faça confusão. Como uma jovem deprimida, ela consegue perfeitamente expressar desprezo, sarcasmo e um desgaste ambos físico e psicológico. Ainda assim, o que mais me convenceu foi a sua tristeza, a sua desilusão consigo própria. Ela mostra-se completamente apática com todos, embora saiba que tudo o que está a acontecer deve-se a ela, sendo assim, existe uma enorme culpa para carregar às costas.

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     O Alex Sharp tem um enorme charme típico inglês. Demorou-me um bocado para apreciar totalmente o personagem. Felizmente à medida que este empurra cada vez mais a narrativa para a frente, torna-se agradável vê-lo junto a contracenar com a Lily Collins, destacando a ótima química da dupla. A relação que estes desenvolvem é, à primeira vista, estranha, mas depressa ganhamos afeto pelos dois e torcemos por eles.

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     O Keanu Reeves está ótimo como um médico com métodos pouco convencionais com vontade de ajudar a protagonista sem saber o que dizer em determinadas situações. Daí as suas cenas serem as que eu mais ansiava.

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     A Lili Taylor prova novamente que é uma das atrizes mais underrated dos dias de hoje. Não há uma má performance vinda dela. A sua participação não é tão grande quanto podia, mas esta tem uma cena no ato final que é … tocante, muito tocante!

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     E um pequeno destaque para a Liana Liberato, que interpreta uma rapariga destroçada por ser obrigada a assistir uma pessoa que ama a morrer lentamente. Ela tem igualmente uma única cena que me impressionou.

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     Pena é o grupo de pacientes e funcionários que vivem na casa não serem desenvolvidos da mesma maneira. Não é algo necessariamente mau, visto que não eram esses que mereciam destaque. Ainda assim, reduzir o número de personagens seria a solução. Inclusive, há uma cena que me incomodou um pouco. Trata-se de um passeio do grupo a uma espécie de museu que, mesmo sendo visualmente bonita graças ao trabalho musical e de iluminação, caiu na falta de lógica e no mau CGI. Os personagens ficam debaixo de uma chuva artificial e praticamente não ficam molhados.

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     To the Bone é um retrato realista, honesto e, por vezes, incómodo sobre a luta individual contra os distúrbios alimentares e um ótimo estudo da sua protagonista, oferecendo um material constantemente elevado pela sua atriz principal.

 

Nota: A-

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Okja (2017) - Crítica

     Quando o Gangnam Style saiu, em 2012, lembro-me de ver o Obama a afirmar que a América e o mundo inteiro só tinham a ganhar ao se familiarizar com a cultura sul-coreana. Verdade seja dita, o cinema é um bom exemplo!

     Mija, uma pequena aldeã sul-coreana que toda a vida viveu com uma superporca chamada Okja, vê-se obrigada a sair do seu país e ir para New York para salvar a amiga de uma organização multinacional, enquanto é involuntariamente envolvida numa missão de um grupo ativista.

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     O filme foi escrito e realizado pelo Joon-ho Bong, que fez o ótimo Snowpiercer, de 2013. Como acontece com maior parte dos bons filmes originais da Netflix, este consegue ser simultaneamente satírico, relevante e tocante. Okja aborda um tema pouco explorado no cinema atual: a industrialização moderna americana, a sua falsa propaganda envolvendo a Natureza e os perigos que esta implica. Nesse aspeto, o filme é bastante realista e consequentemente muito preocupante, chocante e revoltante.

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     Claro que não há apenas esse comentário a oferecer. No meio de todo o ótimo comentário social e político, está uma belíssima amizade com momentos genuinamente comoventes. A Seo-hyun Ahn dá uma performance muito verdadeira, a jovem atriz faz um ótimo trabalho ao desenvolver uma criança resmungona e determinada, mas amedrontada com um mundo que não conhece.

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     A Okja é uma personagem linda. Para além de ter uma fisicalidade impressionante e uns olhos adoráveis, é um animal bastante inteligente e, graças ao seu sentido apurador de um perigo próximo, várias situações tornam-se mais aflitivas. Para além disso, o CGI do animal (assim como o geral) é praticamente irreconhecível. Este é o maior elogio que se pode dar. Mesmo sabendo que este animal não existe, torna-se credível a cada segundo.

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     O Hee-bong Byun, senão empurra a história para a frente, está bem como um avô inocente e meigo que apenas quer a segurança da neta enquanto carrega a enorme responsabilidade de tomar conta dela e protegê-la.

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     A fotografia do Darius Khondji, que trabalhou em Se7en, do David Fincher, é mais que memorável. É verdade que o contraste visual frequentemente visto entre uma aldeia sossegada e uma superpotência mundial capitalista não é algo novo. Mas verdade é que tal contraste é bem feito. Enquanto, no primeiro ato, a aldeia exibe cores vivas e alegres, a cidade de New York representa uma sociedade mais distante e fria.

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     Falando no resto das interpretações, a Tilda Swinton roubou todas as suas cenas. Há uma sociopatia ligeira no seu carismático e divertido discurso, mesmo que o público consiga manter uma distância entre si e ela, já que as suas ações são mais que odiáveis, narcisistas e egoístas. Ao contrário de outras atrizes, ela é ótima a encarnar personagens distintas de uma maneira imediata e abrupta, apenas vejam o filme e vão perceber do que falo. Discutivelmente, a melhor performance do filme.

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     Eu tive bastantes dúvidas sobre o Jake Gyllenhaal. É uma performance minimamente carismática e o personagem não deixa de ser divertido. Mas houve momentos incómodos, exagerados e afetados. Se o personagem que vemos fosse apenas a persona pública do próprio personagem, o ator teria dado uma interpretação mais credível. Custa-me até a dizer isto, ele é um dos meus atores preferidos.

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     O Paul Dano está a criar uma carreira invejável. É simultaneamente um dos atores mais subvalorizados dos dias de hoje enquanto dá excelentes performances uma atrás da outra. Acredito que um dia ainda ganhe um Óscar. Este papel, na verdade, não vai além dos seus em There Will Be Blood ou em Swiss Army Man, mas é um personagem misterioso, com segundas intenções, passivo-agressivo, que funciona lindamente com o charme do ator.

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     E um pequeno destaque os A.L.F., a organização de ativistas. O elenco funciona e convence como um grupo, as interações e provocações entre os membros são divertidas e igualmente interessantes. Apesar disso, a sua cena de introdução envolveu exposição demais, há informação à qual o público já havia alcançado anteriormente.

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     Porém, não se vê grande utilidade no personagem do Giancarlo Espocito. O ator é um monstro da televisão americana, mas incluí-lo foi uma má decisão. Eu vi um Gustavo Fring ainda mais suave e, apesar da sua enorme capacidade de ter presença em cena, nota-se uma ligeira desorientação.

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     A banda sonora trata-se do debut da Jemma Burns e do Jaeil Jung. Fiquei até na dúvida se não era o Gustavo Santaolalla, o compositor da melodia espetacular de Brokeback Mountain, devido ao tom bastante parecido. Parece que não, o trabalho dos novos compositores, apesar de pegar algumas coisas emprestadas não deixa de ser agradável e melodioso. Destaque para a escolha de músicas alegres usadas em sequências de fuga. Há um tom meio slapstick nas cenas mais frenéticas que acaba por ser positivamente tolo, mas uma tolice que funciona.

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     Ainda com alguns erros envolvendo personagens e o guião, Okja é uma obra linda, comovente, relevante e com um forte comentário a fazer sobre o consumo e os maus tratos a animais.

 

Nota: B+

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Lady Macbeth (2017) - Crítica

     Para falar a verdade, eu estava com preguiça de escrever sobre este filme, só que comecei a pensar que os melhores filmes que vejo num ano são aqueles que merecem mais destaque no blog. Já lá vai um tempo desde que o vi, mas o que me ficou gravado na memória servirá perfeitamente. Vamos a isto!

   Baseado no livro Lady Macbeth of the Mtsensk District, escrito pelo russo Nicolai Leskov e publicado em 1865, o filme decorre na Inglaterra e conta a história de Katherine, uma jovem da nobreza recém-casada que, depois de longos períodos de tédio e de maus tratos causados pelos horrorosos sogro e marido, desenvolve um desejo de revolta depois de se envolver com um trabalhador negro.

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     Trata-se do directorial debut do William Oldroyd, que realizou apenas 3 curtas até agora. O principal foco dele esteve nas expectativas criadas em cima da mulher numa Europa no século XIX e no seu posterior desagrado e desprezo pela sua rotina e pelas pessoas que a rodeiam. O que ele fez aqui foi extraordinário! O seu estilo lembra algo que o Hitchcock faria. Lady Macbeth foi provavelmente a maior surpresa que tive este ano. Sou sincero, nunca li nada da obra original de Macbeth, do Shakespeare, sei apenas o necessário para ficar ciente que o filme envolveria comparações, homicídio e um desenvolvimento de personagem riquíssimo (supostamente).

     E tenho de tirar o chapéu ao realizador e ao elenco, Lady Macbeth é um filme espetacular. Talvez o orçamento de apenas 500 mil libras, não permitiu ao William Oldroyd fazer uma obra mais longa ou visualmente rica. Ainda assim, a estética não foi um problema. Todos os aspetos estéticos foram dignos dos filmes britânicos sobre o século XIX. Coisas como o guarda-roupa, cenários e os pequenos objetos, mesmo não tão atentos a detalhes, são coloridos e visualmente suaves.

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     A fotografia da Ari Wegner é uma cereja no topo do bolo. Em termos de cores, lembrou-me bastante o extraordinário Ah-ga-ssi, de 2016. É uma composição fria e insípida, mas não menos incolor, há uma vivacidade nas cores primárias, sem nunca parecer um filme feliz. E isso leva-nos ao tom, o filme não é um dos mais pesados que já vi, mas tem diálogos e cenas fortes, incluindo cenas de sexo explícitas, mesmo nunca apelar ao erotismo barato. O que mais me agradou foi o humor do filme, há momentos muito engraçados. Claro que não é aquela comédia do Seth Rogen nem nada parecido, muitos desses momentos estão escondidos, mérito do guião da Alice Birch e do trabalho da atriz principal. Graças às duas, há acontecimentos que não precisam de ser dialogados, essa função passa para o público.

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     Falando nela, a Florence Pugh está sensacional! Para além de ser uma performance digna de todos os prémios, é ainda uma das interpretações mais difíceis de desmistificar deste ano. Posso até estar a contradizer o que já disse, mas a personagem é imprevisível, mesmo que o público saiba quais são as suas intenções. Os olhares de desprezo e ódio pelas pessoas são deliciosamente engraçados, há muitos momentos em que a personagem se contém para ficar séria durante uma discussão e a empatia entre ela e o público cresce instantaneamente. E mesmo perante os atos horrendos que esta comete, o público nunca deixa de sentir um investimento emocional nela. Queremos ver a protagonista a conseguir o que quer, sabendo que o que esta quer é errado. Lembrou-me bastante a Isabelle Huppert em Elle, de 2016, apesar de os níveis de maturidade das atrizes serem bastante diferentes. Mas isso não tira o mérito à Florence Pugh, é a minha performance feminina preferida do ano até aqui!

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     Quanto aos personagens secundários, há altos e baixos. A personagem mais moralmente correta é a Anna, a trabalhadora negra, interpretada pela Naomi Ackie. Ela tem pouquíssimos diálogos e é obrigada a usar apenas a expressão facial depois de um acontecimento bem específico que lhe tira a fala. Dito isso, a atriz é boa e é a única que se safa ao lado da Florence Pugh, já que toda gente some ao lado dela. Mesmo assim, a personagem é interessante e tem camadas.

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     Já o Cosmo Jarvis, mesmo tendo carisma, não recebeu um personagem muito bem escrito. Ele interpreta o Sebastian, o amante da Katherine. O que ele é supostamente capaz de fazer fica confuso. No início vemo-lo a tentar violar uma mulher em grupo, embora ele se revele incapaz de cometer atos igualmente ou mais horrendos. Visto que é um personagem importante, falta coerência.

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     A banda sonora do Dan Jones é usada em vários momentos, mas raramente é memorável.  Apenas no ato final, quando várias personagens metem as cartas na mesa e a conclusão achada é fantástica, é que a melodia se torna indispensável. O final é daqueles, é um final que fica connosco.

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     Lady Macbeth é um filme sincero no que toca à construção da sua personagem principal e aos temas centrais abordados. Como um retrato da vida de uma mulher da nobreza, funciona, como um thriller psicológico, também. Tem na sua interpretação central a sua arma mais forte e é delicado, elegante, mas simultaneamente bruto, inesperado e gratificante.

 

Nota: A

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The Zookeeper's Wife (O Jardim da Esperança, 2017) - Crítica

     No que diz respeito a traduzir títulos estrangeiros, Portugal safa-se melhor que o Brasil. Esta foi uma inesperada exceção. No Brasil, este filme virou O Zoológico de Varsóvia. Em Portugal, O Jardim da Esperança. Enfim …

    Baseado no livro homónimo de não-ficção escrito por Diane Ackerman, publicado em 2007, o filme conta a história do casal de zoólogos Jan e Antonina Żabiński que, em 1939, durante plena invasão alemã na Polónia, decidiu ajudar e esconder judeus na sua cave.

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   O filme foi realizado pela neozelandesa Niki Caro, cuja filmografia eu desconheço completamente. Este foi um dos variados filmes deste ano que apenas não me deram uma vibe suficientemente boa para escrever sobre eles. Muitas outras críticas foram dispensadas, como The Dark Tower, The Hitman’s Bodyguard e Wakefield. Eu estava mais ou menos à espera deste filme, tanto pela história como pelo elenco. O que vi não passou de um drama de guerra pouco profundo e pouco corajoso.

     No que diz respeito a movimento de câmara, diálogos e ritmo, a realizadora mais parece uma fazendeira de televisão de um canal de história. Não há uma identidade, não há praticamente nada que me faça lembrar dela no futuro, o que é bem dececionante quando se tem uma história com tanto potencial. Ainda assim, há muito que se apreciar. A fotografia do Andrij Parekh (que trabalhou em Blue Valentine) começa por ser composta por cores vivas, durante o período “alegre”, e durante a invasão alemã, torna-se embaciada e pinta uma Varsóvia triste com tons mortos acastanhados. E esta, quando casada com o ótimo guarda-roupa, recria a década de 40 na perfeição. Já a banda sonora é completamente esquecível.

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     Algo que chateia em biopics americanas passadas noutros países é o facto de o idioma nunca estar definido. Falar inglês com um ligeiro sotaque polaco? Tudo bem. Agora, soltar de vez em quando palavras de uma língua estrangeira é foleiro. Ainda por mais quando os polacos falam inglês entre si e os alemães falam alemão. O filme seria muito melhor se fosse polaco e não americano.

     Há muitas coisas que a realizadora precisa de ter em atenção. A impressão que dá é que esta leu o guião à pressa. Há diálogos que tentam ser poéticos, mas acabam por ser superficiais e, por vezes, risíveis. Por outro lado, o guião consegue escrever certos momentos de tensão que acabam por resultar. Alguns rostos de judeus começam a ganhar importância e todas as vezes que estes saem do esconderijo, há sempre uma inquietação e dúvida no ar devido àquela sensação de que tudo pode correr mal. É um guião com altos e baixos.

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     Uma das muitas ofertas aqui é o triângulo amoroso formado pelo casal central e pelo zoólogo alemão. Filmes sobre judeus escondidos já foram feitos vezes sem conta. Eu estava verdadeiramente interessado no triângulo amoroso, era a oportunidade de fazer algo diferente. Ainda assim, tudo parece um arco de uma comédia romântica levada para um drama de guerra. Os atores são dedicados, mas o desenvolvimento da sub-plot nunca me satisfez o suficiente, provavelmente devido ao facto de a realizadora também não saber o que fazer com ele. Tudo se resume em olhares, conversas e discussões mesquinhas, das quais apenas uma delas é impactante.

     A Jessica Chastain salva o filme, parece que esta se está a tornar numa das minhas atrizes preferidas. Pode parecer o contrário, mas é uma interpretação bem diferente do histórico dessa atriz. Houve momentos em que a performance me parecia demasiado familiar e afetada, contudo rapidamente me apercebi que toda aquela parvoíce e ingenuidade da personagem fazia parte do seu desenvolvimento. É, de facto, uma mulher aparvalhada, inocente, psicologicamente desequilibrada e, ainda assim, sofrida. Mérito da atriz! E algo muito verdadeiro que ela consegue transmitir é o seu amor e carinho tanto pelas pessoas como pelos animais, gerando momentos bastante ternurentos.

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     O Johan Heldenbergh foi uma surpresa. Eu estava à espera que o marido da protagonista fosse completamente subutilizado e esquecido. Ainda assim, ele revela-se um personagem muito mais importante do que parece, graças ao processo pelo qual o personagem é obrigado a passar.

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     O Daniel Brühl é um bom ator, mas o personagem foi claramente reduzido àquele estereótipo fácil do alemão forçado a se tornar nazi, que eventualmente não consegue cumprir as ordens porque não é um alemão malvado. De certa maneira, o personagem é odiável, há atitudes às quais e senti repúdio por ele. No entanto, essas atitudes são repentinas demais, o seu conflito interno não recebe o tratamento profundo que merecia. Eu estava muito mais interessado nele do que nos judeus. Todos nós sabemos que, em filmes como este, os judeus safam-se no fim da história.

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     Quanto aos judeus, não há muito para comentar, há crianças perturbadas e adultos desesperados pelos filhos. Como já disse, há algumas caras que ganham protagonismo, mas nada mais é explorado, o que foi uma decisão correta.

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     The Zookeeper’s Wife deve satisfazer a quem quer ver um drama de guerra e aumentar a sua cultura sobre a 2ª Guerra Mundial. As performances centrais são boas, os aspetos técnicos são impressionantes, mas o filme, mesmo não sendo mau, é esquecível.

 

Nota: B-

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Índice Médio de Felicidade (2017) - Crítica

     O cinema nacional é uma montanha russa, por vezes temos a rara sorte de encontrar uma jóia do mercado independente, por vezes o filme com o maior orçamento consegue ser o mais dececionante.

     Baseado no livro homónimo escrito por David Machado, publicado em 2013, o filme começa em Lisboa, em 2012, e relata a luta individual de Daniel contra o desemprego. Meses passam e este decide começar uma viagem pela estrada com os filhos e amigos, em busca de reavaliar os seus conceitos de felicidade.

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    Trata-se de mais um trabalho do Joaquim Leitão, responsável por filmes como Tentação, de 1997, e Inferno, de 1999. Não posso cometar muito sobre a sua filmografia, visto que, fora estes dois trabalhos referidos, não conheço a sua filmografia. Na verdade, para quê comentar? Ao sair do cinema deparei-me com esta reflexão sobre o cinema nacional. Não é que os produtos sejam todos maus, simplesmente há muita (aliás, demasiada) mão das televisões nos filmes portugueses. Constantemente, vemos conceitos promissores mal aproveitados. São raras as exceções, mas parece que maior parte dos filmes nacionais levam uma enorme carga de diálogos e personagens criados por um José Eduardo Moniz. É triste saber que a escola de alguns cineastas são as novelas ou outros trabalhos que estas bem-ditas estações televisas nos oferecem. Pode nem ser o caso do Joaquim Leitão, mas por favor digam-me, porque é que querem tirar cursos de cinema se depois apenas adaptam o lixo televisivo para a grande tela? Enfim …

     Mas temos sorte que o filme não é horroroso. A fotografia é provavelmente o melhor elemento técnico. Há uma frieza nas primeiras cenas que evidencia tanto a situação do protagonista assim como a própria ambientação da sua cidade. A partir da segunda metade, o filme torna-se mais quente, mais acolhedor e caloroso, graças ao ótimo tom de cores vivas com um leve traço de sépia. Graças à ótima fotografia, há alguns planos abertos que estão entre os mais bonitos que eu vi num road movie, durante a estadia dos personagens em Espanha. Não faço ideia como é que o Luís Branquinho conseguiu capturar certas imagens paras as transições da viagem. A música por outro lado é irreconhecível. Na sala de cinema nunca me lembrava de lhe prestar atenção e nem me consigo lembrar da melodia agora. Talvez o melhor momento musical foi a inclusão dos Xutos & Pontapés nos créditos finais.

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     O grande problema aqui foi uma desconcentração no seu tema principal. A oferta que foi feita foi uma história sobre a luta individual de um homem de família contra o desemprego e sobre a sua seguinte viagem com os filhos numa caravana, viagem essa que lhes transmitiria bons valores, mais ou menos o que o Matt Ross fez em Captain Fantastic, de 2016. O estudo sobre a luta contra o desemprego é bem feito, assim como o estudo do próprio protagonista. Mas quando o filme se devia focar apenas nisso na primeira metade, tenta também falar de delinquência e criminalidade juvenil, bullying e até de agorafobia. Todos esses arcos podiam ser retirados, isso daria origem a um filme muito mais sólido e menos bagunçado.

     Os diálogos não estão entre os piores do cinema nacional, há algumas cenas com frases muito verdadeiras, principalmente quando dois personagens discutem. Mas parece que ninguém consegue fazer um filme onde os diálogos não são excessivamente expositivos. Há diálogos bem artificias, piegas e óbvios. Não há espaço para ambiguidade. E isso leva-nos à narração interminável. Não que a voz do Marco D’Almeida seja má, simplesmente uma boa narração não é sinónimo de uma narração expositiva. O seu único propósito é explicar tudo o que se está a passar, visto que o público é aparentemente idiota e não é capaz de pensar sozinho, sobretudo numa narrativa com flashbacks. Há até cenas que têm muito potencial e, de repente, são interrompidas e eventualmente estragadas por uma narração chata. Supostamente o protagonista dirige-se a um amigo que está na prisão, a narração é uma carta supostamente. O mais frustrante é que não aprendemos nada sobre esse amigo. O Almodôvar é um recetor da narração, não é um personagem.

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     O Marco D’Almeida é a melhor peça do elenco. Como maior parte do tempo é preenchido apenas por ele, era necessário um ator com muito carisma e presença. É de facto uma ótima interpretação, é um personagem relacionável e muito fácil de gostar e de torcer por. A relação protagonista/público é desenvolvida muito bem graças ao ator, quando este consegue um trabalho ou quando tem de sair de casa, as emoções são sentidas igualmente pelos espectadores.

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     O Dinarte de Freitas interpretou aquele que deve ser o meu personagem preferido. Nas suas cenas, não é o comentário sobre o desemprego que é feito, mas sim sobre a vontade de ajudar o próximo, uma tarefa que nos anos de 2012/2013 foi quase esquecida. O personagem é ligeiramente sofrido, ingénuo, inocente e frustrado.

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     A Ana Marta Contente e o Tomás Andrade são uma boa dupla. As cenas deles com o Marco D’Almeida são ternurentas e dá gosto vê-los felizes e finalmente todos juntos.

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     O João Sá Nogueira incomodou-me um bocado. É um típico adolescente irritante com daddy issues que mais valia nem existir. O ator é mau e o personagem também o é, se este fosse excluído, aquele arco sobre delinquência também seria dispensado.

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     A Lia Gama está ótima como de costume, é muito bom vê-la aparecer finalmente no filme, visto que sabemos que as suas cenas terão muita qualidade. E o António Cordeiro interessou-me bastante. Na segunda metade do filme, durante a viagem de caravana, este dá-nos a sua opinião sobre a dependência que as gerações mais novas têm sobre as novas tecnologias. Ele evidencia a importância de uma boa conversa durante uma longa viagem pela estrada. Eu pensei: “O filme podia abordar isso, isso sim é importante!”. Infelizmente, esse conceito é praticamente abandonado.

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     Deixem-me dizer-vos, o final está entre os mais sem graça e piegas que já vi. Todo aquele conceito do índice médio de felicidade é mesquinho, piegas e desinteressante. Podia ser mencionado uma vez ou duas, não precisava de ter tanto peso como teve.

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     Índice Médio de Felicidade não é o pior filme português do ano, mas é o mais dececionante até aqui. O filme resume-se em meia dúzia de bons personagens e uma história com potencial, porém mal aproveitada e executada. O tempo que gastaram em personagens chatos e diálogos vazios podia ser substituído e daí originar aquele que podia ser um ótimo filme nacional com um comentário social e politicamente relevante.

 

Nota: C+

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I Don't Feel at Home in This World Anymore (2017) - Crítica

     Uma coisa que pretendo fazer este ano é ver mais trabalhos da Netflix, quer séries quer filmes. Se tiverem críticas que queiram ler, é só dizer.

     Ruth, uma enfermeira deprimida, depois de ser misteriosamente assaltada e de conhecer um estranho vizinho, entra numa aventura de descoberta e busca por justiça que poderá acabar menos bem do que esperava.

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     Este filme original da Netflix estreou em Fevereiro e trata-se do directorial debut do ator Macon Blair, responsável também pelo guião. Talvez o produto final não seja suficiente para eu me espantar com o novo realizador, mas vou ficar atento ao que ele fizer. Temos um filme, no mínimo, agradavelmente estranho, porém bastante significativo. Imaginem um filho entre Fight Club e Swiss Army Man, mas não igualmente violento ou engraçado. Como já repararam, a história é básica, temos aqui mais um caso em que a plot genérica é elevada pela ótima execução do material, mérito da realização, do elenco e das escolhas artísticas. Na verdade, a sinopse não evidencia tão rapidamente como o filme se eventualmente torna, digamos que há uma sinistralidade que começa a ser revelada lá para o segundo ato.

     Mas falemos de outras coisas, vamos ao que é bem feito: a fotografia, mesmo não muito distintiva, causa algum desconforto no espectador, não é tão depressa que nos apercebemos do futuro humor negro incluído no tom, mas todas as cores do filme são meio frias e sem vida. Já a banda sonora tem altos e baixos, há uma ótima escolha de músicas que dão uma vibe bem country, assim como bons temas originais. Alguns desses temas são alegres, outros são fúnebres. O problema esteve em usar os temas mais pesados cedo demais, deixar o público a adivinhar causaria uma surpresa maior.

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     O filme é curto, tem apenas 1 hora e meia, desta maneira a estrutura de 3 atos é bem construída, fluída, porém com um ritmo um pouco lento, o que nem é um defeito, apenas um facto. O filme, para além de lento, é também ambíguo. Trata-se de uma sátira à sociedade moderna americana, que dá atenção principalmente a assuntos como consumismo, materialismo e até burocracia, todo este comentário envolto numa onda um pouco sombria, mas eficiente. O filme todo é relevante, mas há pequenas coisas que a protagonista “sofre” que acabam por criar uma empatia imediata entre ela e o público. Por exemplo, maior parte das pessoas não gosta de spoilers, de ser passada à frente na fila, de sair de casa e ter a rua cheia de cocó de cão. São estes pequenos detalhes que simultaneamente contribuem para a sátira social e para a relação protagonista/público.

     Falando nela, a Melanie Lynskey está ótima. Ela acha o equilíbrio perfeito entre o lado mais aparvalhado, atrapalhado e cómico da sua personagem e o lado mais psicótico, instável e furioso. É uma performance muito engraçada e o seu desenvolvimento é perfeito. As suas atitudes perante as mesmas circunstâncias mudam consoante a sua evolução pessoal, ela decide assumir uma posição igualmente subtil, mas mais controladora e rígida.

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     O Elijah Wood dá uma performance bem estranha, boa, mas estranha. É um personagem hilariante (sobretudo se soubermos quando rir), principalmente devido ao seu visual e aos seus costumes e gostos. A Ruth acaba por se identificar mais com ele do que qualquer outro americano convencional que esperava. Desta maneira, a amizade que nasce das interações dos dois é bem tocante, emocionante e tem um propósito.

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     E um pequeno destaque para o Gary Anthony Williams. Ele não é o personagem mais importante, mas o ator tem um momento em que eu me apercebei que a sua inclusão não era lá tão dispensável.

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     Já o trio Devon Graye, Jane Levy e David Yow é um pouco over the top demais. O David Yow nem tanto, eu percebo o que o Macon Blair queria fazer. A Jane Levy (que protagonizou Don’t Breathe, em 2016) foi mal aproveitada. Mas o Devon Graye é o pior dos piores, é incómodo de ver.

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     Há também um típico casal amigo da protagonista que podia perfeitamente ser excluído com alguns ajustes no guião. A sua exclusão podia dar mais tempo para o acerto do trio referido ou até mesmo, porque não, dedicar mais tempo à amizade central. Também está presente no filme um elemento espiritual não tão óbvio como alguns podem imaginar, que de certa forma auxilia o comentário social, embora que podia ter aparecido apenas uma vez. Esta presença aparece duas vezes e a única em que faz sentido é a segunda, no terceiro ato, quem vir vai entender.

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     I Don’t Feel at Home in This World Anymore tem um título chamativo, como todos podemos ver, e vai certamente gerar um debate. Tem alguns desvios que o impedem de ser uma sátira fenomenal, mas acaba por ser interessante e relevante, enquanto acerta muito mais do que erra.

 

Nota: B

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Guardians of the Galaxy Vol. 2 (Guardiões da Galáxia Vol. 2, 2017) - Crítica

     Voltei! Depois de completar o mês de Agosto com apenas um post, decidi voltar. Vamos falar sobre outro presente da Marvel deste ano.

     Depois de Peter Quill descobrir mais sobre si mesmo e a sua família, os Guardiões devem agora lutar para preservar a união que nasceu entre eles e derrotar mais uma presença que ameaça o Universo.

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     A realização e o argumento são mais uma vez do James Gunn. Depois do seu ótimo trabalho anterior, este tinha uma missão bastante difícil: fazer uma sequela digna do original, tentando não desiludir os fãs da Marvel. Como é que ele resolveu esse pequeno dilema? Mais ação, mais cor, mais (e melhor) humor e, claro, um apurado e excelente desenvolvimento dos seus personagens, assim como uma boa introdução aos mais recentes neste universo cinematográfico. É assim que se faz uma sequela!

     Quanto à fotografia e ao trabalho de edição e de câmara, o James Gunn mostra-se mais uma vez à altura dos desafios e das “exigências” dos espectadores. Na verdade, parece que, a cada filme da Marvel que chega, o universo se torna mais colorido. Os produtos chegam a parecer discotecas em forma de cinema, o que para mim é bom, enquanto que possa ser chato para outros. Vamos começar por aí, este é disparado um dos filmes com mais genica e cor da Marvel, mas o que o torna mesmo interessante é o facto deste não se preocupar tanto em mostrar como é que as ações decorrem. Por exemplo, a sequência inicial é espetacular, é uma cena de ação de deixar cair o queixo, porém o James Gunn decide-se concentrar nas ações mais absurdas e mundanas dos personagens. Enquanto a ação estão lá atrás, podemos observar o Baby Groot a passear ou uma discussão entre o Rocket e o Peter. Claro que não é a primeira vez que vemos isto, mas mesmo assim, é um método incomum e engraçado.

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     Escusado será dizer que tudo o que envolva efeitos visuais e maquilhagem é novamente trabalhado com extrema precisão. Nesse aspeto, em pleno 2017, já não é preciso se preocupar com o CGI da Marvel. Desde que aquele orçamento seja bem aplicado, está tudo bem.

     O humor continua aceso. Facilmente reconhecemos e nos identificamos com as trocas de insultos e bocas, pelo menos eu ri-me mais com este filme do que com o primeiro. Algo que gostei muito foi a quebra da seriedade de certas cenas, adoro quando os filmes assumem repentinamente um tom mais sério ou triste e do nada alguma coisa ridícula é dita ou feita! Nesse aspeto, o guião melhorou, no entanto o mesmo não se pode dizer sobre a exposição, há ligeiramente mais exposição desta vez. Há até um momento em que “figurantes” da história discutem entre eles um assunto importante para não haver riscos, para o público perceber o que se passa. Tirava-se esse e mais alguns e o filme não precisava de ter mais de 2 horas.

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     O elenco continua no seu melhor. O Chris Pratt é novamente a peça mais carismática, mesmo assumindo uma postura necessariamente mais séria. Não é por ser ele que recebe mais protagonismo que o arco do personagem seria de qualquer maneira o mais pesado. É, de facto, a sub-plot mais intrigante, mérito dele e do seu parceiro no crime.

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     Falando nele, o Kurt Russel foi uma bela adição ao universo da Marvel. Era apenas uma questão de tempo até o ator se juntar, e ainda bem que isso aconteceu. O Ego é um personagem muito bom e interessante e a sua filosofia é-o também. Digamos apenas que as suas camadas são simultaneamente inesperadas e previsíveis. Apenas vejam o filme, não posso dizer mais, prefiro evitar spoilers.

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     A Gamora agradou-me mais desta vez. Fez-me lembrar a Charlize Theron no Kubo and the Two Strings, de 2016. Ela tem uma postura bem mais séria e é, às vezes, até desnecessariamente severa, o que foi engraçado. O mesmo se pode dizer da Nebula, a Karen Gillan tem mais para fazer, tem mais camadas e torna-se mais interessante.

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     O Drax foi o meu favorito! Para além de o Dave Bautista se revelar um ótimo ator, ainda consegue espantar o público no segundo filme. Desta vez, o sentido de humor do Drax consiste em observações óbvias e inconvenientes. É muito bom!

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     A Mantis pode nem ser muita chamativa, mas o arco que a envolve a ela e ao Drax foi quase perfeito. De um lado está a brutidão dele, do outro está uma espiritualidade ridicularizada e cómica. A Pom Klementieff fez um ótimo trabalho.

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     O Baby Groot é, sem dúvida, a criatura mais adorável do universo inteiro da Marvel! Claro, é uma doçura condicionada, mas o Groot não deixou de ser badass. Já o Rocket recebe um tratamento que, no início, torna-se estranho, mas depressa é acostumável e compreendemos as motivações do personagem, assim como mais sobre o seu conflito interno.

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     Por outro lado, o Yondu, interpretado pelo Michael Rooker, teve uma participação inesperada na história, apesar de ter igualmente mais para fazer enquanto aprendemos mais sobre o seu passado e os seus demónios.

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     Já a Elizabeth Debicki eu não gostei. A atriz não parece nada uma antagonista e nem confortável com o seu papel parece. Ela constantemente parece estar noutro filme e passa o tempo todo a falar alto sem causar o mínimo de intimidação.

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     E o Sylvester Stallone teve uma participação desnecessária. Depois de o ator mostrar que ainda tem muito talento, era mais que merecido a entrada num filme da Marvel. Infelizmente, o querido Sly ficou reduzido a quase um figurante.

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     Ah, antes que me esqueça … oiçam a playlist original! A Awesome Mix Vol. 2 está discutivelmente ao nível da primeira. Quem gostar de clássicos vai-se deliciar com a seleção de músicas deste filme!

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     É preciso ter cuidado com as expectativas. Guardians of the Galaxy Vol. 2 é um bom filme, mas certamente não é melhor que o seu antecessor. Muitos se desiludem por esperarem o melhor filme já feito. Eu não me desiludi porque tinha consciência que aquilo que ia ver não me marcaria. Na era dos blockbusters e das sequelas, é preciso ver o cinema desta maneira. Ainda assim, verdade seja dita, o filme é muito bom, divirtam-se!

 

Nota: B+

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