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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Kingsman: The Golden Circle (Kingsman: O Círculo Dourado, 2017) - Crítica

     Parcerias entre americanos e ingleses podem funcionar muito bem. Contudo, há que reconhecer que a América nunca terá filmes de espionagem tão bons como os da Grã-Bretanha!

     Depois da sede e milhares de agentes da Kingsman serem exterminados por uma misteriosa criminosa, cabe mais uma vez a Eggsy salvar o mundo. Desta vez, este conta com a ajuda de uma organização secreta igualmente peculiar e pronta para o combate.

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    O filme é novamente escrito e realizado pelo Matthew Vaughn, um dos realizadores de ação mais experientes da atualidade, responsável pelos ótimos Kick-Ass e X-Men: First Class. Mais uma vez, ele prova que, ao contrário de realizadores como o Zack Snyder, acha um equilíbrio quase perfeito entre a história que quer contar e a estética dos mundos que cria. Tal como Kingsman: The Secret Service, a sua sequela exibe cenas de ação espetaculares, com uma enorme atenção a detalhes no que diz respeito à sua noção de espaço e coreografia, assim como uma reinvenção das “engenhocas”, um uso mais que eficiente e moderado de CGI e câmara lenta e uma mão perfeita para os excecionais e longos planos sequência. Ou seja, quem gostou da ação e da violência do original, certamente gostará das cenas de ação deste filme. O Matthew Vaughn é também um realizador com uma visão sensacional para a violência. Quase todos os seus filmes conseguem inesperadamente chocar o público. É uma violência tão caricata e deliciosa quanto os diálogos.

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     O guião continua bastante eficaz no que diz respeito ao humor. O filme consegue ser mais engraçado que o primeiro, praticamente todas as piadas funcionaram na sala de cinema. No entanto, há um sério problema responsável pelo declínio do filme a partir da sua metade: o excesso de novos personagens e o seu pobre desenvolvimento.

     Vamos começar pelos “antigos”. O Taron Egerton continua ótimo e confortável com o seu personagem. Depois de, instantaneamente conquistar o mundo com o Kingsman original e mostrar o seu talento, o ator faz-me querer ver mais dele no futuro.

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     O Colin Firth escusa comentários. Na verdade, este tem a sua piada particular. Quem não a aceitar, poderá não gostar do filme. Na verdade, há muita coisa que não precisa de ser levada a sério. É essa a magia deste universo.

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     O Mark Strong continua firmíssimo, sólido e intocável. Ele tem mais que fazer e até se torna mais engraçado, tem mais possibilidades cómicas. Foi sempre o meu personagem secundário preferido.

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     Falando dos Statesmen. O Channing Tatum era o personagem com mais potencial cómcio. Era possível fazer algo muito bom, mas o personagem sofre uma decisão pobre do guião e é desaproveitado.

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     O mesmo se pode dizer da Halle Berry. Mais uma vez, a atriz não recebe um papel digno do seu talento. A personagem nunca vai além daquilo que lhe dão, algo muito frustrante principalmente quando contracena com o Mark Strong. A ótima dinâmica dos dois permitia-lhes desenvolver um arco muito mais interessante, sem cair para caminhos desnecessários. Aliás, é exatamente isso que acontece, um caminho desnecessário.

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     O Jeff Bridges não faz absolutamente nada. Mesmo com algumas curtas boas piadas, é o personagem mais inútil do filme.

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     O Pedro Pascal, tal como o Channing Tatum, tinha um enorme potencial. O personagem começa com um enorme carisma, mas lá para o fim é envolvido num arco completamente vindo do nada, o que estragou o personagem.

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     Já a Julianne Moore interpreta uma antagonista muito charmosa, excêntrica, engraçada e, claro, psicopata. Mesmo a personagem não sendo superior ao do Samuel L. Jackson, era exatamente aquilo que esperava, a atriz não desilude.

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     Outro erro do guião foram algumas mudanças abruptas do tom. O filme explora a legalização das drogas. É uma discussão interessante, até porque nos dá uma ideia (caricata) da visão dos superiores da política americana. O propósito fica claro, mas por vezes o debate estica-se além do necessário. Outro arco longo demais é a relação do Eggsy com a mulher. Se alguns diálogos fossem excluídos dessas duas sub-plots, teríamos um guião muito mais concentrado. As únicas mudanças de tom justificáveis são as originadas pelas cenas de reconciliação entre o Harry Hart e o Eggsy.

     Todavia, há um encanto inesquecível: os estereótipos sulistas americanos. Há ótimas referências, sotaques e tiques brilhantemente retratados e uma espetacular homenagem à cultura dos cowboys americanos. Tudo isso origina momentos hilariantes.

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     Tecnicamente, o filme não podia compensar mais. A fotografia é ainda mais lustrosa que a anterior, aquele submundo torna-se ainda mais lustroso. Já a banda sonora é composta pela maior parte dos bons temas do original e elevada por uma seleção espetacular de música country e pela participação irretocável do Elton John.

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     Kingsman: The Golden Circle não é dececionante. Numa balança, as qualidades pesariam mais, o filme é digno de assistir pelas suas extraordinárias cenas de ação, pelos deliciosos estereótipos e pelos empáticos personagens "antigos". Infelizmente, o pobre desenvolvimento dos novos e o frustrante desperdício de arcos promissores não o tornaram melhor que o seu antecessor.

 

Nota: B-

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Kingsman: The Secret Service (Kingsman: Serviços Secretos, 2015) - Crítica

     Assisti a Kingsman: The Golden Circle no passado fim-de-semana e pensei em fazer a crítica do original. Porque não? Afinal, o primeiro Kingsman foi um dos melhores filmes de 2015.

     Baseado na série de banda desenhada Kingsman, escrita por Mark Millar e Dave Gibbons e publicada em 2012, o filme conta a história de Eggsy, um jovem londrino que se forma na organização secreta britânica de espionagem Kingsman, com o objetivo de combater o vilão megalomaníaco Valentine.

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    O filme foi escrito e realizado pelo Matthew Vaughn. Com o tempo, este mostrou-se cada vez mais talentoso. O seu estilo visual e habilidade de desenvolver cenas de ação complementam-se perfeitamente com a história que quer contar. Kingsman foi muito bem recebido pelo público e pela crítica, sendo assim, uma das maiores surpresas do ano. Claramente, trata-se de uma homenagem/paródia aos filmes de espionagem clássicos do James Bond. A era mais recente dessa franchise, a era Daniel Craig tem ação numa escala maior, sequências mais violentas e velozes, ao contrário das eras Sean Connery e Roger Moore, cuja sofisticação é o maior destaque, permitindo assim estabelecer o protagonista como um verdadeiro gentleman.

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   Ainda assim, o Matthew Vaughn conseguiu estabelecer o equilíbrio perfeito entre cavalheirismo clássico e sofisticado e ação típica de blockbuster. Aliás, “típica” não é a palavra certa. Kingsman: The Secret Service pode recorrer a alguns caminhos previsíveis, mas é tudo menos um filme previsível. Tem o seu próprio estilo, mesmo recorrendo a muitas referências do género da espionagem.

     Comecemos por aí. O Colin Firth é uma mistura de um Sean Connery com um Daniel Craig. Ele tem o mais puro charme de um cavalheiro inglês, complementado na dose ideal com uma capacidade para o combate surpreendente. O ator outrora de comédias românticas convence como uma estrela de ação e fez maior parte das suas cenas. Para quem não sabe, este foi treinado pela equipa do Jackie Chan, provando que, apesar dos seus 55 anos (na altura), o ator ainda tem muito para oferecer.

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     O Taron Egerton foi a derradeira surpresa. Dentro de inúmeros candidatos para o papel do Eggsy, o Matthew Vaughn fez a escolha mais acertada. Não só o jovem ator tem o carisma certo para ter uma carreira promissora, mas também um enorme talento para trabalhar com o realizador mais vezes. O filme Eddie the Eagle, de 2016, provou isso. O Eggsy é um jovem rebelde e problemático, mas igualmente inteligente, cauteloso e esforçado. As cenas dele com o Colin Firth são as mais interessantes de acompanhar. A relação de amizade é muito genuína, a química entre os dois é perfeita e nota-se que ambos os atores competem entre si enquanto contracenam.

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     Outro ator irretocável é o fabuloso Samuel L. Jackson. Pouquíssimos atores conseguem se impor desta maneira. O Valentine é um antagonista hilariante, mas também ridículo e inesperado. Ele enoja-se facilmente, o sotaque é absurdo e o guarda-roupa é típico do Sam Jackson. Por estas e outras, o ator é um dos melhores em atividade.

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   A Sofia Boutella, que interpreta a Gazelle, é muito competente. A personagem é claramente uma homenagem a vilões clássicos como o Jaws ou o Oddjob. Pena é a atriz ter poucos bons papéis e a sua carreira ser tão oscilante.

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    O Mark Strong é um ator muito firme, é essa a palavra que o define. O personagem Merlin é inteligente, carismático e igualmente engraçado. O ator tem muita presença para quem passa maior parte do tempo atrás de um computador.

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   Já o Michael Caine pode não ser um personagem tão interessante ou importante, mas ao menos tem aquele plot twist inesperado no ato final. Na verdade, o ator está sempre bem.

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    O Matthew Vaughn tem um estilo muito característico. Algo a que este recorre muito são planos sequência longos e dificílimos. Enquanto o realizador ostenta a beleza de uma cena de ação extremamente bem feita, consegue também fazer permanecer a ilusão de um take só. Outra particularidade é a violência artística na sua filmografia. Tal como o seu terceiro longa, Kick-Ass, Kingsman não tem medo de mostrar seja o que for para chocar o público. Exemplo disso é a cena bombástica da igreja, que tem tudo para funcionar: uma violência irretocável, uma escolha musical perfeita e uma coreografia de deixar cair o queixo. É uma das melhores cenas de ação que já vi!

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     Escusado será dizer que a banda sonora é sensacional! O tema principal dos Kingsman, que aparece também no trailer, é muito melodioso e digno de aplausos. O Henry Jackman e o Matthew Margeson sabiam o que estavam a fazer. Outros aspetos técnicos belíssimos são a fotografia limpa, dourada e exemplar do George Richmond, e o design artístico, responsável pelas espetaculares armas e fatos dos agentes. Nunca foi tão fixe andar com um chapéu-de-chuva!

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   No entanto, Kingsman apresenta apenas dois problemas: a falta de maquilhagem/CGI no personagem do Colin Firth (o filme recua e avança 17 anos e o ator nunca parece que envelheceu) e a inclusão do personagem Charlie no ato final. É um personagem que não tinha nada mais a oferecer e que acabou por não fazer a diferença.

   E por falar em ato final, o último showdown é sensacional! Poucos blockbusters conseguem acabar numa nota tão alta como esta. É a excelente coreografia do confronto da Gazelle contra o Eggsy, é a tensão do Merlin no avião, são as cabeças dos guardas e políticos a explodir e a épica animalidade dos cidadãos no mundo inteiro. O filme não podia ter um ato final melhor!

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     Kingsman: The Secret Service é um excelente modelo daquilo que um blockbuster deve ser: engraçado, original, explosivo, tenso, envolvente e, claro, divertido! É o melhor filme da carreira do Matthew Vaughn, logo à frente de X-Men: First Class, e um dos melhores filmes de espionagem/ação da década (num contexto de homenagem/paródia)!

 

Nota: A-

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The Mummy (A Múmia, 2017) - Crítica

     Estava na dúvida se via este filme. Nunca vi nenhum filme sobre monstros clássicos, por isso sou totalmente inculto sobre esse género. Mas porque não? O Tom Cruise está cá.

     Um grupo de arqueólogos descobre um túmulo escondido de uma princesa do Egito mumificada que, uma vez acordada, quer destruir o mundo.

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   The Mummy é o primeiro filme de um novo universo cinematográfico desenvolvido pela Universal Pictures chamado Dark Universe. Trata-se de um novo rumo para personagens clássicos como o Corcunda de Notre Dame e o Monstro de Frankenstein. Remakes são somente bem-vindos se forem justificáveis. Há imensas coisas que o cinema atual consegue criar que o cinema dos Anos 30 e 40 não conseguia. Mas se filmes como The Mummy continuarem a aparecer, depois da outra péssima trilogia, o cinema blockbuster será ainda pior do que já é.

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     A realização foi do Alex Kurtzman, aliás, esta é apenas a sua segunda longa-metragem. Apesar de já ter escrito muitos blockbusters, há que reconhecer que ainda tem muito a aprender como realizador. Ele tem uma mão surpreendentemente boa para orquestrar cenas de ação, aliás, algumas cenas de ação são divertidas e suficientemente enérgicas para funcionarem. As perseguições e os pequenos confrontos são bem feitos e a edição podia ser bem pior, tendo em conta os padrões de um blockbuster como este.

     O facto pelo qual The Mummy foi “esmagado” pela crítica e pelo público no geral foi a sua falta de originalidade. Ao tentar desenvolver um novo universo, a Universal revela um certo desespero. Nestes anos, em que filmes da Marvel e da DC dominam o mercado, é compreensível que os outros estúdios queira faturar com um método de storytelling semelhante. Ainda assim, o caso não deixa de ser lamentável.

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     Felizmente, nem tudo é mau. A música surpreendeu-me. É mais rítmica e memorável do que maior parte das bandas sonoras dos blockbusters atuais. Curioso é que o Brian Tyler já trabalhou muito nos universos da Marvel e do Fast & Furious. Parece que quis fazer algo diferente. A música acabou por se adaptar bastante bem à aventura.

     Porém, quanto a diálogos, CGI e personagens. O filme deixa muito a desejar. O guião é fraco, há um excesso de exposição quase interminável, incluindo muitas frases artificiais, principalmente durante as cenas de descoberta e revelação. Parece que desenvolver uma história apenas com sucessões de imagens é algo raro hoje em dia. Em vez disso, recebemos narrações cansativas e flashbacks infinitos. O filme até usa algumas imagens para revelar a origem da Múmia, mas há um excesso de flashbacks e sequências e sonho. Toda aquela exposição volta a aparecer e torna-se chato e repetitivo. O ato final, se não é mau, ao menos consegue manter o interesse no futuro do novo universo. Não é comparável a nenhum filme da Marvel, mas não houve desrespeito pelo próprio propósito.

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     O CGI varia entre funcional e péssimo/foleiro/notável. Durante as primeiras cenas de “renascimento” da Múmia, em que esta dá literalmente vida a esqueletos, torna-se até risível olhar para eles. As interações dos personagens humanos com os esqueletos e todas as outras manifestações malvadas são mal trabalhadas. Apenas as pequenas passam despercebidas.

     O Tom Cruise interpreta uma versão dele próprio, mas não há problema. Nesta altura, já nos habituámos a ver o Tom Cruise como um homem normal visto numa situação diferente e perigosa. Só em filmes (recentes) como Edge of Tomorrow podemos ver um desenvolvimento mais elaborado. Aqui, ele é aventureiro, carismático e relacionável, nada mais.

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     A Annabelle Wallis está péssima. Constantemente vemos uma atriz com o texto decorado sem sequer saber o significado das palavras complexas que diz. É uma damsel in distress vazia e desinteressante, culpa da atriz inexpressiva e sem carisma algum. O realizador tenta até criar um pseudo-romance entre ela e o Tom Cruise que nunca leva a lado nenhum. É algo demasiado forçado e apressado.

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     Já o Jake Johnson tem uma presença engraçada e tinha um enorme potencial. Infelizmente este é desviado para um rumo completamente desnecessário que dificultou o investimento nele. Era possível criar um buddie movie com o Tom Cruise mas, em vez disso, o personagem é desperdiçado.

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     A Sofia Boutella fez aquilo que devia. A oferta aqui é exatamente aquilo que se espera. A personagem não é tão profunda quanto podia, mas a atriz é competente e consegue ter uma presença ameaçadora. Não é nada demais, mas é um trabalho minimamente funcional.

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     O Russel Crowe, se não empurra a história para a frente, ao menos torna-a mais interessante quando aparece. Também é um personagem pouco desenvolvido, mas o ator é excelente, a atenção do espectador fica nele de imediato.

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     A fotografia do Ben Seresin (que trabalhou em World War Z) é boa e funciona. É poluída, suja, ora acastanhada, ora acinzentada. Funciona, apenas funciona.

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     Se todo o guião fosse reescrito, era possível que The Mummy fosse bom. Existe potencial. Infelizmente, nem a parte boa do elenco salva esta obra medíocre. Não chega a ser horrendo como já disseram, não é um filme ofensivo, há o mínimo de divertimento. Mas há coisas melhores que se podem fazer com duas horas.

 

Nota: C-

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Blade Runner 2049 (2017) - Crítica

     Obrigado Dennis Villeneuve! Obrigado Ridley Scott! Decerto que a minha geração desprezará este filme por não estar a par da sua origem. É algo triste que as verdadeiras obras-primas da Sétima Arte estejam cada vez mais longes das novas gerações. Já não se fazem filmes assim. Mas quem foi o vosso público mesmo? Acho que sabemos a resposta.

     Passaram-se 30 anos desde os acontecimentos ocorrentes em 2019. Uma nova geração de Blade Runners procura achar respostas para um novo mistério que pode ameaçar o já instável equilíbrio entre a Humanidade e os Replicantes.

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     O filme foi realizado pelo canadiano Dennis Villeneuve, um homem que nunca fez um mau filme na vida e um daqueles que melhor exerce a sua profissão atualmente. Prisoners, Enemy, Sicario, e o mais recente, Arrival, são algumas das melhores obras contemporâneas do cinema. Algo que este se demonstrou mais que capaz foi migrar de géneros. Depois de sair da escola indie, os seus últimos trabalhos conseguem ser ambiciosos sem nunca cair na pretensão ou na arrogância. A missão difícil era fazer uma sequela digna do clássico de ‘82. O mínimo erro podia manchar a filosofia deliciosa do clássico, mas com aquela que é discutivelmente a melhor crew reunida deste ano, era difícil o projeto descambar.

     Como era de esperar, Blade Runner 2049 não é um filme de ação. É lamentável que o estilo noir esteja praticamente extinto nestes dias e que seja preciso uma sequela de um clássico para reavivar um dos estilos cinematográficos mais ricos de sempre. Blade Runner 2049 é, tal como o seu antecessor, um filme muito introspetivo, silencioso e calmo. Numa enorme sequência de acontecimentos com quase 3 horas, era muito fácil que a jornada se tornasse aborrecida e lenta … na verdade, pareceram 15 minutos.

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     Não é de espantar, Blade Runner 2049 é visual e tecnicamente o filme mais rico do ano. Cada composição é melhor que a anterior, os diferentes tons de cor transmitem simultaneamente uma violência e uma suavidade que atingem o público de maneira única. Poucos diretores de fotografia conseguem criar uma atmosfera tão ameaçadora, hostil e perigosa como esta. Se não for desta que o Roger Deakins ganha um Óscar, não sei quando será.

     Mais uma vez, o desenvolvimento do universo é absurdamente detalhado e fascinante. Ao contrário do que aconteceu em 1982, o grande orçamento permitiu dar a atenção merecida a este mundo. Continua presente aquela onda do caos multicultural e deslocado proveniente das desigualdades sociais, assim como um capitalismo corrosivo e uma representação suja e desumana do consumismo. Enquanto Los Angeles se expande mais, San Diego é uma lixeira.

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     O Ryan Gosling foi a escolha perfeita para o papel. É uma performance muito introspetiva, deprimida e reservada, quase sem expressão. O ator tem um enorme talento para puxar o público para o seu lado, mesmo quase nunca revelando emoções. Quando este finalmente se exprime perante as descobertas, há uma satisfação crescente por saber que ele está perto do sucesso. Desta vez, o protagonismo é todo dele, apenas o Harrison Ford consegue gerar um empate. É uma das melhores interpretações do jovem Gosling.

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     O Harrison Ford é uma presença inatingível. O Rick Deckard está agora muito mais apático e até mais insensível. Depois de tudo o que passou, é compreensível que este se torne mais violento, desconfiado, traumatizado, ainda que mais corajoso e seguro de si. São poucos os atores que conseguem regressar desta maneira passado tanto tempo. O Harrison Ford não desilude!

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     A Ana de Armas está ótima e é responsável pela excelente série de novas perguntas colocadas: “O que define as nossas emoções? Um corpo? Uma identidade?”. Ainda bem que esse arco não foi reduzido, até porque a interpretação da jovem atriz cubana é ótima e a química entre ela e o Ryan Gosling é perfeita.

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     A Robin Wright volta a estar espetacular, como sempre, mais uma vez com uma personagem manipuladora, corrosiva e assustadoramente ambígua, embora que realisticamente plausível e cautelosa.

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     A Sylvia Hoeks surpreendeu. Eu estava à espera de uma imitação fraca da Rachael, mas acabei por ter algo que precisava, apenas não sabia. A personagem Luv personifica muito bem o medo e frustração de uma espécie negligenciada e temida pela maioria. Embora que o domínio dos Replicantes possa ser cada vez maior, esta sente-se insatisfeita, desprotegida, como se não gostasse da sua natureza ou origem.

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     O Dave Bautista continua o seu percurso como um ótimo character actor, assim como um com uma enorme capacidade dramática. O personagem é importante, ambíguo nas suas ações e é, felizmente, usado na dose ideal. Mais tempo em cena seria um erro.

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     E o Jared Leto volta a deslumbrar com um personagem misterioso e difícil de descortinar. Ele não é o novo Roy Batty, pode-se até igualmente argumentar que nem é sequer o antagonista aqui, mas o personagem é interessante e intimidante quando necessário. Ainda assim, mesmo as intenções do personagem ficarem claras, parece que falta qualquer coisa. O personagem precisava de um tratamento semelhante ao da Pris, do Blade Runner (ler crítica) original. Quando comparados, o desenvolvimento do personagem Wallace é um pouco inferior.

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     A banda sonora compromete-se a satisfazer os fãs com a encantadora melodia celestial do Vangelis. Aquela música era algo que tinha de ser restaurado. Verdade é que nada bate a música original, mas é de salientar que o Hans Zimmer não fica muito atrás. Há temas originais espetaculares que se casam perfeitamente com a atmosfera e fotografia ameaçadora do filme. Aqui está outro brilhante artista que nunca desilude.

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     É de salientar que, quem gosta de filmes filosóficos, que mexem com as questões mais existencialistas deste mundo, lidando com temas como tecnologia, revolução e Humanidade, vai adorar conhecer esta franchise. Para aqueles die hard fans de Blade Runner (ler crítica), Blade Runner 2049 será um dos filmes mais satisfatórios do ano. Os temas discutidos são refrescados pelas ótimas novas ideias e o comentário continua relevante, mesmo passados os 35 anos. O filme é discutivelmente uma das melhores sequelas já feitas e a prova que boas sequelas são possíveis.

 

Nota: A

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Wonder Woman (Mulher-Maravilha, 2017) - Crítica

     É muito importante que as mulheres continuem a ganhar protagonismo no cinema. A verdade é que a indústria de Hollywood ainda é machista e tem alguns complexos por resolver. Obrigado Patty Jenkins por nos dares o melhor filme do DCEU (até agora) e pela encantadora dose de girl power!

     Durante a 1ª Guerra Mundial, Diana, princesa das Amazonas, dá de caras com um piloto americano e descobre os conflitos que decorrem no mundo. Depois de tantos anos a treinar para ser a melhor guerreira do seu povo, ela agarra a oportunidade de salvar o mundo.

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  O filme foi realizado pela Patty Jenkins, responsável pelo ótimo filme Monster, de 2003, que deu o Óscar à Charlize Theron. Um dos medos acerca de um realizador aceitar um projeto sobre uma personagem das comics é sempre a sua inexperiência. Em maior parte das vezes, o resultado final é bom, o Christopher Nolan e o Bryan Singer eram ambos “novatos” na área antes de realizarem os excelentes Batman Begins e X-Men, respetivamente. Noutros casos, como Catwoman e Elektra, a inexperiência dos realizadores fez com que as obras fossem autênticos fracassos. Finalmente depois de tantos maus filmes de super-heróis, temos um bom com uma mulher como protagonista.

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     Dito isto, a Patty Jenkins fez um ótimo trabalho. A começar pela criação do mundo fictício. O deslumbramento e a ansiedade da pequena Diana passam para o público instantaneamente e este fica facilmente sensibilizado pela sua inocência e pela beleza que aquela ilha demonstra. Todos os cantos da civilização são criados com uma enorme atenção aos detalhes e todas aquelas mulheres convencem como um exército e como um povo unido.

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     A Patty Jenkins é também ótima a orquestrar a mais suave beleza e câmara lenta nas suas cenas de ação. Estas incluem um ótimo CGI, uma excelente e impercetível coreografia, uma recriação impecável das trincheiras e, claro, um bom trabalho de duplos, algo que nunca deixou de ser essencial.

     A fotografia é outro destaque. Há composições horizontais lindíssimas, mas também visualmente significativas. No primeiro ato, a ilha exibe uma vivacidade e harmonia invejável onde tudo é altamente colorido, dando aquela sensação de paraíso. Depois, o filme segue para uma Europa poluída, triste e consumida pela desgraça e estragos da guerra.

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     Os diálogos são surpreendentemente melhores do que aqueles escritos pelo Zack Snyder. Há apropriadamente mais controlo e realismo. Desta vez, o universo não se tornou mais sombrio gratuitamente. Pôde ser feito um ótimo comentário sobre o comportamento imoral da Humanidade durante uma guerra. No entanto, no ultimo ato, houve um enorme excesso de exposição que podia ter sido substituído por uma montagem mais dinâmica. Quem viu vai perceber do que falo.

     A Gal Gadot conseguiu limpar a sua imagem depois da participação foleira em Batman v Superman. Fisicamente, ela foi uma escolha perfeita para interpretar a Mulher-Maravilha. A atriz tem muita energia e presença nas cenas de ação e é uma mulher linda. Ela tem os seus bons momentos quando não está em “modo super-herói”, mas tem outros lamentáveis. No geral, ela tem muito a evoluir como atriz. Por vezes, há algumas mudanças de expressão e de emoção muito abruptas que estragam a interpretação, principalmente quando contracena com a Connie Nielsen ou com o Chris Pine.

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     Falando nele, o Chris Pine foi a peça do elenco que eu mais gostei. Com Hell or High Water, o ator já provou que consegue assumir papeis mais dramáticos e exigentes. O personagem é um ótimo retrato do homem em conflito que combate numa guerra que não compreende, cujo poder é limitado contra a sua vontade.

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     A dupla Robin Wright e Connie Nielsen é a principal razão pela qual a performance da Gal Gadot por vezes cai. A presença das duas é muito mais intensa e convidativa que a da protagonista, desta maneira, as atrizes mostram que estão bem como sempre.

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     A Lucy Davis, mesmo com poucas cenas, revela um charme tipicamente inglês muito agradável. Para além disso, é responsável pelo humor da tentativa de adaptação da Diana no mundo moderno.

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     Alguns críticos não gostaram do trio Saïd Taghmaoui, Ewen Bremmer e Eugene Brave Rock. Verdade é que estes foram essenciais para o filme não se ter tornado azedo demais. Cada um tem a sua personalidade, conflito e origem, o que torna o retrato da guerra mais realista.

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     Já o Danny Huston deixou muito a desejar. Eu percebo o que queriam fazer com ele, mas o personagem não passou de um Red Skull falhado e sem carisma.

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     A banda sonora é algo de espetacular. É uma das melhores composições originais para um filme de super-heróis. O Rupert Gregson-Williams sabia o que estava a fazer. São as várias sensações transmitidas: insegurança, coragem, inspiração, aventura e até nostalgia.

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     Wonder Woman é um passo no caminho certo que a DC deve tomar, assim como uma lição de como adaptar material das comics para o cinema. Não é o melhor filme de super-heróis do ano, mas é um que funciona tão bem como um blockbuster e como um retrato de guerra.

 

Nota: B+

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Blade Runner (Perigo Iminente, 1982) - Análise e Crítica

     Podia também ter escrito esta crítica em Junho, quando Blade Runner fez 35 anos. Mas, visto que Blade Runner 2049 (ler crítica) chega já esta semana, está na hora de falarmos do original clássico de ‘82.

     Baseado no romance de sci-fi Do Androids Dream of Electric Sheep?, escrito por Philip K. Dick e publicado em 1968, o filme passa-se em Los Angeles, em 2019, e acompanha o polícia/caçador de androides (os chamados Blade Runners) Rick Deckard, numa investigação com o objetivo de caçar 4 Replicantes - seres humanos criados artificialmente que passam despercebidos -, depois de estes roubarem uma nave espacial e voltarem à Terra para conhecer o seu criador.

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     O filme foi apenas a terceira longa-metragem do mestre Ridley Scott, que até então havia apenas realizado The Duellists, de ’77, e Alien, de ’79. Sendo assim, desde o princípio que este homem se tornou num dos maiores especialistas em ficção científica e um dos grandes responsáveis pela qualidade que o mesmo género nos oferece nos dias de hoje. Blade Runner é um filme de ficção científica na sua essência, mas mostrou, ainda no início da década, como era simples um filme ter a capacidade de abordar vários géneros ou narrativas. É um dos melhores exemplos da neo-noir sci-fi, que mais tarde inspiraria filmes como The Terminator, de ’84.

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     Dito isto, Blade Runner é hoje considerado um dos filmes mais importantes e influentes do género, mas também um dos melhores filmes alguma vez feitos. Trata-se de uma experiência transcendental e existencialista, de uma obra de arte riquíssima em todos os aspetos possíveis e avaliáveis. O Ridley Scott é responsável pelas inúmeras referências que, mais tarde, serviriam de inspiração para obras igualmente ricas, por exemplo, a série de anime Ghost in the Shell, que lida com temas semelhantes. Aliás, vários filmes do Top de Sci-fi lidam com temas semelhantes: “O que significa ser-se humano?”; “Uma criação tecnológica do Homem pode desenvolver emoções?”; “As criações artificias do Homem podem viver entre nós?”; “Podemos viver em paz com a tecnologia ou toda essa utopia iniciará uma inevitável guerra?”; “Quão realmente grandes ou pequenos somos nós?”. Há várias questões colocadas e, na verdade, poucas têm uma resposta clara. O debate é gerado e o público é obrigado a refletir, principalmente devido às interações dos diferentes personagens, cada um lidando com o seu respetivo conflito interior.

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     O debate de o Rick Deckard ser ou não um Replicante mantem-se até hoje e muito provavelmente vai continuar em Blade Runner 2049. Ou talvez não, uma vez que o Ridley Scott já confirmou que essa teoria é válida e que ele próprio acredita nisso. Há vários elementos que sustentam essa hipótese: os seus olhos, por vezes, brilham tal como os da Rachael e os do Roy Batty; não nos são dadas quaisquer informações sobre o seu passado, sobre a sua suposta “reforma” da carreira de polícia; o sonho do Unicórnio parece ser vindo do nada mas é (discutivelmente) uma implantação artificial feita pelo Gaff, aliás, só pode ser, visto que, perto do fim, o Rick encontra um origami de um unicórnio no chão antes de fugir, é sinal que o Gaff é o seu Criador e muito provavelmente o está a deixar fugir e viver. Provavelmente, o Gaff sente que o Rick e a Rachael são Replicantes especiais, merecedores da vida que podem vir a ter.

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It’s too bad she won’t live. But then again who does?

     Dito isto, a discussão moral sobre a humanidade torna-se cada vez mais simples. O Roy Batty é um dos antagonistas mais fascinantes da História do Cinema. Ele não é obrigatoriamente o vilão da história, é apenas um “ser vivo/racional” com tanta vontade de sobreviver tal como outro. A sua filosofia e atitudes criam a pergunta: “Quem é o vilão nisto tudo?”. O seu último monólogo, à chuva, é um dos melhores alguma vez dados num filme. Ao salvar o Deckard em vez de o deixar cair, ele revela mais humanidade em si do que nos humanos com quem já se cruzou, é a sua misericórdia e vontade de marcar a sua presença no Universo que o torna realmente humano, visto que, ao contrário do Deckard, ele aceita a sua mortalidade, ele aceita aquilo que é. Ao lutar durante o filme inteiro por “mais tempo de vida”, este demonstra a sua enorme vontade de viver. Ao “morrer” e se transformar numa espécie de gárgula, torna-se livre. Aquela linda pomba branca simboliza a sua liberdade, o seu alívio e descanso. Fosse ele humano ou não, rapidamente se apercebeu do seu fim, da sua “pequenez” enquanto um ser neste enorme mundo. É essa aceitação consciente que o torna humano, mais humano que qualquer outro humano. E saber que aquele lindo monólogo foi improvisado pelo próprio Rutger Hauer torna a sua performance ainda mais espetacular do que já era. Não há palavras, não há explicação para aquilo que o ator fez, é um dos melhores papéis secundários já vistos, o ator roubou cada cena em que entrou e deu tudo aquilo que podia dar e até aquilo que não podia.

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All those moments will be lost … in time … like tears … in rain!

Time … to die!

     Depois daquele monólogo espetacular, o Deckard percebe finalmente aquilo que distingue uma pessoa, uma identidade, quer ela seja humana ou artificial. Daí, este nem se sentir assustado com a ideia de provavelmente ser um Replicante, uma vez que desenvolveu um romance com uma, que até então haveria se comportado como outra ser humana qualquer.

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I think, Sebastian … therefore I am!

     Ao longo dos anos, um plot hole tem ganho cada vez mais atenção: “Se o Deckard fosse mesmo um Replicante, porque é que é tão medroso e fraco quando uma circunstância o obriga a lutar?”. É verdade, são algumas as ocasiões em que este não se vê à altura do desafio, principalmente quando luta contra o Leon ou contra a Zhora. Esses dois acabam por ser capturados, mas se fosse o Roy Batty quem estaria atrás deles, a execução seria muito mais rápida e simples, não envolveria aquela perseguição tão exaustiva. Ridley Scott, és um génio! É aqui que identifico a Alegoria da Caverna, do Platão. Se nós, humanos, vivêssemos com a certeza falsa de que não somos aquilo que pensamos ser, perdemos a nossa vida, a nossa verdadeira identidade - “O ser humano é vítima da sua própria ignorância”.

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     Ufa! Já tirei isto do caminho! Vamos falar de outra coisa. Blade Runner é o modelo de um filme de sci-fi futurista. Há também muitos aspetos que me levam a pensar que o filme pode ser interpretado como um retrato de um sonho, não é uma ideia despropositada de todo. Há conceitos visuais muito inteligentes. Por um lado, existe uma civilização “lá em cima” fortemente influenciada pela cultura asiática e composta pelas comunidades superiores e beneficiadas que vivem em gigantescos exemplos de uma arquitetura futurista onde as pessoas mais influentes vivem como deuses egípcios. Por outro lado, “lá em baixo”, está um caos multicultural sujo, descontrolado e degradável, onde o crime é descontrolado, o néon predomina em todos os bares, restaurantes e casa de strip, e a chuva nunca mais acaba. De certa maneira, podemos extrair uma crítica ao capitalismo que contribuiu para uma enorme desigualdade social ou uma visão agravada do realizador sobre a economia americana engolida pela Ásia. Todo este visual e contexto contribuiu e ainda contribui para uma influência no cinema neo-noir sci-fi.

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     A música é um dos melhores exemplos da importância de construir uma melodia que contribua para a atmosfera do filme. A música transmite uma vibe bem eletrónica, bem futurista e digna dos restantes trabalhos do Vangelis, que sempre compôs temas de escala orquestral. A banda sonora é composta por melodias sombrias e psicadélicas que conseguem transmitir diversas emoções: confusão, alienação, perigo, medo, incerteza e raiva.

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     Espero que esta crítica tenha sido digna do filme em si. Vamos esperar que Blade Runner 2049 (ler crítica) seja igualmente digno dos seus personagens como o Ridley Scott foi com o material que adaptou. Certamente a sequela não vai ser melhor que o original, mas eu confio naquela equipa. Quando temos Dennis Villeneuve, Roger Reakins, Harrison Ford e Ryan Gosling juntamente com Ridley Scott na produção executiva, é difícil não gostar do filme sem sequer o ter visto. Mas, como quero dizer, Blade Runner é uma obra-prima, não há nada como este filme!

 

Nota: A+

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Mother! (Mãe!, 2017) - Crítica

     Desde que Mother! estreou no mundo inteiro, as críticas surgiram de todos os lados e uma onde de desprezo pelo filme apareceu. Eu entendo que não seja para toda a gente, mas IMDB e Rotten Tomatoes, este filme não merecia ratings tão baixos.

     Depois de algum tempo a viver numa casa isolada na floresta, um casal recebe inúmeras e inesperadas visitas de estranhos. Tais visitas iniciam uma série de fenómenos surreais e indesejados.

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     O filme foi escrito e realizado pelo Darren Aronofsky, um dos homens que mais exerce a sua profissão de forma autoral, conseguindo desenvolver histórias espetaculares e controversas. Os seus filmes mexem com religião, existencialismo, paranoia e o sofrimento humano, gerando discussões polémicas e ofensivas para alguns. Por exemplo, o seu último filme – Noah, de 2014 – foi catastroficamente recebido pelos islâmicos e até banido em vários países. Mas aquilo que torna um filme controverso é também aquilo que o torna bom (na maioria dos casos).

     Mais uma vez, o realizador organiza perfeitamente o storyboard e o trabalho de câmara e dos planos é ótimo. Há um número interminável de close-ups na cara da Jennifer Lawrence e raríssimos planos gerais. Aquela mulher e aquela casa são exploradas ao detalhe, enquanto não há quase composições abertas. É um filme claustrofóbico e sufocante, mas funciona lindamente, pelo menos há momentos engraçados na dose certa para suavizar um pouco as cenas mais sombrias e violentas.

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     Mother! não agradará a todos por várias razões. O filme é complexamente alegórico e lida com questões delicadas e temas muitas vezes facilmente ofensivos, não queira isto dizer que a abordagem seja má. Depois de muita reflexão, percebemos que não há uma interpretação certa do filme. Aliás, como é de esperar, há aquela interpretação com que, em princípio, quase toda a gente vai concordar porque é um pensamento bastante bem fundamentado. Por outro lado, o filme argumenta outras discussões e fundamenta facilmente outros temas, o que é sempre bom.

     Fora desse contexto, o filme é espetacular em praticamente todos os aspetos. Durante maior parte do tempo, a fotografia é incolor, os tons da casa são aquilo que se pode esperar, mas à medida que o filme fica cada vez mais assustador, o seu visual torna-se mais vivo e consequentemente agressivo. E todo o desconforto que surge durante o processo é complementado pelos excelentes efeitos sonoros. Aquela casa tem vida, ela assusta.

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     No entanto, o uso da banda sonora deixa um pouco a desejar. Não é que seja má, a música é boa, é arrepiante, mas os jumpscares são problemáticos. Aliás, houve pouquíssimos jumpscares. Alguns funcionam, já outros são desajudados pela previsibilidade que a banda sonora provoca. Consiste também numa edição repentina e um freeze total da música. O Darren Aronofsky já conseguiu melhor.

     A Jennifer Lawrence volta a surpreender. O filme prefere sempre acompanhar o ponto de vista dela, ao invés do dos outros personagens. É uma interpretação que funciona perfeitamente dentro da sua dinâmica com o público. A empatia surge instantaneamente e, depois de muito tempo a observar a sua inocência a ser destruída, é muito satisfatório quando a personagem finalmente se revolta com tudo o que acontece ao seu redor, isto se tomarmos em consideração as suas iniciais calma e doçura.

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     O Javier Bardem cumpre perfeitamente o seu papel. Ele consegue transmitir uma presença amigável e inofensiva, porém despreocupada pela mulher, demonstrando um certo desprezo e, de uma maneira, um amor não correspondido.

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     O Ed Harris, dentro daquilo que o seu personagem oferece, está ótimo. A partir do momento em que aparece surge uma onda de desorientação e um perigoso desconhecimento que permanece no filme o tempo inteiro.

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     A Michelle Pfeiffer mostra outra vez o porquê de ela ser a Michelle Pfeiffer. Ela está fantástica ao interpretar uma mulher sinistramente sedutora, insolente, arrogante e muito persuasiva e manipuladora.

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     Claro, o elenco não fica por aqui, mas é preferível não saber quem mais está incluído, por causa do fator surpresa. São personagens quase recicláveis, que podiam ser interpretados por quaisquer atores. O gosto está no facto de nunca termos esperado ver determinados atores em filmes do Darren Aronofsky.

     A estrutura de 3 atos é muito bem organizada. Cada ato é gradualmente mais informativo e consequentemente mais inquietante e perturbador devido aos mini-twists. Em 2017, nunca um filme mexeu tanto comigo a um nível sobrenatural ou espiritual. Eu não consigo pensar em muitos filmes como este.

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     Mother! certamente não é para toda a gente. Alguns adorarão e outros odiarão. Mas independentemente do gosto de cada um, é importante que este filme seja visto pelo menos 1 vez, já que o realizador tinha muita coisa a dizer. É uma das melhores e mais ricas experiências cinematográficas do ano!

 

Nota: A

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