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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Wonder Wheel (Roda Gigante, 2017) - Crítica

     Anos 50, a história segue uma mulher casada e infeliz que se envolve com um nadador salvador. Quando a sua enteada volta para casa de surpresa, inicia-se um enorme descarrilhamento nas vidas de toda a família.

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     O filme foi escrito e realizado pelo Woody Allen, um realizador magistral que, mesmo sem sempre nos oferecer o melhor de si, utilizando novos ou clássicos métodos, consegue ainda surpreender o seu público com tudo aquilo que faz. O facto deste homem ter a mão em mais um projeto audiovisual é razão suficiente para receber atenção. Facto, o Woody Allen continua a fazer ótimos filmes todos os anos, reunindo novos atores para lhes impulsionar a carreira e elevar técnicas de filmmaking que só ele sabe fazer. As comparações a Café Society, do ano passado, são inevitáveis nesta hora. Os dois filmes decorrem mais ou menos na mesma altura e abordam arcos semelhantes. Dramas existencialistas sobre o ridículo do comportamento humano, triângulos amorosos, diálogos tragicómicos e uma breve participação da máfia. Café Society tem muitas pontas soltas e é até um filme um pouco inchado, oscilante e indeciso. Wonder Wheel dá a impressão de ser aquele projeto que o Woody Allen queria inicialmente fazer. Alguns arcos reaparecem, mas feitos de uma maneira mais organizada. E é sempre bom ver um filme organizado e focado.

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     Os diálogos são tipicamente woody allenescos. Volta a estar presente o charme irresistível nas palavras do narrador e dos personagens principais, assim como uma comédia por vezes agressiva que opta por ir no caminho do chocante e do desconfortável. São poucos os realizadores autorais que sabem escrever discussões tragicómicas desta maneira.

     Por falar em discussões, o trabalho de câmara é sensacional. O esforço e dedicação vai do mais pormenorizado close-up na cara dos atores até à mais bela, colorida e inocente paisagem da feira popular e da praia. Há planos sequência sensacionais que não podiam passar despercebidos. A câmara flui com o elenco e são criadas discussões frenéticas de 10 minutos sem cortes. Há mudanças sensacionais da fotografia sem cortes e, maior parte, delas ocorrem quando um personagem está a dar um extenso monólogo. O trabalho do fabuloso Vittorio Storaro, que trabalhou nos filmes Apocalypse Now e The Last Emperor, é de tirar o fôlego. Juntamente com o do Roger Deakins, em Blade Runner 2049 (ler crítica), é o melhor do ano. A atenção nas cores primárias e nos tons acinzentados e acastanhados fortemente característicos dos Anos 50 são pormenores lindíssimos.

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     O elenco não podia estar mais dedicado. Os atores desenvolvem juntamente com o realizador um senso de espaço muito realista enquanto interpretam o texto de maneira exemplar. São elencos como este que os jovens atores deviam ter em consideração. A que mais brilha é, sem dúvida, a maravilhosa Kate Winslet. Imediatamente na primeira cena, somente com um ar cansado, infeliz e extremamente stressado, ela vende a personagem. Por momentos, parece que vai ter um enfarte. O foco está todo nela: depressão, desgaste, frustração e, sobretudo, uma ingenuidade estranha e indecisa entre os seus desejos e as suas regras. Poucas atrizes conseguem marcar a sua presença desta maneira. A interpretação lembra muito a da Cate Blanchett em Blue Jasmine, também do Woody Allen, sem nunca parecer uma imitação, claro.

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     O Justin Timberlake surpreende cada vez mais. Ele continua muito romântico, apaixonado, vívido, charmoso, mas desta vez com uma ambiguidade muito interessante e algumas camadas inesperadas. O Woody Allen dirigiu-o impecavelmente. Quero ver mais ele!

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     O Jim Belushi está impecável como um homem bronco, vulgar e com problemas com álcool e dinheiro, mas com boas intenções e sentimentos genuínos pelos seus. É um homem desprezível em certos aspetos, mas o ator consegue puxar o interesse do espectador, ao invés de o rejeitar.

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     E a Juno Temple está igualmente de aplausos. A atriz complementa a trama com uma maior ingenuidade, inocência condicionada, burrice, falta de desenrascanço e uma estranha afeição por aqueles que a desprezam.

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     No entanto, há algumas cenas em que personagens passageiros decidem aparecer apenas porque o realizador decide recapitular ou acelerar a história. São momentos excluíveis e desnecessários. E o personagem Richie, o filho da Kate Winslet, é problemático. A sua piromania é muito interessante e até serve como um elemento simbólico para toda a depressão na vida quotidiana dos personagens, mas este acaba por nunca ir além disso. É um jovem mal comportado e desequilibrado, mas não serve de muito mais.

     A banda sonora composta à base de puro jazz dos Anos 50 é uma das mais agradáveis do ano. A música ajuda a contar a história e acompanha, como deve ser, as emoções dos personagens.

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     Wonder Wheel pode não ser um dos principais exemplos do enorme e magistral talento do Woody Allen, mas está muito perto de ser. Para além de ter ótimos personagens, diálogos, composições visuais e escolhas musicais, é a prova que a idade não é sinónimo de desleixo.

 

Nota: A-

Filme visualizado no Lisbon & Sintra Film Festival

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Only the Brave (Só Para Bravos, 2017) - Crítica

  Arizona, EUA, Junho de 2013. Uma equipa municipal de bombeiros recentemente profissionalizada fica responsável por inúmeros incêndios decorrentes no país.

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    O filme foi realizado pelo Joseph Kosinski, responsável pelos apenas medianos Tron: Legacy e Oblivion. Apesar do aproveitamento genérico dos seus últimos trabalhos, desta vez, o realizado demonstrou ter talento e uma boa mão para construir uma história inspiradora surgente de um cenário catastrófico.

     Algo que o realizador fez muito bem foi desenvolver o ambiente de convívio e de trabalho dos bombeiros como se de um exército se tratasse. Quase todas as provocações e insultos que estes trocam são engraçadas e contribuem para se desenvolver uma equipa e um companheirismo muito confortável. O grupo funciona como um grupo e todo o elenco está à vontade. Contudo, sei o que já se disse sobre o desenvolvimento de personagens. Em parte, concordo com a falta de tempo que alguns atores receberam, mas algo que não podia ser feito era apostar em arcos próprios para cada bombeiro. No total, são 20, sendo que, apenas os mais importantes recebem a devida atenção. Se o contrário acontecesse, a narrativa ficaria demasiada inchada, aliás, mais inchada do que aquilo que já ficou.

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     O Josh Brolin é um ator ótimo. Aqui, mais uma vez, ele lidera um elenco enorme e sabe muito bem conduzir o seu personagem no caminho certo, de maneira a não ficar genérico demais. O personagem não é novo no seu currículo e daí se justifica a sua facilidade em interpretá-lo. Trata-se de um homem casmurro, rígido, mas inspirador e com um forte sentido de liderança. No entanto, a sua performance é reduzida pela Jennifer Connelly, o que não é um ponto positivo. A personagem desta não é interessante nem necessária. A atriz é talentosa e está bem como sempre, mas infelizmente eu nunca me encontrei investido no arco dela. Se todo essa sub-trama fosse excluída teríamos um filme mais concentrado e até com uma via fácil para se focar mais no Jeff Bridges.

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     As interações do Josh Brolin com o Jeff Bridges já são poucas e, quando finalmente acontecem, nunca são satisfatórias. O ator está cada vez mais a tornar-se numa paródia dele mesmo. São raros os filmes em que este não é apenas o texano cantor com sotaque e um copo de whisky na mão. Aliás, com a exceção do western Hell or High Water, são poucos os filmes que conseguem utilizar essa piada fora da caixa. Está na altura de o ator voltar a interpretar personagens e não constantemente um estereótipo cansativo e desgastado.

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     Apesar disso, o realizador consegue extrair algumas excelentes cenas entre Miles Teller e Taylor Kitsch. O duo improvável começa com uma rivalidade interessante que eventualmente se torna numa amizade carismática. É um arco previsível, mas é bem feito, que resulta sobretudo graças à química dos dois, com um especial destaque para o Miles Teller, que é, sem dúvida, o mais talentoso. As suas motivações são claras e o processo de mudança do personagem é muito bem construído.

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     Tecnicamente falando, a fotografia é excecional. O chileno Claudio Miranda, que trabalhou no extraordinário Life of Pi, captura vastas composições visuais que vão desde à mais bela paisagem de uma floresta até à mais temível imagem do fogo a alastrar-se na nossa direção, destacando principal e simultaneamente o amarelo da farda dos bombeiros. O fogo, aliás, é retratado quase como um monstro, como um personagem antagónico, o que funciona muito bem. O diretor de fotografia e o realizador metem-nos dentro do incêndio e a claustrofobia e o medo, causados pela rápida “perseguição” das chamas, pelo calor e pela falta de ar, são contagiosos. Tememos pela vida dos bombeiros e ficamos instantaneamente sensibilizados. Tal como o fogo, a natureza num todo é representada como um personagem. O personagem do Josh Brolin invoca a natureza como o quão poderosa ela é. O quão pode ser tão bela como tão perigosa.

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     Já a banda sonora desiludiu. É completamente genérica e esquecível. O que a salva é a escolha musical. O rock presente na casa dos bombeiros é apreciável e a letra das músicas são apropriadas para um combate às chamas, mesmo o presságio sendo ligeiramente óbvio.

     O ato final é exatamente aquilo que devia ser. Eu saí do cinema comovido, tocado e ligeiramente deprimido. Todos sabemos o que acontece, mas algo que o cinema consegue fazer particularmente é exaltar a violência do sucedido, enquanto simultaneamente nos inspira. Sim, começamos a prever e a contar as mortes, a roer a unhas com o coração nas mãos e a sentir o peso da enorme perda, mas, ao fim de alguma reflexão, percebemos que o simples ato de defender uma população voluntariamente e arriscar a vida todos os dias consegue ser o mais inspirador ato de heroísmo. Não é exagero quando se diz que os bombeiros são heróis nacionais.

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     Only the Brave merecia muitos acertos narrativamente, no que diz respeito ao seu foco e aos seus personagens secundários. Porém, felizmente, cumpre o seu propósito: alertar e o seu público. O filme acaba numa nota desconfortável, mas algo que poucos filmes de desastre conseguem fazer é comover quem o vê. Por isso, merece ser visto. Aliás, a situação dos incêndios dos últimos anos em Portugal é mais que suficiente para nos investirmos nesta história.

 

Nota: B+

 

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Atualização!

     Como puderam reparar, o blog sofreu algumas (muitas) alterações no que diz respeito ao seu visual. Com um especial e merecido destaque para o novo banner no cabeçalho, que inclui o título do blog, uma descrição e, claro, a referência àquele que poderá ser o meu filme favorito! Respondam-me aqui em baixo tudo o que acham destas recentes mudanças.

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     Este pequeno detalhe é obra do Leandro, do blog Na Primeira Fila. Como um pequeno agradecimento ao mesmo, vou deixar aqui todos os links dele. Se não fosse a sua generosidade, paciência e disposição, nunca mais teria um banner em condições, visto que não sei trabalhar com nenhum tipo de montagem …

 

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Lucky (2017) - Crítica

     Lucky, um texano de 90 anos, depois de uma ligeira tontura, começa a lidar com a ideia da chegada cada vez mais breve da sua morte.

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     Trata-se do directorial debut do ator John Carroll Lynch. Como nós sabemos, existe sempre aquele receio de ver a primeira obra de realização de um determinado artista, sobretudo quando o mesmo nunca teve nenhum outro trabalho no mesmo cargo. O ator nunca realizou nenhuma curta ou episódios para séries, mas mostrou-se perfeitamente à altura do desafio. Lucky é um filme minimalista e curto, mas muito bem trabalhado técnica como interpretativamente. É prova que quantidade não é sinónimo de qualidade.

     Por onde começar? A interpretação do Harry Dean Stanton merece ser comentada o quanto antes. O ator morreu em Setembro com 91 anos e teve uma carreira muito respeitável. Com uma filmografia de 60 anos com mais de 200 trabalhos, o ator demonstrou estar em forma para participar em mais projetos. E apesar das tão elogiadas performances em Alien, de 1979, e em Paris, Texas, de 1984, Lucky junta-se à lista das mais poderosas interpretações da carreira do ator. Dentro de uma aparente inexpressividade, o personagem é irónico, carismático, convidativo, engraçado, mas também maldisposto e, por vezes, grosseiro. O público acompanha-o nas variadas cenas de humor e de maior reflexão sobre diversos assuntos. Sendo assim, aprende muito sobre ele com pouquíssimos diálogos. A sua caracterização consiste em montagens da sua rotina, em cenas sossegadas do protagonista a fumar ou a tocar harmónica, e em maravilhosos monólogos assim como ótimos close-ups na sua cara, recheados de muita emoção transmitida pelos olhos do personagem. O ator carrega o filme às costas completamente. Uma nomeação póstuma era minimamente obrigatória. Descanse em Paz, Harry.

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     O filme tem a capacidade de dividir algumas pessoas. A história aborda sobretudo a perceção individual da nossa mortalidade e eventual fim, assim como um longo recapitular da nossa vida e daquilo que a mesma podia ter sido. O que há a seguir a tudo? Outra vida? Outro lugar? Ou apenas um constante, porém relaxante vazio? São várias as questões que o protagonista partilha com o público, sem nunca receber qualquer resposta, o que é sempre acertado de se fazer no cinema. Responder a estas dúvidas coletivas seria até presunçoso.

     Os diálogos no geral e a opinião inicial concreta do protagonista acerca destas questões fazem parte de um guião muito engraçado, com a dose certa de cinismo. O equilíbrio entre o humor e o drama sempre presentes é muito fluído. Principalmente, quando o Lucky conversa com os vizinhos, há um ótimo desenvolvimento de uma comunidade pacata e de um companheirismo na pequena cidade texana.

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     O elenco secundário não sai muito do esperado. Verdade é que todos somem na sombra do Harry Dean Stanton, mas poucos são os atores que conseguem estabelecer uma presença notável. A impressão que dá é que algumas conversas do Lucky com determinados personagens ficaram por acabar. No entanto, simpatizei rapidamente com o Barry Shabaka Henley, sendo sem dúvida o maior destaque, na realidade, o David Lynch. A participação cómica e propositadamente risível do conhecido realizador gera alguns dos momentos mais engraçados de todo o filme.

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     Tal como maior parte dos filmes independentes americanos, Lucky possui uma fotografia ligeiramente poluída e acastanhada, contudo com um charme distinto que me farão lembrar de todas as enormes composições horizontais do protagonista a passear pelo vasto deserto, que nada mais são que referências/homenagens ao filme Paris, Texas. É de realçar, os catos, aliás, como os cágados, são muito simbólicos. Merece destaque também uma pequena cena psicadélica que trabalhou muito bem o vermelho.

     A banda sonora, à base de harmónica, violino e viola, é uma das mais agradáveis do ano. Há também escolhas musicais muito adequadas como I See A Darkness, do Johnny Cash, e Volver, Volver, cantada pelo próprio Harry Dean Stanton, numa cena tocante e arrepiante.

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     Lucky é um filme pacato, é minimalista, paciente, mas com uma fascinante habilidade de gradualmente compensar, tocar e surpreender o seu público. Oferece uma realização convicta, firme e promissora do John Carroll Lynch, uma banda sonora maravilhosa, uma reflexão rica e concentrada no seu tema central, e um Harry Dean Stanton inspirado naquela que é uma das melhores performances masculinas do ano e da sua carreira.

 

Nota: A

Filme visualizado no Lisbon & Sintra Film Festival

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Geu-hu (O Dia Seguinte, 2017) - Crítica

     Bong-wan, um escritor presidente de uma editora, depois de receber uma nova funcionária na empresa, encontra-se dividido entre a relação com a sua mulher e o caso com uma amante de longa data.

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     O filme foi escrito e realizado pelo Sang-soo Hong, um dos realizador sul-coreanos mais autorais em atividade, que também compôs a banda sonora. Sou sincero, desconhecia a sua filmografia. O meu interesse nele começou quando descobri a atriz Min-hee Kim que, depois da ótima prestação no drama erótico do ano passado, Ah-ga-ssi (ler crítica), ganhou o Urso de Prata de Melhor Atriz, no Festival de Berlim deste ano, com o filme On the Beach at Night Alone. Cheira-me a uma dinâmica realizador-atriz muito promissora, estou muito curioso.

   O estilo dele surge como uma mistura do estilo técnico típico do Wes Anderson com os temas e atmosfera da filmografia do Michel Franco. Como explicar? O filme é uma obra bastante autoral, silenciosa, calma ao contar a sua história, gravado maioritariamente com um movimento horizontal e um posicionamento estático da câmara. Imaginem Wes Anderson em preto e branco, deprimente e sem qualquer elemento de humor … é mais ou menos isso. Sendo assim, praticamente todas as conversas dos personagens (triviais ou não) são gravadas com os atores colocados de perfil, o que realça a expressividade do elenco, assim como a ligeira simetria dos próprios planos.

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     Ainda assim, o filme não é pesado, ao contrário daquilo que a própria trama insinua. Geu-hu é um filme para quem gosta de ouvir pessoas a conversar, a partilhar ideias, enquanto, estando o principal foco na resolução do problema principal. A abordagem do primeiro tema, o adultério, é inicialmente abordado de uma maneira leve, contudo, sem jamais perder o realismo ou seriedade. Há muitos silêncios e isso torna a experiência muito mais credível e palpável. Quando não estamos num dos momentos de maior exaltação (que já são poucos), Sang-soo Hong oferece-nos somente um tema musical singular e distinto. As transições das cenas deixam óbvia a entrada da música, porém o lirismo e a poesia são tão agradáveis que ficamos imediatamente consumidos pela deliciosa melodia ligeiramente incómoda e estridente. Há um contraste muito interessante.

     Os planos, como já disse, variam entre horizontais e estáticos. Contudo, alguns zooms exagerados acabam por não servir para grande coisa. Aparece, de vez em quando, um quadro, que discutivelmente têm um significado, mas outros são desnecessários, principalmente uns zooms in & out que permanecem mais no 1º Ato. Felizmente, isto dura pouco. Para melhorar, a fotografia ajuda a suavizar ainda mais a tensão que eventualmente surge durante o processo. É uma visão muito bonita da cidade pacata, complementada pela neve do dia e pela melancolia da noite. Alguns frames podiam até ser quadros lindíssimos.

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     Os diálogos tinham de ser bons, senão o filme fracassaria. De facto, podem não estar ao nível do filme Moonlight. Mas a recriação das duras conversas de um casal em crise é feita de maneira eficiente, incluindo bons silêncios, interrupções e os momentos adequados de discussão. Há muitos momentos triviais e esses são já tratados com menos cuidado. De vez em quando, são abordados alguns temas que, quando expressados por frases consecutivas, tornam-se artificiais demais. Para não falar da estranha escolha de incluir áudios das pessoas a lerem cartas e mensagens no telemóvel. Nessas situações, era muito mais interessante observar as reações do leitor.

     Já o elenco, faz o seu melhor e é responsável pela qualidade e verdade das cenas. O Hae-hyo Kwon retrata um homem cansado, frustrado, inicialmente colocado no papel da vítima, mas lentamente o desprezo do público por ele aumenta quando conhecemos o seu lado mais hipócrita, arrogante e quadrado.

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     A Min-hee Kim faz novamente um trabalho impecável e a sua personagem é a mais interessante. Mesmo a interpretação tendo momentos exaltados, são nos pequenos suspiros e revirar de olhos que ela me convenceu e que me chamou à atenção.

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     Já a Sae-byeok Kim e a Yoon-he Jo fazem um trabalho apenas respeitável (talvez mais a segunda). Não são as personagens mais interessantes, mas as atrizes cumprem o seu papel e não incomodam.

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     O final foi mantido no ponto de maneira bastante adequada. A resolução foi simples e terminou numa nota positiva, ainda que inesperada. Mas calma, neste caso “inesperado” não é sinónimo de twist à lá Shyamalan. O que é pena é que o final seria melhor se o filme terminasse 20 segundos antes, pelo menos nesse momento o shot seria perfeito. Infelizmente, o filme decide acabar com uma informação que o público já tinha obtido na cena anterior.

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     Geu-hu pode não ser mais um exemplo da excelência do cinema sul-coreano que tivemos nos últimos anos. Ainda assim, apesar de vários acertos técnicos necessários numa produção demasiado autoral, o filme merece atenção por ser diferente, minimalista, leve e refrescante.

 

Nota: B

Filme visualizado no Lisbon & Sintra Film Festival

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Top 10 Melhores Filmes de Super-Heróis de Sempre

     Filmes de super-heróis são, de certeza, aqueles que mais sucesso fazem. O género pode não ser necessariamente o melhor, mas é um dos mais divertidos e um dos mais apreciados pelo público no geral e pelos cinéfilos mais compulsivos atualmente. Nesta lista, apenas um filme não é baseado em comics e eu decidi não incluir nenhuma animação. Anyway, ficam aqui com 10 (ou mais) recomendações.

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10º Lugar: V for Vendetta (V de Vingança, 2006)

     Há um debate plausível sobre quem estava realmente atrás da cadeira de realizador durante a produção deste filme. James McTeigue ou as Irmãs Wachowski? Deixo-vos esta pergunta em primeiro lugar. É de realçar que são poucos os filmes de super-heróis que conseguem adotar uma narrativa de um género distinto. V for Vendetta é um dos melhores exemplos de um filme de super-heróis adaptado numa narrativa social e politicamente relevante. O filme tem um dos melhores comentários contra o totalitarismo e um dos melhores acerca da força que um ideal consegue inspirar numa população. Há momentos genuinamente tensos, nomeadamente os discursos do fabuloso John Hurt ou as ótimas cenas de ação, conduzidos de maneira poética. O V é um dos personagens mais interessantes do género e também um dos melhores papéis do Hugo Weaving. Merece destaque também a fantástica Natalie Portman que está sublime e bonita como sempre, mesmo sem cabelo.

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9º Lugar: Logan (2017) (ler crítica)

     Como podem verificar, esta é a entrada mais recente desta lista. Logan, para além de um espetacular e violento western dramático de ação, é também uma belíssima obra sobre os limites de um homem desgastado e quebrado. E mesmo achando o seu valor nas cenas de ação gráficas e brutais, o filme conduz-se com uma filosofia deliciosamente melancólica. O Hugh Jackman acha precisamente neste filme a sua melhor interpretação do personagem Wolverine, algo que terminou ao fim de 17 longos anos. O James Mangold demonstra-se o realizador certo para conduzir a franchise dos X-Men, adotando um estilo bem clássico de fazer cinema, o Patrick Stewart merece um reconhecimento maior pela performance marcante de um fraco e envelhecido Professor X, e a Dafne Keen merece também destaque por ser uma das mais fantásticas revelações neste universo cinematográfico.

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8º Lugar: X-Men 2 (2003)

     Sou culpado, adoro os X-Men. O Bryan Singer desenvolveu o comentário certo para o universo, orquestrou uma banda sonora monumental e, tal como aconteceu no primeiro X-Men, contribuiu de uma forma que viria a ser mais valorizada nos anos seguintes – soube equilibrar o tom, consistente em diálogos engraçados e momentos necessariamente dramáticos, uma característica do género que se imortalizaria eventualmente neste século. A cena inicial com o Nightcrawler merece um semelhante destaque por ser uma das mais surpreendentes e criativas já feitas. Juntamente com essa nova entrada, o realizador consegue equilibrar o desenvolvimento da maior parte dos personagens de maneira engenhosa e aparentemente fácil, com exceção claramente da Storm, que sempre foi a mais subutilizada. Por fim, graças ao ritmo e à dedicação do elenco, o último ato é um dos mais enérgicos que já vi. Se já o primeiro filme foi marcante, quanto mais este, que é discutivelmente uma das melhores sequelas do género.

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7º Lugar: Watchmen (Watchmen: Os Guardiões, 2009)

     Ao contrário daquilo que se possa pensar, o início da carreira do Zack Snyder esteve repleta de filmes de qualidade: Dawn of the Dead, 300 e, claro, Watchmen, que certamente dividiu o público de uma maneira que poucos filmes conseguiram. Pode não ser o melhor, mas é aquele filme de super-heróis que adultos irão adorar, enquanto a geração mais jovem se irá entediar. Há de tudo aqui: cores vivas, cenas de câmara lenta sensacionais, uma seleção musical deliciosa e um distinto espetáculo visual. Sendo um filme decorrente durante a Guerra Fria, o foco aqui esteve totalmente no lado mais nocivo e medonho da Humanidade durante o mesmo período, funcionando perfeitamente como um estudo sobre a natureza violenta, corrupta e imoral do Ser Humano. Os personagens Rorschach e Ozzymandias (este ainda menos explorado do que devia) são exemplos dos efeitos colaterais dessa mesma imoralidade, mesmo estes dois vigilantes terem filosofias exatamente opostas. Watchmen pode ser demasiado longo e reflexivo para alguns, mas é sem dúvida uma joia para aqueles que procuram algo menos convencional.

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6º Lugar: Deadpool (2016)

     No essencial, Deadpool foi um alívio para o próprio género. Como já foi dito antes, o filme é o mais engraçado do seu nicho, a classificação Rated-R complementa, e muito, a essência do personagem e a redenção da carreira do Ryan Reynolds é uma das mais surpreendentes dos últimos anos. Para além disso, é de realçar a originalidade com que a estrutura narrativa foi elaborada. O filme funciona como uma comédia, como um filme de ação, como um romance e, claro, como uma jornada vingativa do protagonista. Devido à enorme qualidade de efeitos especiais e maquilhagem, que incluiu membros cortados, decapitações, litros de sangue derramados e inúmeros outros golpes violentos e gráficos, Deadpool pode não alcançar o status family friendly. But who cares? Foi provado que a classificação etária de um filme pouco interessa numa estreia e que o género tem ainda muitos caminhos para explorar. Esta é a escolha perfeita para uma sexta à noite com amigos.

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5º Lugar: The Avengers (Os Vingadores, 2012)

   É verdade que dinheiro não é sinónimo de qualidade. São vários os componentes do MCU que apenas são divertidos no momento em que os vemos, há alguns que não ficam na nossa memória para sempre. Porém, alguns casos são exceções … The Avengers é um deles. Desengane-se quem pensar que isto se trata apenas de uma mega sequência de ação com 6 soldados especiais a enfrentar um enorme exército alienígena. O filme é muito divertido, é verdade, e o maior fator responsável é o número de excelentes interações entre os protagonistas que, eventualmente, seriam desenvolvidos em filmes futuros. No entanto, algo que apenas reparei na última vez que vi o filme foi um leve, mas eficiente comentário sobre os difíceis laços de confiança que se criam dentro de um ambiente político, principalmente numa situação de ameaça (ainda que fictícia) à segurança de um país. Graças a isso, The Avengers consegue se excluir facilmente daquele conjunto de filmes do MCU que apenas são engraçados e frenéticos. Não se pode negar que tudo neste filme é bem trabalhado, desde as espetaculares pequenas cenas de ação, ao enorme carisma do antagonista Loki e à extraordinária batalha final que nunca fica cansativa. Aliás, tudo fica melhor com a second view!

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4º Lugar: X-Men: Days of Future Past (X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido, 2014)

     Já consegui expressar o meu enorme carinho pelo universo dos X-Men. Um carinho que apenas começou este verão, já que decidi somente este ano começar uma maratona de filmes que nunca tinha visto. Rapidamente, o Wolverine, o Professor X, o Magneto e a Mystique tornaram-se em algumas das minhas personagens preferidas do cinema moderno. A Marvel da Fox é melhor que a Marvel da Disney por uma razão: o realismo e a seriedade dos comentários acerca da sociedade em qualquer período da História, o racismo que nela se mantem até hoje e os falsos moralismos daqueles que se consideram dignos. X-Men: Days of Future Past é o melhor filme de uma franchise que se manteve sempre (com algumas exceções) com uma enorme qualidade temática e técnica. O filme é um dos mais deprimentes do género, mas também um dos mais emocionantes e tensos. Os Sentinelas são bastante ameaçadores, mas o foco nunca foi a ameaça que estes representavam, mas sim o desenvolvimento riquíssimo de alguns arcos: a revolta do Magneto, a culpa do Professor X, as dúvidas da Mystique e o compromisso do Wolverine. A dedicação de um dos melhores elencos já reunidos, os estonteantes efeitos visuais, os diálogos sentidos e as ótimas cenas de ação fazem deste filme imprescindível.

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3º Lugar: Spider-Man 2 (Homem-Aranha 2, 2004)

     Se o Bryan Singer foi um dos maiores impulsionadores deste género do século XXI, o Sam Raimi contribuiu ainda mais para definir aquilo que um filme de super-heróis devia ser: emotivo, envolvente, divertido, engraçado e dramático nas doses certas. Spider-Man 2 é o melhor filme do Homem-Aranha, ponto. Tal como o universo dos X-Men, a seriedade de determinados arcos evolui o desenvolvimento de todo o mundo em que a ação decorre. A interpretação do Tobey Maguire é perfeitamente instrumental nesse aspeto, é um Peter Parker e um Homem-Aranha mais adulto, mais sofrido e, consequentemente, mais assustado e vulnerável. Tal como o primeiro Spider-Man, a sua sequela elabora um estudo (desta vez melhor) sobre a condição humana, sobre tudo o que vivemos que acaba eventualmente por nos moldar, por definir os nossos valores e as nossas obrigações enquanto cidadãos com habilidades “especiais”, não no sentido literal (óbvio). Merece destaque também o Alfred Molina, que desenvolve um antagonista memorável e não totalmente maléfico. Devido àquilo pelo qual o pobre cientista passou, é impossível ficar totalmente contra ele. Daí surge a reflexão sobre a nossa condição mais inconsciente, o lado que desconhecemos de nós próprios, as atitudes e desejos mais condenáveis. Sendo assim, concluo dizendo que Spider-Man 2 é o melhor filme de um personagem da Marvel já feito até hoje.

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2º Lugar: Unbreakable (O Protegido, 2000) (ler crítica)

     Nesta lista, tive de abrir uma exceção e fazer batota. Unbreakable não é adaptado de nenhum material-fonte, mas é certamente um dos filmes deste género ao qual eu dou mais valor. Desengane-se quem pensar que este se trata de só mais um thriller sobrenatural do senhor M. Night Shyamalan. De facto, tal como outras obras do realizador, a atmosfera é melancólica, tensa, lenta e até bizarra. Por momentos não sabemos o que estamos a assistir, o que é na verdade um dos melhores visionamentos possíveis. No entanto, Unbreakable é um filme consideravelmente importante e envolvente. No fundo, é uma discussão sobre o nosso papel na vida, a nossa escolha de nos tornarmos um “super-herói” para as pessoas que nos rodeiam, para as pessoas que gostam de nós. “O que é que estamos cá a fazer?”; “Qual é o significado da nossa presença?”; “Qual é o meu papel neste mundo violento e imoral?”; “Será que mereço aquilo pelo qual já passei?” … são estas algumas das inúmeras perguntas que nos passam pela cabeça enquanto observamos atentamente a jornada do David Dunn e a sua estranha interação com o sinistro Elijah Price, uma alma incompreendida e solitária. A música, os flashbacks, as cores, tudo sustenta a melancolia e o desconforto crescentes, enquanto exalta cada vez mais a inspiração e força que o desenrolar da história pode transmitir a uma pessoa. O ato final é recheado de momentos desses, principalmente quando o David decide finalmente agir e assumir o seu papel … até que um dos melhores twists de sempre é revelado. Split (ler crítica), deste ano, foi muito bom e Glass, que chegará em 2019, é muito promissor, mas nenhum chegará aos calcanhares do seu original. Unbreakable não é um filme, é uma experiência.

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1ª Lugar: The Dark Knight (O Cavaleiro das Trevas, 2008)

     O que é que posso dizer mais sobre este filme que já não tenha sido dito. The Dark Knight é o melhor filme deste género, ponto. Porquê? Vejam por vocês mesmos. O que é que esta sequela tem que os outros não têm? É a pergunta que coloco. Para responder corretamente, digo que este está cima dos outros duma maneira incontornável. É uma estrutura narrativa de um filme de máfia/gangsters; as cenas de ação criadas com efeitos práticos são algumas das melhores da filmografia do Christopher Nolan, as referências literárias do mesmo são feitas de maneira inteligentíssima (e não só apenas no segundo filme), o conflito de consciência do protagonista é tematicamente riquíssimo, assim como o estudo da violência e corrupção humana (feito sem qualquer receio), a filosofia da figura de Cristo facilmente derrubável, do Bode Expiatório e, claro, da mente perversa, egoísta, anárquica e moralmente duvidosa do Homem. O elenco é um exemplo de dedicação para toda a nova geração de atores, o espetáculo visual complementado pelo trabalho de câmara é uma aula de cinema e o desenvolvimento do antagonista principal é um que jamais irá ser superado. O Joker é tudo aquilo que lhe queiram chamar: psicótico, maluco, insano, maldoso, insensível e violento. Mas há algo que nunca lhe poderão tirar: a razão. O Ser Humano não é tão nobre quanto diz ser, um cidadão de eleição como o Harvey Dent não é um modelo exemplar na sociedade, os nossos ideias não são tão valiosos quanto nós pensamos, porque apenas com um clique, um empurrãozinho, nós facilmente cedemos. O ato final pode terminar com a população de Gotham a demonstrar o seu valor, mas no final o Joker vence, provando que até o maior exemplo de dignidade e honra da nossa comunidade pode cair na desgraça. Por estas e por outras muitas, eu considero The Dark Knight o melhor filme de super-heróis já feito.

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“You see, madness, as you know, is like gravity … all it takes is a little push!”

Menções Honrosas:

  • Superman (1978)
  • Batman (1989)
  • Batman Returns (1992)
  • The Crow (1994)
  • X-Men (2000)
  • Spider-Man (2002)
  • Blade II (2002)
  • Batman Begins (2005)
  • Iron Man (2008)
  • Kick-Ass (2010)
  • X-Men: First Class (2011)
  • The Dark Knight Rises (2012)
  • Guardins of the Galaxy (2014) (ler crítica)
  • Captain America: The Winter Soldier (2014)
  • Captain America: Civil War (2016)
  • Thor: Ragnarok (2017) (ler crítica)

 

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Thor: Ragnarok (2017) - Crítica

     Vale sempre a pena esperar pelas duas cenas pós-créditos, a não ser que a cena dure 45 segundos e que não acrescente nada à informação já dada sobre futuros filmes. Enfim …

     Thor e Hulk estão de volta e, desta vez, depois de se reencontrarem por acaso num planeta diferente, os dois devem unir forças para impedir que a irmã desconhecida do Thor, Hela, destrua Asgard por completo.

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    O filme foi realizado pelo neozelandês Taika Waititi, um realizador em ascensão que já definiu o seu lugar com a comédia excecional What We Do in the Shadows. Confesso que fui um dos primeiros a torcer o nariz quando a Marvel anunciou esta nova escolha. Tinha confiança no realizador, já que sempre foi dotado para a comédia, mas ia com as expectativas baixas para as cenas de ação. Devo dizer que não podia ficar mais surpreendido! Thor: Ragnarok, de certeza, não é o melhor, mas é um dos mais divertidos filmes da Marvel, juntamente com Guardians of the Galaxy e Ant-Man.

     O Taika Waititi fez um trabalho exemplar. Primeiro, conduziu as cenas de ação de maneira a invejar colegas como o Michael Bay. Há muito CGI, muito mesmo, mas de excelente qualidade, claro, o que não é surpreendente vindo dum filme com um orçamento de 180 milhões de dólares. A edição e o trabalho de câmara complementam-se perfeitamente e nunca surgiu a sensação de confusão ou de excesso de ação. Todo aquele ambiente de guerra à lá Gladiator evoca perfeitamente os métodos de filmmaking de épicos como esse referido. Todo o processo é divertido e, feliz ou infelizmente, passa bastante rápido. O realizador fez também um excelente trabalho a desenvolver um mundo fascinante e, por vezes, propositadamente exagerado e risível. O design artístico é quase chocante e as cores primárias são acentuadas de uma maneira fortíssima.

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     O humor do filme é aquilo que se pode sempre esperar de um filme de super-heróis. Aliás, Marvel e Taika Waititi são um lindo casal. Nos seus filmes mais autorais, o neozelandês oferece um sentido de humor um pouco mais agressivo. Contudo, maior parte das piadas à lá Marvel funcionam e garantem ótimas e inúmeras gargalhadas na sala de cinema, sobretudo se o filme for visto com amigos.

     O Chris Hemsworth talvez nunca esteve tão bem a interpretar o Thor. Na verdade, o ator rapidamente se afeiçoou ao personagem e nunca mais o largou. Contudo, desta vez, há uma maior dedicação para com o desenvolvimento do mesmo, que vai muito além de brincar com o martelo e saber lutar. O arco dele é muito rico e o público não tira os olhos dele, tanto nas cenas de ação, tanto nas suas cenas cómicas.

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     O Tom Hiddelston continua deliciosamente traiçoeiro, mesmo como o Loki deve sempre ser. O personagem está mais calmo desta vez, mas o medo de uma possível traição nunca desaparece totalmente, o que faz dele moralmente ambíguo e interessante.

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     A Tessa Thompson foi uma bela adição no MCU! Estou ansioso por ver mais dela. A Valkyrie é uma guerreira sem feltros, bêbada, corajosa, carismática e muito engraçada.

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   O Jeff Goldblum é tudo aquilo que se pode querer do clássico Jeff Goldblum. O Grandmaster é divertido, convidativo e parece ter muito mais relevância do que mostra inicialmente.

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   O Idris Elba dá mais uma prova do seu pequeno, porém grande, compromisso com o personagem Heimdall. O ator é muito sólido e, mesmo com uma participação curta, nunca se deixa intimar pelo resto do elenco.

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     A seguir a The Avengers, de 2012, o Mark Ruffalo nunca esteve tão bem a interpretar o Hulk. É a sua performance mais engraçada, violenta e participativa no arco central. O Hulk sempre foi espetacular, mas nunca passou de um personagem secundário que apenas estava lá para “esmagar”. Desta vez, o conflito interno Bruce Banner/Hulk ganha mais destaque e torna-se mais interessante observar as duas personalidades em choque.

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     Já o Karl Urban foi uma tentativa falhada de desenvolver um arco de culpa e redenção. O personagem é desinteressante e, facilmente com duas ou três ligeiras alterações no guião, era possível excluí-lo facilmente. Este ocupa grande parte do tempo que podia ser da Cate Blanchett. Maior parte do desenvolvimento da antagonista é feito através de uma narração aborrecida que podia ser evitada se a vilã não estivesse a falar com alguém.

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     Por falar nela, a Hela pode nem ser, aliás, não é uma das melhores vilãs da Marvel no que diz respeito à sua ameaça ou à sua motivação, mas pouquíssimas atrizes conseguiriam igualar a presença, o charme ou a delicadeza malvada imbatível da atriz australiana. Nota-se que a Cate Blanchett quer extrair o maior prazer que consegue da personagem.

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     No elenco restante, estão incluídas as pequenas, mas ótimas participações do Anthony Hopkins como Odin, do Benedict Cumberbatch como o emblemático Doctor Strange e do próprio Taika Waititi como o monstro de pedra Korg, um alívio cómico eficiente.

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     A banda sonora é sensacional! Eu não estava à espera de ouvir a Immigrant Song, dos Led Zeppelin logo ao início. É de facto uma música intemporal e ritmicamente perfeita para acompanhar cenas de ação. Essa entre muitas outras!

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     Thor: Ragnarok é o melhor filme da trilogia Thor e um dos mais divertidos de todo o MCU. Sem dúvida, vale uma ida ao cinema, se aquilo que se procura é um bom filme de super-heróis com bons personagens, boa música, boa ação e boa comédia.

 

Nota: A-

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No Country for Old Men (Este País Não É Para Velhos, 2007) - Análise e Crítica

     No Country for Old Men comemora hoje, dia 9 de novembro, 10 anos de existência. Que dia poderia ser melhor do que este para se falar sobre esta fantástica obra-prima? SPOILERS!

     Baseado no livro homónimo escrito por Cormac McCarthy, publicado em 2005, o filme começa no Texas ocidental e segue três personagens distintos numa história de gato e rato que começa depois de um negócio de droga correr mal, deixando 2 irresistíveis milhões de dólares em jogo.

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  O filme foi escrito e realizado pelos Irmãos Coen e este trata-se provavelmente do mais violento, tenso e provocador trabalho da carreira da dupla. Trata-se de filme surpreendentemente ambíguo e sem um género concreto onde se possa incluir. O género em que o filme melhor se encaixa será o western, ainda assim, há elementos que sustentam um chase movie, uma comédia negra, um filme de ação, ou mesmo apenas um drama sobre criminalidade e dinheiro, todos géneros com que a dupla de realizadores já havia trabalhado. No fim da discussão, concluímos que se trata de um filme dos Irmãos Coen com momentos de tensão estupidamente inquietantes e algumas conversas engraçadas e caricatas. Tanto os eles como o Tarantino têm um estilo próprio. Mas qual será o principal tema de discussão nesta obra? O filme é mesmo sobre o quê? Antes, comecemos pelos aspetos técnicos.

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      Discutivelmente, este é um dos trabalhos de câmara mais engenhosos que já vi. Há uma genialidade na escolha dos planos usados, tanto em termos estéticos com interpretativos. Se revirmos o filme várias vezes tona-se evidente o papel dos personagens e o respetivo arco, mas nunca de uma maneira infantil, os Coen sabem o que estavam a fazer. Exemplo disso, são os planos iniciais dos diferentes moinhos. Cada um tem a sua própria direção, mesmo que as paisagens selvagens e mordazes sejam visualmente arrebatadoras, os moinhos têm mais relevância do que parece, mas já falamos disso.

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    A fotografia do Roger Deakins é magistral. A imagem naturalmente agressiva e corrosiva do Texas ocidental ajuda bastante na construção de mundo, mas verdade é que sem aquelas cores e capturas visuais era dificílimo que o filme fosse igualmente provocador. Faz-me confusão que este homem não tenha um Óscar. Merecem também destaque o design artístico, o guarda-roupa e os penteados, que são igualmente importantes, tudo aqui é mais importante do que parece.

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     Há também muito a dizer sobre a estrutura narrativa, que é bem mais complexa daquilo que mostra ser ao princípio. O filme é um western na sua essência. Sendo assim, há bastantes estereótipos facilmente reconhecíveis presentes também em enormes clássicos como Il buono, il brutto, il cativo, de 1966 e C’era una volta il west, de 1968. No Country for Old Men oferece esses mesmo estereótipos: o herói corajoso, o vilão indestrutível, o xerife, os mexicanos, os gangsters e a sugestão de um duelo final, que acaba por nunca acontecer devido ao twist trágico e imerecido. Estereótipos esses trabalhados de uma maneira única, mais trágica e mais realista. Por exemplo, a mafia mexicana é praticamente uma personagem coletiva, não tem a mesma relevância que teria num filme do Sergio Leone; o suposto herói do filme é um homem comum que daria tudo para não estar ali e toma algumas decisões ingénuas; enquanto que o verdadeiro herói do filme é o Ed Tom Bell, interpretado pelo Tommy Lee Jones, um individuo que já viu muita coisa e que se sente genuinamente desiludido pelo mundo em que vive e por não conseguir se adaptar nele, diminuindo a sua figura autoritária e imponente; enquanto que o assassino impiedoso é carismático o suficiente para nos deixar interessados por ele, sem nunca deixar a sensação de pavor desaparecer.

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     O Anton Chigurh é simultaneamente o melhor personagem do filme e o mais vazio e misterioso. Falemos desta maneira, no início, aqueles moinhos moldam muito bem a personalidade dos três personagens centrais. Enquanto os primeiros dois moinhos que giram em relação ao vento seguem a direção pela qual estão indicados, o último gira só numa direção descontroladamente. O Anton Chigurh é fascinante nesse aspeto, é um homem inexpressivo, sem vontade própria, que apenas segue um sistema pequeno de regras e se recusa a observar os outros a não se adaptarem à sua “filosofia”. Este não é apenas um assassino extremamente cauteloso e maluco, ele é muito mais do que isso. A cena da bomba de gasolina (do jogo da moeda) e do hotel com o Woody Harrelson são exemplos geniais que demonstram perfeitamente a sua maneira de pensar e agir. É uma aula de cinema, os Irmãos Coen ensinam-nos constantemente a elaborar uma discussão complexa dentro de uma cena subtil e aparentemente mundana. Escusado será dizer que a performance monstruosa do Javier Bardem é a melhor da sua carreira. É um homem estranho e misterioso, as suas motivações são incertas, assim como a sua origem. O cabelo, a roupa, as armas, é tudo muito … muito bem pensado! Talvez esta caracterização toda possa explicar a sua última aparição. Porquê incluir aquele horrível acidente de viação no ato final? Será tudo apenas mais um ato de violência sem sentido ou propósito? Ou significa algo mais?

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“Are you going to shoot me?” / “That depends. Do you see me?”.

     Hoje podemos considerar que a performance que passa mais despercebida é a do Josh Brolin, claro, sem lhe tirar qualquer mérito. É o mais simples e eficiente retrato do homem comum do Texas apanhado numa situação indesejada. Tanto a sua ingenuidade e azar levaram-no àquele cenário sujo e, mais tarde, à sua morte.

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     Do lado dos homens bons, o ator que mais brilhou foi sem dúvida o Tommy Lee Jones. É um dos melhores retratos do homem dividido entre o seu dever enquanto xerife e a sua depressão e desilusão perante a geração mais evoluída e capacitada de crimes mais violentos e estupidamente complexos (um contraste evidenciado no facto de o personagem estar quase sempre sentado em cena). Sente-se desconsolado e frustrado por não conseguir compreender nem se adaptar na nova era para qual o mundo caminha. Os tempos mudam, é um facto, e essa sensação é bastante melancólica. Mas será tudo pelo dinheiro e pela droga?

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“This ain’t no country for old men …”.

     Os Irmãos Coen são peritos a construir diálogos e cenas que nos ficam imediatamente na cabeça. O filme tem demasiados momentos desses para citar. Decisões artísticas como não incluir qualquer música ou diálogos excessivos contribuíram para a atmosfera única desta pérola cinematográfica. Quem não gosta de cenas enormes e lentas sem diálogos não gostou de No Country for Old Men. Visual storytelling é uma opção fiável para criar algo único, só que infelizmente não é para todos.

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     No Country for Old Men é um filme soberbo, provocador, violento, magistral e brilhante no desenvolvimento da sua história. Todas as cenas superam a sua antecessora, tanto graças ao acontecimento em si tanto graças aos diálogos. É uma obra-prima do cinema contemporâneo que merece adoração de toda a gente que gosta do cinema feito na forma mais inusual. Quem sonha com fazer cinema deve ter esta obra em consideração, já que é um dos melhores filmes da carreira dos realizadores, do Século XXI e da História.

 

Nota: A+

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São Jorge (2017) - Crítica

   2011, o primeiro ano da Troika em Portugal, são inúmeros os casos de endividamento de empresas e famílias e os planos de restruturação económica no país. Jorge, um pugilista falhado e endividado, consegue um trabalho como cobrador de dívidas e, ironicamente, começa a cobrar aqueles que, tal como ele, se vêm abraçados a dívidas.

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     O filme foi escrito e realizado pelo Marco Martins, responsável por Alice, de 2005 e Como Desenhar um Círculo Perfeito, de 2010, um realizador desprezado pelo público causal, que infelizmente não tem o mérito que merece. Alguns podem achar um exagero o que vou dizer, mas o seu trabalho aqui é digno de ser comparado àquilo que o Barry Jenkins fez no filme Moonlight. Discordem à vontade, estou aqui para dar a minha opinião, esperando por ler as vossas. São Jorge é uma obra-prima do cinema nacional … ponto.

    Em Março, depois da longa temporada dos Óscares, estava bastante curioso por ver este filme, mais por ver que esteve presente numa data de festivais de prestígio internacionais e que o Nuno Lopes tinha sido premiado em Veneza, tendo em conta que estes dois fatores nem sempre são obrigatoriamente sinónimos de qualidade. Fui para o cinema sem quaisquer expectativas … e fui completamente apanhado de surpresa. Para além de ser o primeiro filme de 2017 que vi, São Jorge foi aquele que mais me surpreendeu e àquele a que mais dou valor.

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    O Marco Martins conseguiu fazer algo difícil de maneira excecionalmente subtil: contar uma história meio-fictícia e meio-documentarista acerca de um assunto não muito distante. Os anos da Troika em Portugal trazem muitas questões e pouquíssimas vezes um meio audiovisual tem a coragem de abordar determinados temas de maneira honesta, audaciosa e corajosa. Não é esse o caso.

     Trata-se de um retrato perfeito do modo de vida de um bairro social durante uma época económica de crise, também sobre as dificuldades passadas pelas diferentes classes durante esse período, assim como a desgraça causada na vida do homem comum (não só o protagonista), homens que passam por um divórcio, ou pelo despedimento, ou ser obrigado a fazer cortes na sua empresa, para além do medo causado pela intimidação das empresas de cobranças difíceis. As simples cenas em que o Marco Martins decide deixar a câmara fluir ao pé de pessoas que nem são atores são até as mais verdadeiras do processo inteiro. Observamos o seu pensamento de vida, as vontades, as frustrações e o descontentamento, sem nunca concordarmos a 100%, o que torna a experiência ainda mais realista e útil.

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     O comentário social e político é feito sem nenhum receio e de maneira que poucos realizadores o sabem fazer – discretamente e sem o intuito de moralizar a cabeça do público, sem nunca repetir ou forçar a mensagem já transmitida. Essa é a magia que o cinema nacional pode possuir. Graças à reserva da denúncia que é feita, independentemente da ideologia política de cada um, todos nós podemos apreciar o filme como a majestosa obra de arte que é.

     E no meio de tudo está um espetacular estudo de personagem. O Nuno Lopes prova novamente que é um dos mais experientes e corajosos atores metódicos do país, senão do Mundo. O personagem Jorge é um clássico imediato do cinema português. Temos aqui um homem deprimido, apático, fechado, infeliz e altamente frágil. Todas estas características originadas por uma sociedade corrupta e maldosa que o negligencia. O protagonista é uma figura quase mitológica, é o “Santo que luta contra o Dragão da Austeridade”, alguém com que pessoas da mesma classe social se identificarão e com quem arranjarão um abrigo, um símbolo de esperança. Contudo, Jorge é tudo menos a vítima ou o santo da sua própria jornada. Ainda assim, jamais o público procura ficar contra ele. Ao invés disso, procurar pôr-se no seu lugar, se é que já não tenha estado nas mesmas situações.

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     A maior revelação foi, sem dúvida, o jovem David Semedo. A atribulada e distante relação entre pai e filho é desenvolvida com ambos momentos de rigidez e uma ternura adorável. O laço entre os dois é demonstrado perfeitamente com pequenos gestos e frases (uma mão na cabeça, uma conversa sobre papaias, ou um abraço inquieto). O filme acha leveza nas conversas silenciosas dos dois. Aí sim, o guião lembrou-me muito Moonlight. A cena em que os dois conversam depois do combate de box é um exemplo brilhante. É a simplicidade no seu auge.

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     A Mariana Nunes recebe menos destaque, mas dá um show igualmente bom. Sem necessariamente perceber a razão principal da separação entre ela e o Jorge, é possível nos relacionarmos com eles, já que são apenas dois humanos a lutar para sobreviver no meio de uma relação tóxica e instável.

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     Já o José Raposo escusa comentários. Ele está ótimo aqui porque está ótimo em tudo o que faz, seja cinema seja televisão. O retrato feito é o de um homem desrespeitoso, egoísta, maldoso e de pensamento fechado. Contudo, uma simples atitude off camera demonstra que este é ainda um dos mais cautelosos e espertos.

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   A fotografia é digna de aplausos. Todas as composições são propositadamente sem vida e sem qualquer sensação de conforto. Ainda assim, há um espaço para um tranquilidade e poesia naquela montagem pré-box. Poesia, aliás, é o que define a bagagem técnica. Dignos são também a cruel banda sonora, que acha os seus momentos mais líricos e vibrantes, assim como o trabalho de iluminação, especificamente excecional durante as cenas de Jorge em frente ao espelho.

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     São Jorge é uma aula de cinema, representa todo o talento que existe no cinema nacional e é disparado uma obra-prima! É uma viagem suja, descontrolada e perturbadora à vida dos habitantes dos bairros sociais portugueses, um estudo importante sobre os anos da Troika em Portugal, assim como um excecional desenvolvimento do seu protagonista.

 

Nota: A+

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