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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

The Disaster Artist (Um Desastre de Artista, 2017) - Crítica

     Baseado na autobiografia The Disaster Artist: My Life Inside The Room, the Greatest Bad Movie Ever Made, de Greg Sestero, publicado em 2013, o filme conta a sua história como um aspirante ator que, em 1998, durante uma aula de teatro, conhece o misterioso Tommy Wiseau, igualmente determinado em alcançar uma carreira em Hollywood. Perante os obstáculos às tentativas de sucesso dos dois, estes decidem fazer o seu próprio filme, The Room (lançado em 2003), que mais tarde se tornaria conhecido como o Citizen Kane dos filmes maus, ganhado o status de culto e movendo cinéfilos até hoje.

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     O filme foi realizado e protagonizado pelo James Franco, um ator com uma carreira cada vez mais respeitável, na qual se estabelece finalmente como um bom realizador, depois de filmes péssimos como The Ape e In Dubious Battle (ler crítica). Assim como o próprio, praticamente toda a produção e elenco do filme tem um fascínio por The Room, devido, suponho, às inúmeras razões que fazem daquele um filme deliciosamente bizarro, amador, incoerente e inconsequente. Uma das razões que fará o público gostar de The Disaster Artist é, claro, o gosto inegável que se tem ao ver The Room. Quem nunca viu não vai gostar? Claro que não. The Disaster Artist, para além de uma ótima biografia compromissada, é ainda um filme engraçado e ambicioso sobre os nossos objetivos de vida e as maneiras em que os mesmos podem ser alcançados (mesmo das maneiras mais inesperadas, no caso de Tommy Wiseau).

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   Quanto à fotografia, à banda sonora e aos restantes aspetos técnicos, o filme não tem quaisquer surpresas. É verdade que uma biopic não exige grandes detalhes estéticos, mas servir o seu propósito é, por vezes, um bocado redutor. Talvez apenas a percussão enérgica presente nas cenas do set de filmagens seja prazerosa. A maquilhagem e penteados, no entanto, é impecável. Claro, ganhando destaque no visual do James Franco, na caracterização do Tommy Wiseau. Sabe-se que o trabalho é bem feito quando o ator fica praticamente irreconhecível. Algo que é também muito bem feito é a recriação de todos os sets originais da obra-prima de Tommy, o que demonstra o cuidado atencioso da produção.

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     Vamos começar com o James Franco. O Globo de Ouro de Melhor Ator - Comédia foi mais que merecido. É a melhor performance da carreira do ator desde 127 Hours, de 2010. A interpretação dele é bastante calculada e mimetizada (no melhor sentido da palavra), mas não deixa de ser impressionante. Para além de respeitar a essência da figura, do sotaque, dos tiques e das origens misteriosas do Tommy Wiseau, a interpretação é sobretudo uma homenagem apaixonante de um homem com um gosto enorme pelo material, respeitando todas as características do personagem: sonhador, único, inspirador, confiante, emotivo e agradavelmente estranho. Acaba por aumentar o já grande interesse em conhecer quem é realmente este homem, donde vem o seu dinheiro, donde veio ele e quantos anos o mesmo tem. Uma nomeação ao Óscar teria sido mais que justa. Enfim …

     O Dave Franco ainda é um ator com muito para aprender. Mesmo assim, sendo ele o olho do público, podemo-nos relacionar com ele facilmente e apreciar o seu carisma, a sua reserva, timidez, ingenuidade e inexperiência. Acreditamos na amizade dos personagens e queremos vê-los a ter sucesso, sabendo, ainda assim, perfeitamente como tudo vai acabar. Os dois irmãos têm uma química incrivelmente genuína, que premeia a narrativa inteira, escusado será dizer.

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     O Seth Rogen é de longe o mais engraçado depois do James Franco. Tal como o realizador e protagonista, este também sempre adorou The Room. Se aqui ele não passa do típico Seth Rogen, ao menos desenvolve uma arrogância e altivez muito cómica, roubando praticamente todas as suas cenas.

Infelizmente, não se pode dizer o mesmo do restante elenco. O Josh Hutcherson e a Ari Graynor foram desperdiçados. Explorar a relação profissional do Tommy Wiseau com a Julliette Danielle e com o Philip Haldiman (os personagens Lisa e Denny no filme de 2003) seria muito interessante, para além de uma explicação para muita coisa. A Allison Brie está complemente isenta de personalidade, a sua personagem é 100% dispensável. A (excelente) atriz apenas está no filme por ser casada com o Dave Franco. O que também acontece muito aqui são cameos (alguns engraçados, outros nem tanto). E, para fechar os pontos negativos, apesar do filme recorrer às datas que usualmente aparecem no ecrã, no primeiro ato o lapso de tempo é demasiado apressado, passando de 1998 a 1999 em 5 minutos.

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     The Disaster Artist é um filme essencialmente inspirador. Para além de uma respeitosa adaptação de um livro aclamado sobre um filme que teve uma produção desastrosa, é ainda uma importante história moral sobre sonhos e sobre a vontade quase irracional de os alcançar. Afinal, o que é pior? Fazer algo mau? Ou não fazer nada?

 

Nota: B+

 

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Surpresas, Ignorados e Injustiças nos Óscares

     Como puderam conferir, a lista dos Óscares deste ano saiu (lê aqui). Como anualmente acontece, houve surpresas, ignorados e injustiças nas categorias. Vamos discutir!

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Melhor Filme:

Surpresas: Darkest Hour, Get Out, Phantom Thread

Ignorados: A Ghost Story, All the Money in the World, Blade Runner 2049, Grave, Lady Macbeth, Lucky, Molly’s Game, Mother!, The Disaster Artist, The Killing of a Sacred Deer, War for the Planet of the Apes, Wind River, Wonder Wheel

 

Melhor Realizador:

Surpresas: Greta Gerwig, Jordan Peele, Paul Thomas Anderson

Ignorados: Darren Aronofsky, David Lowery, Dennis Villeneuve, John Carroll Lynch, Luca Guadagnino, Martin McDonagh, Matt Reeves, Ridley Scott, Steven Spielberg, Taylor Sheridan, Yorgos Lanthimos, Woody Allen

 

Melhor Ator:

Ignorados: James McAvoy, Andy Serkis, Harry Dean Stanton, James Franco

Injustiça: O James Franco merecia mais que o Daniel Kaluuya. Parece que são as acusações de assédio a falar mais alto.

 

Melhor Atriz:

Ignoradas: Garance Marillier, Florence Pugh, Kate Winslet, Jessica Chastain

 

Melhor Ator Secundário:

Ignorados: Mark Rylance, Jim Belushi, Idris Elba, Armie Hammer

Injustiças: Não é bem feito nomear duas pessoas do mesmo filme, deve-se escolher o melhor e dar a oportunidade a um ator doutro filme. Em vez do Woody Harrelson, eu nomearia o Armie Hammer ou o Mark Rylance, que mereciam mais.

 

Melhor Atriz Secundária:

Surpresa: Lesley Manville

Ignoradas: Michelle Pfeiffer, Aubrey Plaza, Holly Hunter

 

Melhor Argumento Original:

Ignorados: A Ghost Story, Grave, It Comes at Night, Lucky, Mother!, Phantom Thread, Split, The Killing of a Sacred Deer, The Little Hours, Wind River, Wonder Wheel

Injustiça: The Big Sick é sobrevalorizado, qualquer outro merecia mais.

 

Melhor Argumento Adaptado:

Surpresas: Logan, Mudbound

Ignorado: Lady Macbeth

 

Melhor Animação:

Ignorado: The LEGO Batman Movie

Injustiça: The Boss Baby vai de mediano a fraco, a sua animação é muito inferior aos filmes da saga Lego.

 

Melhor Fotografia:

Surpresas: Mudbound

Ignorados: Call Me by Your Name, Lady Macbeth, Phantom Thread, The Killing of a Sacred Deer, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, Wind River, Wonder Wheel

 

Melhor Banda Sonora:

Ignorados: Lucky, Molly’s Game, War for the Planet of the Apes

 

Melhor Filme Estrangeiro:

Ignorados: Aus dem Nichts (Alemanha), First They Killed My Father (Camboja), Grave (França), São Jorge (Portugal)

 

Melhor Documentário:

Ignorados: An Inconvenient Sequel: Truth to Power

 

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Nomeações aos Óscares 2018

     As nomeações aos Óscares já saíram. A cerimónia vai decorrer no dia 4 de Março, domingo. The Shape of Water, a mais recente obra do mexicano Guillermo del Toro, é novamente o filme com o maior número de nomeações. Como é óbvio, não posso comentar sobre todos os nomeados, visto que nem todos os filmes estrearam (ainda) ou estrearão em Portugal (alguns). Como sempre, há surpresas e injustiças na enorme lista de nomeados. Uma delas sendo apenas 9 nomeados na categoria de Melhor Filme, quando o máximo pode ser 10. Enfim, fazer o quê …

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Melhor Filme:

Call Me by Your Name (ler crítica)

Darkest Hour (ler crítica)

Dunkirk (ler crítica)

Get Out (ler crítica)

Lady Bird

Phantom Thread (ler crítica)

The Post

The Shape of Water (ler crítica)

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (ler crítica)

 

Melhor Realizador:

Chistopher Nolan – Dunkirk (ler crítica)

Greta Gerwig – Lady Bird

Guillermo del Toro – The Shape of Water (ler crítica)

Jordan Peele – Get Out (ler crítica)

Paul Thomas Anderson – Phantom Thread (ler crítica)

 

Melhor Ator:

Daniel Day-Lewis – Phantom Thread (ler crítica)

Daniel Kaluuya – Get Out (ler crítica)

Denzel Washington – Roman J. Israel Esq.

Gary Oldman – Darkest Hour (ler crítica)

Timothée Chalamet – Call Me by Your Name (ler crítica)

 

Melhor Atriz:

Frances McDormand – Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (ler crítica)

Margot Robbie – I, Tonya

Meryl Streep – The Post

Sally Hawkins – The Shape of Water (ler crítica)

Saiorse Ronan – Lady Bird

 

Melhor Ator Secundário:

Christopher Plummer – All the Money in the World

Richard Jenkins – The Shape of Water (ler crítica)

Sam Rockwell - Three Billboards Outisde Ebbing, Missouri (ler crítica)

Willem Dafoe – The Florida Project

Woody Harrelson – Three Billboards Outisde Ebbing, Missouri (ler crítica)

 

Melhor Atriz Secundária:

Allison Janney – I, Tonya

Laurie Metcalf – Lady Bird

Lesley Manville – Phantom Thread (ler crítica)

Mary J. Blige – Mudbound

Octavia Spencer – The Shape of Water (ler crítica)

 

Melhor Argumento Original:

Get Out (ler crítica)

Lady Bird

The Big Sick

The Shape of Water (ler crítica)

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (ler crítica)

 

Melhor Argumento Adaptado:

Call Me by Your Name (ler crítica)

Logan (ler crítica)

Molly’s Game (ler crítica)

Mudbound

The Disaster Artist (ler crítica)

 

Melhor Animação:

Coco

Ferdinand

Loving Vincent

The Boss Baby (ler crítica)

The Breadwinner

 

Melhor Fotografia:

Bruno Delbonnel - Darkest Hour (ler crítica)

Dan Lausten - The Shape of Water (ler crítica)

Hoyte van Hoytema - Dunkirk (ler crítica)

Rachel Morrison - Mudbound

Roger Deakins - Blade Runner 2049 (ler crítica)

 

Melhor Banda Sonora:

Alexandre Desplat - The Shape of Water (ler crítica)

Carter Burwell - Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (ler crítica)

Hans Zimmer - Dunkirk (ler crítica)

John Williams - Star Wars: The Last Jedi (ler crítica)

Jonny Greenwood - Phantom Thread (ler crítica)

 

Melhor Filme Estrangeiro:

L’insulte (Líbano)

Nelyubov (Rússia)

Teströl és lélekröl (Hungria)

The Square (Suécia)

Una Mujer Fantástica (Chile)

 

Melhor Documentário:

Abacus: Small Enough to Jail

Faces Places

Icarus

Last Men in Aleppo

Strong Island

 

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The Gifted S1 (2017/2018) - Crítica

   Dentro do universo dos X-Men, uma família tipicamente americana vê-se totalmente descarrilada depois de drásticas mudanças consequentes da revelação mais inesperada das suas vidas. Os irmãos Lauren e Andy Strucker são mutantes e, juntamente com os pais Reed e Caitlin, devem lutar contra o sistema, contando com a ajuda de um enorme grupo de mutantes clandestinos.

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   Sendo esta apenas a primeira série da Marvel que vejo, devo admitir que fiquei impressionado. Next stop: Netflix! A série The Gifted foi exibida a partir de dia 3 de Outubro na Fox em Portugal e, para além de mais uma adaptação da obra do Stan Lee, é uma criação do Matt Nix, também responsável por APB. A série, mesmo muito frenética e bem direcionada, não é isenta de episódios aborrecidos ou esporádicos momentos arrastados, mas já falamos disso. O começo é muito bom. A família Strucker tem uma boa introdução, os irmãos têm uma boa e genuína relação, na qual os dois atores estão investidos emocionalmente e as suas interações são as mais promissoras inicialmente. A cena com os rufias no ginásio da escola, por exemplo, é facilmente um dos melhores momentos da série. Os efeitos visuais são completamente operantes, mas o que se vende é o conflito dos personagens, aliás, os arcos e diálogos são os fatores que recebem mais espaço durante toda a série. Quem espera mais um produto cheio de luzes e da ação típica da Marvel pode não ficar muito satisfeito. Dito isto, ainda assim, The Gifted não é isento de excelentes cenas de ação ou perseguição e de bons twists.

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     Porém, já no primeiro episódio, surgiu um problema que me acompanhou o resto do tempo. Quando é revelado que os irmãos eram mutantes sem antecedentes familiares, o choque é grande, principalmente para a mãe deles. No entanto, para o pai, um procurador que trabalhava com mutantes criminosos, a surpresa parece que não foi lá tão grande. Como se, de alguma maneira o mesmo já soubesse, o que não faz sentido tendo em conta o desenrolar da trama. O seu choque e desconforto com a situação deviam ser maiores e mais manifestados. No entanto, o desenvolvimento do fim do preconceito do casal para com a “raça mutante” é muito bem feito. O Reed e a Caitlin Strucker depressa percebem que apenas querem proteger os filhos, independentemente da sua condição. Em específico, o Reed, ao se juntar aos Mutantes Clandestinos, apercebe-se do ambiente onde, do dia para a noite, foi inserido, que somente quer sobreviver, face às condições presentes dadas à sua espécie.

  Particularmente, o Agente Turner, juntamente com outros antagonistas, é um dos personagens mais interessantes de toda a série. Aliás, dizer que ele é o antagonista é errado. Na verdade, este é um simples homem que passou por uma perda inestimável, que apenas quer consequentemente ver justiça a ser feita ou a ver o mundo a arder, ver um responsável conjunto de pessoas a arder. O Coby Bell deu uma das minhas interpretações favoritas, é um personagem muito humano e relacionável, apesar de sabermos que este está atrás dos protagonistas, pelos quais o público torce incondicionalmente.

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     Como de costume no universo do X-Men, os personagens e os seus arcos estão envoltos num importante e atual comentário social e político. The Gifted fala sobre a importante questão dos refugiados, do terrorismo nos EUA, do habitual e ainda bastante presente racismo e preconceito geral da população americana, privilegiada ou não. É interessante, é bem desenvolvido e provoca todo o tipo de sentimentos no público, sejam estes de raiva, pena ou uma grande vontade de solidariedade.

     Progressivamente, a série começa a revelar os seus maiores defeitos. O guião tem algumas boas ideias que, na teoria, funcionam muito bem, mas quando postas em prática resultam em arcos dispensáveis. A Natalie Alyn Lind e o Percy Hynes White têm uma química excecional, como já disse. A melhor personagem é sem dúvida a Lauren. Na maior parte do tempo, o Andy é um adolescente mimado e temperamental que decide sair da sala quando as coisas não correm conforme o seu agrado. É repetitivo e chega a ser cansativo facilmente. Para além disso, todas estas pequenas discussões mostram o quão mau ator o Percy Hynes White é. Felizmente, o Stephen Moyer e a Amy Acker estão impecáveis e muito carismáticos e, como os ótimos atores que são, salvam todas as cenas estragadas pelo Percy Hynes White. Na verdade, há muito mais que se diga em relação a este duo. A relação é genuína, assim com o seu amor e jornada, acreditamos facilmente que existe ali uma história apaixonante.

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     Os Mutantes Clandestinos sofrem de algo recorrente. O abrigo é enorme, assim como o próprio grupo. Por isso, era impossível desenvolver todos os personagens, mesmo numa série de 13 episódios. No entanto, o trabalho em conjunto e a química entre todos é irretocável. Todos os principais mutantes recebem a sua devida atenção, desenvolvimento e merecidos arcos, sem jamais deixar a trama desorganizada. Os grandes destaques são o Sean Teale e a Emma Dumont, que constroem uma relação ainda mais carismática e credível, apesar das suas personalidades constantemente chocarem. O Marcos é hesitante, paciente e inseguro, enquanto a Lorna é agressiva, confiante e, por vezes, nervosamente apressada, mesmo o público compreender perfeitamente a sua motivação. Chateou-me um pouco a série deixar um ponto da personalidade do Marcos em águas de bacalhau. Explorarem esse traço resultaria em repercussões sensacionais. Parece que deixaram isso possivelmente para a segunda temporada ou para não mancharem o personagem. Mas uma simples conversa espontânea ter-me-ia bastado. Fiquei desiludido.

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    Quem eu mais gostei foi o Blair Redford. Ambos o ator e o personagem são os mais carismáticos de toda a série, assim como o seu conflito pessoal e motivações claras. Eu estava com ele! De resto, a Jamie Chung tem uma presença muito amigável, misteriosa e com um enorme potencial para uma segunda jornada, e a Elena Satine, mesmo com uma menor participação, consegue manter uma presença muito calorosa e até maternal. Há um mutante interpretado pelo Danny Ramirez que entra a meio da série que me deu mesmo vontade de o ver a morrer o mais depressa possível. O personagem entra num arco que mais parecia de uma comédia romântica e o ator é muito limitado dramaticamente.

     Em relação à fotografia e à banda sonora, a série é completamente irreconhecível. Hoje não me consigo lembrar de nenhuma composição ou plano específico ou melodia que me tenha ficado na cabeça. Mas tudo bem, afinal é uma série e não um filme da Marvel. Há que reconhecer, no entanto que, nos devidos momentos, estes dois fatores fazem o seu trabalho. À parte de todos os deslizes técnicos ou narrativos, a série acha uma maneira inteligente de nos manter a ansiar pelo próximo momento. Progressivamente, a trama resolve alguns plot holes e o final, em particular, é espetacular e não tão previsível assim.

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     The Gifted é uma simples boa série para quem quer começar uma maratona de conteúdo televiso da Marvel ou outro. Tem os seus bons e maus personagens, arcos e momentos. Tecnicamente, é esquecível, mas vale sobretudo pelos conflitos envolventes e pelo comentário da sociedade atual, tão presente no universo dos X-Men.

 

Nota: B

 

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Call Me by Your Name (Chama-me Pelo Teu Nome, 2017) - Crítica

     Baseado no livro homónimo do André Aciman e publicado em 2007, o filme conta a história de Elio, um rapaz italo-americano de 17 anos que, como anualmente faz, passa as férias de verão de 1983 numa casa do Século XVII no Norte de Itália, enquanto o pai, um professor de Arqueologia e conhecedor de História e da cultura Greco-Romana, recebe alunos para o ajudar. Elio e Oliver, o aluno deste ano, de 24 anos, inesperadamente começam a desenvolver uma relação intensa, que marcará ambos.

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     O filme foi realizado pelo italiano Luca Guadagnino, responsável por A Bigger Splash, de 2015, um filme que, apesar da minha enorme vontade, não o consegui ver na sua estreia. Há quem esteja a argumentar que este romance é facilmente o seu melhor trabalho. Vejo claramente o porquê. Call Me by Your Name é um filme raríssimo de se encontrar, nem tanto pela sua abordagem do tema central (que por si só já fala muito alto), mas mais pela importância que o realizador dá à estética. A sua vontade de impressionar e maravilhar o público é constante. Mérito este também é do Sayombhu Mukdeeprom, um diretor de fotografia capacitado a exaltar vivacidade de cores tão monótonas, mas simultaneamente tão agradáveis à vista. Maior parte das imagens são absolutamente inesquecíveis, desde os tracking shots pelos corredores, os planos médios recorrentes apenas à luz natural (que são, aliás, quase todos), até aos extraordinários planos sequência que evocam a qualidade das interpretações e dos diálogos.

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     Durante a primeira hora, o realizador opta por mostrar detalhadamente a rotina de verão do protagonista, passando pelo piano e viola, pelo aglomerado de música italiana, pela piscina e pelos sossegados e pacientes passeios de bicicleta pelas belíssimas ruas italianas. Existe uma comunidade rural muito amigável, complementada surpreendentemente apenas pelo mais puro som da Natureza, tão pacífica e impenetrável. É a simplicidade no seu máximo! Na verdade, o público no geral pode desdenhar o filme devido ao ritmo hesitante. Apenas lá para a segunda metade do filme é que a ação começa de facto a progredir. No entanto, se aceitarmos esta viagem, vamos apreciar uma das histórias mais charmosas, comoventes, naturalmente escritas e executadas. As comparações a Moonlight são válidas, ainda assim, Call Me by Your Name, mesmo perfeitamente contado através do desempenho técnico, perde aquele que podia ser um ritmo um pouco mais acelerado a partir da segunda metade, apesar do seu relaxante e reflexivo ritmo lento.

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     Mas tal como o Barry Jenkins fez em Moonlight, o Luca Guadagnino tem a coragem de executar as cenas que quiser e exalta a sua audácia em combater o preconceito ainda existente (em massa) contra as relações homossexuais. A sua intenção está em mostrar que uma relação homossexual pode ser igual ou superiormente genuína e bela como uma heterossexual e, o mais importante, que a orientação sexual de alguém nada tem a ver com a sua inteligência, idade ou estatuto social. Nada deixa isto mais claro que a personalidade do protagonista, acompanhada pelos pequenos gestos da Amira Casar e pelo monólogo sensacional do Michael Stuhlbarg. Estes últimos dois aparecem em cena com uma presença paternal amorosa, acolhedora e muito à frente do seu tempo.

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     O Elio é um jovem com uma maturidade muito superior à sua idade e isso deve-se à sua cultura, aos seus interesses, à sua reserva e às suas decisões intelectuais e sexuais. O Timothéé Chalamet é um ator extraordinário e com um futuro brilhante à sua frente. Ele toca piano e guitarra e fala inglês, francês e italiano. O estreante ator carrega o filme quase todo às costas, por vezes sem dizer uma única palavra, confiante do seu carisma e da inocência do personagem, que rapidamente ganha asas.

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     O Armie Hammer tem tido ao longo dos anos uma carreira muito oscilante, dando boas performances em filmes como The Social Network e outras medíocres em filmes como The Lone Ranger. Aqui estabelece-se indiscutivelmente como um ator impecável. O personagem dele tem uma fascinante arrogância e falsa segurança, que simplesmente serve como um escudo das suas inúmeras e constantes dúvidas, vergonhas e dificuldades em se relacionar com quem quer. Escusado será dizer que estes dois têm uma das melhores químicas românticas do ano.

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     A música, assim como a fotografia, é uma joia rara. Pena é que não seja original, senão estaria decerto potenciada para ser nomeada ou vencedora do Óscar de Melhor Banda Sonora Original. O cuidado com a escolha musical, sobretudo com os melodiosos temas italianos, dá gosto de se ouvir enquanto se vive uma rotina sem muitos frutos para colher. Por outras palavras, é um deleite enquanto um conjunto de obra. Encaixa-se perfeitamente quer no quotidiano deliciosamente repetitivo e pacífico, quer nas cenas mais íntimas e envolventes.

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     Call Me by Your Name precisava de subir mais um degrau rítmico no segundo ato, mas não deixa de ser uma obra de arte autêntica do cinema contemporâneo, homenageando o melhor do cinema italiano clássico dos Anos 80, desde os créditos iniciais aos finais. É um filme marcante, inspirador, tocante, ousado, sincero e inteligente.

 

Nota: A

 

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Destaque dos Blogs SAPO!

     Ontem, dia 18, um dos meus últimos posts, a crítica do filme Three Billboards Outside Ebbing, Missouri esteve nos Destaques dos Blogs SAPO. Quero expressamente agradecer à plataforma por mais uma vez me dar este privilégio! Sim, porque, parecendo que não, já estive nos Destaques anteriormente. O meu post do filme Blade Runner 2049 esteve também nos Destaques e foi responsável por um grande salto nas subscrições e nas visitas, mesmo este blog ainda estando lamentavelmente na marca dos 16 seguidores. Mas tudo bem, é uma força bem-vinda para continuar a escrever!

 

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Madre Paula T1 (2017) - Crítica

     Baseado no romance homónimo da Patrícia Müller, a nova série da RTP decorre no Século XVIII e acompanha Paula, uma jovem de origens pobres que, como habitualmente acontecia, é mandada pelo pai mercante para um convento. Na sua nova vida, esta evolui pessoal, religiosa e sexualmente, passando por diversas experiências, uma delas sendo o desenvolvimento de uma intensa e inesperada relação com D. João V, o magnânimo rei de Portugal.

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   Todos os episódios foram escritos pela Eduarda Laia e realizados pelo Tiago Alvarez Marques e Rita Nunes. Como podemos ver, para além destes cargos, há uma considerável e bem-vinda participação das mulheres nesta nova produção audiovisual nacional. A trama centra-se, na maior parte do tempo, num triângulo amoroso composto por duas personagens femininas, aliás excelentes personagens. Para além disso, é passado muito tempo no Convento de Odivelas, por isso, há um forte e importante desenvolvimento de todo o elenco feminino, que tem uma clara capacidade de se sobrepor ao elenco masculino, que ainda assim também faz um ótimo trabalho. Mas desta vez o show foi quase todo das mulheres. Muito bem, RTP!

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    Para além desse acerto, Madre Paula é um produto sobretudo raro de se encontrar na televisão portuguesa, tanto no que diz respeito ao cuidado narrativo como à própria estética. É uma série paciente e com um enorme cuidado a detalhes técnicos e simbólicos, relevantes para o avanço da trama. Mas começando pela estética. Primeiro, a fotografia é distinta por diversos motivos: o realce, a clareza e a limpeza de cor, os diversos contrastes, a iluminação maioritariamente feita com luz natural nas cenas diurnas ou com somente velas nas cenas noturnas, alguns close-ups que tornam as cenas mais tensas ainda mais claustrofóbicas, lindíssimos planos abertos e/ou panorâmicos da vasta paisagem natural, selvagem, simultaneamente densa e, por vezes, obscura, tão caracteristicamente portuguesa, assim como os planos interiores da vida da Coroa e Corte que revelam o lado luxuoso dos membros da família real e dos nobres do Século XVIII. Tudo isto acompanhado por um guarda-roupa impecável, maquilhagem e penteados vistosos, um design de produção completamente convincente e uma banda sonora monstruosa.

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    A música, aliás, sempre foi um dos meus fatores favoritos. Os temas são facilmente reconhecíveis e distintos, o que acaba por dar uma identidade única à série. As cenas da Corte e das diversas discussões no Parlamento são acompanhadas por uma pesada e irresistível percussão, enquanto as cenas mais comoventes são complementadas com melodias maravilhosas que falam pelos personagens nos diversos silêncios.

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    Os diálogos são outro acerto. Eu sempre me queixei da falta de realismo e excesso de obviedade nos argumentos audiovisuais portugueses, sejam de filmes ou séries (é que nem vamos falar das novelas). Madre Paula faz algo que me satisfaz sempre – recorre aos silêncios quando necessário. Duas personagens discutem no meio de agressivas palavras, mas também partilham momentos silenciosos em que nada conseguem dizer uma à outra, recorrendo apenas a dispersas frases mundanas demoradas. Tal processo ajuda o elenco a improvar as suas interpretações e a gerar mais humanismo nos personagens.

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    Falemos finalmente do elenco. A Joana Ribeiro está maravilhosa, está perfeita! Ela é a definição de uma personagem romântica portuguesa (no verdadeiro sentido da palavra). Ora atravessa um período de absoluta felicidade e preenchimento pessoal e sexual, ora cai para uma desgraça absurdamente profunda resultante da regular falta de atenção do amor da sua vida. Adoramos vê-la a sorrir no meio daquele rosto lindíssimo, porém nem sempre a acompanhamos na sua desgraça, pois sabemos que muitas vezes esta passa dos limites das suas exigências. Ela é teimosa, controladora, provocadora, sedutora, tímida ao mesmo tempo e altamente vingativa. Todas as suas atitudes autoritárias posteriores à sua relação com o Rei por vezes são cruéis e demonstram uma certa falta de humanidade. É uma personagem riquíssima e que manifesta no seu público inevitáveis sentimentos de raiva, mas também de pena. Uma futura personagem clássica!

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     O Paulo Pires está impecável! Para além de ser um honesto retrato de um Rei português (autoritário, impaciente, manipulador e altivo) mostra ainda um lado muito humano. Quando conhece a Paula, este pensa que terá mais uma amante nas suas mãos, até se aperceber o quão frágil, facilmente manipulável e pequenino ele na realidade é. A sua presença é tal e qual magnânima como devia ser e o carisma que este tem é inegável. É um dos melhores trabalhos do ator, sem dúvida. O que gostava de ter visto era uma maior importância dos príncipes reais, dos filhos dele. São mencionados ocasionalmente, mas nunca o vemos a interagir uma única vez com nenhum deles.

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     A Sandra Faleiro é uma ótima atriz e interpreta uma Maria Ana de Áustria odiável e repugnante, repleta de mesquinhices, provocações intermináveis e comportamentos demonstrativos de uma inveja irracional. O casamento monárquico nada mais era que um acordo político, porém, não é impossível se meter no lugar dela. No fim, é apenas uma mulher solitária, rejeitada e que nunca recebeu a importância ou atenção que quis. A personagem é muito bem escrita, no entanto, o que estraga constantemente a interpretação é o sotaque meio austríaco que a atriz de todo não sabe fazer. A opção era contratar uma atriz francesa que soubesse falar português.

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      De resto, todo o elenco varia de funcional a espetacular. O trio Miguel Nunes, Romeu Costa e André Nunes é um ótimo grupo de antagonistas, sendo o Miguel Nunes aquele que mais se destaca. A rivalidade entre os irmãos Infante Francisco e João V é quase imediata e o personagem é impressível, detestável e ameaçador. De resto temos um Guilherme Filipe carismático como sempre e com uma presença extremamente amigável, uma Maria José Pascoal sábia e acolhedora, uma Maria Leite pacífica e calorosa e uma Joana Pais de Brito coscuvilheira, trabalhadora, engraçada como sempre, mas não menos sentimental.

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     Há algo que acontece com a Paula lá para o fim da série que podia englobar todo o conflito à sua volta. A transição e todos os meses que passam de um episódio para o outro é um problema recorrente. Quem viu sabe do que falo.

     A série, para além de nos presentear com irresistíveis doses de erotismo poético e cenas de sexo explícitas, é ainda uma história sem quaisquer receios em explorar temas com os quais a televisão atual opta por abordar com estratégias conservadoras. Para além de relações adúlteras da Corte portuguesa, ainda são abordados temas como homossexualidade, a importância da perseverança de acordos políticos, as falsas promessas da Igreja e as hipocrisias que dela surgem, os ódios gerados por diferenças monetárias, assassinatos, traições, raptos, aprisoamentos e execuções macabras e desumanas realizadas pelos ditos Homens de Deus.

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    No fim, Madre Paula é uma raríssima obra audiovisual do panorama televisivo nacional, devido à sua riqueza temática, ao olho preciso a detalhes estéticos e à sua audácia e coragem no retrato político e social de um poderoso país europeu no Século XVIII, sem jamais perder a tão distinta e importante identidade daquilo que é português.

 

Nota: B+

 

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Para veres os episódios completos, podes aceder à RTP Play.

 

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Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (Três Cartazes à Beira da Estrada, 2017) - Crítica

     Uma mãe revoltada com o assassinato da sua filha adolescente, insatisfeita com o precário trabalho da polícia local, toma a decisão de alugar três cartazes à beira de uma estrada com a intenção e esperança que a investigação progrida.

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     O filme foi escrito e realizado pelo inglês Martin McDonagh, alguém sobre o qual nunca ouvi falar. O primeiro filme que vejo dele não podia deixar uma melhor impressão. Three Billboards Outside Ebbing, Missouri foi o vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama e é um filme fantástico. A começar pela riqueza temática. Trata-se de um fortíssimo comentário sobre a vida numa pequena e desconexa cidade e as respetivas mentalidades retrógradas que nela habitam e, mais especificamente, perspetivas preconceituosas, racistas e xenófobas, que nunca levam a boas relações dentro daquela comunidade.

     É um filme ainda muito beneficiado pelo brilhante guião e o elenco impecável e repleto de talento. Fora do comentário principal, é ainda uma história pessoal com um grande foco no desenvolvimento da sua protagonista e a sua (quase) desesperada busca por justiça, assim como a sua própria ideia da mesma. Os diálogos são qualquer coisa de fascinante, variando desde as irretocáveis cenas repletas do humor mais cínico e seco até aos deliciosamente longos e tensos confrontos entre personagens, acabando na perfeição com raríssimos momentos enternecedores. Nunca surge aquela sensação de uma bagunça cinematográfica. Globo de Melhor Argumento igualmente merecido.

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     O elenco é um dos melhores reunidos em 2017, também são poucos os filmes com a fácil capacidade de orquestrar inúmeros diferentes arcos, sem jamais deixar a história confusa ou arrastada. A Frances McDormand está sensacional! Ela está maravilhosamente fria, arrogante, apática, cínica, grosseira e afiada. É aquela mulher difícil de encontrar que, não isenta de momentos reveladores da suas ainda desconhecidas vulnerabilidade e fraquezas, nunca deixa que os outros se riam de si. É segura dela mesma e tem sempre uma resposta provocadora para dar, seja esta engraçada, ofensiva ou simplesmente seca. É a melhor interpretação da sua carreira desde Fargo, de 1996. Deem o Óscar a esta mulher!

     O Sam Rockwell dá mais uma performance que demonstra o quão subvalorizado este ainda é enquanto ator. Perante uma vitória nos Globos, torna-se evidente que finalmente receberá a sua tão merecida nomeação ao Óscar. É o mais eficiente retrato de um polícia frustrado, racista, xenófobo e ignorante perante uma comunidade que o despreza. O Woody Harrelson (Ma Man!) mais uma vez dá uma excelente interpretação, aproveitando todos os seus curtos momentos para dar o seu melhor contributo para a trama, transbordando carisma no processo.

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     O Lucas Hedges tem momentos muito memoráveis com a Frances McDormand e mostra novamente que tem uma futura carreira muito promissora. E ainda há boas participações de John Hawkes, Caleb Landry Jones e Clarke Peters. Ainda assim, o Peter Dinklage foi de longe o mais subutilizado. O personagem dele foi o mais mal escrito, sobretudo devido à brusca mudança de estado de espírito. O ator é um dos melhores da TV americana, mas mais valia que aqui fosse apenas um alívio cómico.

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     A fotografia é igualmente merecedora de aplausos. Foi aqui que notei uma maior influência do Martin McDonagh pela imensamente rica filmografia dos Irmãos Coen, para além dos diálogos e de alguns bem orquestrados takes longos. Ainda assim, este demonstra a sua faceta mais autoral no contraste (ou na falta dele) das diferentes cores sem vida e do radiante sol do Sul dos EUA. A banda sonora, mesmo sem uma grande extensão, fornece alguns momentos memoráveis, também graças à ótima seleção de música country. E, para fechar, o filme tem um dos melhores finais cut to black do ano.

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   Three Billboards Outside Ebbing, Missouri é uma divertida, provocadora, profunda e envolvente comédia dramática negra com a qual a nova geração de guionistas podem tirar diversas lições. Vale o nosso tempo por ser um relevante comentário sobre crime, justiça, racismo, compaixão e redenção.

 

Nota: A

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Uma Reflexão sobre "Actores", de Marco Martins

     Hoje decidi fazer algo diferente. Foram várias as vezes em que me apeteceu escrever sobre uma peça de teatro. Nunca aconteceu. Venho falar hoje de uma peça sobretudo única, que me provocou uma reflexão pela qual nunca me tinha visto, apesar de ser algo mais íntimo e introspetivo, na verdade, para o próprio elenco do que para o público em si. Actores não é a típica viagem dramática ao qual estamos acostumados nos teatros portugueses, mas uma experiência inesquecível.

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     Marco Martins, o realizador de Alice, de 2005 e São Jorge (ler crítica), de 2017, assume novamente o cargo de encenador, naquela que é uma obra autoral. Actores explora, segundo o próprio, a “máquina emocional que é o ator”, a avalanche de emoções pelo qual este passa, os diferentes e constantes desafios das suas descendentes ou ascendentes carreiras, os seus medos, receios, pesadelos, frustrações e arrependimentos profissionais ou pessoais e, consequentemente, a carga emocional, por muitas vezes indesejada, que se pode levar para o resto da vida. Ou seja, é um aglomerado dos melhores, piores, mais constrangedores ou hilariantes momentos das carreiras de cada artista, seja este cómico, dramático, rejeitado ou adorado pelo público nacional ou internacional.

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     O elenco é qualquer coisa do outro mundo. O espírito coletivo e química que os une tão fortemente é impossível de não se relacionar mutuamente. Somos lentamente puxados para dentro do palco e aceitamos as respetivas verdades e reflexões como genuínas, como nossas. Seja este processo a partir da mais inesperada e, por vezes psicadélica, coreografia, seja através do mais profundo ou vazio monólogo. É impossível não se identificar com alguém. Um Bruno Nogueira com as suas falhadas primeiras tentativas de stand-up em empresas. Um Miguel Guilherme deprimido e melancólico com as suas frustrantes participações em teatros nos Anos 80. Nuno Lopes com rápidas e estranhas transições entre obras clássicas nos palcos e telenovelas brasileiras. Carolina Amaral com o seu, digamos, “pseudónimo” e o seu maravilhoso talento interpretativo e voz capaz de calar as diversas peças de ópera. E Rita Cabaço naquela que é a interpretação mais animalesca, viva e deliciosamente oscilante que alguma vez vi em teatro português.

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     Sejam estas performances alegres, tristes, raivosas, agridoces, desejosas ou preguiçosas, o elenco provavelmente nunca se viu num tão aterrador ou simples desafio que foi interpretar-se a eles próprios e a uns aos outros. Pelo meio de bonitas narrações e de fluídas, organizadas e brilhantes mudanças cénicas, todo o ritmo é sustentado da maneira mais subtil possível. São 2 horas de puro entretenimento provocador e reflexivo que passa com a rapidez de 15 minutos, desde o mais interessante ou mundano casting até à tão épica e inesquecível conclusão que mais parece o terceiro ato de um filme de guerra. Assim que acabou, sentia que era capaz de rever umas 2 ou 3 vezes seguidas. Aliás, toda a peça tem muitos elementos cinematográficos. Sendo o Marco Martins também um dos melhores realizadores portugueses em atividade, é muito fácil identificar a sua ambição com este projeto.

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     Mas porquê tanta reflexão para além daquela que já é transmitida? Bem, meus amigos, não vou dizer quem, mas estava na mesma sala que eu, um membro importante e conhecido da nossa praça, um ministro que impossivelmente não passa despercebido. Montes de perguntas passam-me pela cabeça. Pensei durante toda a noite: “Será que é dada a devida e merecida atenção à nossa cultura? Será que há sequer suficiente interesse ou preocupação em levar o melhor do talento dos nossos artistas para todas as gerações? Primeiro do que levá-lo lá para fora, onde decerto está a ser mais valorizado? Para nós, um país que consome futebol como uma religião, remakes patéticos de clássicos nacionais como se fossem o próximo The Godfather, ou música reciclável constantemente a passar nas nossas rádios e televisões, será que damos suficiente destaque ou afeto por aquilo que se faz cá? Após muitas perguntas destas, chego à triste conclusão. Somos um povo imaturo, desinteressado, ignorante e desconexo, pouco aberto a mudanças e a novas experiências, novas rotinas ou novos hábitos, como consumir boa música, bom cinema, boa televisão, bom teatro ou boas discussões existencialistas e filosóficas, sejam elas sobre qualquer assunto.

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     Foi este o desabafo. Aproveito para aconselhar novamente para irem ver esta peça, sobretudo devido ao surpreendentemente baixo preço ao qual está exibido. Uma obra desta qualidade merecia ser exibida nas maiores salas de teatro nacionais. Malta de Lisboa pode assistir até dia 28 deste mês no Teatro Municipal São Luiz. As sessões no Teatro Municipal de São João, no Porto já estão esgotadas. Malta de Ovar pode ainda assistir nos dias 24 e 25 de fevereiro. Actores é uma obra original, introspetiva, íntima, provocadora, profunda e melancólica como poucas que já se fizeram no teatro nacional. Se tiverem oportunidade, se depois de 2018 esta peça voltar a circular, vejam, apenas vejam.

 

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Molly's Game (Jogo da Alta-Roda, 2017) - Crítica

     Baseado na autobiografia de Molly Bloom, Molly's Game: From Hollywood's Elite to Wall Street's Billionaire Boys Club, My High-Stakes Adventure in the World of Underground Poker, Molly’s Game conta a sua história como uma decadente atleta olímpica e uma ascendente Rainha do Poker, responsável por uma das redes de jogo ilegal mais recorridas por celebridades nos EUA durante 12 anos.

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     O filme foi escrito e realizado pelo Aaron Sorkin, que depois de escrever excelentes filmes como A Few Good Men, The Social Network e Steve Jobs, finalmente inicia a sua carreira como realizador, que não podia ser de todo uma má decisão. Poucos são os directorial debuts tão poderosos e marcantes como Molly’s Game. Estamos perante um dos melhores guiões e filmes do ano! Primeiro, graças às palavras honestas e ambiciosas do realizador. Segundo, devido ao elenco fortíssimo com cenas marcantes, ofuscado ainda assim por uma atriz principal sem filtros ou receios. Terceiro, graças à ajuda da estética luxuosa e brilhante de Hollywood, realçada por uma fotografia dourada, mas não muito diferente de típicas biopics.

     O método de storytelling do Aaron Sorkin é impressionante. É claro que este está mais preocupado em contar a história do que em saber se o público regista tudo, por outras palavras: “Apanharam tudo? Não? Paciência …”. Se há problemas neste filme, falta de informação não é um deles. O filme divide-se em dois ritmos: um frenético e estupidamente acelerado, durante o qual todo o tipo de informação é despejado para cima do público, e um mais calmo e paciente usado exclusivamente para deixar o público “respirar” e para mostrar a evolução dos próprios personagens face aos flashbacks, sem deixar que a tensão desapareça. A banda sonora e a edição são dois fatores responsáveis pelo ótimo equilíbrio do aglomerado de cenas mais aceleradas. A música acha um tom agressivo e perfeito para conduzir os jogos de poker. Já a edição é uma das melhores do ano, desde o olho atento a detalhes até à montagem inteligente surgente dos planos objetivos e eficientes.

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     A Jessica Chastain não podia estar melhor, é assim que uma biopic deve ser conduzida. Primeiro, a atriz é uma mulher linda, atraente, sensual e sedutora (sem seduzir intencionalmente). Todos aqueles intermináveis decotes e vestidos curtos servem o seu propósito – distrair o público daquilo que realmente acontece no poker (e até no próprio filme), tal como ele funciona na vida real. Segundo, a caracterização gradual da personagem é perfeita. Inicialmente, a Molly é uma jovem indefesa e insegura, mas com fortes escudos provenientes da rígida, mas bem-intencionada difícil abordagem do pai e da distante relação entre os dois. Progressivamente, a personagem torna-se fria, mas não totalmente indiferente com os seus clientes ou com o seu dinheiro. No fim, é uma mulher fria, controladora e extremamente segura, ainda assim não deixando isentos alguns momentos de fraqueza ou vulnerabilidade. No futuro, a Jessica Chastain será uma das grandes. Uma nomeação ao Óscar será mais que justa.

     O Kevin Costner dá uma curta, mas excelente participação. Graças à rígida educação que proporciona, desde o ski, à cultura e ao curso de advocacia, compreendemos a origem da natureza apática da protagonista, mesmo que as intenções do pai sejam as melhores. Os dois têm uma cena que resume na perfeição todo o seu distanciamento e afeto.

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     O Idris Elba está novamente sensacional! A verdade é que, apesar de, por vezes, ficar ofuscado na sombra da Jessica Chastain, que rouba quase todas as suas cenas, este dificilmente se deixa abater durante os enormes e exaustivos (no melhor sentido da palavra) confrontos entre os dois. O ator inglês tem uma cena fortíssima, na qual eu pensei que uma nomeação ao Óscar não seria de todo inesperada.

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     Há também boas participações do resto do bom elenco: Jeremy Strong, Brian d’Arcy James, Graham Greene e Chris O’Dowd. Ainda assim, é-me muito difícil ver o Michael Cera como um antagonista. O personagem foi escrito como um jogador de poker temível, invejado e ameaçador … não convence, basta olhar para a cara do Michael Cera. Acho apenas que este ainda tem de amadurecer como um ator dramático e que esta não foi uma boa escolha de casting, apesar do seu inegável talento para comédias.

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     Como já disse, esteticamente o filme é muito rico. Devem também ser mencionados o design de produção, consistente em belíssimos e organizados cenários, e o guarda-roupa, composto pelos elegantes e provocadores vestidos da protagonista, que, em contraste com as suas roupas anteriores e o guarda-roupa dos restantes personagens, desenvolve uma certa hierarquia.

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     Molly’s Game é um filme único. Apesar de não ser o melhor argumento da carreira do Aaron Sorkin, é uma prova do seu talento como um futuro realizador de respeito. O elenco é composto por atores empenhadíssimos e com um talento invejável, no qual a Jessica Chastain encontra-se na sua melhor forma desde Zero Dark Thirty, de 2012. Fica aqui recomendado!

 

Nota: A

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