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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

17
Mai17

20th Century Women (Mulheres do Século 20, 2016) - Crítica


Francisco Quintas

            Chega-me um filme extremamente melancólico e confortável ao mesmo tempo. Eu pensei em dispensá-lo por não me sentir assim tão interessado na história, mas Annette Bening no elenco convenceu-me a assistir. E ainda bem que eu o fiz, senão quem perdia era eu.

            O filme passa-se em Santa Barbara, na Califórnia em 1979 e segue uma mãe chamada Dorothea numa altura da sua vida em que esta se sente ultrapassada pelos anos que decorrem e durante a sua tentativa de voltar a ter uma conexão com o filho de 15 anos, Jamie.

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            O filme é escrito e realizado pelo Mike Mills, responsável pelo bom drama de família Begginers de 2011, que deu o tão esperado Óscar de Melhor Ator Secundário ao Christopher Plummer. O que ele faz aqui não é muito diferente. Sendo um drama de família era muito fácil cair em reconciliações forçadas ou que se resumiam simplesmente em colocar um personagem a encontrar refúgio noutro. Em 2016 Manchester by the Sea explorava um mesmo tipo de narrativa e que funcionou muito bem. Aqui não é exceção. E ainda, sendo este um filme praticamente autobiográfico, maioritariamente baseado nas relações do próprio realizador com a mãe e com a irmã, nota-se muita naturalidade nos diálogos e mesmo existindo muitos momentos que vão “chocar” o público por terem serem ditas algumas coisas que simplesmente não são esperadas. O filme é muito engraçado, é um humor seco, cruel e sarcástico. Deve-se estar atento para procurar os exatos momentos para se rir, e quando se finalmente se consegue acha-los, a experiência é deliciosamente cómica e imprevisível. O Mike Mills fez um excelente guião.

         Tanto a fotografia, o guarda-roupa e o design de produção são riquíssimos e minimalistas simultaneamente. Mesmo com um orçamento baixo, acha-se uma maneira mais que eficiente de repintar os anos 70 de maneira poluída e colorida ao mesmo tempo.

            A música deste filme é espetacular! Tanto a seleção de músicas e os temas originais são brilhantemente úteis para o contexto. O Sean Porter compôs um tema extremamente melancólico, sedutor e harmonioso. E quem gostar de rock vai ter um prato cheio aqui! Mesmo não conhecendo todas as bandas, eu diverti-me como se estivesse num concerto, é essa a sensação que me foi passada. Já o elenco, mesmo muito bom, tem altos e baixos.

        A Annette Bening é uma atriz fantástica e, mais uma vez, constrói uma mulher com várias paredes que escondem a sua personalidade: destroçada, infeliz, inquieta e ultrapassada pelas novas tecnologias, culturas e, principalmente, músicas que vão aparecendo. E mesmo passando maior parte do seu tempo com um cigarro na mão sem dizer uma única palavra, ela é charmosa e atrai o público muito facilmente.

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          O Lucas Jade Zumann não está tão bem como ela, mas quem está? Porém é uma pena que ele não acompanhou a interpretação da Annette Bening como eu esperava, provavelmente por o ator ser muito novo. Ele tem com uma posição importante e relevante para a história, mas no início não se vê muita ambição na sua expressão, por vezes pareceu-me que ele estava desinteressado. À medida que tudo avança, isso felizmente muda e, a seu tempo, o ator ganha carisma e camadas também, o que foi bom.

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            A Greta Gerwig está sensacional! Em Jackie, ela deu uma interpretação apenas “ok”, mas desta vez ela brilhou completamente. Assim como a Annette Bening, ela constrói uma mulher, à primeira vista, antipática, maldisposta e com falta de vontade de viver. Mas é exatamente aí, nessa inexpressividade, que ela acha a consciência da sua personagem, a sua cara diz muito, principalmente aqueles olhos brilhantes e aquelas olheiras tão negras. A infelicidade, o vazio e a insatisfação na sua vida, são todos sentimentos muito verdadeiros.

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            Já a Elle Fanning tem um papel semelhante e igualmente relevante, mas na sua falta de expressão faltou-me qualquer coisa. É também uma personagem deprimida e incompleta. Tem diálogos bons e a sua química e cenas com o Lucas Jade Zumann são muito interessantes e bonitas. Mas faltou-lhe sentimento, energia e presença, na verdade não é um problema assim tão grande, não comprometeu o filme, afinal a atriz é boa, mas era só mais um pouco de esforço.

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            O Billy Crudup é um ator que eu vejo poucas vezes. Também entrou em Jackie e, por acaso, fazia um personagem completamente unidimensional e sem camadas. Mas esta é uma das melhores interpretações que eu já vi dele até agora. Ele é muito carismático, alegre, amigável, atenciosos e tem muita presença. Acompanha muito bem a Annette Bening e estes geram um contraste muito engraçado. Ela é agitada e irónica, ele é muito calmo e esperançoso, dá certo. Só não gostei da maneira de como o seu desenvolvimento foi feito. Com os restantes personagens, há sempre uma montagem muito bonita, mas com ele é apenas feita uma narração, o que me frustrou um pouco. Mas, tudo bem, as narrações de cada ator também são boas, nada do que reclamar.

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            20th Century Women é um melancólico, sereno, sarcástico e divertido retrato de família, amor, compreensão e da cultura punk rock dos anos 70. É um dos filmes mais minimalistas e originais de 2016. Merece ser visto por todos.

 

Nota: B+