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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

15
Jun17

A United Kingdom (Um Reino Unido, 2016) - Crítica


Francisco Quintas

    Ava DuVernay, Mira Nair e agora Amma Asante. Dizem que a indústria cinematográfica continua a ser muito machista e racista. Estas três realizadoras de raças diferentes permitirão um dia que passe a existir uma Hollywood mais aberta e que produza menos whitewashing, esse é um sonho antigo.

    Baseado no livro Colour Bar da Susan Williams lançado em 2006, o filme passa-se em Londres, em 1947, e conta a história real do romance inter-racial entre a secretária inglesa Ruth e Seretse, o futuro rei da tribo de Bechuanalândia. Perante a situação política daquela era, os dois enfrentam as injustiças e preconceitos, lutando pelos seus direitos e contra o apartheid.

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    O filme é realizado pela Amma Asante e esta é apenas a sua terceira longa-metragem. Mais uma vez, surge uma realizadora não caucasiana com vontade de falar mais alto e desafiar os padrões normais de cinema. Mesmo caindo em algumas formulas típicas do género, ela consegue imprimir um estilo próprio, coisa que poucos realizadores conseguem fazer hoje em dia, ainda quando se consegue obter toda a informação do filme fazendo-se uma pequena pesquisa. A começar pela fotografia linda do Sam McCurdy, que cria um contraste ótimo entre as duas nações. Quando a ação decorre em Londres, o céu é escuro, encoberto e as ruas são insípida e sem muita vida. Já no sul de África, o ambiente é caloroso e acolhedor, concentrando-se nos tons sépia e amarelo, ajudado também pela iluminação quase toda natural. E os mesmos elogios podem ser feitos ao design de produção e ao guarda-roupa. Agora, a banda sonora, mesmo grandiosa, é esquecível, eu já não me lembro da melodia.

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    O filme tem uma estrutura habitual de 3 atos e o ritmo manteve-se constante e cativante. Apenas a partir do segundo ato é que os lapsos de tempo começam a ficar confusos. Nomeadamente em relação à gravidez da Ruth, em cerca de 25 minutos ela engravida e dá à luz. Nesse e noutros aspetos, o filme precisava de ser um pouco maior.

    Por exemplo, a química do casal não é má, aliás é muito natural e quase imediata, mas acho que aqueles primeiros encontros deviam ser prolongados. A realizadora está tão preocupada em não perder tempo que acaba por acelerar o pedido de casamento e os conflitos posteriores a ele. Mas falando nos conflitos, eu gostei muito do equilíbrio com que ela conseguiu manifestar os sentimentos das duas famílias. Nem a família da Ruth ou do Seretse são totalmente antagonizados, ambas as mentalidades de cada povo são muito realistas e o público consegue ver as duas faces da moeda, isto graças maioritariamente aos atores Vusi Kunene e Nicholas Lyndhurst, ambos muito bem.

    E agora sobre o elenco. O David Oyelowo continua a surpreender a cada filme que faz e mesmo que esta performance não seja tão boa como a que ele deu em Queen of Katwe de 2016, o ator está-se a tornar especialista em filmes biográficos sobre figuras importantíssimas na defesa dos direitos dos negros. O ator tem personalidade, bondade, carisma e uma simpatia quase imediata. No entanto, mesmo com a sua capacidade de elevar o material de qualquer projeto, ele sofreu um pouco devido ao guião.

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   Basicamente, há alguns bons momentos inspiradores e 3 discursos em grande escala, quando apenas 2 são realmente importantes. O discurso final foi previsível, uma decisão foi tomada no ultimo ato e o público já sabia o que o Seretse Khama ia dizer ao seu povo.

    A Rosamund Pike, embora que tenha um papel bem diferente do seu em Gone Girl, dá outro show. Facilmente se vê uma mulher triste pelo povo que a despreza e pela ausência do seu marido, principalmente quando esta se vê no meio de uma cultura completamente diferente e à qual não se consegue adaptar.

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    A Terry Pheto está também ótima, não chega a ser uma performance secundária que rouba cada cena, mas ela mostra uma preocupação e uma insegurança muito boas, nomeadamente quando está em cena com a Rosamund Pike.

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    O Jack Davenport, mesmo não se distanciado muito do seu papel como o Norrington na franchise Pirates of the Caribbean, incita o ódio e a maldade de forma muito eficiente, juntamente com o Tom Felton, que é pouco menos severo e cínico, mas também odiável.

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    Uma coisa que me incomoda quase sempre em filmes biográficos é, depois dos lapsos de tempo, é a “maquilhagem” usada durante o envelhecimento dos personagens. O filme decorre num período de cerca de 10 anos e os personagens não mudam absolutamente nada. Isso é chato e preguiçoso.

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    A United Kingdom, mesmo com alguns deslizes típicos do género biografia, consegue levar-se a sério e manter-se relevante mesmo nos dias de hoje. Fala sobre independência, liderança e pátria. Só que não é essa a história que está a ser contada. O que mais importa neste filme é percebemos que quando as pessoas se apaixonam, é importante não desprezar ou recusar essa relação, principalmente quando esta pode ser fundamental num movimento contra o racismo e contra o controlo excessivo que uma metrópole pode exercer sobre a sua colónia quando os seus motivos vão muito além daqueles que são declarados.

 

Nota: B

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