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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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13
Mai17

Aftermath (2017) - Crítica


Francisco Quintas

     O problema em adaptar grandes histórias não americanas para o cinema americano é muito óbvio. Às vezes simplesmente não há mentes capazes de compreender o potencial de uma história verídica quando esta é contada no seu local de origem. Não há qualquer razão em adaptar esta história para a América senão uma questão financeira. E isso é triste!

     A história é baseada na colisão real de duas aeronaves ocorrida em 2002 no espaço aéreo da Alemanha onde morreram 71 pessoas. Já o filme é levado para a América na mesma altura e segue o emigrante Roman Melnik, interpretado pelo Arnold Schwarzenegger, enquanto este procura vingança pela mulher e filha, que iam a bordo num dos aviões.

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     O filme é realizado pelo Elliott Lester. O seu trabalho mais conhecido é o filme da HBO de 2015, Nightingale, protagonizado pelo David Oyelowo. Hoje fiquei com uma impressão desagradável da sua oferta de realização, pelos vistos não passa de um “fazendeiro” de Hollywood, é simplesmente mais um para se juntar aos tantos que existem. Não há nada no movimento de câmara, no estilo de filmagem, no ritmo ou no tom que me vá fazer lembrar dele. Parece um filme de televisão.

     A fotografia do filme é meia acinzentada, meia insípida que se encaixa bem no contexto do filme e no estado de espírito dos personagens. O cenário que envolve o acidente é bem recriado, mas é aí que tudo começa a cair. Todo o processo psicológico tanto da vítima e do responsável da catástrofe é feito sem a mínima imaginação narrativa. É um filme praticamente previsível num todo. É chato, aborrecido e lento, muito lento, mesmo tendo apenas uma hora e meia, que parecem mais duas e meia.

     O curioso é que na hora de as pessoas se encontrarem ao pé dos destroços, o protagonista encontra mesmo o corpo da filha e um colar dela. Eu não compro isto. Como é que vou acreditar que num avião com 157 pessoas colidiu no ar e foi parar todo ao mesmo sítio. É absurdo! E essa é outra, originalmente, no acidente morreram 71 pessoas, 60 passageiros e 4 pilotos. Não há razão para mudar esses factos, não percebo a necessidade das produtoras de constantemente fazer isto com todas as histórias verídicas “estrangeiras”. Já era suficiente mudar o local, as pessoas e nomes reais.

     Todo o moralismo que o filme põe na mesa e todas as perguntas que faz só são feitas graças ao elenco, que nem é assim tão espantoso.

     O Arnold Schwarzenegger não é um bom ator dramático. Lá de vez em quando vai fazendo um ou outro bom trabalho, mas o ator nunca conseguiu sair do genérico e do esquecível. Ele convence facilmente como um homem sedento por vingança e por justiça, mas quando comparado com o Hugh Jackman em Prisoners, passa completamente ao lado. Ele nunca parece realmente abalado, há cenas em que era exigido que ele chorasse mais ou que ficasse mesmo destroçado. No resto do processo ele mostra-se apenas como um homem zangado.

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     Agora, o Scoot McNairy convence realmente como uma pessoa destroçada pelo aquilo que se sente responsável. O ator consegue transacionar bem de um estado rotineiro para um absoluto estado de culpa. O problema é que o seu processo psicológico é aborrecido e genérico: ele age violentamente coma mulher, o filho chora, a mulher deixa-o temporariamente, ele é abordado pela televisão claustrofobicamente e nunca passa disso.

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     E a Maggie Grace, mesmo com talento, não faz absolutamente nada. Ela é inútil, unidimensional, não tem camadas e é apenas a mulher que discute com o marido. E para piorar, todas as performances são estragadas por diálogos expositivos e artificiais, usados sempre que alguém precisa de se expressar, como se o realizador não confiasse no seu elenco.

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     Existem algumas coisas que passariam despercebidas facilmente, mas causaram-me um ligeiro incómodo. Por exemplo, no início reparamos rapidamente no carisma e na boa-disposição do Arnold Schwarzenegger, e o que o filme mete? Uma pessoa a chocar com ele numa fila sem qualquer razão. É um recurso preguiçoso e não tem nenhuma justificação. E ainda há uma que até me fez rir. O Schwarzenegger estava à espera de um telefonema e finalmente recebe a chamada. Aí entra uma fala banal da outra pessoa em linha e ele desliga o telemóvel e começa a andar. Nenhuma informação é dada e ele simplesmente começa a se deslocar para um determinado sítio. É absurdo e ilógico.

     A música, ou pelo menos o tema original até é bom, começa com um pianinho jazz e transforma-se em algo bem mais pesado consoante a tensão. Mas é esse o problema, não há tensão praticamente nenhuma. O filme vende-se como um thriller, mas os únicos momentos de tensão só acontecem a partir da primeira hora, onde finalmente a perseguição e a vingança acontece, algo que eu queria mesmo ver. Durante a primeira hora vemos um enchimento de chouriça como nenhum outro. O problema é que, a “cena” acontece e ainda faltam quinze minutos de filme, e é aqui que tudo cai. O filme toma uma decisão irrealista e desnecessária que nunca aconteceria na vida real.

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     Aftermath tem o mínimo de entretenimento, mas desilude no tratamento de uma das maiores tragédias aéreas de sempre, falha nas suas questões morais, é aborrecido, genérico, previsível, preguiçoso, ilógico em certos momentos e estúpido noutros. Não vale a pena a hora e meia que desperdicei.

 

Nota: D+

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