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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

08
Mai17

Ah-ga-ssi (A Criada, 2016) - Crítica


Francisco Quintas

            Pessoas que já estão cansadas do cinema hollywoodiano, como eu, refugiam-se cada vez com mais frequência no cinema estrangeiro. Para mim, cinema europeu sempre foi uma alternativa e uma solução. Mas apenas em 2016 descobri o cinema sul-coreano e não podia estar mais satisfeito.

            Baseado no livro Fingersmith de Sarah Waters publicado em 2002, o filme passa-se nos anos 30 na Coreia do Sul ocupada pelos japoneses, e segue uma jovem carteirista chamada Sook-hee que, depois de fazer um acordo com um vigarista, começa a trabalhar como criada de uma herdeira japonesa, inserindo-se num golpe que visa roubar a sua fortuna.

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            O filme é escrito e realizado pelo Park Chan-Wook e, mesmo nunca tendo visto um filme dele, conheço o seu trabalho. Sei que é responsável por The Vengeance Trilogy, que passaram de imediato para a minha interminável lista de filmes, assim como a filmografia completa dele. Aqui ele retrata a violência e o sexo da maneira mais artística possível. Confesso que nem em filmes do Tarantino eu vi violência tão explícita e nem em filmes do Lars Von Trier eu vi um erotismo tão sedutor como este. O erotismo é disparado o melhor elemento artístico do filme inteiro, cumprindo a difícil tarefa de superar os outros aspetos técnicos. E é graças à enorme dedicação dos atores e ao subtil movimento da câmara que se torna algo fascinantemente excitante e poético.

            Algo que eu adorei neste filme foi a beleza de absolutamente todos os planos que ele usa. O movimento de câmara é deliciosamente lento e paciente, mesmo aquelas duas horas serem longas e cheias de história, parecem mais uns vinte minutos. Graças ao detalhe da produção do filme, a experiência vai muito além do que uma obra cinematográfica, parece mais um quadro cheio de cores em movimento, é essa a sensação que o filme transmite.

            Acho que é difícil também classificá-lo quando ao género. É, sem dúvida, um thriller, mas pode ser também considerado um drama histórico, um romance e um filme de vingança. Independentemente da sua classificação, algo que o filme irá conseguir fazer sem problemas é deixar o espectador irrequieto, paranoico e furioso com a situação central. É uma aula de manipulação total, todos os pequenos e grandes twists corriam o risco de ser evidentes com o mínimo detalhe, tanto a câmara e as interpretações podiam mostrar demais sem querer, mas felizmente nada disso acontece. O público é surpreendido pela falsa previsibilidade do filme e é espantado cada vez mais e melhor à medida que a história avança.

            Tecnicamente, o filme é absolutamente lindo! A produção artística, a fotografia e o guarda-roupa, é tudo muito, mas muito bem trabalhado. O nível de detalhes apresentado nos planos gerais é de cair o queixo. Tudo tem cores estonteantes e transmitem uma leveza calmante e, ao mesmo tempo, uma tristeza um desespero pesadíssimo, sensações muito presentes na história e no desenvolvimento dos personagens.

            E o elenco é sensacional! A Kim Tae-ri interpreta a Sook-hee e este é o primeiro filme da atriz … Uau! Mesmo a rapariga passar por um monte de experiências que moldam a sua personalidade, ela nunca se separa da primeira etapa onde esteve. Todo um mix de características muito reais e facilmente adaptáveis àquele ambiente. Inocência, ingenuidade, timidez, vergonha e medo. Era a personagem por quem eu mais torcia.

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            A Kim Min-hee interpreta a Hideko, a herdeira japonesa. Ela é o perfeito contraste à pessoa da Sook-hee. As duas têm uma química excelente, mas o arco mais trágico é dela. Ela sofre por dentro, há muitas palavras que voam dentro da sua cabeça e isso provoca uma imprevisibilidade muito inquietante.

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            O Ha Jung-woo e o Cho Jin-woong transmitem o medo, a manipulação, a desconfiança e o ódio como nenhuma outra dupla vista no ano inteiro. A raiva, o desdém e o nojo que eu constantemente sentia por estes dois homens aumentava gradualmente à medida que cada um se desenvolvia e eu só desejava que cada um se desse mal.

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            Todos os personagens têm camadas, o jogo de gato e rato é interessantíssimo e muito bem construído, gera genuinamente uma vontade de saltar para dentro do filme e agir, de denunciar o mundo inteiro e acabar com o sofrimento das pessoas. A história é dividida em três partes e é realmente muito difícil um filme surpreender o seu público mais do que uma vez, as surpresas são constantes e nunca mais acabam. E das vezes em que julguei que o filme ia para um lado, ele vai para o outro, desafiando-me progressivamente.

            Falando do sexo. Tudo é bem explícito e que pode incomodar algumas pessoas. Mas é completamente inegável dizer que o sexo é propositado, quem vir e não gostar pode acusar as cenas de sexo de serem gratuitas, o que não está correto de todo. Todas as cenas de erotismo são brilhantemente capturadas pela câmara e servem, acima de tudo, para mostrar o tipo de relação que os personagens têm e como cada um se vê a si e ao outro. Não é qualquer realizador que consegue gravar cenas destas daquela maneira.

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            Ah-ga-ssi é disparado o filme mais provocativo do ano! Os temas como traição, liberdade, sexo, violência e, o melhor, vingança são explorados da maneira mais equilibrada possível e nenhum dos arcos explorados provocam tédio ou cansaço, pelo contrário, provocam um interesse e um deslumbramento como nenhum outro filme já conseguiu.

 

Nota: A+

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