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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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01
Jul17

All Eyez on Me (2017) - Crítica


Francisco Quintas

     É por estas coisas que o Rotten Tomatoes me desilude. Quando aparece um Guardians of the Galaxy Vol. 2 ou um Spider-Man: Homecoming, aqueles cromos decidem sobrevalorizar filmes que as pessoas são quase obrigadas a gostar. Quando aparecem filmes menores como este, decidem simplesmente desprezá-los a um nível extremo. All Eyez on Me não é perfeito, mas o que o site faz é uma falta de respeito.

     O filme narra a vida e o legado de Tupac Shakur, incluindo sua ascensão à fama, bem como a prisão e o tempo prolífico e controverso na Death Row Records.

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     A realização é do Benny Boom e esta é apenas a sua segunda longa. Nota-se bastante que ele é conhecedor e apreciador do histórico do Tupac, tanto na música como na sua figura icónica e política. Algo que os filmes biográficos tendem a fazer de mal, é santificar a sua figura central, metê-la num patamar superior e não ser honestos em relação aos seus defeitos. All Eyez on Me foi impressionante nesse e noutros muitos aspetos.

     Primeiro, é um filme extremamente honesto. A começar pela interpretação do Demetrius Shipp Jr., cuja qual eu já falarei. Depois, o realizador não teve problemas em mostrar a crueldade, a hipocrisia e o ódio existente no mundo do gangsta rap, neste caso, nos anos 90.

    O principal problema foi a clássica entrevista das biopics tradicionais. Os realizadores decidem encher as entrevistas de exposição barata. Por acaso, esta entrevista não foi tão má como a de Jackie, os diálogos são ligeiramente melhores. Mas tudo o que é dito não tem qualquer utilidade. Das duas uma: ou a informação dada foi dada apenas porque sim sem qualquer intenção de fazer a história avançar, ou foi dada por preguiça em mostra-la numa cena coerente. A lei do cinema é “Show, don’t tell!”. Devido ao relato da vida do Tupac, era óbvio que a entrevista na prisão devia ser mencionada … mas apenas mencionada e não ocupar metade do filme, uma metade que dava tempo a muita mais coisa.

     Outro motivo para se retirar a entrevista é a duração do filme. Mesmo as 2 horas e 20 passarem rápido, podiam ser reduzidas para apenas 1 hora e 50 minutos no máximo. Um desperdício de tempo destes levou algumas partes iniciais a serem apressadas e algumas cenas foram tão curtas e picotadas que pareciam imagens de um trailer.

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     Bem, falemos de pontos fortes. Eu nunca tinha ouvido Tupac, aliás gangsta rap não é género que me atraia muito, gosto de poucos rappers. Agora a seleção de músicas é muito boa. Todas as músicas e letras do Tupac fizeram a banda sonora aquilo que é, se decidirmos excluir os temas originais, a banda sonora no total ainda fica espetacular. O rap tem energia, tem ritmo, é perfeito para conduzir um filme destes.

     As próprias atuações do filme são ótimas. Essas sequências têm cores vibrantes, uma boa ambientação de espaço e dos figurantes e claro, boas performances. E isso leva-nos às interpretações.

     O Demetrius Shipp Jr. está sensacional aqui. Cedo o público esquece o facto de o ator ser parecidíssimo com o rapper e tem a sensação de estar a ver um documentário. Os maneirismos, a postura, a voz, está tudo aqui. Ele tem carisma, um orgulho excessivo e uma enorme insegurança disfarçada. Sem ele, o filme fracassaria. É um retrato extremamente honesto. O ator não quer exaltar a figura do Tupac, mas representá-la como foi, ao mesmo tempo que faz o público ter admiração por ele. O Tupac não era de todo um santo. Como outra figura importante do rap, ele fumava, bebia, drogava-se, era mulherengo, tinha armas, era conflituoso (com outras figuras importantes como Dr. Dre e Snoop Dogg), burro e extremamente precipitado. É uma performance digna de prémios, até porque o filme está mais interessado em mostrar o Tupac como uma figura do ativismo proveniente da música do que um ícone da música.

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     Quanto às acusações de violação, todos nós temos uma opinião, mas o filme decide dar a sua própria perspetiva, sem nunca ficar a sensação de o filme nos estar a obrigar a acreditar naquilo que nos dá, eu gostei disso.

     A Danai Gurira também está ótima como a mãe do Tupac. As cenas dela com o Demetrius Shipp Jr. são as melhores do filme e ela sim passa uma verdadeira preocupação pelo filho e um medo por aquilo que lhe pode acontecer por ser meter no mesmo caminho de ativismo que ela (o caso dos Black Panthers nos Anos 70).

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     A Kat Graham, mesmo não aparecendo muito, faz uma Jada Pinkett direitinha. A amizade dela com o Tupac é genuína e todos os momentos são bonitos. O filme retrata-os como grandes amigos, e é assim que devia fazer.

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     Mas um destaque também para o Dominic L. Santana, ele está assustadoramente calmo. Apesar de ter 2 metros, ao princípio, ficamos com uma boa impressão dele, ele parece amigável. Mas lá para o fim ficamos a par da real pessoa violenta, perversa e interesseira que ele é, não é de todo uma interpretação a imitar o Ice Cube, por exemplo.

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     Porém, o Mutulu Shakur, o padrasto do Tupac, desapareceu na trama, a sua última cena é na prisão a falar com o enteado e ninguém decidiu fazer uma atualização dele, simplesmente esqueceram-se dele.

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     All Eyez on Me é uma biopic positivamente surpreendente. Sinceramente, eu esperava pior, e tive uma surpresa. O filme foi facilmente elevado por uma performance espetacular do seu ator principal, mas como uma obra que pretende retratar uma figura importante da música, são 2 horas mais que suficientemente boas.

 

Nota: B

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