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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

03
Mai17

Billy Lynn's Long Halftime Walk (Billy Lynn: A Longa Caminhada, 2016) - Crítica


Francisco Quintas

     É curioso que um filme do Ang Lee não estreie em Portugal. Ainda por mais quando falamos de um realizador tão elogiado e apreciado em todo o mundo. Mas há uma explicação. O filme chegou ao videoclube em Portugal e foi um absoluto flop no seu país (tanto financeiro como falando das críticas). O realizador 40 milhões de dólares e decidiu gravar com uma tecnologia que permitia 120 frames por segundo, algo que existe apenas em 2 cinemas na América. No seu primeiro fim-de-semana, o filme fez menos de 1 milhão de dólares. Quando saiu acabou por fazer apenas 30 milhões.

     Baseado no livro fictício de 2012 com o mesmo nome de Ben Fountain, a história passa-se em 2004 em três períodos de tempo: o principal acompanha o protagonista Billy Lynn, interpretado por Joe Alwyn, que é considerado como um herói americano quando regressa do Iraque para o Texas; o segundo mostra as suas experiências na guerra e o terceiro mostra a sua relação com a família, especificamente com a irmã Kathryn, interpretada pela Kristen Stewart.

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     O filme é realizado pelo Ang Lee, responsável pelo ótimo Brokeback Mountain de 2005 e pelo extraordinário Life of Pi de 2012. Sendo este o seu debut no género guerra, ele até se sai bem. Eu esperava grandeza dele e consegui isso. Ele retrata bem um ambiente de guerra, faz um ótimo estudo do seu protagonista e abusa de close-ups na sua cara, mas quando quer ostentar a grandeza de uma situação, opta por planos gerais ou em conjunto, quase sempre revelando o corpo inteiro dos personagens. Agora falando do seu controlo sobre o ritmo e diálogos, o filme é bastante problemático, fazendo este um dos maiores Oscar Bait Movies de 2016.

     Há cenas e diálogos bem vazios e longos, chega a ponto de parecerem cenas de novelas. Tudo é muito, mas muito arrastado, por vezes o filme parece ser um daqueles sobre rotina, como Aquarius ou Paterson, que definitivamente não são maus filmes, mas estamos a falar de um filme sobre a propaganda da guerra na América, portanto fica no ar uma sensação de preguiça por parte do Ang Lee. Felizmente o filme vai melhorando gradualmente, mas a espera é grande. Felizmente há interpretações que salvaram tudo.

     Sendo o primeiro filme do Joe Alwyn nota-se ali uma grande ambição. Mas o ator é muito promissor e tem um dos olhares mais expressivos que eu vi em 2016. Ele acha um ótimo equilíbrio entre o soldado que toda a gente espera que ele seja e o homem em que ele verdadeiramente se tornou durante a guerra.

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     A Kristen Stewart está ótima mais uma vez, parece que 2016 foi o melhor ano da sua carreira. A atriz impressiona cada vez mais filme após filme e aqui ela dá uma das interpretações mais tristes da que eu vi dela. Ela está constantemente com uma lágrima no olho, mas a sua presença vai muito além disso. A preocupação que ela sente pelo irmão e o amor existente entre os dois é algo lindo, eu não me lembro de ver uma coisa tão bonita num filme de guerra.

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     O Garrett Hedlund recupera-se depois da péssima interpretação em Pan em 2015 com uma bem mais sólida e madura. Ele interpreta o sargento do Billy Lynn e nota-se ali uma grande ambição de orientar todos os soldados que o acompanham, uma ambição muito genuína.

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     O Vin Diesel impressionou-me mais uma vez naquele que poderá ser a performance mais dramática da sua carreira, é provável que afinal o ator tenha talento. O seu personagem correspondeu às minhas expectativas e àquelas que o próprio filme criou dele. A sua masculinidade adapta-se perfeitamente no seu papel e ele convence muito mais que como um simples homem grande e forte.

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     E a atriz Makenzie Leigh, também em ascensão, é usada a favor da história de maneira muito original. O Ang Lee felizmente reconhece a sátira que é retratada no livro do Ben Fountain. Tanto o livro e o filme não são cómicos, mas apresentam uma sátira muito eficiente sobre a projeção americana sobre a guerra do Iraque. Hipocrisia, interesse, cinismo, segundas intenções, propaganda mentirosa e uma exagerada proclamação dos “heróis americanos”, está tudo aqui, mas de maneira mais melancólica, melancolia é habitual na filmografia do realizador. Apenas não gostei do facto de a atriz levar a sátira a sério demais, era um arco que exigia mais leveza e gozo.

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     De resto no elenco, temos Chris Tucker e Steve Martin que mesmo bem como sempre e úteis, ficam reduzidos aos estereótipos que lhes são impostos, na verdade não tem muitas camadas. O mesmo acontece com o grupo de soldados, que têm todos personalidades bem genéricas e previsíveis, tudo em volta de diálogos típicos bem mais ou menos quando comparados aos desenvolvimentos dos ambientes de guerra de filmes como Full Metal Jacket e Saving Private Ryan.

     O filme tem apenas uma cena de ação, o que pode frustrar algumas pessoas. Mas ela é bem realizada e tal como outra cena da guerra do Iraque, esta é bem sangrenta, tensa e inquietante.

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     Billy Lynn’s Long Halftime Walk não chega a ser mau, uma vez que é do Ang Lee, mas ainda é muito melhor que os Transformers e os Fifty Shades da vida. Como um filme de guerra, é bom, mas como um estudo da propaganda da guerra na América, é estragado com diálogos de novela e tempo desperdiçado.

 

Nota: B-