Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

Vida de um Cinéfilo

09
Out17

Blade Runner 2049 (2017) - Crítica


Francisco Quintas

     Obrigado Dennis Villeneuve! Obrigado Ridley Scott! Decerto que a minha geração desprezará este filme por não estar a par da sua origem. É algo triste que as verdadeiras obras-primas da Sétima Arte estejam cada vez mais longes das novas gerações. Já não se fazem filmes assim. Mas quem foi o vosso público mesmo? Acho que sabemos a resposta.

     Passaram-se 30 anos desde os acontecimentos ocorrentes em 2019. Uma nova geração de Blade Runners procura achar respostas para um novo mistério que pode ameaçar o já instável equilíbrio entre a Humanidade e os Replicantes.

tablet_Blade-Runner-2049-movie-poster.jpg

     O filme foi realizado pelo canadiano Dennis Villeneuve, um homem que nunca fez um mau filme na vida e um daqueles que melhor exerce a sua profissão atualmente. Prisoners, Enemy, Sicario, e o mais recente, Arrival, são algumas das melhores obras contemporâneas do cinema. Algo que este se demonstrou mais que capaz foi migrar de géneros. Depois de sair da escola indie, os seus últimos trabalhos conseguem ser ambiciosos sem nunca cair na pretensão ou na arrogância. A missão difícil era fazer uma sequela digna do clássico de ‘82. O mínimo erro podia manchar a filosofia deliciosa do clássico, mas com aquela que é discutivelmente a melhor crew reunida deste ano, era difícil o projeto descambar.

     Como era de esperar, Blade Runner 2049 não é um filme de ação. É lamentável que o estilo noir esteja praticamente extinto nestes dias e que seja preciso uma sequela de um clássico para reavivar um dos estilos cinematográficos mais ricos de sempre. Blade Runner 2049 é, tal como o seu antecessor, um filme muito introspetivo, silencioso e calmo. Numa enorme sequência de acontecimentos com quase 3 horas, era muito fácil que a jornada se tornasse aborrecida e lenta … na verdade, pareceram 15 minutos.

MV5BMjQ3NTQ1MTgyOV5BMl5BanBnXkFtZTgwNTI5MjY2MzI@._

     Não é de espantar, Blade Runner 2049 é visual e tecnicamente o filme mais rico do ano. Cada composição é melhor que a anterior, os diferentes tons de cor transmitem simultaneamente uma violência e uma suavidade que atingem o público de maneira única. Poucos diretores de fotografia conseguem criar uma atmosfera tão ameaçadora, hostil e perigosa como esta. Se não for desta que o Roger Deakins ganha um Óscar, não sei quando será.

     Mais uma vez, o desenvolvimento do universo é absurdamente detalhado e fascinante. Ao contrário do que aconteceu em 1982, o grande orçamento permitiu dar a atenção merecida a este mundo. Continua presente aquela onda do caos multicultural e deslocado proveniente das desigualdades sociais, assim como um capitalismo corrosivo e uma representação suja e desumana do consumismo. Enquanto Los Angeles se expande mais, San Diego é uma lixeira.

MV5BMTk2OTU3MDA3N15BMl5BanBnXkFtZTgwMTg5NjUyMjI@._

     O Ryan Gosling foi a escolha perfeita para o papel. É uma performance muito introspetiva, deprimida e reservada, quase sem expressão. O ator tem um enorme talento para puxar o público para o seu lado, mesmo quase nunca revelando emoções. Quando este finalmente se exprime perante as descobertas, há uma satisfação crescente por saber que ele está perto do sucesso. Desta vez, o protagonismo é todo dele, apenas o Harrison Ford consegue gerar um empate. É uma das melhores interpretações do jovem Gosling.

MV5BMjQwNTI4ODkzNl5BMl5BanBnXkFtZTgwMzU5MjY2MzI@._

     O Harrison Ford é uma presença inatingível. O Rick Deckard está agora muito mais apático e até mais insensível. Depois de tudo o que passou, é compreensível que este se torne mais violento, desconfiado, traumatizado, ainda que mais corajoso e seguro de si. São poucos os atores que conseguem regressar desta maneira passado tanto tempo. O Harrison Ford não desilude!

MV5BMjQ1MzQ2NTM3Ml5BMl5BanBnXkFtZTgwMzI5MjY2MzI@._

     A Ana de Armas está ótima e é responsável pela excelente série de novas perguntas colocadas: “O que define as nossas emoções? Um corpo? Uma identidade?”. Ainda bem que esse arco não foi reduzido, até porque a interpretação da jovem atriz cubana é ótima e a química entre ela e o Ryan Gosling é perfeita.

MV5BMTg0OTk2Njk2OF5BMl5BanBnXkFtZTgwNjQ5MjY2MzI@._

     A Robin Wright volta a estar espetacular, como sempre, mais uma vez com uma personagem manipuladora, corrosiva e assustadoramente ambígua, embora que realisticamente plausível e cautelosa.

MV5BMTY1OTYwNDk3MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzE5MjY2MzI@._

     A Sylvia Hoeks surpreendeu. Eu estava à espera de uma imitação fraca da Rachael, mas acabei por ter algo que precisava, apenas não sabia. A personagem Luv personifica muito bem o medo e frustração de uma espécie negligenciada e temida pela maioria. Embora que o domínio dos Replicantes possa ser cada vez maior, esta sente-se insatisfeita, desprotegida, como se não gostasse da sua natureza ou origem.

20675314_WeeFg.jpg

     O Dave Bautista continua o seu percurso como um ótimo character actor, assim como um com uma enorme capacidade dramática. O personagem é importante, ambíguo nas suas ações e é, felizmente, usado na dose ideal. Mais tempo em cena seria um erro.

MV5BMjI2NDk2MDkwNl5BMl5BanBnXkFtZTgwODI5MjY2MzI@._

     E o Jared Leto volta a deslumbrar com um personagem misterioso e difícil de descortinar. Ele não é o novo Roy Batty, pode-se até igualmente argumentar que nem é sequer o antagonista aqui, mas o personagem é interessante e intimidante quando necessário. Ainda assim, mesmo as intenções do personagem ficarem claras, parece que falta qualquer coisa. O personagem precisava de um tratamento semelhante ao da Pris, do Blade Runner (ler crítica) original. Quando comparados, o desenvolvimento do personagem Wallace é um pouco inferior.

blade-runner-2049-jared-leto-image.jpg

     A banda sonora compromete-se a satisfazer os fãs com a encantadora melodia celestial do Vangelis. Aquela música era algo que tinha de ser restaurado. Verdade é que nada bate a música original, mas é de salientar que o Hans Zimmer não fica muito atrás. Há temas originais espetaculares que se casam perfeitamente com a atmosfera e fotografia ameaçadora do filme. Aqui está outro brilhante artista que nunca desilude.

blade_runner_2049_ryan_gosling_harrison_ford-2560x

     É de salientar que, quem gosta de filmes filosóficos, que mexem com as questões mais existencialistas deste mundo, lidando com temas como tecnologia, revolução e Humanidade, vai adorar conhecer esta franchise. Para aqueles die hard fans de Blade Runner (ler crítica), Blade Runner 2049 será um dos filmes mais satisfatórios do ano. Os temas discutidos são refrescados pelas ótimas novas ideias e o comentário continua relevante, mesmo passados os 35 anos. O filme é discutivelmente uma das melhores sequelas já feitas e a prova que boas sequelas são possíveis.

 

Nota: A

     Se estiveres a gostar do blog, não te esqueças de me seguir no Facebook, no Twitter e no Blogspot. Obrigado!

10 comentários

Comentar post