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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

04
Out17

Blade Runner (Perigo Iminente, 1982) - Análise e Crítica


Francisco Quintas

     Podia também ter escrito esta crítica em Junho, quando Blade Runner fez 35 anos. Mas, visto que Blade Runner 2049 (ler crítica) chega já esta semana, está na hora de falarmos do original clássico de ‘82.

     Baseado no romance de sci-fi Do Androids Dream of Electric Sheep?, escrito por Philip K. Dick e publicado em 1968, o filme passa-se em Los Angeles, em 2019, e acompanha o polícia/caçador de androides (os chamados Blade Runners) Rick Deckard, numa investigação com o objetivo de caçar 4 Replicantes - seres humanos criados artificialmente que passam despercebidos -, depois de estes roubarem uma nave espacial e voltarem à Terra para conhecer o seu criador.

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     O filme foi apenas a terceira longa-metragem do mestre Ridley Scott, que até então havia apenas realizado The Duellists, de ’77, e Alien, de ’79. Sendo assim, desde o princípio que este homem se tornou num dos maiores especialistas em ficção científica e um dos grandes responsáveis pela qualidade que o mesmo género nos oferece nos dias de hoje. Blade Runner é um filme de ficção científica na sua essência, mas mostrou, ainda no início da década, como era simples um filme ter a capacidade de abordar vários géneros ou narrativas. É um dos melhores exemplos da neo-noir sci-fi, que mais tarde inspiraria filmes como The Terminator, de ’84.

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     Dito isto, Blade Runner é hoje considerado um dos filmes mais importantes e influentes do género, mas também um dos melhores filmes alguma vez feitos. Trata-se de uma experiência transcendental e existencialista, de uma obra de arte riquíssima em todos os aspetos possíveis e avaliáveis. O Ridley Scott é responsável pelas inúmeras referências que, mais tarde, serviriam de inspiração para obras igualmente ricas, por exemplo, a série de anime Ghost in the Shell, que lida com temas semelhantes. Aliás, vários filmes do Top de Sci-fi lidam com temas semelhantes: “O que significa ser-se humano?”; “Uma criação tecnológica do Homem pode desenvolver emoções?”; “As criações artificias do Homem podem viver entre nós?”; “Podemos viver em paz com a tecnologia ou toda essa utopia iniciará uma inevitável guerra?”; “Quão realmente grandes ou pequenos somos nós?”. Há várias questões colocadas e, na verdade, poucas têm uma resposta clara. O debate é gerado e o público é obrigado a refletir, principalmente devido às interações dos diferentes personagens, cada um lidando com o seu respetivo conflito interior.

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     O debate de o Rick Deckard ser ou não um Replicante mantem-se até hoje e muito provavelmente vai continuar em Blade Runner 2049. Ou talvez não, uma vez que o Ridley Scott já confirmou que essa teoria é válida e que ele próprio acredita nisso. Há vários elementos que sustentam essa hipótese: os seus olhos, por vezes, brilham tal como os da Rachael e os do Roy Batty; não nos são dadas quaisquer informações sobre o seu passado, sobre a sua suposta “reforma” da carreira de polícia; o sonho do Unicórnio parece ser vindo do nada mas é (discutivelmente) uma implantação artificial feita pelo Gaff, aliás, só pode ser, visto que, perto do fim, o Rick encontra um origami de um unicórnio no chão antes de fugir, é sinal que o Gaff é o seu Criador e muito provavelmente o está a deixar fugir e viver. Provavelmente, o Gaff sente que o Rick e a Rachael são Replicantes especiais, merecedores da vida que podem vir a ter.

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It’s too bad she won’t live. But then again who does?

     Dito isto, a discussão moral sobre a humanidade torna-se cada vez mais simples. O Roy Batty é um dos antagonistas mais fascinantes da História do Cinema. Ele não é obrigatoriamente o vilão da história, é apenas um “ser vivo/racional” com tanta vontade de sobreviver tal como outro. A sua filosofia e atitudes criam a pergunta: “Quem é o vilão nisto tudo?”. O seu último monólogo, à chuva, é um dos melhores alguma vez dados num filme. Ao salvar o Deckard em vez de o deixar cair, ele revela mais humanidade em si do que nos humanos com quem já se cruzou, é a sua misericórdia e vontade de marcar a sua presença no Universo que o torna realmente humano, visto que, ao contrário do Deckard, ele aceita a sua mortalidade, ele aceita aquilo que é. Ao lutar durante o filme inteiro por “mais tempo de vida”, este demonstra a sua enorme vontade de viver. Ao “morrer” e se transformar numa espécie de gárgula, torna-se livre. Aquela linda pomba branca simboliza a sua liberdade, o seu alívio e descanso. Fosse ele humano ou não, rapidamente se apercebeu do seu fim, da sua “pequenez” enquanto um ser neste enorme mundo. É essa aceitação consciente que o torna humano, mais humano que qualquer outro humano. E saber que aquele lindo monólogo foi improvisado pelo próprio Rutger Hauer torna a sua performance ainda mais espetacular do que já era. Não há palavras, não há explicação para aquilo que o ator fez, é um dos melhores papéis secundários já vistos, o ator roubou cada cena em que entrou e deu tudo aquilo que podia dar e até aquilo que não podia.

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All those moments will be lost … in time … like tears … in rain!

Time … to die!

     Depois daquele monólogo espetacular, o Deckard percebe finalmente aquilo que distingue uma pessoa, uma identidade, quer ela seja humana ou artificial. Daí, este nem se sentir assustado com a ideia de provavelmente ser um Replicante, uma vez que desenvolveu um romance com uma, que até então haveria se comportado como outra ser humana qualquer.

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I think, Sebastian … therefore I am!

     Ao longo dos anos, um plot hole tem ganho cada vez mais atenção: “Se o Deckard fosse mesmo um Replicante, porque é que é tão medroso e fraco quando uma circunstância o obriga a lutar?”. É verdade, são algumas as ocasiões em que este não se vê à altura do desafio, principalmente quando luta contra o Leon ou contra a Zhora. Esses dois acabam por ser capturados, mas se fosse o Roy Batty quem estaria atrás deles, a execução seria muito mais rápida e simples, não envolveria aquela perseguição tão exaustiva. Ridley Scott, és um génio! É aqui que identifico a Alegoria da Caverna, do Platão. Se nós, humanos, vivêssemos com a certeza falsa de que não somos aquilo que pensamos ser, perdemos a nossa vida, a nossa verdadeira identidade - “O ser humano é vítima da sua própria ignorância”.

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     Ufa! Já tirei isto do caminho! Vamos falar de outra coisa. Blade Runner é o modelo de um filme de sci-fi futurista. Há também muitos aspetos que me levam a pensar que o filme pode ser interpretado como um retrato de um sonho, não é uma ideia despropositada de todo. Há conceitos visuais muito inteligentes. Por um lado, existe uma civilização “lá em cima” fortemente influenciada pela cultura asiática e composta pelas comunidades superiores e beneficiadas que vivem em gigantescos exemplos de uma arquitetura futurista onde as pessoas mais influentes vivem como deuses egípcios. Por outro lado, “lá em baixo”, está um caos multicultural sujo, descontrolado e degradável, onde o crime é descontrolado, o néon predomina em todos os bares, restaurantes e casa de strip, e a chuva nunca mais acaba. De certa maneira, podemos extrair uma crítica ao capitalismo que contribuiu para uma enorme desigualdade social ou uma visão agravada do realizador sobre a economia americana engolida pela Ásia. Todo este visual e contexto contribuiu e ainda contribui para uma influência no cinema neo-noir sci-fi.

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     A música é um dos melhores exemplos da importância de construir uma melodia que contribua para a atmosfera do filme. A música transmite uma vibe bem eletrónica, bem futurista e digna dos restantes trabalhos do Vangelis, que sempre compôs temas de escala orquestral. A banda sonora é composta por melodias sombrias e psicadélicas que conseguem transmitir diversas emoções: confusão, alienação, perigo, medo, incerteza e raiva.

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     Espero que esta crítica tenha sido digna do filme em si. Vamos esperar que Blade Runner 2049 (ler crítica) seja igualmente digno dos seus personagens como o Ridley Scott foi com o material que adaptou. Certamente a sequela não vai ser melhor que o original, mas eu confio naquela equipa. Quando temos Dennis Villeneuve, Roger Reakins, Harrison Ford e Ryan Gosling juntamente com Ridley Scott na produção executiva, é difícil não gostar do filme sem sequer o ter visto. Mas, como quero dizer, Blade Runner é uma obra-prima, não há nada como este filme!

 

Nota: A+

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