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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

11
Jul17

Dawn of the Planet of the Apes (Planeta dos Macacos: A Revolta, 2014) - Crítica


Francisco Quintas

     O ano de 2014 foi um dos melhores anos para o cinema recente. Esse ano deu-nos obras primas espetaculares que, futuramente, tornar-se-ão clássicos magníficos. Birdman, Whiplash e Enemy são alguns deles … Dawn of the Planet of the Apes também pertence a esse grupo!

     10 anos passaram desde os acontecimentos do filme passado. Agora, Caesar constituiu uma família e mantém o seu esforço para defender o seu povo dos humanos e evitar uma possível guerra.

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    A realização desta vez foi do Matt Reeves, que fez anteriormente o excelente Cloverfield, de 2008. Ele é um realizador ainda em ascensão, mas cedo demonstrou ser ótimo a criar histórias originais de sci-fi. Aqui ele sentou-se na cadeira de realizador, mas contou com a produção e com o guião do Rick Jaffa e da Amanda Silver, um casal que já tinha trabalhado nas mesmas funções em Rise of the Planet of the Apes. Por isso, este filme tinha de funcionar. Algo que o Matt Reeves fez muito bem, e melhor do que o Rupert Wyatt, foi usar planos sequências e adaptá-los a montes de perspetivas. Ele usou muitos trackings shots e algum movimento horizontal e mostrou-se igualmente bom a dirigir o elenco em diálogos extremamente profundos e a fazer cenas de ação bem tensas e melhores do que a sequência da ponte de São Francisco no filme anterior.

   Mas agora confirmo, este filme foi definitivamente melhor que o seu antecessor …, mas de longe. Mesmo que gostem do primeiro um pouco mais, há que admitir que o segundo filme vai mais além e permite simultaneamente desenvolver personagens, novos ou antigos, enquanto nunca se esquece do drama do passado. Depois do forte comentário sobre humanidade, evolução cientifica e revolução que moldou o primeiro filme, Dawn of the Planet of the Apes decidiu ir noutro caminho. Desta vez o filme começa ironicamente. O público observa a comunidade dos macacos que vivem harmoniosamente entre si e reconhece uma maior humanidade neles do que nos humanos. E ainda assim, eles vivem como primatas: sem luz, sem gás, etc. Desta vez, os humanos são os “animais”. Enquanto os macacos desenvolveram emoções básicas, os humanos estão vulneráveis e nem sequer sem eletricidade se sabem defender. Parece que a tecnologia criada para cooperar com o modo de vida do ser humano apenas o deixa mais fraco e desesperado. Foi a excessiva ambição humana do filme anterior que levou o ser humano a cavar a sua própria sepultura. Da mesma maneira, o filme analisa o facto de que, qualquer sociedade subdesenvolvida tecnologicamente, tornar-se-á mais cruel, sádica e corrupta perante o progresso tecnológico, sendo o personagem Koba um exemplo disso. Assim que este tem acesso a armas de fogo, abandona os valores morais que representavam a sua comunidade pura e estável. Mas falarei daqui a pouco sobre os personagens.

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     A fotografia lembra o mais sombrio filme de guerra, seria algo como pegar no Platoon, de 1986, só que 10 vezes mais sombrio e tenso. Sim, este filme consegue ser tão ou mais tenso que um filme de guerra. E essa atmosfera é complementada pela ótima banda sonora, que recria muito bem os temas do filme anterior, sem nunca parecer imitação. O mesmo se pode dizer da caracterização dos macacos. Os padrões nas caras dele são a mais simples representação de uma guerra prestes a acontecer.

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     Falando finalmente do elenco. O Andy Serkis está novamente sensacional! É uma grande pena que o ator nunca tenha recebido o número de nomeações merecidas. É uma performance merecedora de Óscar e isto não é exagero. Como já disse na crítica anterior, motion capture acting não é fácil e não são todos os atores que conseguem praticá-lo. Mais uma vez, ele carrega o filme às costas, até mesmo quando não precisa, visto que este filme anda pelas próprias pernas. Mas o ator está mais uma vez empenhadíssimo e não era possível estar mais dedicado ao personagem.

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     Eu já tinha gostado do Koba no filme anterior, mas foi definitivamente o trabalho de motion capture do Toby Kebbell que fez a sua performance. Ele está espetacular aqui, parece que o ator teve bastante cedo um enorme talento para este tipo de performance, especialmente para interpretar personagens maus. Ele é o pior elemento ganancioso e corrupto de uma sociedade e representa tudo aquilo que há de mau no mundo: uma mente perversa, manipuladora e má, muito má.

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      A Karin Konoval continua ótima como o Maurice. Não é o macaco mais importante da história, mas é sem dúvida um dos mais interessantes e amigáveis. No meio de tanta coisa que acontece ao mesmo tempo, ela é uma presença muito calorosa, acolhedora, pacífica e compreensiva. É um dos macacos mais convidativos de todo o filme. E o mais espantoso é que ela é uma mulher a interpretar um macaco macho! Não vemos isto todos os dias.

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     De resto, também macacos, há boas performances de Terry Notary, Judy Greer, Nick Thurston (que interpreta o filho do Caesar, o Blue Eyes) e Doc Shaw, todos a interpretar bons macacos.

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     Um receio que tinha a primeira vez que vi este filme (acho que em 2015), era os humanos serem personagens fracas. Bem, o Jason Clarke está ótimo. Não era uma performance que eu esperava dele. Ele é muito meigo e calmo, representa perfeitamente o homem bom que quer evitar uma guerra ao mesmo tempo que morre de medo dos macacos. Ele é uma excelente personificação da esperança da humanidade, aquele pouco de brilho que nos guia para o caminho mais correto, porém, igualmente duvidoso.

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     A Keri Russel pode não estar tão bem como o Jason Clarke, mas dá uma performance muito boa e convence como alguém que passou por um processo de luto, isso está bem explícito nos olhos dela.

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     Infelizmente, não se pode dizer o mesmo do Kodi Smit-McPhee. Este rapaz deu uma performance sensacional em The Road, de 2009! Como é que é possível que o Matt Reeves o tenha desperdiçado desta maneira? Ele não está mau, mas também não está bem, nota-se uma indiferença pelo filme, pelo menos foi assim que eu vi a interpretação dele. Ele raramente muda de expressão e não é um personagem indispensável. Eu odeio ver talento desperdiçado.

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     Já o Gary Oldman é um excelente segundo antagonista. É facilmente um dos melhores atores de sempre! Ele nem é uma má pessoa. De certa forma, podemos afirmar o contrário, mas ele acreditava mesmo que estava a salvar a Humanidade, por isso não há como não sentirmos pena dele, principalmente quando a sua família também foi vítima da Gripe Símia. É muito difícil ficar contra ele, apesar de rapidamente nos apercebemos acerca da sua ignorância e da sua insensibilidade para com os outros, principalmente quando se metem no seu caminho.

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     Algumas pessoas podem se aborrecer por os macacos não falarem tanto como no original Planet of the Apes, de 1968, ou até mesmo por não haver tanta ação assim. Há, na verdade, muita ação e, a que há, é muito boa. Mas o filme é bom devido aos diálogos, devido à sua força de criar um debate moral na cabeça do público. Os diálogos são ótimos, mesmo quando falados em língua gestual entre os macacos, o que foi bastante frequente no primeiro ato, quando praticamente não há diálogos nenhuns. Volto a dizer, ainda há realizadores que entendem o que é cinema. “Show, don’t tell!” é cinema!

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     Dawn of the Planet of the Apes é uma excelente sequela, não haja dúvida. Tem um ótimo desenvolvimento do conflito, dos personagens, assim como uma boa introdução ao tema do futuro terceiro filme, sem deixar a mesma introdução forçada ou apressada. O Matt Reeves devia mostrar ao Michael Bay como se faz um blockbuster a sério. Por favor, que o terceiro filme seja bom!

 

Nota: A