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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

22
Jul17

Dunkirk (2017) - Crítica


Francisco Quintas

   Chega-nos mais um filme que prova que Christopher Nolan é um dos realizadores mais subvalorizados da atualidade. Parecem gostar muito dele, ainda assim, ele não é só “aquele que fez o Batman”, é sim um dos melhores a exercer a sua profissão.

    O filme decorre em Dunquerque, em 1940, e segue o exército inglês e as tentativas da marinha e dos civis de resgatar os soldados para a Inglaterra.

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     O filme foi escrito e realizado pelo Christopher Nolan. Estar o nome dele na cadeira de realização significa quase imediatamente que o filme vai ser bom. Ele não faz filmes maus. Uma coisa bastante difícil que ele fez aqui foi relatar uma história quase num estilo de documentário enquanto cria um ambiente de guerra que lembra clássicos como Full Metal Jacket e Saving Private Ryan, sem jamais parecer uma imitação. É um filme distinto, é o tão esperado filme de guerra do Nolan. E isso deve-se fundamentalmente ao acontecimento em questão (já que maior parte dos clássicos relatam a participação americana na 2ª Guerra e na Guerra do Vietname) e aos aspetos técnicos vistos anteriormente noutros filmes do realizador que os fãs naturalmente identificarão.

     Comecemos por aí. A fotografia do Hoyte van Hoytema (que trabalhou com Nolan em Interstellar, de 2014) é uma das mais bonitas e diversificadas do género. Ao contrário de filmes passados num ambiente tropical, Dunkirk é um filme frio, cinzento, visualmente monótono, mas grandioso.

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    A banda sonora é sensacional, mesmo podendo-se dizer que nem sequer está entre as 10 melhores do Hans Zimmer (o que já seria bom anyway). Uma pessoa sabe que está perante uma boa música quando ela causa um incómodo físico, uma vontade de tapar os ouvidos. Alguns podem se queixar dizendo que foi um exagero, que foi uma banda sonora demasiado agressiva, mas é importante saber em que situação é que os soldados ingleses estavam metidos, o perigo que corriam, a esperança a diminuir e o medo a aumentar, principalmente durante as cenas mais violentas do filme. O Hans Zimmer compôs novamente uma jóia.

    Falando nas cenas de ação, há momentos de pura tensão, carnificina, e genialidade por parte do realizador. Chamem-me fanboy, mas o Christopher Nolan é um dos grandes. O seu foco não é a violência do inimigo, não era isso que lhe interessava. Sim, as cenas de ação são brutais, são sangrentas, mas quem esperar uma abertura semelhante à de Saving Private Ryan, vai se desiludir. O foco está no desespero dos personagens e nas suas consequentes decisões e atitudes. Maior parte dos críticos americanos queixaram-se que o real problema deste filme era a falta de desenvolvimento dos personagens. Para um guião do Nolan, há pouquíssimos diálogos, por vezes chega a lembrar The Revenant, de 2015, o que é um elogio. Dito isto, para os espectadores mais interessados nos personagens, o desenvolvimento é bastante claro.

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    Como já disse, há pouco “sangue”. Há destruição, há tragédia, há tensão (muita). Mas quem quiser sequências de ação únicas terá confrontos aéreos sensacionais entre os ingleses e os alemães. Todas elas gravadas com uma “pseudo-câmara escondida” e uma edição precisa e frenética como nenhuma outra, sem nunca apelar à câmara tremida. Obrigado Nolan!

    O elenco é ótimo, isso também graças ao facto de não existir um personagem principal. O Tom Hardy está excelente como um homem focado mais na sua missão do que na sua própria sobrevivência. Ele passa o tempo todo calado ou com a cara tapada, por isso era muito difícil interpretar fosse quem fosse, mas graças à sua expressividade e carisma, é muito fácil torcer por ele.

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     O Mark Rylance dá novamente uma performance muito reservada e calada. Ele desenvolve um homem muito comum: inteligente, perspicaz, calmo, diria até estranhamente calmo. Ele sabe controlar o seu medo melhor que ninguém e impõe muito respeito.

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     O Cillian Murphy, mais uma vez, surpreendeu. É um ator muito underrated e esta performance não é inferior às outras. Ele interpreta um jovem destroçado, traumatizado e consequentemente assustador devido à sua imprevisibilidade e desequilíbrio mental.

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     O Kenneth Branagh é o que tem menos tempo em cena, mas o que consegue captar mais rapidamente a nossa atenção num curto espaço de tempo. Com a sua presença inabalável, ele convence perfeitamente como um comandante dividido entre a sua esperança e o seu pessimismo e medo, mesmo sabendo tomar precauções e pensar corretamente sob stress.

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     E o trio Fionn Whitehead, Aneurin Barnard e (a surpresa) Harry Styles são uns ótimos soldados para conduzir e acompanhar o público nesta história e metê-lo dentro da experiência. Para além de terem conflitos internos bastantes realistas, ainda sabem desenvolver o drama e meter carga emocional e carisma nos seus personagens.

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   Atenção, se não souberem nada sobre a evacuação de Dunquerque, aconselho a não fazerem nenhum tipo de pesquisa. Eu apenas sabia o mínimo e, como regularmente faço, usei o filme como um método de ensino, como o cinema ainda deve ser utilizado. Ver um filme às cegas é o melhor!

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   Dunkirk corresponde às altas expectativas, aliás, consegue ir muito além delas. É um filme tenso, inspirador, grandioso e genuinamente bonito. Para além de um espetacular retrato da guerra, é uma prova que o lado bom da Humanidade tem mais peso que o seu lado egoísta e cruel.

 

Nota: A+

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