Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

Vida de um Cinéfilo

06
Mai17

Get Out (Foge, 2017) - Crítica


Francisco Quintas

    Quem diria que um dos criadores de Key & Peele seria um realizador cujo debut fosse tão provocante, satírico, engraçado e original. É provado mais uma vez que quando o género de terror é bem feito, pode resultar num dos filmes mais interessantes do ano.

     A história segue um casal inter-racial, em que Chris é negro e Rosie é branca, que viaja até à casa dos pais dela para passar um fim-de-semana. À medida que os dias passam, aquilo que parecia acolhedor e confortável vira uma série de revelações sinistras e perturbantes.

7468_5460.jpg

    O filme é escrito e realizado pelo Jordan Peele, mais um realizador muito promissor que aparece em 2017 e se ascenderá muito facilmente ao fazer maiores e melhores filmes de terror. Depois de descobrir o Sean Byrne, estou cada vez mais dentro do género de terror, até agora Get Out é uma das experiencias mais originais do ano.

   O filme impressiona logo no início, a cena começa com um plano sequência muito impressionante, deu-me de imediato uma enorme pica e expectativa. E apesar da cena ser bem curta, ela consegue dar o mínimo para gerar um interesse.

    A fotografia varia também de maneira muito eficiente: nas cenas mais escuras em que um personagem é iluminado apenas por um poste de iluminação ou pela luz de um carro, há uma desorientação muito bem gerada apenas pelas sombras; depois todas as cenas ao ar livre e/ou de dia têm uma palheta de cores bem vivas, o que faz um contraste muito bem-vindo.

   Sendo o Jordan Peele um realizador de sketches, é muito notável o talento dele para meter humor em qualquer cena, seja de tensão, terror, descoberta ou numa simples conversa. Normalmente esse humor vem do LilRel Howery, que é um alívio cómico mais que hilariante, roubando cada cena em que está, uma cena mais engraçada que a anterior, toda a sala de cinema o adorou. Algumas pessoas podem reclamar do facto de algumas piadas são metidas um pouco abruptamente em cenas importantes. Eu discordo, uma vez que o filme pede leveza, e muita. O material tem uma sátira pesada e relevante até, e tendo um realizador habituado à comédia, era isso que eu também esperava e queria ver.

Screen-Shot-2016-10-05-at-7.27.14-AM.png

    O Chris é interpretado pelo Daniel Kaluuya, um ator que eu praticamente desconhecia, mas que não vou esquecer tão cedo. O que ele faz com as suas expressões faciais é de tirar o chapéu. É a personagem que define perfeitamente aquela relação entre o protagonista e o público, em que cada um sabe exatamente o mesmo, o que é muito enervante.

Daniel-Kaluuya-Get-Out-Jordan-Peele-horror-movie-2

   A Allison Williams interpreta a Rosie, e graças à sua leveza e doçura permite à personagem ter uma presença carismática e agradável, isto é, cumpre muito bem o seu papel. E, assim como a interpretação dela, e relação deles é muito credível, eles gostam um do outro, é algo genuíno, o que é sempre bom ver em filmes destes.

get-out-allison-williams-daniel-kaluuya-1024x683.j

    O Bradley Whitford e a Catherine Keener interpretam os pais da Rosie e são uma dupla como nenhuma outra, não há grande coisa que se possa dizer sobre os personagens, visto que todo o arco principal do filme está à volta deles, mas fica aqui escrito que eles são atores ótimos e estão bem como sempre.

Get_Out_1.jpg

   Agora já não gostei tanto do Caleb Landry Jones. Ele interpreta o irmão da Rosie, tem cenas boas e eu não conhecia o ator. O problema não está na interpretação, mas sim nas escolhas que foram feitas com o personagem. A sua cena de introdução é muito interessante, mas à medida que o filme progride, ele aparece com um cavaquinho e uma esfregona com cara de lunático, o que fez dele demasiado caricato para mim.

     De resto temos LaKeith Stanfield, Marcus Henderson e Betty Gabriel, todos ótimos e muito creepy.

C6fWKPgWQAAVi9v.jpg

    O grande twist do filme não é revelado no ato final. O filme é muito paciente e, como qualquer bom filme de terror, vai dando pistas ao longo da história, o que permite que o protagonista tenha vários caminhos por onde seguir quando finalmente o último ato começa. Sendo assim, uma vez que já estava tudo arrumado, há duas frases bem específicas que eu dispensava completamente. São diálogos que ajudam o público a chegar mais longe, mas acabam por ser inúteis, visto que depois de muita teoria e reflexão, era bem fácil chegar àquelas conclusões que o realizador quera tanto que nós chegássemos.

get-out.jpg

    Get Out é um dos filmes mais originais, provocantes, relevantes, satíricos e engraçados do ano. Ele desafia o público gradualmente e merece ser visto por espectadores que gostam do bom terror, um terror que assusta e que faz pensar.

 

Nota: A-