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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

19
Mai17

Ghost in the Shell (Cidade Assombrada, 1995) - Crítica


Francisco Quintas

     Anime não é um dos meus géneros preferidos. Claro que como toda a gente, eu vi Pokemon, Digimon, Doraemon, One Pice e até um pouco de Mermaid Mellody, não me julguem. Fora o erotismo óbvio, eu nunca me senti muito atraído nem pelo género nem pela animação em si, apesar de reconhecer a sua qualidade. Ghost in the Shell já chegou a Portugal, por isso eu decidi dar uma oportunidade ao original dos anos 90. Eu subestimei o género e estava errado.

   Baseado no manga do mesmo nome, Ghost in the Shell decorre no futuro, no ano de 2029, onde existe a possibilidade de transferir a consciência dos seres humanos para corpos robóticos e segue uma equipa de policias que tentam capturar um hacker que rouba dados do governo.

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    O filme é realizado pelo Mamoru Oshii, responsável por montes de bons animes, tanto no cinema como na televisão japonesa. O que ele faz aqui não foi especial o suficiente para me fazer escrever o nome dele no meu caderno de realizadores obrigatórios. Como já disse, eu não assisto anime porque não me atrai, porém, acredito que consigo gostar, mas não é um género que irei procurar regularmente para satisfazer a minha sede de cinéfilo. Não entrarei numa grande discussão, nem farei uma crítica muito elaborada, pois não conheço o género.

    Mas falando de Ghost in the Shell. O filme é bom, mesmo bom, tanto como obra cinematográfica e discussão filosófica. Os anos 90 foi, provavelmente, a maior e mais produtiva e progressiva década da história do cinema no que diz respeito ao avanço tecnológico da animação e do CGI. Ghost in the Shell e o resto dos animes são exemplo disso. Porém, este filme é um pouco diferente. Esta obra serviu de inspiração para muitos filmes nos anos seguintes como, por exemplo, Dark City de 1998 do Alex Proyas, The Matrix de 1999 dos Wachowski, e até Westworld, a série de 2016. Todo o conceito de inteligência artificial e hacking eram coisas pouco exploradas, porém muito relevantes, não só nos anos 90, mas praticamente desde sempre, o medo da tecnologia existia, também devido a obras como 2001: A Space Odyssey e Blade Runner.

     O filme pode ser visto tanto pelo fator de entretenimento, que já seria suficiente para o seu autossustento, uma vez que tanto a animação e as cenas de ação são brutais. Mas Ghost in the Shell é também uma obra que merece reflexão, merece que se criem teorias sobre o seu material, merece que o público pense nele. São feitas muitas perguntas, e nem sempre temos uma resposta clara, o que foi propositado, o filme confia no público. Perguntas como: “O que significa ser-se humano?”; “Inteligência artificial pode ser considerada uma forma de vida?”; “Quando as duas identidades se unem, será que a artificialidade pode corromper e/ou extinguir a humanidade ainda existente no corpo?”. São perguntas pesadas, interessantes e importantes e nunca há uma resposta clara, e ainda bem, seria até presunçoso se houvesse.

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    Em termos técnicos, não posso fazer uma grande análise. Não sei o é que uma boa edição ou mixagem de som. Conheço e percebo os conceitos, mas não vou avaliá-los. Mas algo que eu posso avalia é a banda sonora, que é sensacional! É incomoda, inquietante, mas espetacularmente fascinante, é uma melodia e um coro que nem parece real. Mesmo não percebendo japonês, eu fiquei completamente hipnotizado pelo tema do Kenji Kawai.

     Os personagens são interessantíssimos e cobertos de mistério. É verdade que nem todos têm o desenvolvimento que eu queria. A Motoko e o Batou são uma excelente dupla, é um embate de personalidades muito carismático e convidativo. O resto dos personagens passa despercebido. O Chief Aramaki é o único que me entreteu e foi útil de uma maneira mais frenética. O Ishikawa e o Togusa não me disseram nada. Sobre estes apenas (menos o Togusa) sabemos que têm uma certa parte do corpo artificial e mais nada. Mas para um filme de apenas 83 minutos, era difícil garantir um desenvolvimento para todos os personagens. Talvez se o filme um pouco mais longo era melhor.

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     Outro assunto que o filme também discute é identidade de género. Muitas vezes vemos a Motoko no seu fato cor-de-pele justo que lhe permite camuflagem termo-óptica, mas nunca olhando para si, para o seu corpo, como o dela. Ela foi criada artificialmente, apenas a sua consciência se mantém, mas, por outro lado, praticamente não se identifica como uma mulher, ou nem sequer como um ser humano. Ela nunca repara que os outros possam olhar para ela sexualmente ou se preocupa em esconder-se quando está praticamente nua. O mínimo de humanidade que lhe resta, a chamada “Ghost”, permite-lhe ter sentimentos, na verdade, dos sentimentos mais humanos possíveis: curiosidade, medo, inquietação, ansiedade, entre outros. Quando esta nada no mar, discute ou luta, sente todas as emoções naturais do ser humano, o que lhe permite estar em contacto com o mínimo de consciência que lhe resta. É aí que vemos que o Batou é mais “humano” que ela. Ele sente-se envergonhado por vê-la nua, evita olhar para ela e cobre-a com o seu casaco, demonstrando respeito.

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     Ghost in the Shell é uma das animações mais provocativas e importantes, e um dos grandes filmes dos anos 90. É tenso, enérgico, colorido, ambíguo, violento e pessimista. Merece ser visto pelo público em geral, goste ou não de anime.

 

Nota: A-