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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

10
Jul17

Ghost in the Shell (Agente do Futuro, 2017) - Crítica


Francisco Quintas

     Como já disse antes, eu não sou totalmente contra os remakes. Se um filme quer transmitir nostalgia ou reinventar alguma coisa, tudo bem, mas se for feita uma versão cash graber, desrespeitosa e sem graça, de certeza que haverá coisas melhores para se fazer com o nosso dinheiro.

     Baseado no manga Ghost in the Shell escrito por Masamune Shirow, lançado em 1989 e, na posterior adaptação cinematográfica de 1995 com o mesmo nome (ler crítica), o remake live-action de 2017 revisita a história da Hanka Robotics e a sua luta contra o cibercrime.

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     Não consegui arranjar uma “sinopse” melhor do que esta. As distribuidoras afirmam que este remake é baseado no manga e no filme original, mas há muitas modificações (umas boas, outras nem por isso) que não me deixam revelar a verdadeira sinopse.

     O filme foi realizado pelo Rupert Sanders. Esta é apenas a sua segunda longa-metragem. Ele fez algumas curtas, mas o primeiro filme que realizou foi Snow White and the Huntsman, de 2012, que é também um remake. Este eu não vi, mas Ghost in the Shell (ler crítica), de 1995, entrou na lista das minhas animações preferidas já há algum tempo e, atenção, eu não sou lá grande fã de anime. Algo que ele fez muito bem foi recriar certos e determinados shots do filme original, shots muito icónicos e bonitos, por acaso. Maior parte deles têm praticamente o estilo visual idêntico e alguns até funcionam melhor em live-action do que em anime. Nesse aspeto, ele surpreendeu-me. Agora, houve alterações bem drásticas no material fonte. Algumas ideias levaram o filme num caminho interessante, outras nem tanto. Devemos respeitar filmes como este, que revolucionou o género da ficção cientifica.

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     Como já disse, o realizador presta uma satisfatória homenagem ao visual do filme original. Tanto a fotografia, os cenários, o guarda-roupa e os restantes elementos da produção são mais que eficientes para recriar o mundo distópico da animação. É uma cidade cinzenta, mas viva ao mesmo tempo. O mesmo se pode dizer das cenas de ação, que são o segundo ponto mais atrativo deste filme. A ação é frenética e a edição é eficiente, nada de cortes excessivos à la Michael Bay. Há sequências em câmara lenta lindíssimas e o CGI é igualmente bom, sem nunca engolir a história, e isso graças também à inclusão de efeitos práticos. Porém, a banda sonora fica muito aquém. É exatamente igual à original, só que má, se é que me faço entender.

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     Agora vou falar daquilo que queria. O filme muda bastante a história. O antagonista é diferente, as circunstâncias que levam os personagens a determinado sítio são outras e até a filosofia é diferente. O anime falava de humanidade, tecnologia e a evolução posterior de um indivíduo quando este se beneficia da junça destas duas “coisas”. Desta vez, os temas abordados são opressão, rebelião contra o sistema e a perda do individualismo. Não me vou alongar mais acerca disto.

     A Scarlett Johansson tem dado boas performances nesta década e esta não é exceção. Dentro da nova história de origem da personagem, ela está bem. Porém o whitewashing é um problema. Ela é uma boa atriz dramática e uma boa estrela de ação, mas o papel teria ficado muito mais convincente se a atriz fosse japonesa. Por exemplo, a Rinko Kikuchi seria uma ótima escolha. Isso resolveria o whitewashing e ainda outra coisa bem específica.

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     A Juliette Binoche é bem desaproveitada e sofre umas decisões bem toscas do guião. Não é uma personagem tão interessante assim, mas a atriz era capaz de elevar o seu material se tivesse mais tempo em cena.

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    Eu gostei muito do Pilou Asbæk. Foi uma ótima escolha para o Batou. Para além de ser fisicamente muito parecido com o personagem, ele ainda demonstra um afeto muito verdadeiro pelos seus colegas e a sua dinâmica com a Scarlett Johansson também é ótima.

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     O Takeshi Kitano surpreendeu-me. Eu estava à espera de um Chief Aramaki desaproveitado e sem graça, mas, a partir de um certo momento da história, ele tem um ligeiro twist e torna-se um badass autêntico.

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     Só não percebi o porquê de ele não falar inglês. Ele fala japonês o filme todo e toda a gente que fala inglês percebe. Ambos trocam diálogos, mas nunca no mesmo idioma. Eu sei que todos eles têm algum tipo de artificialidade, mas não resultou muito bem, ficou estranho.

     Agora o antagonista deste filme é fraco, assim como a sua motivação. O Puppet Master, do anime, pode nem ser um dos melhores vilões do cinema, mas ele foi bem capaz de obrigar o público a pensar e desenvolver uma luta de consciência. Amanhã não me vou lembrar deste … acho que já me esqueci.

     Outra coisa que me incomodou foi que o filme decidiu acabar com uma narração da Scarlett Johansson bem sem graça. Foi apenas um momento de exposição. Felizmente o ato final foi provavelmente o mais gratificante, tirando essa narração, o filme terminou numa nota alta.

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     Ghost in the Shell não desrespeita totalmente a versão original e até consegue extrair um novo ponto de vista sobre temas anteriormente abordados. O problema é que, como maior parte dos remakes, este é “americanizado” demais e resulta de uma produção preocupada demais com estilo, esquecendo-se da substância.

 

Nota: C

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