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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

24
Jul17

Grave (Raw, 2017) - Crítica


Francisco Quintas

     Eu não ia fazer a crítica deste filme, acho que passou ao lado de toda a gente e quase ninguém viu. Mas acho que, quando o fator surpresa é maior do que nós estávamos à espera, os filmes merecem ganhar destaque.

   Justine é uma jovem vegetariana que começa a estudar medicina veterinária. Ao longo da sua estadia naquele que se revela ser um ambiente sujo, esta começa a desenvolver instintos canibais.

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     Trata-se do directorial debut da Julia Ducournau, que também escreveu o guião. Graças a este filme, ela tornou-se numa das realizadoras mais controversas deste ano. Se procurarem, encontrarão alguns vídeos dela a promover o filme em festivais enquanto alguém na sala a confronta. Tal como ela, o filme é provocador, fascinantemente misterioso e, acima de tudo, corajoso. A primeira impressão com que fiquei foi a de uma mulher que simplesmente quer-se expressar para aqueles que a admiram, sem se preocupar com aqueles que não gostam. Dito isto, Grave vai certamente dividir opiniões. Em montes de perguntas que lhe já foram feitas sobre o verdadeiro significado do filme, esta respondeu que não tem uma resposta certa, a história trata-se de uma metáfora bastante ambígua. Sendo assim, algumas pessoas adorarão e outras odiarão. Antes de se falar mal de um filme é preciso refletir.

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     Algo que ela fez muito bem foi elevar o fator surpresa além daquilo que o público esperava. Há vários pequenos e grandes twists aqui, uns mais inesperados que outros, mas igualmente bons. Os planos não fogem muito do vulgar, mas são mais que funcionais. Há planos gerais para ostentar a grandiosidade da escola e das festas universitárias, assim como muitos close-ups e outros planos claustrofóbicos nas situações mais convenientes. Falando nas festas, o filme é rated R, há muito sexo, sangue, violência e o esperado de um drama coming-of-age numa universidade, só que, por vezes, bem mais explícito do que filmes como American Honey, por exemplo.

     O filme é bizarro, surreal e um pouco perturbador, dependendo da tolerância de cada um. Eu sou fã de filmes violentos, é um gosto adquirido. Se canibalismo for algo demasiado forte para vocês, aconselho a não escolherem este filme para uma noite de sábado. Por outro lado, é um filme bastante reflexivo, filosófico, ambíguo e inquietamente intrigante, principalmente devido à sua curta duração (98 minutos). O filme não perde tempo e, fora apenas dois pequenos momentos um pouco inúteis, não inclui cenas arrastadas desnecessárias, é uma experiência muito ágil.

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     São vários os elementos técnicos que contribuem para a natureza surreal e violenta de Grave: a maquilhagem, a banda sonora e a fotografia. A maquilhagem é mais que eficiente, não chega a ser horrível ao nível de 13 Reasons Why, nem espetacular ao nível de The Revenant, ainda quando se conta com um orçamento de apenas 3,5 milhões de euros, o que para uma produção franco-belga, é baixo.

     A banda sonora é sensacional! Ambos os temas originais e a seleção de músicas são brutais (pelo verdadeiro significado na palavra). Há uma escolha de música eletrónica suja e incómoda, mas deliciosamente estranha, assim como um violino ríspido, irritante, porém suave e agradável que chega até a lembrar o de Game of Thrones. Uau! E a fotografia, mesmo não muito original, consegue criar tons sombrios e coloridos, lembrando o trabalho do Kubrick, o suficiente para um filme deste “género”.

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     A Garance Marillier está fantástica, é muito provavelmente uma das melhores interpretações femininas do ano! Mesmo no seu estado mais sano e estável, ela consegue, de uma maneira inexplicável, convencer-te que há qualquer coisa errada com ela, mesmo que todas as suas atitudes e opiniões te mostrem o contrário. É um ótimo estudo de personagem e o mais impressionante é que, mesmo quando sabemos para onde o filme vai, quais serão as cenas seguintes, há sempre qualquer coisa inesperada, maior parte das vezes graças a ela. Ela é tímida, introvertida e inocente, mas quando a sua personagem começa a evoluir, há uma presença animalesca que nunca mais desaparece. E aqueles olhos são extremamente arrepiantes.

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     De resto, o elenco secundário é “ok”. Não são muitos os personagens realmente importantes ou influentes, mas os que mais interagem com a protagonista fazem um bom trabalho. Destaque para a Ella Rumpf, que acaba por ser a única com uma personalidade com camadas e que resolve dignamente o seu arco, não é de todo uma personagem secundária unidimensional.

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     Se me permitem uma opinião mais profunda, trata-se de um filme relevante. Consoante algumas pesquisas que tive de fazer, a conclusão mais concreta e fundamentada que consigo retirar daqui é que tudo se trata de um estudo da violência, dos desejos mais violentos e crus (raw) do ser humano, assim como a destruição da sua inocência quando se permite integrar num ambiente socialmente degenerado. Mas cada um cria o seu debate, prefiro não me alongar mais.

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     Grave é um dos melhores filmes do ano até aqui. Parece que os projetos mais independentes de suspense/terror continuam a surpreender pela positiva, enquanto grandes blockbusters continuam a desiludir. O filme é uma grande discussão sobre a natureza humana e digamos, sobre morais, é uma experiência agressiva, porém convidativa, filosófica, provocadora e satírica.

 

Nota: A-