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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

25
Abr17

Guardians of the Galaxy (Guardiões da Galáxia, 2014) - Crítica


Francisco Quintas

 

     Guardians of the Galaxy já estreou há três anos, uau! A sequela tão aguardada de 2017 vai chegar a Portugal na próxima quinta dia 27 de abril. Que melhor altura para falar do original que esta?

    O filme passa-se na galáxia do Universo Cinematográfico da Marvel e acompanha a aventura de um grupo composto por um ladrão intergaláctico, uma alienígena em busca por redenção, dois caçadores de recompensas e um guerreiro em busca por vingança, que luta para impedir que um radical assuma o controlo total da galáxia, utilizando uma esfera metálica com o poder para dizimar um planeta inteiro.

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     Guardians of the Galaxy satisfez tanto os fãs da fórmula Marvel como aqueles espectadores que queriam mais do que era habitual. Alguns procuravam mais um filme de super-heróis, com bons personagens, excelentes efeitos visuais e criação de mundo, juntamente com uma estrutura narrativa eficiente, porém familiar. Para outros, a estrutura básica já fora utilizada até à exaustão. Um filme que apresentasse novos personagens para o Universo Cinematográfico Marvel teria uma estrutura simples de origem, em que o protagonista era apresentado, o público rapidamente sentia afeto por ele, este descobria os seus poderes e no ato final decorria um inevitável confronto deste contra o antagonista principal. Guardians of the Galaxy, para além de rejeitar esta forma de narrativa, apresentou novos caminhos por onde os filmes de super-heróis podiam ir, uma vez que começam a ficar cada vez mais previsível e familiares.

     O filme é muito mais que isso, é mais musical, mais cínico, mais imaturo, (uma imaturidade que se desenvolveria em outros filmes como Deadpool), e, o mais importante, diferente.

     James Gunn foi a escolha perfeita para a realização. Permiti-lo também escrever o filme foi uma decisão ainda melhor. Filmes da Marvel como Captain America: The First Avenger, Thor e Thor: The Dark World não tiveram essa sorte e, por isso, não corresponderam às consequências.

    Algo que o filme também fez diferente dos outros foi o excelente desenvolvimento dos personagens. E que personagens! O Chris Pratt dá provavelmente a melhor interpretação da carreira até aqui! Mesmo não sendo o papel que lhe dará um Óscar, Peter Quill é o papel que o definiu, juntamente com Emmet em The LEGO Movie no mesmo ano, como um dos atores mais influentes e carismáticos da nova geração. A sua capacidade de entreter o público e de construir um personagem muito divertido e humano ao mesmo tempo é de tirar o chapéu.

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     A Zoe Saldana nunca foi uma das atrizes com um maior alcance dramático. Em Avatar de James Cameron as coisas mudaram, mas fora disso, não se pode ver muitos outros filmes igualmente bons da atriz. Como Gamora, ela faz o contrário daquilo que era esperado. Ela cria uma espécie de um anti-alívio cómico, uma lutadora extremamente séria, que poucas vezes está lá para se rir, um perfeito contraste para a personalidade sabichona e divertida do Chris Pratt e uma nova faceta do talento da atriz.

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     O Dave Bautista é uma das mais promissoras transições de um desporto para o cinema. A carreira de acting do ex-wrestler promete, não ser das mais diversificadas, mas sim umas mais interessantes de qualquer maneira. A seriedade do Drax the Destroyer cai bem no filme. Ao mesmo tempo que este procura vingança por algo bem específico, ele não percebe maior parte das metáforas populares dos humanos, algo que consegue ser muito engraçado graças ao ator.

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    O Bradley Cooper está hilariante como Rocket Racoon! Ele é completamente sarcástico, sádico, cínico, maldisposto e, até mesmo, frustrado e infeliz. Mais do que um guaxinim divertido, ele é um dos recursos mais úteis que a Marvel criou para ajudar o filme a se diferenciar dos outros do género. Semelhantemente com Deadpool, que chegaria aos cinemas em 2016, Rocket satiriza os clichês dos géneros e ajuda a criar um significado extra dentro do filme, mas isso vai-se falar no fim.

     O Vin Diesel não é um bom ator, ponto final. Todos os filmes em que já esteve se resumem a corridas, tiros, mulheres e muito falta de lógica. The Iron Giant e Guardians of the Galaxy são exceções. O melhor que o ator tem para oferecer já se notou, a voz de Vin Diesel é muito boa. Groot é um personagem completamente oposto ao Rocket. Ele é doce, amigo, inocente e ingénuo. Debaixo de toda aquela casca de árvore dura e espessa, existe uma das personalidades mais amigáveis da Marvel.

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     Porém, a distribuição do elenco não foi muito justa. Atores como Djimon Hounsou, Glenn Close e John C. Reilly são ótimos atores, mas não um pouco desaproveitados. Cada um tem as suas características principais definidas e todos trazem uma energia ao ritmo do filme que é muito bem-vinda. Só o Benicio Del Toro tem um papel mais interessante e relevante, também por ser uma espécie de easter egg para os futuros filmes da Marvel. Mas estes são atores demasiado bons para performances tão pequenas.

     O vilão é outro problema. O Ronan, interpretado pelo Lee Pace, é um antagonista previsível e genérico. Não tem um desenvolvimento muito interessante e é desfavorecido pelo facto de ter sido posto por vezes em 2º plano, já que o James Gunn deu um tempinho ao Thanos, interpretado pelo Josh Brolin, para ser estabelecido antes do Infinity War.

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     Mas falando novamente de coisas boas. A música do filme é magistral! Fora o tema principal do Tyler Bates, que é um dos melhores da Marvel, a escolha de música clássica é a melhor desde Pulp Fiction, e isso não é dizer pouca coisa. Na verdade, em aspetos técnicos, filmes da Marvel dispensam comentários. Os efeitos visuais e maquilhagem são de última geração e todas as cenas gravadas em cenário ou de green screen são praticamente impercetíveis, o que é o melhor elogio que se pode dar.

     Guardians of the Galaxy foi, acima de tudo, um alívio para os fãs do género que procuravam outra coisa. O género tem-se tornado cada vez mais saturado e previsível, portanto é ótimo aparecerem mais adaptações diferentes deste universo de personagens que, pelos vistos, parece surpreender cada vez mais.

   Saindo do guião do filme, o significado alternativo é bastante óbvio. O debate que este assunto criará entre os espectadores não será algo grandioso. Na verdade, a mensagem que o filme transmite é bem casual, agradável e bonita.

     Guardias of the Galaxy é um filme sobre tragédias. Todos os personagens passaram por diferentes infortúnios: a mãe do Quill morreu quando ele era ainda uma criança e, logo de seguida, este é raptado da Terra sem ter tempo para processar tudo; os pais da Gamora foram mortos pelo Thanos; a família do Drax foi morta pelo Ronan e o Rocket vive com uma sensação de frustração e de que ninguém na galáxia o respeita. Até o próprio Ronan é uma vítima, a espécie dele fora toda extinta e este sente a necessidade de vingança, controlo e poder. Mesmo o filme tendo esta realidade tão bruta, ele consegue suavizar o tom graças principalmente à sua banda sonora, à base de músicas maioritariamente dos anos 70 e 80. Estas músicas transformaram a caverna, no início do filme, numa discoteca, e a sala de tortura da Nova Corps num clube de música. A cassete do Quill é o seu bem mais estimado, pois segundo ele, “dançar é melhor coisa do mundo”. Esta atitude também se manifesta na comédia do filme, ou seja, quando se inicia uma cena mais séria, esta é interrompida por um momento subtil de estupidez ou leveza.

     Quando o grupo finalmente encontra o Colecionador, interpretado pelo Benicio Del Toro, o Quill está prestes a entregar-lhe o Orbe, mas deixa-o cair, como se dissesse que aquilo não passava de uma bola metálica usada para pisar papéis. Mais tarde quando, todos decidem se unir para combater contra o Ronan, o Rocket dá uma gargalhada cínica e goza com os parceiros por estarem todos num círculo num suposto momento de inspiração. Mas se uma atitude cínica é a maneira do filme de retratar tragédias, a amizade é retratada como a solução. Durante a batalha final, as naves juntam-se numa espécie de um casulo para combater contra Ronan e os protagonistas juntam as mãos para partilharem a dor do outro durante o ato de fechar o Orbe.

     O que o filme nos diz é que há duas maneiras de se enfrentar as tragédias: ou se procura vingança ou simplesmente se deixa estar no mesmo sítio enquanto se ri com os amigos. Fácil, não é?

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     Eu não morro de amores por Guardians of the Galaxy. Não chega a ser um dos meus favoritos do género. Mas há que reconhecer que este filme foi uma grande inovação no que diz respeito ao desenvolvimento dos personagens do género e à maneira de como se aborda determinados temas. É um dos filmes mais originais da Marvel, é muito mais divertido do que a simples comédia pipoca e muito mais significativo do que apenas um blockbuster de ação. Merece ser visto por todos os fãs do género. Esperemos que o segundo volume corresponda às expectativas e que, quem sabe, seja melhor que o primeiro.

 

Nota: A-