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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

07
Mai17

Hello, My Name is Doris (Olá, o Meu Nome é Doris, 2016) - Crítica


Francisco Quintas

     Uma coisa é verdade. Todos nós nos cansamos de fazer sempre as mesmas coisas, de ver sempre as mesmas caras e ter sempre a mesma rotina. No caso dos atores mais respeitados de Hollywood, é normal alguns chegarem aos últimos anos da sua carreira e quererem levar o trabalho menos a sério. Dito isto, devo ser uma das poucas pessoas que não julga atores como o Robert DeNiro apenas por ter feito comédias nos últimos anos. Os atores apenas querem relaxar enquanto desfrutam do fim da carreira, não me importo nada com isso, até é giro de se ver.

     Sally Field interpreta Doris, uma mulher de 60 anos que, depois do falecimento da mãe, toma um rumo diferente para a sua vida, assim que se apaixona por um colega de trabalho 30 anos mais novo e começa a resistir à pressão do irmão e da cunhada para sair a casa onde viveu toda a vida.

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    O filme é escrito e realizado pelo Michael Showalter, um realizador que ainda não se superou em nenhum trabalho. The Big Sick foi um dos filmes presentes no Festival de Sundance em janeiro, e curiosamente é também dele. Costumo ficar de olho nos filmes destes festivais, independentemente do género. Tal como The Big Sick, Hello, My Name is Doris é também uma comédia romântica, ou pelo menos dá a entender que é. Quando a movimento de camara, não há nada que eu desgostei, mas nada de memorável, o realizador segue as regras mas consegue ter algumas ideias originais e facto de a protagonista ser uma sessentona com um vazio na sua vida e não uma jovem de 20 anos à procura do amor da sua vida, ajuda o filme a diferenciar-se muito facilmente das típicas comédias pastelonas.

    Temos aqui um filme fofinho, bonitinho e confortável, e isso é bom. É um filme muito agradável para se ver numa tarde no sofá. A fotografia ao mesmo tempo que capta o ambiente agitado e seco de Brooklyn consegue também meter muita cor, principalmente na casa e na roupa da Doris. É um filme muito colorido e isso serve de propósito perfeitamente para justificar o estado de espírito da personagem. Pode não ser um estudo tão profundo com Elle ou Aquarius, é sem dúvida mais leve, mas fica evidente que a protagonista se sente agoniada por ser um peixinho indefeso no aquário errado. E ao mesmo tempo que é angustiante, é bonito e divertido.

     A Sally Field está fantástica. É uma atriz que desaparece completamente nas personagens que faz e nota-se que a atriz se está a divertir, mas que também está muito compromissada. Sendo ela a personagem que está sempre em cena, era muito fácil para uma atriz inferior deixar que a experiência ficasse cansativa, mas claro que tal não acontece graças à experiência da atriz. Ela é engraçada, tímida, desajeitada, querida e muito carismática. E há algumas excelentes cenas que vão conseguir que o público se sinta tocado e incomodado até, tudo também devido à enorme capacidade da interpretação da Sally Field de elevar o material do filme, que na verdade sofre de alguns clichês.

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     O Max Greenfield interpreta o John, o crush da Doris. Não é uma performance extraordinária, é apenas carismática e funcional. A sorte do ator era que o personagem tem desenvolvimento suficiente para que haja material suficiente para se trabalhar.

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   A Tyne Daly está hilariante como a Roz, a melhor amiga da Doris. À partida, ela poderia ter ficado facilmente reduzida apenas a essa imagem, mas vê-la a contracenar com a Sally Field é um daqueles contrastes brilhantes. Enquanto a Doris é reservada, a Roz é sabichona, irónica e não tem medo de fazer ou dizer aquilo que lhe apetece.

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     A Vivian, a neta da Roz, interpretada pela Isabella Acres, para além de ajudar nalgumas cenas, está também muito à vontade com a personagem, mas há um momento que deixou uma ponta solta. O que acontece é que a Doris cria um perfil falso no Facebook para tentar saber coisas sobre o John. Mas foi a maneira de como esta aceitou meter-se nesta brincadeira. Acho que devia ficar, no mínimo, surpreendida ao ver que uma mulher de 60 anos ficava apanhada por um rapaz de 20, e praticamente nenhuma reação for mostrada.

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     Algo que eu odeio neste tipo de filmes é a imagem que certos sites têm. Sites como o Facebook e o Youtube tem sempre ali alguns detalhes ilógicos. Desta vez, o sistema operativo do Facebook é uma coisa completamente diferente e estranha. Eu não percebo porque é que os realizadores fazem isto de quererem mudar uma coisa tão básica.

     O filme toma certos caminhos que eu não estava à espera, mas como já disse antes, ele cai para muitos clichês no ato final. Pois é na verdade uma comédia que se vai tornando cada vez mais previsível. O filme começa com uma premissa até banal, mas diferente e saborosa, mas no último ato entram muitos clichês do género que me fizeram roer os dentes. No geral, mesmo sendo uma experiência muito divertida é também formulaica, é fácil saber como é que maior parte dos arcos vão terminar. Felizmente, há um momento no fim do filme que eu não estava mesmo à espera, o que de certa forma salvou o final.

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     Hello, My Name is Doris é uma comédia bem diferente, o que lhe permite sair do status de rom com’s chatas e genéricas. Porém, o filme não resiste a ceder para alguns atalhos e clichês do género, mas de certa forma isso é perdoável, visto que o filme acerta muito mais do que erra.

 

Nota: B