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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

14
Mai17

Hidden Figures (Elementos Secretos, 2016) - Crítica


Francisco Quintas

            Mais vale tarde do que nunca, vamos falar de um dos filmes americanos mais patriotas e até mais overrated de 2016.

            Baseado no livro de não-ficção da Margot Lee Shetterly publicado em 2016, o filme passa-se nos anos 60 e conta o progresso profissional de três mulheres negras que contra todas as expectativas, revolucionaram os métodos de trabalho na NASA, permitindo assim aos EUA levar o primeiro homem americano ao espaço.

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            O filme é escrito e realizado pelo Theodore Melfi que realizou, em 2014, a boa comédia St. Vincent com o Bill Murray. Algo que ele faz bem, não sendo nada de extraordinário, é causar uma boa vibe, ou seja, é bom ver na categoria do Óscar de Melhor Filme um filme bonitinho e fofinho como este, mas isso não significa que ele mereça estar lá.

           A América tende a sobrevalorizar filmes que demonstram um enorme patriotismo. Mas qual será a razão de terem incluído este filme nos Óscares ao invés de Patriots Day. Talvez por o Theodore Melfi não ser tão sincero como o Peter Berg e não ofender ninguém com os temas que aborda. Na verdade, Patriots Day e Deepwater Horizon são melhores porque não têm medo de mostrar os defeitos dos americanos, e apenas depois é que decidem glorificar os seus personagens. E como todos sabemos, a América não gosta de ser ridicularizada.

            Mas falando de Hidden Figures, é de facto muito fácil sentir-se contente e confortável enquanto se assiste a este filme. É um feel good movie e todos nós gostamos de filmes assim, mas isso não é sinónimo de qualidade. Quando se aborda temas como racismo, sexismo, machismo e subestimação em geral, o filme fica por vezes um bocado em cima do muro, isto é, parece que vez em quando tem medo de ofender o público, e concorrendo contra filmes como Moonlight e Fences, Hidden Figures passa facilmente ao lado.

            A paranoia existente na América nos anos 60 é retratada maioritariamente graças ao esforço do Kevin Costner, ele sim retrata um homem exageradamente rígido, competitivo e paranoico face aos progressos da União Soviética. Nota-se que o ator está se a divertir com o papel e que está completamente à vontade com aquilo que diz, e se calhar o problema é esse, o guião não vai mais além. Não quero ser mal interpretado, eu não considero o filme cobarde, há de facto algumas cenas que me espantaram pela sua realidade, apenas acho que certas coisas podiam ser feitas com um pouco mais de brutalidade. Até são mostrados os pontos de vista das filhas de uma das mulheres principais e coisas que elas aprendem na escola, o que foi muito desnecessário e até lamechas demais.

            Por falar em lamechas, há uma cena em que uma personagem precisa de ir à casa de banho e queixa-se que a casa de banho das mulheres negras fica do outro lado do edifício. Então o Kevin Costner pega num pé de cabra e parte a placa que indicava para quem as casas de banho se destinavam. A cena impressiona e é forte, mas o que ele fala de seguida é muito piegas e lamecha, até me fez rir quando era suposto eu ficar surpreendido.

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            Mas falando das coisas boas e suaves do filme. Algo que gostei muito a banda sonora, especialmente a música do Pharrel Williams, que fica facilmente presa na cabeça. Por vezes a música tema surge quando o melhor que o filme podia dar era alguns silêncios. O filme abusa de musiquinhas tristes onde o racismo seria mais cruel e mais seco se nada estivesse a tocar por detrás.

            O elenco, por outro lado, é muito competente e carismático, mas talvez não digno dos prémios que recebeu. Fences, Moonlight, Manchester by the Sea ou Captain Fantastic mereciam todos mais o SAG de Melhor Elenco.

            A Taraji P. Henson faz muito bem o papel de uma mulher tímida e desajeitada que nunca demonstra a sua real frustração, mas ela não convence como uma matemática de verdade, nota-se que não sabe metade das coisas que está a dizer e que aquele texto foi muito bem decorado, não é esse o trabalho de uma atriz.

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            A Janelle Monáe ao mesmo tempo que é atrevida é também muito confiante e altiva, mesmo o ambiente não lhe permitir certas atitudes, o que torna a personagem relacionável e fácil de se torcer por.

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            A Octavia Spencer é mais uma vez aquela mulher extremamente séria, educada e disciplinada que não gosta nunca de levar o trabalho alguma vez na brincadeira, e isso faz a performance dela muito engraçada, porém a nomeação ao Óscar de Melhor Atriz Secundária foi um pouco exagerada.

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            O ano de 2016 foi ótimo para o Mahershala Ali e, mais uma vez, ele injeta uma presença muito acolhedora e calorosa, mesmo este filme sendo incomparável a Moonlight. É um ator muito fácil de assistir e de gostar.

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          Por fim, a Kirsten Dunst e o Jim Parsons têm ambos um bom desenvolvimento psicológico e um arco de personagem bem feito, pelo que mudam bastante as suas opiniões ao longo do decorrer do filme.

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            Hidden Figures não chega a dececionar, é um feel good movie e como outro qualquer, ele entretém, informa e diverte. Podia ser melhor no que diz respeito ao seu comentário social, mas graças ao seu otimismo e ao seu elenco carismático, é possível ter-se uma boa experiencia aqui.

 

Nota: B-