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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

16
Jun17

I Am Not Your Negro (Não Sou o Teu Negro, 2016) - Crítica


Francisco Quintas

    Esta crítica vai ser bem mais curta do que o habitual. Não é meu costume ver documentários, não é um género que me chame muito à atenção. Agora eu não podia ignorar um filme cujo narrador era Samuel L. Jackson e que foi massivamente elogiado e premiado em tudo o que era festival.

    Baseado no manuscrito de memórias inacabado Remember This House do escritor e crítico social James Baldwin, o filme aborda os pensamentos pessoais do autor sobre o racismo na América moderna e os ativistas Malcolm X, Martin Luther King Jr. e Medgar Evers.

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    Este deve ser muito provavelmente o segundo documentário completo que vejo na vida. Lembro-me de receber o DVD do Michael Jackson: The Life of an Icon. Devia ter uns 12 anos. Vi-o mais do que uma vez, mas sinceramente sempre achei o género um pouco chato. Na altura, ainda não percebia como funcionava verdadeiramente o cinema como uma forma de arte. Hoje, com 16, entendo a importância do conhecimento e da informação. Sempre mostrei interesse sobre o racismo, e procurava filmes que me ensinassem aquilo que eu precisava de saber, sem saber se era aquilo que queria. Hoje, depois de assistir a um filme fundamentalmente informativo, sinto-me enormemente inspirado e com a cabeça a fervilhar. Posso não incluir I Am Not Your Negro no meu Top 10 de 2016, mas adorei-o à mesma.

    O filme é realizado pelo haitiano Raoul Peck, cujo trabalho mais recente é The Young Karl Marx, que já estreou em 2017. Sendo ele, maior parte do tempo, um realizador de documentários, é difícil fazer uma análise muito complexa, mais uma vez digo, eu não sei avaliar um filme destes porque não faço ideia quais são os critérios. Sei que ele foi o responsável pela montagem dos clipes do James Baldwin e pela “supervisão” do manuscrito. Como uma enorme pesquisa, o filme funciona e muito bem. Agora, a meu ver, ele sobressai-se principalmente pela realidade, honestidade e temor das palavras.

    Primeiro, por ser um assunto interessante, eu estava dentro. Foi muito fácil ficar agarrado e escutar com atenção tudo o que era relatado. Os conflitos, as entrevistas e os discursos são muito fortes e cumprem o seu objetivo: fazer o público sentir-se mal com ele próprio, independentemente de ser racista ou não. Eu não acredito que preconceito e injustiças acabarão neste mundo, é simplesmente impossível. Por enquanto, a minha função não é escrever um texto 100% expositivo, se não nunca mais saíamos daqui. O importante é que as pessoas tenham uma real noção daquilo que é falado, pensando em reavaliar os seus conceitos de viver em sociedade.

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     A crítica social é fortemente seca, não há sequer um momento de leveza aqui e isso resulta. Visto que o assunto do racismo por vezes é ignorado para não gerar polémica, era necessário aparecer um realizador “sem papas na língua” capaz de dizer tudo aquilo que era necessário. É um filme brutalmente honesto, crítico, violento nas suas imagens e preocupante no seu material. Muitas vezes a humanidade tenta-se convencer que está tudo bem, quando nos dias de hoje ainda é preciso olharmos para dentro de nós e questionarmos as nossas verdadeiras ideologias. Mas falando daquilo que interessa, algo que eu gostei muito foi a contextualização do tema com o mercado de Hollywood e da televisão nas décadas 20-60. Marlon Brando, John Wayne, Audrey Hepburn, Bob Dylan, Charlton Heston, Gary Cooper e Joan Crawford aparecem, mas aqueles que interagem mais são Sidney Poitier e Harry Belafonte, e graças à sua evolução profissional, percebemos como o racismo facilmente afetou e afetará para sempre a cultura popular de cada geração.

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    Como qualquer outro filme, um documentário deve ser coerente. O filme segue a linha de tempo do Século XX enquanto mostra algumas imagens de eventos como a eleição do Obama, eventos importantíssimos. Houve apenas um conflito de 2014 colocado nos primeiros 20 minutos que apareceu um pouco do nada e acaba por não gerar muita discussão, foi só esse erro que impediu o filme de ser perfeito.

    Felizmente, o interesse está sempre aceso, tanto devido ao estilo visual original do filme, tanto graças à brilhante narração do Samuel L. Jackson, um homem que nunca desilude e que interpreta o guião de maneira ambas suave, acolhedora, cruel e seca. O próprio ator nasceu num determinado período da história e sabe daquilo que se aborda. Sente-se numa missão, tendo a consciência que não podia falhar para que este projeto não fracassasse.

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    I Am Not Your Negro desafia o público constantemente e pinta um retrato da sociedade tão seco, realista e violento como nenhum outro visto. Não tem medo de assumir o medo que os negros americanos sentem diariamente, sem se esquecer da importância das suas figuras políticas centrais. É curto, vale a pena e até pode não ser para todos, só que não é todos os dias que aparece um filme destes. "The story of the Negro in America is the story of America. It is not a pretty story ...".

 

Nota: A