Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

I Don't Feel at Home in This World Anymore (2017) - Crítica

     Uma coisa que pretendo fazer este ano é ver mais trabalhos da Netflix, quer séries quer filmes. Se tiverem críticas que queiram ler, é só dizer.

     Ruth, uma enfermeira deprimida, depois de ser misteriosamente assaltada e de conhecer um estranho vizinho, entra numa aventura de descoberta e busca por justiça que poderá acabar menos bem do que esperava.

I-Dont-Feel-at-Home-in-This-World-Anymore.jpg

     Este filme original da Netflix estreou em Fevereiro e trata-se do directorial debut do ator Macon Blair, responsável também pelo guião. Talvez o produto final não seja suficiente para eu me espantar com o novo realizador, mas vou ficar atento ao que ele fizer. Temos um filme, no mínimo, agradavelmente estranho, porém bastante significativo. Imaginem um filho entre Fight Club e Swiss Army Man, mas não igualmente violento ou engraçado. Como já repararam, a história é básica, temos aqui mais um caso em que a plot genérica é elevada pela ótima execução do material, mérito da realização, do elenco e das escolhas artísticas. Na verdade, a sinopse não evidencia tão rapidamente como o filme se eventualmente torna, digamos que há uma sinistralidade que começa a ser revelada lá para o segundo ato.

     Mas falemos de outras coisas, vamos ao que é bem feito: a fotografia, mesmo não muito distintiva, causa algum desconforto no espectador, não é tão depressa que nos apercebemos do futuro humor negro incluído no tom, mas todas as cores do filme são meio frias e sem vida. Já a banda sonora tem altos e baixos, há uma ótima escolha de músicas que dão uma vibe bem country, assim como bons temas originais. Alguns desses temas são alegres, outros são fúnebres. O problema esteve em usar os temas mais pesados cedo demais, deixar o público a adivinhar causaria uma surpresa maior.

i-dont-feel-at-home-in-this-world-anymore-e9f8bec9

     O filme é curto, tem apenas 1 hora e meia, desta maneira a estrutura de 3 atos é bem construída, fluída, porém com um ritmo um pouco lento, o que nem é um defeito, apenas um facto. O filme, para além de lento, é também ambíguo. Trata-se de uma sátira à sociedade moderna americana, que dá atenção principalmente a assuntos como consumismo, materialismo e até burocracia, todo este comentário envolto numa onda um pouco sombria, mas eficiente. O filme todo é relevante, mas há pequenas coisas que a protagonista “sofre” que acabam por criar uma empatia imediata entre ela e o público. Por exemplo, maior parte das pessoas não gosta de spoilers, de ser passada à frente na fila, de sair de casa e ter a rua cheia de cocó de cão. São estes pequenos detalhes que simultaneamente contribuem para a sátira social e para a relação protagonista/público.

     Falando nela, a Melanie Lynskey está ótima. Ela acha o equilíbrio perfeito entre o lado mais aparvalhado, atrapalhado e cómico da sua personagem e o lado mais psicótico, instável e furioso. É uma performance muito engraçada e o seu desenvolvimento é perfeito. As suas atitudes perante as mesmas circunstâncias mudam consoante a sua evolução pessoal, ela decide assumir uma posição igualmente subtil, mas mais controladora e rígida.

i-dont-feel-at-home-in-this-world-anymore-3.jpg

     O Elijah Wood dá uma performance bem estranha, boa, mas estranha. É um personagem hilariante (sobretudo se soubermos quando rir), principalmente devido ao seu visual e aos seus costumes e gostos. A Ruth acaba por se identificar mais com ele do que qualquer outro americano convencional que esperava. Desta maneira, a amizade que nasce das interações dos dois é bem tocante, emocionante e tem um propósito.

MV5BMTAyMDM2MDM1MDZeQTJeQWpwZ15BbWU4MDY2ODQxOTAy._

     E um pequeno destaque para o Gary Anthony Williams. Ele não é o personagem mais importante, mas o ator tem um momento em que eu me apercebei que a sua inclusão não era lá tão dispensável.

MV5BNzkxNjhlYzQtMGY1Mi00YzY5LWI4ZWYtNDk1YmFhMWI5MD

     Já o trio Devon Graye, Jane Levy e David Yow é um pouco over the top demais. O David Yow nem tanto, eu percebo o que o Macon Blair queria fazer. A Jane Levy (que protagonizou Don’t Breathe, em 2016) foi mal aproveitada. Mas o Devon Graye é o pior dos piores, é incómodo de ver.

I Don't Feel At Home In This World Anymore4.jpg

     Há também um típico casal amigo da protagonista que podia perfeitamente ser excluído com alguns ajustes no guião. A sua exclusão podia dar mais tempo para o acerto do trio referido ou até mesmo, porque não, dedicar mais tempo à amizade central. Também está presente no filme um elemento espiritual não tão óbvio como alguns podem imaginar, que de certa forma auxilia o comentário social, embora que podia ter aparecido apenas uma vez. Esta presença aparece duas vezes e a única em que faz sentido é a segunda, no terceiro ato, quem vir vai entender.

18d2253f89cc8fc2a34fef937e77937ebe6c0139.jpg

     I Don’t Feel at Home in This World Anymore tem um título chamativo, como todos podemos ver, e vai certamente gerar um debate. Tem alguns desvios que o impedem de ser uma sátira fenomenal, mas acaba por ser interessante e relevante, enquanto acerta muito mais do que erra.

 

Nota: B

     Se estiveres a gostar do blog, não te esqueças de me seguir no Facebook, no Twitter e no Blogspot. Obrigado!