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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Índice Médio de Felicidade (2017) - Crítica

     O cinema nacional é uma montanha russa, por vezes temos a rara sorte de encontrar uma jóia do mercado independente, por vezes o filme com o maior orçamento consegue ser o mais dececionante.

     Baseado no livro homónimo escrito por David Machado, publicado em 2013, o filme começa em Lisboa, em 2012, e relata a luta individual de Daniel contra o desemprego. Meses passam e este decide começar uma viagem pela estrada com os filhos e amigos, em busca de reavaliar os seus conceitos de felicidade.

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    Trata-se de mais um trabalho do Joaquim Leitão, responsável por filmes como Tentação, de 1997, e Inferno, de 1999. Não posso cometar muito sobre a sua filmografia, visto que, fora estes dois trabalhos referidos, não conheço a sua filmografia. Na verdade, para quê comentar? Ao sair do cinema deparei-me com esta reflexão sobre o cinema nacional. Não é que os produtos sejam todos maus, simplesmente há muita (aliás, demasiada) mão das televisões nos filmes portugueses. Constantemente, vemos conceitos promissores mal aproveitados. São raras as exceções, mas parece que maior parte dos filmes nacionais levam uma enorme carga de diálogos e personagens criados por um José Eduardo Moniz. É triste saber que a escola de alguns cineastas são as novelas ou outros trabalhos que estas bem-ditas estações televisas nos oferecem. Pode nem ser o caso do Joaquim Leitão, mas por favor digam-me, porque é que querem tirar cursos de cinema se depois apenas adaptam o lixo televisivo para a grande tela? Enfim …

     Mas temos sorte que o filme não é horroroso. A fotografia é provavelmente o melhor elemento técnico. Há uma frieza nas primeiras cenas que evidencia tanto a situação do protagonista assim como a própria ambientação da sua cidade. A partir da segunda metade, o filme torna-se mais quente, mais acolhedor e caloroso, graças ao ótimo tom de cores vivas com um leve traço de sépia. Graças à ótima fotografia, há alguns planos abertos que estão entre os mais bonitos que eu vi num road movie, durante a estadia dos personagens em Espanha. Não faço ideia como é que o Luís Branquinho conseguiu capturar certas imagens paras as transições da viagem. A música por outro lado é irreconhecível. Na sala de cinema nunca me lembrava de lhe prestar atenção e nem me consigo lembrar da melodia agora. Talvez o melhor momento musical foi a inclusão dos Xutos & Pontapés nos créditos finais.

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     O grande problema aqui foi uma desconcentração no seu tema principal. A oferta que foi feita foi uma história sobre a luta individual de um homem de família contra o desemprego e sobre a sua seguinte viagem com os filhos numa caravana, viagem essa que lhes transmitiria bons valores, mais ou menos o que o Matt Ross fez em Captain Fantastic, de 2016. O estudo sobre a luta contra o desemprego é bem feito, assim como o estudo do próprio protagonista. Mas quando o filme se devia focar apenas nisso na primeira metade, tenta também falar de delinquência e criminalidade juvenil, bullying e até de agorafobia. Todos esses arcos podiam ser retirados, isso daria origem a um filme muito mais sólido e menos bagunçado.

     Os diálogos não estão entre os piores do cinema nacional, há algumas cenas com frases muito verdadeiras, principalmente quando dois personagens discutem. Mas parece que ninguém consegue fazer um filme onde os diálogos não são excessivamente expositivos. Há diálogos bem artificias, piegas e óbvios. Não há espaço para ambiguidade. E isso leva-nos à narração interminável. Não que a voz do Marco D’Almeida seja má, simplesmente uma boa narração não é sinónimo de uma narração expositiva. O seu único propósito é explicar tudo o que se está a passar, visto que o público é aparentemente idiota e não é capaz de pensar sozinho, sobretudo numa narrativa com flashbacks. Há até cenas que têm muito potencial e, de repente, são interrompidas e eventualmente estragadas por uma narração chata. Supostamente o protagonista dirige-se a um amigo que está na prisão, a narração é uma carta supostamente. O mais frustrante é que não aprendemos nada sobre esse amigo. O Almodôvar é um recetor da narração, não é um personagem.

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     O Marco D’Almeida é a melhor peça do elenco. Como maior parte do tempo é preenchido apenas por ele, era necessário um ator com muito carisma e presença. É de facto uma ótima interpretação, é um personagem relacionável e muito fácil de gostar e de torcer por. A relação protagonista/público é desenvolvida muito bem graças ao ator, quando este consegue um trabalho ou quando tem de sair de casa, as emoções são sentidas igualmente pelos espectadores.

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     O Dinarte de Freitas interpretou aquele que deve ser o meu personagem preferido. Nas suas cenas, não é o comentário sobre o desemprego que é feito, mas sim sobre a vontade de ajudar o próximo, uma tarefa que nos anos de 2012/2013 foi quase esquecida. O personagem é ligeiramente sofrido, ingénuo, inocente e frustrado.

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     A Ana Marta Contente e o Tomás Andrade são uma boa dupla. As cenas deles com o Marco D’Almeida são ternurentas e dá gosto vê-los felizes e finalmente todos juntos.

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     O João Sá Nogueira incomodou-me um bocado. É um típico adolescente irritante com daddy issues que mais valia nem existir. O ator é mau e o personagem também o é, se este fosse excluído, aquele arco sobre delinquência também seria dispensado.

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     A Lia Gama está ótima como de costume, é muito bom vê-la aparecer finalmente no filme, visto que sabemos que as suas cenas terão muita qualidade. E o António Cordeiro interessou-me bastante. Na segunda metade do filme, durante a viagem de caravana, este dá-nos a sua opinião sobre a dependência que as gerações mais novas têm sobre as novas tecnologias. Ele evidencia a importância de uma boa conversa durante uma longa viagem pela estrada. Eu pensei: “O filme podia abordar isso, isso sim é importante!”. Infelizmente, esse conceito é praticamente abandonado.

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     Deixem-me dizer-vos, o final está entre os mais sem graça e piegas que já vi. Todo aquele conceito do índice médio de felicidade é mesquinho, piegas e desinteressante. Podia ser mencionado uma vez ou duas, não precisava de ter tanto peso como teve.

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     Índice Médio de Felicidade não é o pior filme português do ano, mas é o mais dececionante até aqui. O filme resume-se em meia dúzia de bons personagens e uma história com potencial, porém mal aproveitada e executada. O tempo que gastaram em personagens chatos e diálogos vazios podia ser substituído e daí originar aquele que podia ser um ótimo filme nacional com um comentário social e politicamente relevante.

 

Nota: C+

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