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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

08
Mai17

Jacinta (2017) - Crítica


Francisco Quintas

            As formatações de séries para o cinema normalmente não costumam resultar. Bairro é um exemplo, somando isso ao facto que também é uma série da TVI. Mesmo este filme estar a ser mostrado no cinema antes de estar no formato de minissérie na televisão, já era de espera que houvessem muitos buracos no guião.

            A história passa-se em 1917, na Cova da Iria, em Fátima, e é contada do ponto de vista dos três pastorinhos, concentrando-se mais na Jacinta, a mais nova, que afirmavam ter visto a Nossa Senhora.

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            Sendo um filme produzido pelos maiores criadores de novelas em Portugal, era de esperar que o filme apresentasse determinadas características. Há muitas coisas que o filme faz bem e que impressionam. A começar pela fotografia, que é provavelmente ponto mais forte. O filme passa-se em dois períodos de tempo: quando Jacinta, Lúcia e Francisco falam com a Nossa Senhora e tentam convencer a aldeia que o que viram era verdade, e quando Jacinta se encontra no Hospital vítima da gripe espanhola. No passado, a fotografia é bem simples, mas eficiente. A palheta de cores acentua num tom bem sépia que se adapta perfeitamente à ruralidade do ambiente onde as crianças vivem. No hospital, as cores mais acentuadas são frias, maioritariamente azuis e brancas, o que cria um contraste muito bom. Há mudanças na fotografia sem cortes nas cenas que mais exigiam isso, e ver algo tão bem trabalho é muito gratificante. Saindo disso o filme começa a mostrar as suas maiores fraquezas.

            Os efeitos visuais do filme são eficientes. Fazer uma visão da Nossa Senhora não exigia efeitos visuais de Hollywood e algo que o filme optou por fazer foi não mostrar um retrato da Nossa Senhora mais detalhado, porque se o fizesse seria algo bem presunçoso. O filme põe o público na dúvida e disso eu gostei.

Há muito diálogos expositivos e/ou artificias, típicos das novelas da Plural e da TVI. São óbvios, chatos e desnecessários, mas já todos sabíamos que eles iriam estar lá de qualquer maneira.

            O elenco é bom, é verdade que em novelas, devido aos guiões fracos, os atores raramente têm a oportunidade de elevarem o seu papel. Mas existem atores conseguem-se destacar.

            A Dalila Carmo interpreta a mãe de Jacinta e do Francisco e a atriz está sempre bem. É uma das melhores atrizes em atividade e nunca desilude. Tal como a Rita Salema, que interpreta a mãe da Lúcia e está ótima como sempre, porém num papel bem diferente do costume. Enquanto a mãe da Jacinta sabia que os filhos não mentiam, ainda tendo dificuldade em acreditar em tudo o que estes diziam, a mãe da Lúcia era mais severa e não acreditava de modo nenhuma. Não santificar os aldeões foi uma boa escolha.

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            A Matilde Serrão é o que mais atrai o espectador para o filme. Ela é uma criança jogada numa situação extraordinária e isso traz doçura, simpatia e inocência à personagem. Não é uma simples criança chorona, a interpretação vai muito além disso. Para uma atriz tão nova, não é fácil elevar um filme para além daquilo que é.

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            A Renata Belo interpreta a Lúcia. Ela é um bom contraste para a personalidade da Jacinta. Verdade é que a atriz não está tão carismática como a Matilde Serrão, mas os pequenos momentos em que as duas mostram as suas divergências são interessantes.

            Porém, o Henrique Mello, que interpreta o Francisco é desajudado pelo guião. O personagem não faz praticamente nada e não tem grandes reações. Raramente se sente a presença dele e não há praticamente nenhum desenvolvimento. O ator para além de não ter nada para fazer, não é muito expressivo. E há um momento que o envolve que é bem lamentável, era a oportunidade que o ator tinha de fazer algo com mais peso, mas a cena torna-se ridícula e de um nível absurdo de conveniência.

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            Quando o filme apresenta o ponto de vista do padre do filme, o Prior Manuel, interpretado pelo Filipe Vargas, havia ali uma oportunidade de se fazer algo diferente. Não é uma má performance e o personagem não é assim tão unidimensional, mas se o objetivo era mostrar o lado mais severo dos padres, era mais interessante que o padre tivesse camadas, que ele fosse mais cínico. Assim, tudo o que dizia era mais imprevisível.

            A Paula Lobo Antunes interpreta a enfermeira da Jacinta está bem dentro daquilo que se pode esperar dela. A atriz é geralmente é escolhida para fazer personagens que passaram por uma tragédia. A atriz está bem, mas é feita uma decisão no final do filme com ela que estragou a construção da personagem e que também estragou um pouco o ato final, que é manipulativo e ilógico.

            Há muito outros atores no filme, mas é difícil dizer o que se esperava deles, visto que apenas vendo-os em novelas não se pode esperar grande coisa. Atores como João Didelet, António Pedro Cerdeira, Pedro Lamares e Graciano Dias são apenas secundários, mas felizmente cumprem o seu papel.

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            Jacinta é um bom filme para quem quer saber mais sobre o Milagre de Fátima. No entanto, se tivesse melhores desenvolvimentos de personagem e se fosse até mais longo, poderia ser um dos melhores filmes portugueses de 2017, um ano que apenas em março já nos deu São Jorge, que é muito superior.

 

Nota: B-

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