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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Lady Macbeth (2017) - Crítica

     Para falar a verdade, eu estava com preguiça de escrever sobre este filme, só que comecei a pensar que os melhores filmes que vejo num ano são aqueles que merecem mais destaque no blog. Já lá vai um tempo desde que o vi, mas o que me ficou gravado na memória servirá perfeitamente. Vamos a isto!

   Baseado no livro Lady Macbeth of the Mtsensk District, escrito pelo russo Nicolai Leskov e publicado em 1865, o filme decorre na Inglaterra e conta a história de Katherine, uma jovem da nobreza recém-casada que, depois de longos períodos de tédio e de maus tratos causados pelos horrorosos sogro e marido, desenvolve um desejo de revolta depois de se envolver com um trabalhador negro.

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     Trata-se do directorial debut do William Oldroyd, que realizou apenas 3 curtas até agora. O principal foco dele esteve nas expectativas criadas em cima da mulher numa Europa no século XIX e no seu posterior desagrado e desprezo pela sua rotina e pelas pessoas que a rodeiam. O que ele fez aqui foi extraordinário! O seu estilo lembra algo que o Hitchcock faria. Lady Macbeth foi provavelmente a maior surpresa que tive este ano. Sou sincero, nunca li nada da obra original de Macbeth, do Shakespeare, sei apenas o necessário para ficar ciente que o filme envolveria comparações, homicídio e um desenvolvimento de personagem riquíssimo (supostamente).

     E tenho de tirar o chapéu ao realizador e ao elenco, Lady Macbeth é um filme espetacular. Talvez o orçamento de apenas 500 mil libras, não permitiu ao William Oldroyd fazer uma obra mais longa ou visualmente rica. Ainda assim, a estética não foi um problema. Todos os aspetos estéticos foram dignos dos filmes britânicos sobre o século XIX. Coisas como o guarda-roupa, cenários e os pequenos objetos, mesmo não tão atentos a detalhes, são coloridos e visualmente suaves.

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     A fotografia da Ari Wegner é uma cereja no topo do bolo. Em termos de cores, lembrou-me bastante o extraordinário Ah-ga-ssi, de 2016. É uma composição fria e insípida, mas não menos incolor, há uma vivacidade nas cores primárias, sem nunca parecer um filme feliz. E isso leva-nos ao tom, o filme não é um dos mais pesados que já vi, mas tem diálogos e cenas fortes, incluindo cenas de sexo explícitas, mesmo nunca apelar ao erotismo barato. O que mais me agradou foi o humor do filme, há momentos muito engraçados. Claro que não é aquela comédia do Seth Rogen nem nada parecido, muitos desses momentos estão escondidos, mérito do guião da Alice Birch e do trabalho da atriz principal. Graças às duas, há acontecimentos que não precisam de ser dialogados, essa função passa para o público.

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     Falando nela, a Florence Pugh está sensacional! Para além de ser uma performance digna de todos os prémios, é ainda uma das interpretações mais difíceis de desmistificar deste ano. Posso até estar a contradizer o que já disse, mas a personagem é imprevisível, mesmo que o público saiba quais são as suas intenções. Os olhares de desprezo e ódio pelas pessoas são deliciosamente engraçados, há muitos momentos em que a personagem se contém para ficar séria durante uma discussão e a empatia entre ela e o público cresce instantaneamente. E mesmo perante os atos horrendos que esta comete, o público nunca deixa de sentir um investimento emocional nela. Queremos ver a protagonista a conseguir o que quer, sabendo que o que esta quer é errado. Lembrou-me bastante a Isabelle Huppert em Elle, de 2016, apesar de os níveis de maturidade das atrizes serem bastante diferentes. Mas isso não tira o mérito à Florence Pugh, é a minha performance feminina preferida do ano até aqui!

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     Quanto aos personagens secundários, há altos e baixos. A personagem mais moralmente correta é a Anna, a trabalhadora negra, interpretada pela Naomi Ackie. Ela tem pouquíssimos diálogos e é obrigada a usar apenas a expressão facial depois de um acontecimento bem específico que lhe tira a fala. Dito isso, a atriz é boa e é a única que se safa ao lado da Florence Pugh, já que toda gente some ao lado dela. Mesmo assim, a personagem é interessante e tem camadas.

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     Já o Cosmo Jarvis, mesmo tendo carisma, não recebeu um personagem muito bem escrito. Ele interpreta o Sebastian, o amante da Katherine. O que ele é supostamente capaz de fazer fica confuso. No início vemo-lo a tentar violar uma mulher em grupo, embora ele se revele incapaz de cometer atos igualmente ou mais horrendos. Visto que é um personagem importante, falta coerência.

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     A banda sonora do Dan Jones é usada em vários momentos, mas raramente é memorável.  Apenas no ato final, quando várias personagens metem as cartas na mesa e a conclusão achada é fantástica, é que a melodia se torna indispensável. O final é daqueles, é um final que fica connosco.

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     Lady Macbeth é um filme sincero no que toca à construção da sua personagem principal e aos temas centrais abordados. Como um retrato da vida de uma mulher da nobreza, funciona, como um thriller psicológico, também. Tem na sua interpretação central a sua arma mais forte e é delicado, elegante, mas simultaneamente bruto, inesperado e gratificante.

 

Nota: A

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