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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

03
Jun17

Ma vie de Courgette (A Minha Vida de Courgette, 2016) - Crítica


Francisco Quintas

    Cada vez mais aparecem filmes de animação que desafiam o estilo Pixar, a verdade é que estes cada vez são melhores, mas não têm o reconhecimento merecido. O stop-motion é um estilo pouco reconhecido, está na altura de isto mudar.

     Baseado no livro publicado em 2002, Autobiographie d'une Courgette, de Gilles Paris, que co-escreveu o guião, o filme conta a história de Courgette que, depois de perder a mãe, é enviado para um orfanato. Assim que faz novas amizades, começa a aprender o significado de confiança e amor verdadeiro.

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    O filme é co-escrito e realizado por Claude Barras, que já fez dezenas de curtas e cuja especialidade é stop-motion, mas este é apenas o sua primeira longa-metragem. Vai definitivamente para o meu caderninho. Eu adorei a sua perspicácia, é um trabalho muito preciso e cuidado, a animação é uma das melhores do género que já vi. O realizador cria também atalhos para escapar às convenções do género, houve muitas cenas que dão a entender que o filme ia por um certo caminho, mesmo nós mais ou menos sabermos onde a história vai acabar. Ou seja, eu sabia por onde a trama ia, mas não sabia como. Mindblowned! Caroline e Kubo and the Two Strings podem ter histórias mais elaboradas e precisaram de mais CGI, mas Ma vie de Courgette consegue estar ao mesmo nível, devido à sua simplicidade. Aliás simplicidade é o que define o filme. As cores, os efeitos sonoros e claro, a criação do mundo e dos personagens. Todos os elementos são trabalhados com imensos detalhes e, por estranho que possa parecer, eles são críveis dentro daquele universo. Destaque para os olhos dos personagens, que são lindamente expressivos.

     A banda sonora é um show à parte, para além de ser suavíssima, consegue ao mesmo tempo destacar o peso de algumas cenas. Mas é tudo muito harmonioso e simples. Aliás a primeira cena deste filme ficou me marcada na cabeça e eu não a vou esquecer tão cedo. Nesta crítica parece até que me estou a contradizer, ora digo que a simplicidade é linda, mas depois digo que o filme é cheio de detalhes complexos, pois a verdade é que, mesmo com algumas comparações, Ma vie de Courgette é diferente de tudo o que vi em 2016.

      Agora falando dos personagens. Uau! Temos no Courgette um dos meninos mais doces, inocentes e genuinamente bons que o cinema contemporâneo já ofereceu. O Gaspard Schlatter fez um trabalho sensacional, um dos melhores trabalhos de voz do ano. Ele passa perfeitamente o drama que um orfão constantemente sente por não saber absolutamente nada. Ele quer voltar para a mãe, mas não compreende que ela já não cá está, é gozado no orfanato e não se consegue expressar.

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     E por falar em ser gozado, o Paulin Jaccoud não ficou muito atrás. À partida, o Simon parece um personagem previsível, o típico bully humilhado pela sua vida e que chateia toda a gente, mas que acabará por se arrepender do que faz. Felizmente não é isso que acontece aqui. O Courgette e ele lá vão tendo as suas brigas, conseguem se entender, mas a amizade deles nunca fica óbvia. Os diálogos são muito verdadeiros. Um é tímido, o outro é sabichão, resulta perfeitamente.

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    O Michel Vuillermoz interpreta o Raymond, um polícia que fica encarregue de tomar conta do Courgette. Na verdade, o personagem lembrou-me muito o David Oyelowo em Queen of Katwe. É um homem que logo deixa a impressão de que tem alguma coisa na sua vida que o afeta todos os dias e que procura uma solução para a sua solidão, sem nunca deixar isso óbvio. Assim que ele aparece, entra de imediato uma onda calorosa de doçura e carinho que não se vê regularmente no cinema de hoje.

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     E a Sixtine Murat fazendo a Camille, juntamente com todos os atores que formam o grupo de órfãos, completa o filme com chave de ouro. Para além de ser outro excelente contraste para o Courgette, ela é brincalhona, chica-esperta, alegre, mas também leva a crer que precisa da ajuda dos amigos, devido à sua situação.

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     Agora fiquei triste quando percebi esta viagem apenas teria 66 minutos, o filme é curto demais. Na verdade, não há buracos na história, todas as cenas são bem organizadas e a edição é boa, ela corta nos momentos precisos e não dá informação desnecessária. Agora eu estava a gostar tanto que acho que via na boa mais uns 20 a 30 minutos dos órfãos a brincarem ou apenas a conversarem,1 hora é muito pouco e passou demasiado rápido.

     Por outro lado, o que o filme faz muito é não se focar sem propósito em personagens secundários. Todo o grupo é bem estabelecido assim como as suas personalidades, os seus hábitos e os seus defeitos. Mas houve uma cena em que um determinado órfão recebe demasiada atenção e foi estranho. A cena era bem alegre e engraçada como todo o filme é, mas do nada a cena vira bastante dramática e, no fundo, nada do que foi dito foi relevante para o progresso da história, felizmente esse momento não se prolongou muito.

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     Ma vie de Courgette não é um filme convencional, mesmo sendo quase perfeito nem todos gostam do estilo de stop-motion. Mas se recusarem assisti-lo, arriscam-se a perder uma das obras mais comoventes sobre amor, amizade e infância de 2016. É uma viagem doce, alegre, engraçada, envolvente, mas que nunca se esquece das tristezas nas vidas do órfãos. Merece ser visto por toda a gente … toda a gente!

 

Nota: A-

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