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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

14
Jun17

Malapata (2017) - Crítica


Francisco Quintas

    O cinema nacional é inconsistente. Este ano, São Jorge superou todas as minhas expectativas, mas Jacinta apenas suportou a minha ideia de que é quase impossível afastar o formato das novelas do cinema. Comédias é o forte de Portugal, ou se calhar talvez não.

     Depois de ganhar a lotaria, dois colegas de trabalho têm o pior dia das suas vidas assim que se envolvem numa data de acontecimentos inesperados e lamentáveis.

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   O filme é escrito e realizado pelo Diogo Morgado, que apenas fez algumas curtas e é hoje conhecido internacionalmente por ter interpretado Jesus Cristo nas produções americanas The Bible e Son of God. Como ator, ele é muito bom. Como realizador, nem tanto. Nota-se que, mesmo com a sua filmografia, ainda tem muito a amadurecer como realizador. Rapidamente mostra as suas limitações tanto a criar uma história como a desenvolvê-la. Ele trabalha bem com uma câmara na mão e consegue criar um leve movimento sem cair no exagero de nunca parar quieto. Agora ele abusa das tomadas aéreas, eu percebo que todo o Algarve é um autêntico paraíso, mas chegava apenas uma montagem dessas, não cinco (pelo menos as que eu contei). Chega a parecer uma novela, a narrativa começa a ficar pobre porque o Diogo Morgado não acha outra maneira de passar da cena A para a cena B. Ao contrário de Patriots Day, por exemplo, a cidade não é a personagem principal. Pelo menos a fotografia ligeiramente alaranjada consegue captar as lindíssimas paisagens vivas e calorosas do Algarve.

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    A banda sonora é outro ponto fraco. Embora que haja uma boa música da Ana Malhoa, o resto resume-se a músicas tristes ou enérgicas, dependendo da situação. E isto leva-nos a outro ponto. O filme é uma comédia, o seu objetivo é fazer rir. Claro que o drama não é algo dispensável, mas há aqui cenas e conversas entre os dois protagonistas que são apenas ridículas, fazem rir quando é suposto nos comoverem, quem vir o filme perceberá.

     E isso desta vez, leva-nos ao guião que, mesmo não sendo mau, tem mais baixos do que propriamente altos. O filme é engraçado, o seu conceito geral é interessante, mas todo o potencial que podia originar uma das melhores comédias do ano, ainda por cima com dois dos grandes atores/humoristas portugueses da atualidade, mas tudo o que podia se fazer é ignorado e a partir do segundo ato o filme começa a cair em clichê atrás de clichê, lembrando os maus anos da trilogia Hangover, só que desta vez num diferente contexto. Os diálogos expositivos começam a aparecer, entram flashbacks desnecessários e a história, mesmo tomando um rumo inesperado e interessante, tem um twist que parece pertencer a outro filme. Resume-se à participação especial do Luís de Matos, uma aparição carismática e intrigante, embora que, no mínimo, esquisita. Eu adoro humor non-sense, mas o que aconteceu aqui nem comédia foi. Os escritores nem se deram ao trabalho de confiar no público para criar uma linha de pensamento e usar a lógica para descobrir a verdades sobre o mistério que se instala. Pegaram no Marco Horácio e fizeram-no dizer tudo aquilo que o espectador precisava de saber quando o personagem não devia saber o que se estava a passar, foi um dos piores momentos de exposição que vi na vida.

     E como em todo o guião fraco, há coincidências, acasos inacreditáveis, momentos convenientes e, claro, um final “feliz”.

    Felizmente o elenco, tanto o secundário como o principal, salva o filme de ser um fracasso. A química do duo principal é inegavelmente hilariante. O choque de personalidades, a discussão dos ideais e os desejos de cada um são palpáveis. E o mais importante é que todos as ações que eles tomam parecem reais, nesse casso os atores e o guião funcionam bem juntos. Todos nós nos podemos identificar, já todos imaginámos o que gostávamos de fazer se ganhássemos o Euromilhões.

     O Marco Horácio faz muito bem aquele papel do crominho incompreendido que apenas gostava que os seus dias fossem mais alegres e menos solitários. A crush que ele tem pela Luciana Abreu e o seu medo de se meter em problemas maiores são chaves muito engraçadas para cenas brilhantemente representadas.

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     O Rui Unas é charme, carisma e presença no seu máximo. O ator é um pouco como o Galo de Barcelos, não é? É um símbolo nacional! A verdade é que o seu personagem chega a lembrar um pouco o Tomané, na sua última novela. Ele é sabichão, precipitado, acelerado e é quem tem uma maior sede por dinheiro. Para mim foi o personagem mais divertido. Trabalhar com o Rui Unas é um sonho antigo.

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     O humor do Manuel Marques é impagável, é o ator que provavelmente melhor imita o sotaque algarvio por esse ecrã fora, além de a sua figura baixinha ser um extra alívio cómico mais que funcional.

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    O Diogo Morgado vinga-se na interpretação ao contrário do seu trabalho como realizador, ele é um homem misterioso, mas tem a sua elegância e um pouco de imponência.

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   O resto do elenco é esforçado e até foi bem escolhido, destaque também para as pequenas aparições de celebridades, que são igualmente divertidas. A Luciana Abreu mesmo não tendo muita personalidade ou camadas, está minimamente bem e pelo menos não incomoda. E o Mário Bomba teve uma curta aparição que eu gostei.

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     Malapata tem o seu valor de entretenimento, começa muito bem e tem dois protagonistas fortes. Mas não resiste a ir no caminho do previsível, formulaico e desinteressante, para além de desperdiçar aquela que podia ser uma grande comédia.

 

Nota: D+