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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

05
Jun17

Miss Sloane (Uma Mulher de Armas, 2016) - Crítica


Francisco Quintas

     De vez em quando conseguem aparecer filmes que simultaneamente exaltam o sistema político americano enquanto o criticam. Eu não teria imaginado o John Madden para este filme, mas tudo bem, vamos ver como ficou o resultado final.

    Jessica Chastain é Elizabeth Sloane, uma lobista do ramo de negócio das armas que se move pelo desejo de ganhar a qualquer custo. Perante a coreografia da "lobista" profissional face a diversos grupos de pressão, esta vai desfilando a realidade menos aparente do Congresso dos Estados Unidos.

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     O filme é realizado pelo John Madden, conhecido nos anos 90 por fazer Mrs. Brown e Shakespeare in Love. Não é um dos grandes, mas também não se pode considerá-lo como um mau realizador. O que ele faz aqui não difere muito do esperado. É um drama político sobre a natureza da política nos Estados Unidos e, essencialmente, do lobbying, eu estava dentro, é um tema que me interessa. Agora eu não sou capaz de identificar o estilo do John Madden de imediato, ele pega muita coisa emprestada do Oliver Stone, sem parecer uma autêntica cópia, mesmo tendo uma estrutura narrativa de 3 atos semelhante à do filme Snowden de 2016. Mas isso não quer dizer que ele fez um mau trabalho. Embora que o ritmo seja por vezes inconsistente (o mesmo problema do Snowden), os personagens e as revelações mantêm o interesse ativo, o filme nunca perde tempo, não há momentos arrastados. Agora no que toca ao ritmo, ele é mesmo irregular, umas vezes há diálogos com longos takes muito bem feitos e frenéticos, mas de seguida há conversas à mesa que não tem a mesma agilidade. Algo que o John Madden devia aprender com o Danny Boyle era precisamente equilibrar diálogos agressivos seguidos de cenas mais calmas, uma coisa que este conseguiu fazer muito bem no filme Steve Jobs de 2015, que é bem consistente pois não tem músicas inspiradoras demais. E isso é outra coisa, há cenas de tribunal e de debates que são muito bem escritos, mas o realizador optou por pôr uma música demasiado alta que para mim, tirou parte da seriedade do que foi dito, algumas delas teriam funcionado melhor se fossem mais secas e duras, ou seja, retirar qualquer tema da banda sonora nesse momento.

     Felizmente os diálogos e as fortes interpretações salvam o filme, não há nenhuma performance má e todos os personagens são aproveitados de maneira inteligente. A Jessica Chastain é a melhor coisa do filme inteiro e o seu enorme talento tem uma capacidade impressionante de elevar qualquer material, a grande razão de eu ter gostado do filme foi ela mesmo. Ela é calculista, perspicaz, solitária, teimosa, sedutora e até um pouco precipitada. A personagem personifica perfeitamente o conceito da política de se ter de fazer o que for preciso para se ganhar. É essa a essência de lutas políticas e a atriz transmite uma liderança e uma admiração enorme. Ela está super à vontade e foi uma excelente escolha para o papel.

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     O Mark Strong transmite carisma e uma igual liderança e inspiração, mas era o único personagem secundário que eu desejava que tivesse um desenvolvimento mais pessoal, desta maneira o conflito entre ele e a Sloane podia ser mais melhor.

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     O resto das performances são todas sólidas e cheias de presença: Allison Pill, Gugu Mbatha-Raw, Jake Lacy, Chuck Shamata e Sam Waterson. Todo o grupo que envolve a campanha da Sloane é bom, todos eles interpretam o texto muito bem e têm química entre si. Mas um pequeno destaque para o Michael Stuhlbarg e para o John Lithgow, que transmitem um real senso de raiva, frustração e imponência.

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     Eu sei que falei mal da banda sonora ainda agora. De vez em quando, ela entra quando não precisava, mas nas cenas em que mais é indispensável, ela é boa. Há uma onda de medo, insegurança, desconfiança e tensão que está presente no ar em quase todo o filme. Isso devido mais uma vez à Jessica Chastain que casa lindamente com o tema principal do Max Richter e com o guião do Jonathan Perera.

   A fotografia do Sebastian Blenkov, que fez a cinematografia do Adam’s Apples de 2005, mais uma vez complementa-se perfeitamente com o guarda-roupa e com os cenários, todos representantes de um glamour e uma luxúria, porém também um clima de agitação e medo dos movimentos do adversário.

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     O primeiro ato é definitivamente o mais fraco, sem querer dizer que é necessariamente mau. O segundo é sem dúvida o melhor, surgem informações e revelações, há pequenos bons twists e há novos arcos que, gratificantemente, não são arrastados. Essa é provavelmente a maior virtude de todo o filme, ele não perde o foco. E o terceiro é uma boa conclusão, porém tem um pequeno deslize. O plot twist do final envolve uma cena de tribunal e o problema foi o envolvimento de uma determinada personagem e o arco dela foi terminado não de forma abrupta, mas de forma uma pouco sentimentalista, manipulativa e pirosa. Basicamente há uma montagem em câmara lenta em que o público revisita os seus momentos, mas nenhuma daquelas imagens era necessária, bastava a personagem tomar a atitude que tomou e sair de cena, sem excessos.

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     Miss Sloane não é o melhor drama político da década, mas é razoavelmente bom. É interessante, informativo e frenético e tem na interpretação da Jessica Chastain o seu ponto mais forte e atrativo. Alguns aspetos que envolvem o guião e o ritmo podiam ter melhores, mas no fim, o filme é bem feito e uma tarde bem passada.

 

Nota: B

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