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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

01
Out17

Mother! (Mãe!, 2017) - Crítica


Francisco Quintas

     Desde que Mother! estreou no mundo inteiro, as críticas surgiram de todos os lados e uma onde de desprezo pelo filme apareceu. Eu entendo que não seja para toda a gente, mas IMDB e Rotten Tomatoes, este filme não merecia ratings tão baixos.

     Depois de algum tempo a viver numa casa isolada na floresta, um casal recebe inúmeras e inesperadas visitas de estranhos. Tais visitas iniciam uma série de fenómenos surreais e indesejados.

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     O filme foi escrito e realizado pelo Darren Aronofsky, um dos homens que mais exerce a sua profissão de forma autoral, conseguindo desenvolver histórias espetaculares e controversas. Os seus filmes mexem com religião, existencialismo, paranoia e o sofrimento humano, gerando discussões polémicas e ofensivas para alguns. Por exemplo, o seu último filme – Noah, de 2014 – foi catastroficamente recebido pelos islâmicos e até banido em vários países. Mas aquilo que torna um filme controverso é também aquilo que o torna bom (na maioria dos casos).

     Mais uma vez, o realizador organiza perfeitamente o storyboard e o trabalho de câmara e dos planos é ótimo. Há um número interminável de close-ups na cara da Jennifer Lawrence e raríssimos planos gerais. Aquela mulher e aquela casa são exploradas ao detalhe, enquanto não há quase composições abertas. É um filme claustrofóbico e sufocante, mas funciona lindamente, pelo menos há momentos engraçados na dose certa para suavizar um pouco as cenas mais sombrias e violentas.

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     Mother! não agradará a todos por várias razões. O filme é complexamente alegórico e lida com questões delicadas e temas muitas vezes facilmente ofensivos, não queira isto dizer que a abordagem seja má. Depois de muita reflexão, percebemos que não há uma interpretação certa do filme. Aliás, como é de esperar, há aquela interpretação com que, em princípio, quase toda a gente vai concordar porque é um pensamento bastante bem fundamentado. Por outro lado, o filme argumenta outras discussões e fundamenta facilmente outros temas, o que é sempre bom.

     Fora desse contexto, o filme é espetacular em praticamente todos os aspetos. Durante maior parte do tempo, a fotografia é incolor, os tons da casa são aquilo que se pode esperar, mas à medida que o filme fica cada vez mais assustador, o seu visual torna-se mais vivo e consequentemente agressivo. E todo o desconforto que surge durante o processo é complementado pelos excelentes efeitos sonoros. Aquela casa tem vida, ela assusta.

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     No entanto, o uso da banda sonora deixa um pouco a desejar. Não é que seja má, a música é boa, é arrepiante, mas os jumpscares são problemáticos. Aliás, houve pouquíssimos jumpscares. Alguns funcionam, já outros são desajudados pela previsibilidade que a banda sonora provoca. Consiste também numa edição repentina e um freeze total da música. O Darren Aronofsky já conseguiu melhor.

     A Jennifer Lawrence volta a surpreender. O filme prefere sempre acompanhar o ponto de vista dela, ao invés do dos outros personagens. É uma interpretação que funciona perfeitamente dentro da sua dinâmica com o público. A empatia surge instantaneamente e, depois de muito tempo a observar a sua inocência a ser destruída, é muito satisfatório quando a personagem finalmente se revolta com tudo o que acontece ao seu redor, isto se tomarmos em consideração as suas iniciais calma e doçura.

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     O Javier Bardem cumpre perfeitamente o seu papel. Ele consegue transmitir uma presença amigável e inofensiva, porém despreocupada pela mulher, demonstrando um certo desprezo e, de uma maneira, um amor não correspondido.

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     O Ed Harris, dentro daquilo que o seu personagem oferece, está ótimo. A partir do momento em que aparece surge uma onda de desorientação e um perigoso desconhecimento que permanece no filme o tempo inteiro.

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     A Michelle Pfeiffer mostra outra vez o porquê de ela ser a Michelle Pfeiffer. Ela está fantástica ao interpretar uma mulher sinistramente sedutora, insolente, arrogante e muito persuasiva e manipuladora.

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     Claro, o elenco não fica por aqui, mas é preferível não saber quem mais está incluído, por causa do fator surpresa. São personagens quase recicláveis, que podiam ser interpretados por quaisquer atores. O gosto está no facto de nunca termos esperado ver determinados atores em filmes do Darren Aronofsky.

     A estrutura de 3 atos é muito bem organizada. Cada ato é gradualmente mais informativo e consequentemente mais inquietante e perturbador devido aos mini-twists. Em 2017, nunca um filme mexeu tanto comigo a um nível sobrenatural ou espiritual. Eu não consigo pensar em muitos filmes como este.

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     Mother! certamente não é para toda a gente. Alguns adorarão e outros odiarão. Mas independentemente do gosto de cada um, é importante que este filme seja visto pelo menos 1 vez, já que o realizador tinha muita coisa a dizer. É uma das melhores e mais ricas experiências cinematográficas do ano!

 

Nota: A

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