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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

13
Jun17

Neruda (2016) - Crítica


Francisco Quintas

    2016 foi um dos anos mais virtuosos para o cinema estrangeiro contemporâneo, provou-se extremamente essencial para a cada vez maior atenção que filmes como este devem receber. Chega de Hollywood, filmes estrangeiros é o que está a dar.

    Trata-se de um filme franco-chileno que acompanha o inspetor Óscar Pelochonneau, que perseguiu Pablo Neruda, o poeta chileno vencedor de um prémio Nobel, que se torna fugitivo nos anos 40 por se juntar ao Partido Comunista.

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    O filme é realizado pelo chileno Pablo Larraín, que fez Jackie também de 2016. Parece que ele tem vontade e um jeito enorme em contar histórias biográficas e que o seu talento o irá levar para o eventual e inevitável mercado de Hollywood cada vez mais depressa. Contudo, ao contrário de Jackie, esta é uma história que (provavelmente) lhe diz muito mais. Quem melhor que um chileno para contar uma história sobre um dos maiores poetas chilenos no Mundo que, por acaso, foi também um dos maiores fugitivos comunistas no século XX. E mais uma vez, ao contrário de Jackie, Neruda é bem superior, digamos em maior parte dos aspetos. O realizador abusa (no bom sentido) de planos sequência deliciosamente lentos e bem trabalhos. É um trabalho de câmara extremamente subtil e paciente, eu jamais estive com pressa que a história avançasse, todo o processo que me levou até ao fim foi uma das coisas mais bonitas e agradáveis que eu vi num filme de 2016.

    Claro que não se pode dizer o mesmo das interpretações, em termos de estudo de personagem, Jackie é muito mais rico, nenhum dos atores principais está ao nível da Natalie Portman. Mas claro, isso não quer dizer que que eles não se entregaram aos seus papéis. Na verdade, não me posso alongar muito pois não sou um grande conhecedor da vida profissional ou pessoal do Pablo Neruda, mas fiquei satisfeito pela informação que obtive em apenas 1 hora e cinquenta.

    O Luis Gnecco convence perfeitamente como o poeta chileno: a fisicalidade, a aparência e a sua postura enquanto poeta, o sentimento que transmite ao apenas recitar um poema da sua autoria. Parecia que estava a assistir a um documentário. Ele é apaixonado, irónico, apressado e teimoso, ele é muito teimoso. Não chega a ser uma performance biográfica absolutamente excecional, mas ele convenceu-me quase de imediato.

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    O Gael García Bernal foi o que me chamou mais à atenção. Para além de ser o narrador, e um excelente narrador, ele é a alma do filme. Sem uma performance semelhante, o filme provavelmente fracassaria. É com ele que conhecemos o lado mais humano e realista do Pablo Neruda e assim fica uma vontade de, ao mesmo tempo, de o ver capturado, mas também de torcer pela sua liberdade e pela sua vitória. E independentemente das ideologias políticas de cada um, é difícil ficar 100% contra ele. Talvez por a história ser contada do ponto de vista do inspetor ajudou a desenvolver algo que foi para além daquilo que o filme se propunha fazer, é aí que entram as questões mais existenciais e filosóficas. Foi uma aula e das grandes!

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    Não há grande coisa a falar do resto do elenco, não há nenhuma interpretação que incomode ou que estorve nem seja desnecessária, toda a gente está esforçada e a cumprir o seu dever, rapidamente fica claro que todos os atores ficam na sombra dos dois protagonistas. Porém, todos os aspetos técnicos são shows à parte. Comecemos pela banda sonora … Uau! Eu até pensei que tinha sido a Mica Levi, a mesma que compôs os temas de Jackie. Mas não, o maestro da vez foi Frederico Jusid, que já tinha feito um ótimo trabalho em El secreto de sus ojos de 2009. Eu quero mais bandas sonoras desse homem. Todos os temas são arrepiantes e tensos, mas ao mesmo tempo poéticos, suaves e líricos. Como é possível que o senhor não tenha sido nomeado nos Óscares?

    E ainda temos a cereja no bolo em forma da estonteante fotografia do Sergio Armstrong. Destaques para os shots nas cenas noturnas e no ato final onde praticamente toda a ação decorre na neve, focando principalmente nos tons de branco, roxo e azul cinza. Como é possível um filme ser tão belo? Parecia um quadro em movimento. Mas o mesmo não se pode dizer de alguns planos também no ato final, quando há personagens a andar de carro ou de scooter, em que o green screen fica muito, mas muito visível e mal feito, parece coisa do Capitão Falcão, e isso não é um elogio, o Capitão Falcão, mesmo não sendo a comédia portuguesa definitiva, não tem problemas em não se levar a sério.

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    Como todo o filme biográfico, Neruda também toma algumas liberdades, que não é sequer algo mau, por vezes pode ser bem benéfico mudar a ordem dos acontecimentos ou acrescentar algumas situações para se contar a história mais energeticamente. Aliás, energia é um dos pontos fortes desta obra. A edição chegou-me a lembrar Spotlight de 2015, no que diz respeito à precisão da montagem, quando se quer passar rapidamente de uma cena para outra. Neruda é tudo menos arrastado, não perde tempo nem enche chouriça. Mas é verdade que algumas mini escapatórias do Pablo Neruda aqui são um pouco surreais, algumas chegam a parecer coisa do James Bond ou do Inspetor Gadget. Eu percebo que alguns segundos já foram significativos para alterar o rumo da História, mas pequenas coisas e atalhos não são justificáveis.

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    Neruda é, para além de um ótimo estudo sobre a política daquela época na América Latina, é também um belo retrato da vida e dos pensamentos ambíguos dos dois protagonistas. Ganha bastante impacto ao humanizar a sua figura central, ao invés de a exaltar. Cria um conflito de consciência quase instantâneo e obriga o público a pensar. É um filme poético, tenso, honesto e cínico ao mesmo tempo.

 

Nota: A-