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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

21
Set17

Okja (2017) - Crítica


Francisco Quintas

     Quando o Gangnam Style saiu, em 2012, lembro-me de ver o Obama a afirmar que a América e o mundo inteiro só tinham a ganhar ao se familiarizar com a cultura sul-coreana. Verdade seja dita, o cinema é um bom exemplo!

     Mija, uma pequena aldeã sul-coreana que toda a vida viveu com uma superporca chamada Okja, vê-se obrigada a sair do seu país e ir para New York para salvar a amiga de uma organização multinacional, enquanto é involuntariamente envolvida numa missão de um grupo ativista.

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     O filme foi escrito e realizado pelo Joon-ho Bong, que fez o ótimo Snowpiercer, de 2013. Como acontece com maior parte dos bons filmes originais da Netflix, este consegue ser simultaneamente satírico, relevante e tocante. Okja aborda um tema pouco explorado no cinema atual: a industrialização moderna americana, a sua falsa propaganda envolvendo a Natureza e os perigos que esta implica. Nesse aspeto, o filme é bastante realista e consequentemente muito preocupante, chocante e revoltante.

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     Claro que não há apenas esse comentário a oferecer. No meio de todo o ótimo comentário social e político, está uma belíssima amizade com momentos genuinamente comoventes. A Seo-hyun Ahn dá uma performance muito verdadeira, a jovem atriz faz um ótimo trabalho ao desenvolver uma criança resmungona e determinada, mas amedrontada com um mundo que não conhece.

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     A Okja é uma personagem linda. Para além de ter uma fisicalidade impressionante e uns olhos adoráveis, é um animal bastante inteligente e, graças ao seu sentido apurador de um perigo próximo, várias situações tornam-se mais aflitivas. Para além disso, o CGI do animal (assim como o geral) é praticamente irreconhecível. Este é o maior elogio que se pode dar. Mesmo sabendo que este animal não existe, torna-se credível a cada segundo.

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     O Hee-bong Byun, senão empurra a história para a frente, está bem como um avô inocente e meigo que apenas quer a segurança da neta enquanto carrega a enorme responsabilidade de tomar conta dela e protegê-la.

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     A fotografia do Darius Khondji, que trabalhou em Se7en, do David Fincher, é mais que memorável. É verdade que o contraste visual frequentemente visto entre uma aldeia sossegada e uma superpotência mundial capitalista não é algo novo. Mas verdade é que tal contraste é bem feito. Enquanto, no primeiro ato, a aldeia exibe cores vivas e alegres, a cidade de New York representa uma sociedade mais distante e fria.

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     Falando no resto das interpretações, a Tilda Swinton roubou todas as suas cenas. Há uma sociopatia ligeira no seu carismático e divertido discurso, mesmo que o público consiga manter uma distância entre si e ela, já que as suas ações são mais que odiáveis, narcisistas e egoístas. Ao contrário de outras atrizes, ela é ótima a encarnar personagens distintas de uma maneira imediata e abrupta, apenas vejam o filme e vão perceber do que falo. Discutivelmente, a melhor performance do filme.

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     Eu tive bastantes dúvidas sobre o Jake Gyllenhaal. É uma performance minimamente carismática e o personagem não deixa de ser divertido. Mas houve momentos incómodos, exagerados e afetados. Se o personagem que vemos fosse apenas a persona pública do próprio personagem, o ator teria dado uma interpretação mais credível. Custa-me até a dizer isto, ele é um dos meus atores preferidos.

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     O Paul Dano está a criar uma carreira invejável. É simultaneamente um dos atores mais subvalorizados dos dias de hoje enquanto dá excelentes performances uma atrás da outra. Acredito que um dia ainda ganhe um Óscar. Este papel, na verdade, não vai além dos seus em There Will Be Blood ou em Swiss Army Man, mas é um personagem misterioso, com segundas intenções, passivo-agressivo, que funciona lindamente com o charme do ator.

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     E um pequeno destaque os A.L.F., a organização de ativistas. O elenco funciona e convence como um grupo, as interações e provocações entre os membros são divertidas e igualmente interessantes. Apesar disso, a sua cena de introdução envolveu exposição demais, há informação à qual o público já havia alcançado anteriormente.

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     Porém, não se vê grande utilidade no personagem do Giancarlo Espocito. O ator é um monstro da televisão americana, mas incluí-lo foi uma má decisão. Eu vi um Gustavo Fring ainda mais suave e, apesar da sua enorme capacidade de ter presença em cena, nota-se uma ligeira desorientação.

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     A banda sonora trata-se do debut da Jemma Burns e do Jaeil Jung. Fiquei até na dúvida se não era o Gustavo Santaolalla, o compositor da melodia espetacular de Brokeback Mountain, devido ao tom bastante parecido. Parece que não, o trabalho dos novos compositores, apesar de pegar algumas coisas emprestadas não deixa de ser agradável e melodioso. Destaque para a escolha de músicas alegres usadas em sequências de fuga. Há um tom meio slapstick nas cenas mais frenéticas que acaba por ser positivamente tolo, mas uma tolice que funciona.

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     Ainda com alguns erros envolvendo personagens e o guião, Okja é uma obra linda, comovente, relevante e com um forte comentário a fazer sobre o consumo e os maus tratos a animais.

 

Nota: B+

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