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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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12
Mai17

Other People (2016) - Crítica


Francisco Quintas

     Depois de filmes como Ah-ga-ssi e Toni Erdmann, Other People era exatamente aquilo que eu precisava. Nada melhor que um mix de leveza e drama!

     David é um jovem guionista gay que volta à sua cidade natal em Sacramento, uma zona pacata na Califórnia, para se reencontrar com a família e amigos e para começar a cuidar da mãe Joanne, que está a morrer de cancro.

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     O filme é o debut escrito e realizado pelo Chris Kelly, que já escreveu muita coisa boa para o Saturday Night Live. Nota-se muito bem o talento e a vontade dele de escrever diálogos e momentos engraçados, mas ao mesmo tempo ele acha um equilíbrio praticamente perfeito que ajuda a, simultaneamente, a separar e a misturar drama com comédia. O controlo que ele tem sobre o material é muito impressionante! Os diálogos ao mesmo tempo que são banais, são interpretados de maneira excelente pelo elenco e conseguem meter humor em cenas dramáticas e o oposto sem nunca ficar forçado, coisa que comédias dramáticas correm sempre o risco de conter. Quanto ao movimento de câmara e aos planos, ele também se safa muito bem. Recorre muito aos planos estáticos e à câmara na mão e faz tudo com um cuidado muito subtil, reforçando a ideia de rotina e de cansaço existente naquela família devido ao cancro da mãe. A edição é um bom auxílio, uma vez que é tomada a decisão de meter a mãe e o filho a andarem por um parque diariamente em alturas diferentes do ano, o que mostra o estado (evolução e queda) da Joanne.

     E tudo é realçado pela linda fotografia que funciona no seu melhor nas cenas aéreas, há paisagens lindíssimas e apaixonantes e, ao mesmo tempo, uma simplicidade muito acolhedora. Conclui-se desta maneira que o filme tecnicamente é simples, objetivo e mais que eficiente. Mas quando entramos nos temas que o filme aborda, entramos numa montanha russa de emoções que vão abalar o seu público. O Chris Kelly confirma que maior parte dos acontecimentos são inspirados na sua família, e nota-se que muitos momentos são naturais demais até para estarem num filme, isto dito no bom sentido, há cenas muito genuínas e realista, coisas que não parecem que foram escritas por um guionista.

     E o elenco está muito esforçado, diria até que eles estavam numa missão quando lhe deram os seus papéis. O Jesse Plemons é disparado a melhor peça do elenco no filme inteiro. Eu não esperava ver o rato do Black Mass tão bem num drama familiar. Toda a tristeza, cansaço, desilusão, timidez, vulnerabilidade e doçura são transmitidos de maneira excelente. E mesmo com apenas alguns momentos mais dramáticos, o ator nunca se esquece da sua situação, mesmo em cenas cómicas vemos a carga que ele carrega aos ombros. Vou ficar de olho no ator.

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     A Molly Shannon é outra que engole o resto do elenco no filme. Mesmo aparecendo menos que o Jesse Plemons, ela consegue acompanhar a presença dele e ela tem cenas que vão conseguir emocionar quem a vê. O amor que ela sente pelos filhos é muito verdadeiro, a sua vivacidade e alegria vão morrendo com ela e eu apenas queria vê-la a recuperar e a ganhar força, mesmo sabendo que eventualmente ela morrerá.

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     O Bradley Whitford está bem mais uma vez e desta vez injeta ambos uma onda de confiança e carisma, mas também um pequeno ódio devido a coisas que se sabe que o personagem fez no passado.

     O problema é que o filme não aproveita as irmãs do David, interpretadas pela Maude Apatow e pela Madisen Beaty. Estas são reduzidas a apenas essa informação, não há qualquer desenvolvimento das duas para além da preocupação que ambas sentem pela mãe. Mais valia o David ter apenas uma irmã ou nenhuma. Era uma hipótese visto que o filme, tendo apenas uma hora e meia, mais ou menos, consegue ser bem organizado em termos de tempo.

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     Também temos, durante algumas cenas, o Zach Woods e o John Early, ambos muito bem, mas aqui o assunto discutido é mais importante do que as suas performances. É aqui que entra o tema da homossexualidade. Há algumas cenas em que são postas na mesa algumas perguntas relevantes e que merecem ser discutidas, mas é preciso muito cuidado para não haver exageros ou estereótipos. Todas as conversas são retratadas como coisas extremamente naturais e reais, coisa que são (como é óbvio). O filme insere-se bem na comunidade dos bares gays e das discotecas e há momentos bem interessantes que merecem ser visto. Porém, há um determinado personagem que, mesmo sendo muito simpático, é o mais esquisito e bizarro do filme. Eu sei que a homossexualidade está presente em qualquer faixa etária, mas, para além de o personagem desaparecer completamente, foi um pouco cringe e desnecessário. Mas que fique esclarecido que não tenho problemas nenhuns com o tema, mas sim com a maneira que se decidiu abordá-lo.

     Mas o ato final e o corte deste filme são perfeitos. Reflete de uma maneira muito saborosa a essência de um filme raro, simples e bonito como este. Não são todos os filmes que me comovem num nível mais pessoal.

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     Other People é um filme lindíssimo. É delicado e pesado ao mesmo tempo, engraçado, melancólico e elabora uma discussão muito comovente sobre amor, família, aceitação, desilusão, perdão e esperança.

 

Nota: A-

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