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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

15
Mai17

Paterson (2016) - Crítica


Francisco Quintas

     Seria um grande erro dispensar este filme. Embora não seja um dos mais interessantes, é um dos filmes mais “obrigatórios” de 2016. Vamos lá.

     Adam Driver é Paterson, um motorista de autocarro cujo dia se resume a trabalhar, escrever poesia e passar tempo com a namorada Laura. O filme acompanha uma semana na vida do homem, mostrando-nos a sua rotina.

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     O filme é escrito e realizado pelo Jim Jarmusch, um dos realizadores mais autorais em atividade. O que ele faz aqui é basicamente uma viagem de quase duas horas sobre o quotidiano de um ser humano de New Jersey, e que acaba por não ser para todos, pois se alguém esperar um filme com uma trama específica, esse alguém vai se dececionar. Sem querer entrar muito em comparações, até porque o este filme é diferente de todos os outros, é mais ou menos a mesma experiência que Boyhood. Aproveito para dizer que Boyhood é um dos filmes mais overrated de 2014, as enormes expectativas não compensaram e eu, de facto, esperava o melhor filme de sempre. Paterson trata dos mesmos assuntos, como rotina, as mesmas caras e locais que vemos todos os dias e pensamentos da vida em geral. Eu tinha algumas expectativas para Paterson, e desta vez, elas foram superadas.

     O filme é deliciosamente bonito, confortável, filosófico e sereno. Não houve nenhum momento em que me pareceu que o Jim Jarmusch estivesse a imitar Boyhood, levou-me a crer que se começar a ver a filmografia completa dele, iria estar prestes a ver uma das mais diversificadas que já vi.

     A fotografia ligeiramente acinzentada do filme é ao mesmo tempo poluída e colorida, o que lhe permite adaptar-se à “história” do filme sem problemas. A banda sonora não sai muito daquele piano levezinho e ainda bem, por que se o Carter Logan se tentasse exceder, seria um erro grave.

     Tudo é muito regular e consistente, tanto no tom, tanto no desenvolvimento da cidade e dos personagens e tanto na abordagem de determinados temas. Mas Paterson não se compromete e a falar de nada em específico, é o retrato de uma semana na vida daquele casal e dos seus amigos e vizinhos. É uma experiência que até permite sentir orgulho pelos personagens, uma sensação bastante estranha, mas muito interessante, uma vez que os acompanhamos no seu modo de vida mais simples.

     Desta maneira, os planos usados são praticamente sempre os mesmos, nomeadamente quando ele vai trabalhar e desce as escadas, quando está na cave a escrever poesia ou quando se senta a olhar para as cataratas do Passaic River. Se calhar mudar os planos de vez em quando à medida que a semana avançava seria mais vantajoso para o filme ter mais ritmo. Dito isto, chega-se à conclusão que o filme tem um ritmo lento, o que não é uma coisa má, eu gosto quando os filmes levam o seu tempo ao início, mas num filme em que, mesmo sendo interessante, praticamente não acontece nada, era necessária mais agilidade, e era aqui que a edição também podia ajudar com uma mudança de planos ligeiramente mais frenética.

    E como já disse, é muito saboroso acompanhar os personagens. O Adam Driver dá uma performance extremamente natural e genuína. Ele jamais parece estar a despejar texto com a atriz ou ator ao seu lado, ele está mesmo a desfrutar os pequenos momentos. Os intervalos do trabalho usados para escrever poesia, as conversas ao fim do dia com a namorada, o passeio com o cão e a noite a beber cerveja no bar. Ele encontra o equilíbrio perfeito entre vivacidade, timidez, melancolia e serenidade. É claramente a melhor interpretação da carreira dele até aqui.

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     A Golshifteh Farahani também está ótima, para além de ela e o Adam Driver terem uma química incrível, ela acha também uma maneira genial, porém subtil, para conduzir os momentos em que está sozinha. Ela é carismática, alegre, pensativa e, apesar de ser um pouco mais agitada que o Adam Driver, consegue acompanhá-lo sem problemas, ao mesmo tempo que conhecemos os seus gostos, sonhos e pensamentos.

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     O Marvin, o cão deles, também funciona como um personagem do filme. Enquanto outros filmes usariam o cão do casal apenas para gerar cenas fofinhas, este para além de o meter numa posição que o faz fazer seguir com a história, também tem os seus momentos mais ternurentos e até mais irritantes para os donos, como qualquer cão faria.

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     De resto no elenco temos Masatoshi Nagase, Sterling Jerins, que estão muito bem no pouco tempo que têm, e Barry Shabaka Henley e Rizwan Manji, os dois muito engraçados e à vontade com os seus papéis, mas o show é todo do Adam Driver e da Golshifteh Farahani. Só não gostei do William Jackson Harper, que não está necessariamente mal, mas acho que ele teve tempo demais no filme e houve uma cena qu o envolvia que caiu um bocado para a estupidez.

    Fãs de filmes sobre o dia-a-dia do ser humano vão gostar muito. Terão diálogos extremamente naturais e verdadeiros e um retrato dos nossos dias como deve ser, objetivo, filosófico e ambíguo, tal como filmes como Aquarius e Certain Women, também de 2016. Eu gostei muito. Agora, pessoal da ação e dos blockbusters que recusam outro tipo de obras, fiquem longe deste tipo de filmes não vale a pena falar mal daquilo que não percebem.

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     Paterson é um lindo retrato do quotidiano. É minimalista, poético, sereno, reservado, filosófico e, sobretudo, agradável. Não é para todos, mas quem quiser algo para relaxar e, quem sabe, refletir, este filme é a escolha certa.

 

Nota: B+