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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

14
Mai17

Patriots Day (Unidos por Boston, 2016) - Crítica


Francisco Quintas

            Chega-nos mais um filme que glorifica a coragem e o patriotismo americano de maneira que chega até a lembrar a exaltação dos feitos dos portugueses em Os Lusíadas. Ok isto é uma piada, o filme é muito mais compromissado e emocionante que isso.

            O filme recria o dia do Atentado à Maratona de Boston em 2013 e o posterior procedimento de caça ao homem que se desenvolveu nos cinco dias seguintes.

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            O filme é realizado pelo Peter Berg, alguém que ao mesmo tempo é muito bom a retratar o heroísmo americano tão projetado nos dias de hoje, tanto como parte do cinismo que o envolve, ele fez isso eficientemente em Lone Survivor e fê-lo de maneira excelente em Deepwater Horizon. Uma coisa que eu adoro nos filmes dele, é que, tanto como o Paul Greengrass, ele utiliza a câmara tremida como um recurso útil e bem aproveitado. Ao contrário do Michael Bay, ele ao mesmo tempo que consegue causar uma sensação constante de energia e agitação, nunca deixa o público ficar com tédio até mesmo em cenas que apenas envolvem burocracia. E isso deve-se sobretudo ao movimento de câmara, à edição frenética e aos diálogos, que se resumem a provocações, descobertas, injeções de energia frequentes e muita tensão. Depois de Deepwater Horizon, é um trabalho espetacular, porém inferior.

            A tensão do filme é espetacular e digna de palmas. Aconselho a quem não sabe detalhadamente o que se passou em Boston a não fazer nenhuma pesquisa, pois é provável que se surpreenda facilmente, pelo menos eu fiquei surpreendido mais do que uma. Ambas as explosões e tiroteios são recriados de maneira honesta e original, foi aí que eu notei a mão do Peter Berg. Por vezes, esqueço-me que estou um thriller dramático patriota e penso que estou a ver um simples filme de ação, e isso é bom.  Principalmente a primeira explosão, que imediatamente instala o caos e o pânico como nenhum outro filme recente. Vê-se de tudo, crianças perdidas, pernas e pés separados dos corpos, lixo espalhado, ambulâncias.

            Claro que nem tudo o que acontece pode ser necessariamente verdade, mas o Peter Berg não mudou alguns factos apenas porque lhe apeteceu. Mais do que um filme que glorifica a América, é um filme que vê a cidade como uma personagem. Boston é vista como uma entidade e os cidadãos também ajudam no processo. As pessoas envolvidas na caça ao homem estão desesperadas pela opinião pública e pelo procedimento que pode arriscadamente envolver mais cidadãos, para não falar dos constantes shots aéreos, que são absolutamente vistosos sobretudo à noite com toda aquela luz.

            A fotografia acentua principalmente em tons de azul, branco e vermelho, cores da bandeira americana, óbvio. A música mesmo não sendo memorável, funciona. E claro, há muita antecipação e momentos em que só me apetecia levantar e saltar para dentro do filme. Mas nada é perfeito, o filme sofre um problema grave. Há personagens demais.

            O realizador consegue extrair carisma de todos os polícias e vítimas e de todo o resto, o problema é que nem todos os personagens são interessantes, úteis ou memoráveis. Sim, depois daquela enorme tragédia, é fácil sentir empatia e se preocupar com toda a gente, mas nem toda a gente tem o desenvolvimento que merece. Nem todos dão alguma contribuição. O foco do Peter Berg devia ser o elenco principal e não quase totalmente os cidadãos. A sensação de liderança e amor da cidade seria passada de qualquer maneira, por isso não era preciso estar constantemente no primeiro ato só a apresentar mais pessoas.

            O Mark Wahlberg está ótimo como sempre. O ator tem um carisma quase instantâneo e transmite de maneira muito boa a sua personalidade perspicaz, agitada e preocupada pelas pessoas.

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            Atores como o John Goodman, o Kevin Bacon, a Michelle Monaghan, o Jimmy O. Yang e o J.K. Simmons estão bastante confortáveis com os seus papéis e dão performances sólidas. Apenas o Kevin Bacon e o John Goodman é que mereciam mais desenvolvimento. Mas tudo bem, eles já fizeram estes papéis antes, portanto não há nada do que reclamar sobre eles. Outra coisa é que até mesmo no sistema americano podemos ver rivalidades, algo que podia ser facilmente ignorado pelos produtores. Podemos ver os dois lados da moeda, há conflito e um stress inquietante.

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            O Alex Wolff e o Themo Melikidze estão excelentes! Cada um com uma personalidade bem caracterizada e que encaixa no contexto do filme. Um é mais calmo e infantil, o outro é sério e paranoico, há contraste, funciona. Eles têm as suas discussões, mas a irmandade entre os dois é muito forte.

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            Claro que o realizador tinha de meter na mesa algumas questões sobre o 11 de Setembro, e é aqui que entram as questões sobre o cinismo e o falso patriotismo americano. Claro que cada um tem a sua, mas o que ainda gostava que o filme tivesse feito era mais um pouco dessa discussão moral. Há uma sessão onde eu pensava que ainda ia aumentar, mas não foi levado para a frente. Compreensível, pois, o objetivo do filme não é esse, mas ficar no muro com medo não é melhor que nada.

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            Patriots Day é um ótimo retrato do patriotismo americano, do terrorismo e da coragem coletiva em alturas de crise. Prova que não é preciso esperar décadas até se fazer um filme sobre um assunto tão delicado como este. Pode ter personagens a mais e isso pode mudar constantemente o foco do filme, mas como um que se compromete a glorificar os feitos daqueles que lutaram constantemente para castigar os responsáveis por um dos atentados mais graves dos últimos anos, é uma ótima escolha para quem estiver interessado.

 

Nota: B+

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