Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

Vida de um Cinéfilo

03
Jun17

Perdidos (2017) - Crítica


Francisco Quintas

     A verdade é que maior parte dos remakes que surgem hoje são simples cash grabers e raramente são planeados para fazer alguma coisa nova com o material que têm. Vemos isto a acontecer com mais frequência em Hollywood e nem tanto na Europa nem muito menos em Portugal. Portugal apenas aderiu também a esta modinha em 2015 quando começou a fazer aqueles remakes de comédias clássicas. Será que este é uma exceção? Vamos descobrir.

    Um grupo de amigos juntam-se em Porto Santo para passar um fim-de-semana em alto-mar para recordar os velhos tempos. Porém, a viagem torna-se numa luta por sobrevivência e estes ficam encurralados no mar pois não conseguem voltar ao barco.

MV5BMjBjZGM0ZDktY2FhZC00ZmJhLWEzOWEtNTc2YzA5OGQwYW

    Trata-se de um remake de Open Water 2: Adrift produzido na Alemanha. Nunca ouvi falar dele, mas depois de alguma pesquisa apercebi-me que, pelo o que parece, também não foi muito bem-recebido. A versão portuguesa está também a ser demasiado mal criticada. Mesmo não sendo uma nova pérola do cinema nacional, eu gostei. A discussão dos remakes fica para outra altura.

     O filme é realizado pelo Sérgio Graciano, responsável por Assim Assim de 2012 e Njinga Rainha de Angola de 2013. É um realizador surpreendente, porém sem um estilo próprio, na verdade qualquer realizador conseguia fazer o que ele fez. Pelo menos aqui ele usa muitos close-ups muitos shots escuros para não mostrar demasiados detalhes ou para causar uma sensação maior de inquietação no público que funcionou muito bem. Devo dizer que esta foi uma das experiências mais aflitivas que eu tive numa sala de cinema este ano. O terror da situação é crescente, há imprevisibilidade na maior parte dos atos dos personagens e o mais importante é que todo o processo é envolvente. Eu preocupei-me pelas pessoas porque os meus próprios maiores medos estão relacionados com água, por isso foi fácil me identificar.

img_650x412$2017_04_03_22_34_17_129254.jpg

    Os diálogos são bons e bastante surpreendentes para um filme nacional, já que maior parte dos que aparecem contém exposição necessária e observações óbvias. Parece que Jacinta sofreu na pele o que é ser produzido pelos mesmo que escrevem as novelas. Apenas no início é que eles caíram um pouco para a obviedade. Não é algo assim tão grave, mas antes de certos personagens aparecem, há outros que comentam sobre a vida dos que ainda não apareceram só para o público ficar alerta, são pequenos detalhes que facilmente chegar-se-ia lá. Houve até um que me fez questionar se alguém o diria mesmo, é uma daquelas coisas que aparecem em filmes e nos fazem questionar, “Mas como é que ele tem certezas disso?”. É até um pouco risível.

    Todos os shots aéreos são lindos, maior parte do mérito vai exclusivamente para a ilha de Porto Santo que é absolutamente belíssima. Tanto a fotografia como o drone fazem o seu trabalho.

MV5BOGNkN2VjMGUtYjg5Yy00OWIxLTlhMjItMzQ5NjBkNmZiOT

    E o elenco é ótimo, diria até que funciona melhor como um todo do que propriamente que as performances individuais, porque a química entre todos é muita boa. A Dânia Neto foi a maior surpresa. Ela desenvolve uma mulher não muito incomum, mas por ser a única com um enorme pavor da água à volta dela, existe um carisma fácil que se desenvolve entre ela e o público. É muito fácil torcer por ela, mesmo sendo uma mulher constantemente amedrontada e que raramente tem coragem para tomar alguma medida. É um trabalho de atriz muito bom e gratificante! O Diogo Amaral é o mesmo caso. É ator inegavelmente carismático e o que vou dizer até pode ser tolo, mas desde Morangos com Açúcar que ele mostrou ter talento. Tal como a Dânia Neto, é muito fácil ficar do lado dele, pois é muito amigável, sossegado, mas ingénuo não.

Perdidos.jpg

     Sou suspeito por falar, uma vez que a Dalila Carmo é uma das minhas atrizes preferidas, mas ela está ótima como sempre. Tem uma enorme presença em cena, é brincalhona, irónica, provocadora e muito sorridente. Não há muitos comentários para serem feitos. Destaque também para o Afonso Pimentel, ele está bem passivo-agressivo aqui. Ele sorri, tem dinheiro e tem cerveja para os amigos, mas por debaixo da máscara está um homem arrogante, cobarde e odiável, é até um pouco previsível, mas bem feito. De resto temos Lourenço Ortigão e Catarina Gouveia, ambos muito bem e com o desenvolvimento bem feito, mas o show foi todo dos primeiros atores que falei.

2017-03-22-h264_thumb3_sec_63.jpeg

    Agora como outro filme qualquer de sobrevivência há momentos em a lógica é completamente abandonada. Momentos ridículos e hilariantes na verdade. Não forma assim tão graves pois não resultaram em nada na história, ou seja, foram medidas que os personagens usaram para se tentar salvar, mas que abaram por não resultar em nada, por isso, eu desculpo. Revelá-los incluiria spoilers, mas digo que são momentos que nos faz pensar “Como é que isto é possível?”. Tanto pode ser resultante do mau trabalho do realizador como do editor, mas de qualquer maneira são coisas que jamais aconteceriam na “vida real”.

     Se excluirmos momentos desses, Perdidos é um ótimo thriller de sobrevivência. O filme conseguiu aproveitar o bom material que a “versão original” tinha e que desaproveitou. Tem algumas coisas que com um arranje ou outro, consertariam o filme totalmente, mas a sua função era inquietar e entristecer o público, e essa missão foi cumprida. Não é tão mau como dizem e até pode não ser tão poderoso quanto São Jorge deste ano, nem como outros thrillers do mesmo subgénero tipo 127 Hours de 2010, mas é muito melhor do que aquilo que eu estava à espera.

 

Nota: B

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D