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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

13
Jul17

Prevenge (2017) - Crítica


Francisco Quintas

     Esta semana vi os filmes Wilson e The Space Between Us. Estava indeciso sobre qual crítica faria. Decidi então ver mais um que me foi recomendado para desempatar. Parece que vou deixar os filmes maus de lado e falar de um bom.

    Uma viúva grávida de 7 meses chamada Ruth começa a desenvolver uma forma de comunicação psíquica com o seu bebé e inicia uma série de homicídios a sangue frio.

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     O filme é escrito, realizado e protagonizado pela atriz Alice Lowe e eu desconhecia-a completamente. Ela é atriz de televisão e já participou em várias curtas. Este é o seu directorial debut. O que ela retrata aqui é o estado mais absurdo, violento e extremo da mentalidade de uma futura mãe. Claro que não posso falar por experiência própria, sendo homem, engravidar não está nos meus planos, mas eu diverti-me com o filme. O filme é definitivamente um slasher, ou seja, não se deve levar tanto a sério, por isso quem não gostar de clássicos (dos Anos 70 e 80) como Halloween, Nightmare on Elm Street ou Friday the 13th, provavelmente não vai gostar de Prevenge. Este filme pode nem ser tão violento como eu esperava, mas eu digo “provavelmente” porque, se estiver alguma futura mãe a ler isto, se calhar vai ficar interessada, afinal as mulheres (críticas) devem ter adorado este filme muito mais que os homens. Como era de esperar, a personagem Ruth tem emoções e passa por situações pelas quais nenhum homem passou ou passará. Por isso, futuras mães, divirtam-se e riam-se. Não é um trabalho suficiente para eu ficar de olho na Alice Lowe, pois houve algumas coisas que podiam ter sido alteradas.

     A fotografia e a banda sonora são espetaculares. Ambos transmitem muito bem o conceito “absurdo” do filme. Durante a primeira metade, a cor é bem insípida e sem vida, mas assim que o filme se torna gradualmente mais interessante, as cores tornam-se vibrantes e bastante vivas, é um espetáculo de cor. Já a banda sonora é composta por temas psicadélicos e irritantes, que se tornaram muito adequados para a conexão psíquica entre a mãe e a filha.

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     E o mais engraçado é essa mesma relação. O filme pode ser considerado uma comédia, afinal, um slasher não precisa de ser levado muito a sério e todo o conceito do filme é absurdo, como já disse. Há momentos engraçados? Há, alguns. Se estivermos atentos saberemos quando nos devemos rir. Mesmo assim, acho que o filme precisava de um pouco mais leveza. O humor é “saboroso”, é sarcástico, negro e situacional. Mas não é um humor para “chorar a rir”, o que não é necessariamente mau. Apenas, por vezes, senti que o filme estava a ser seco demais. Com mais algumas lines cómicas, tudo podia ser melhorado.

     A Alice Lowe é uma excelente protagonista! Ela convence muito bem como uma mulher perigosamente assustada e confusa, que não sabe lidar com a situação em que se encontra, ao mesmo tempo que se “beneficia” e desfruta dos atos horrendos e das coisas bizarras que diz. É feito um ótimo estudo de personagem, e tal como a boa realizadora/atriz que é, a Alice Lowe constrói muito bem a evolução emocional da sua personagem.

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     O elenco restante é só funcional. Devido ao facto de as câmaras estarem constantemente apontadas para a Alice Lowe, não houve grandes oportunidades para algum ator secundário “brilhar”, todos eles cumprem o seu papel. Aquela que mais facilmente tem um arco próprio é a Jo Hartley, que interpreta a médica da Ruth. Ela é basicamente o grilo do ombro da Ruth, é a sua voz da razão.

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     Os assassinatos são ótimos! Os primeiros podem até chocar quem for mais sensível a imagens como estas, mas assim que compramos este “universo”, todos eles começam a ser divertidos para nós. A violência no cinema é um gosto adquirido. Alguns dos homicídios chegaram até a lembrar algumas coisas que o Tarantino fez. Por isso, se gostarem de filmes sangrentos e bem explícitos, divirtam-se!

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     O que me incomodou acerca dos homicídios é que nunca há a mínima participação da polícia. Eu sei que a polícia é sempre inútil na maioria dos slashers, mas este aqui passa-se num mundo um pouco mais credível do que o universo de um Michael Myers ou de um Freddy Krueger. E mais, quando uma mulher mata uma série de pessoas num curtíssimo espaço de tempo, todos envolvidos no mesmo “caso”, era de suspeitar que existia uma serial killer na Inglaterra.

     O filme é bem curto, apenas tem 1 hora e 28 minutos. A estrutura é de 3 atos, é uma construção bem organizada e simples. Como já disse, o filme vai sendo progressivamente mais interessante, tanto devido à sua violência e sangue, como devido ao seu conceito, ao seu debate e à sua “proposta”. Dito isto, acho que o ato final foi um pouco dececionante. O final não foi de maneira nenhuma ambíguo, mas sobrou um moralismo (nem sei se se pode chamar isso) que estorvou todo o divertimento que me estava a ser dado, comprometeu um bocado o final.

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     Mesmo assim, Prevenge é um slasher incomum, um ótimo estudo de personagem e, mesmo com a necessidade de alguns ajustes, não deixou de ser surpreendentemente sarcástico, negro, colorido, filosófico e divertido.

 

Nota: B+