Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

São Jorge (2017) - Crítica

   2011, o primeiro ano da Troika em Portugal, são inúmeros os casos de endividamento de empresas e famílias e os planos de restruturação económica no país. Jorge, um pugilista falhado e endividado, consegue um trabalho como cobrador de dívidas e, ironicamente, começa a cobrar aqueles que, tal como ele, se vêm abraçados a dívidas.

cms-image-000014772.jpg

     O filme foi escrito e realizado pelo Marco Martins, responsável por Alice, de 2005 e Como Desenhar um Círculo Perfeito, de 2010, um realizador desprezado pelo público causal, que infelizmente não tem o mérito que merece. Alguns podem achar um exagero o que vou dizer, mas o seu trabalho aqui é digno de ser comparado àquilo que o Barry Jenkins fez no filme Moonlight. Discordem à vontade, estou aqui para dar a minha opinião, esperando por ler as vossas. São Jorge é uma obra-prima do cinema nacional … ponto.

    Em Março, depois da longa temporada dos Óscares, estava bastante curioso por ver este filme, mais por ver que esteve presente numa data de festivais de prestígio internacionais e que o Nuno Lopes tinha sido premiado em Veneza, tendo em conta que estes dois fatores nem sempre são obrigatoriamente sinónimos de qualidade. Fui para o cinema sem quaisquer expectativas … e fui completamente apanhado de surpresa. Para além de ser o primeiro filme de 2017 que vi, São Jorge foi aquele que mais me surpreendeu e àquele a que mais dou valor.

img_797x448$2017_03_11_12_26_36_211655.jpg

    O Marco Martins conseguiu fazer algo difícil de maneira excecionalmente subtil: contar uma história meio-fictícia e meio-documentarista acerca de um assunto não muito distante. Os anos da Troika em Portugal trazem muitas questões e pouquíssimas vezes um meio audiovisual tem a coragem de abordar determinados temas de maneira honesta, audaciosa e corajosa. Não é esse o caso.

     Trata-se de um retrato perfeito do modo de vida de um bairro social durante uma época económica de crise, também sobre as dificuldades passadas pelas diferentes classes durante esse período, assim como a desgraça causada na vida do homem comum (não só o protagonista), homens que passam por um divórcio, ou pelo despedimento, ou ser obrigado a fazer cortes na sua empresa, para além do medo causado pela intimidação das empresas de cobranças difíceis. As simples cenas em que o Marco Martins decide deixar a câmara fluir ao pé de pessoas que nem são atores são até as mais verdadeiras do processo inteiro. Observamos o seu pensamento de vida, as vontades, as frustrações e o descontentamento, sem nunca concordarmos a 100%, o que torna a experiência ainda mais realista e útil.

img_797x448$2017_03_11_12_23_04_211654.jpg

     O comentário social e político é feito sem nenhum receio e de maneira que poucos realizadores o sabem fazer – discretamente e sem o intuito de moralizar a cabeça do público, sem nunca repetir ou forçar a mensagem já transmitida. Essa é a magia que o cinema nacional pode possuir. Graças à reserva da denúncia que é feita, independentemente da ideologia política de cada um, todos nós podemos apreciar o filme como a majestosa obra de arte que é.

     E no meio de tudo está um espetacular estudo de personagem. O Nuno Lopes prova novamente que é um dos mais experientes e corajosos atores metódicos do país, senão do Mundo. O personagem Jorge é um clássico imediato do cinema português. Temos aqui um homem deprimido, apático, fechado, infeliz e altamente frágil. Todas estas características originadas por uma sociedade corrupta e maldosa que o negligencia. O protagonista é uma figura quase mitológica, é o “Santo que luta contra o Dragão da Austeridade”, alguém com que pessoas da mesma classe social se identificarão e com quem arranjarão um abrigo, um símbolo de esperança. Contudo, Jorge é tudo menos a vítima ou o santo da sua própria jornada. Ainda assim, jamais o público procura ficar contra ele. Ao invés disso, procurar pôr-se no seu lugar, se é que já não tenha estado nas mesmas situações.

nuno_lopes_sao_jorge.jpg

     A maior revelação foi, sem dúvida, o jovem David Semedo. A atribulada e distante relação entre pai e filho é desenvolvida com ambos momentos de rigidez e uma ternura adorável. O laço entre os dois é demonstrado perfeitamente com pequenos gestos e frases (uma mão na cabeça, uma conversa sobre papaias, ou um abraço inquieto). O filme acha leveza nas conversas silenciosas dos dois. Aí sim, o guião lembrou-me muito Moonlight. A cena em que os dois conversam depois do combate de box é um exemplo brilhante. É a simplicidade no seu auge.

Sao-Jorge-1-1 (1).jpg

     A Mariana Nunes recebe menos destaque, mas dá um show igualmente bom. Sem necessariamente perceber a razão principal da separação entre ela e o Jorge, é possível nos relacionarmos com eles, já que são apenas dois humanos a lutar para sobreviver no meio de uma relação tóxica e instável.

Sao-Jorge-3.jpg

     Já o José Raposo escusa comentários. Ele está ótimo aqui porque está ótimo em tudo o que faz, seja cinema seja televisão. O retrato feito é o de um homem desrespeitoso, egoísta, maldoso e de pensamento fechado. Contudo, uma simples atitude off camera demonstra que este é ainda um dos mais cautelosos e espertos.

Screenshot_20171104-180254.png

   A fotografia é digna de aplausos. Todas as composições são propositadamente sem vida e sem qualquer sensação de conforto. Ainda assim, há um espaço para um tranquilidade e poesia naquela montagem pré-box. Poesia, aliás, é o que define a bagagem técnica. Dignos são também a cruel banda sonora, que acha os seus momentos mais líricos e vibrantes, assim como o trabalho de iluminação, especificamente excecional durante as cenas de Jorge em frente ao espelho.

515006.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg

     São Jorge é uma aula de cinema, representa todo o talento que existe no cinema nacional e é disparado uma obra-prima! É uma viagem suja, descontrolada e perturbadora à vida dos habitantes dos bairros sociais portugueses, um estudo importante sobre os anos da Troika em Portugal, assim como um excecional desenvolvimento do seu protagonista.

 

Nota: A+

     Se estiveres a gostar do blog, não te esqueças de me seguir no Facebook, no Twitter e no Blogspot. Obrigado!