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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

04
Jun17

Southside with You (2016) - Crítica


Francisco Quintas

     Filmes biográficos sobre figuras americanas contemporâneas importantes são quase uma praga. Com muita sorte, aparece um filme verdadeiramente honesto e o resto (ou seja, a maioria) tendem a glorificar e exaltar exageradamente as suas figuras. Será este filme uma grata exceção? Talvez sim, vamos descobrir.

    O filme acompanha os jovens Michelle Robinson e Barack Obama enquanto estes se conhecem ao passearem numa tarde juntos e discutem as suas opiniões sobre assuntos profissionais e pessoais.

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     O filme é escrito e realizado pelo Richard Tanne e ele é um completo desconhecido em Hollywood. Trata-se da sua primeira longa, depois de apenas trabalhar como ator e produtor na televisão ou em filmes independentes. Mais uma vez ele obtém um orçamento baixíssimo para Hollywood (1 milhão de dólares), mas de maneira muito simples e perspicaz, ele cria um filme surpreendente e agradável, sobretudo para quem estiver interessado. É um filme que consiste em pessoas a andar e a conversar, ou seja, quem gostou da trilogia Before do Richard Linklater, vai gostar de Southside with You. Dois elementos que tinham obrigatoriamente de funcionar eram o guião e o elenco. Primeiro, os diálogos estão ao nível da trilogia Before. Tudo bem que o filme é mais honesto em relação às virtudes e aos defeitos das suas figuras principais e há menos romantismo e poesia. Mesmo assim, o Richard Tanne acha um ótimo equilíbrio entre seriedade e brincadeira nas palavras. Algo que era impossível não fazer era retratar o Obama e a Michelle sem ter em atenção nas pessoas em que eles se tornariam nos dias de hoje. Alguns críticos ficaram insatisfeitos com essa portrayal, mas eu achei importante, interessante e fundamental num filme deste género.

     Segundo, as interpretações são ótimas também. O elenco é praticamente composto por só dois atores, sendo o resto quase só figurantes das suas cenas, e ainda bem, com uma produção tão pequena era muito complicado meter os dois personagens a ir almoçar a casa dos pais ou assim. Ainda bem que apenas vemos somente o Parker Sawyers e a Tika Sumpter. Sem as belamente calculadas interpretações deles, o filme fracassaria. Era também muito fácil cair para o cosplay de Michelle e Obama, mas felizmente não foi esse o caso. E outra qualidade é que o casting não feito apenas a pensar na aparência e nas parecenças dos atores com as pessoas, há de facto muito talento aqui.

     O Parker Sawyers dá uma performance muito bem antecipada e calculada. Ele capta muito bem os maneirismos do Obama, jamais nunca parecer uma imitação de sketch. Ele é brincalhão, por vezes provocador e malandro, mas nota-se uma bondade genuína, liderança e admiração que todos nós conhecemos.

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     A Tika Sumpter, ao mesmo tempo que é séria, é muito engraçada. Ela consegue achar no profissionalismo e na seriedade da Michelle uma maneira tanto de informar o público sobre a sua pessoa como de servir de contraste ao Obama. É muito divertido vê-los a terem mini brigas e a divertirem-se enquanto almoçam, passeiam ou partilham um silêncio.

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     Ambos interpretam o texto muito bem, felizmente não há nenhuma sub-trama desnecessária e tola que do nada aparece para mudar o foco da história, o foco está sempre neles os dois, e é interessante assisti-los a partilhar as suas ideias sobre igualdade de género, racismo, educação, carreira profissional e até mesmo de propaganda social. O problema é que o filme cai quando começa a exaltar principalmente o Obama. Não é algo ao nível de Birth of a Nation, não é assim tão mau. A verdade é que há momentos em que personagens secundárias falam dele e dos seus atos enquanto um pequeno ativista pelos direitos dos negros, e logo a seguir há um discurso (que é bom até) onde este fala de assuntos importantes para serem discutidos na sua comunidade, mesmo nem toda a gente concordando com ele, mas depois entra uma musiquinha e um shot da cara dele contra a luz enquanto ele pede justiça e patriotismo americano. Foi uma glorificação com demasiado ênfase e destaque. Não era preciso isso para eu ter uma enorme admiração por ele. O filme estava a ir num bom caminho e decide tomar aquele que eu menos queria. Sem querer falar mal da banda sonora do Stephen James Taylor, que é extremamente harmoniosa, calma e bonita, juntamente com a fotografia, que torna as paisagens deste filmes quase num álbum de fotografias.

     Os defeitos deles são também postos na mesa, porém os dos Obama aparecem quase logo de cara, os da Michelle apenas lá para o ato final. Não era preciso esperar tanto, a solução era soltar pequenos comentários dela da mesma maneira que se fizeram os do Obama, simples como isso, mas tudo bem, nada que comprometa muito.

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     No final das contas, Southside with You é um dos filmes biográficos mais leves e agradáveis do ano. É honesto, sereno e relaxante, mas ao mesmo tempo informativo. É uma ótima escolha para quem quer saber mais sobre como estes dois jovens se apaixonaram sem ter de passar uma tarde na Wikipédia.

 

Nota: B+