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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

27
Jun17

Split (Fragmentado, 2017) - Crítica


Francisco Quintas

     Eu adoro o filme Unbreakable, é um dos meus preferidos … tipo, da vida. Chega-me aos ouvidos que Split partilhava o mesmo universo. Foi quase impossível não me distanciar da ideia de poder ver o David Dunn ou o Elijah Price novamente, mas tudo bem, tive de baixar um bocado as expectativas porque este filme é bem diferente. Era isso, ou podia me dececionar a valer. Vamos lá!

     Três raparigas são raptadas por Kevin, um homem diagnosticado com transtorno dissociativo de identidade. A doença consiste num número de personalidades que vivem no seu corpo e que se manifestam voluntariamente. As jovens devem tentar escapar antes que uma nova personalidade perigosa surja e que ponha em risco as suas vidas.

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     O filme é escrito e realizado pelo M. Night Shyamalan, que realizou filmes extraordinários como The Sixth Sense e Unbreakable, ele é muito bom. Porém, é um dos maiores floppers dos últimos anos. Ultimamente as pessoas só o vêm como o desastrado que fez Lady in the Water, The Happening e The Last Airbender, por isso … temos aqui um caso especial. Eu acredito que um realizador com talento verdadeiro nunca desaprende a fazer cinema. É o seu caso.

     Coisa que as pessoas devem esquecer é que ambos os filmes partilham o mesmo universo cinematográfico. É verdade que há elementos de Unbreakable, mas se formos ver Split apenas com a intenção de ver novamente o David Dunn ou o Elijah Price, vamos nos dececionar e vamos perder um filmaço. É o mesmo caso dos filmes Cloverfield, de 2008, e 10 Cloverfield Lane, de 2016. Partilham o mesmo universo, mas são contados em diferentes perspetivas, apresentam novas personagens e temas, e têm um conflito completamente diferente, assim com uma narrativa pertencente a outro género. Por isso, calma.

     Os planos são os típicos do M. Night Shyamalan: close-ups na cara dos atores, contra-plongées, steady cam em cenas de conversa, assim como tracking shots complementados com planos sequência, que chegaram até a lembrar o Kubrick. Nada do que reclamar. Assim como o tom do filme. Tal como Unbreakable, o tom é pesado, mas ao invés de triste, é assustador. Porém, o filme consegue se beneficiar da mínima leveza das “transições” das personalidades do Kevin, que consegue gerar algumas cenas engraçadas. E isto leva-nos às interpretações.

     O James McAvoy está sensacional! É um trabalho agressivo e assustador. Não há muitas palavras que possam descrever esta interpretação. Ele adota todo o tipo de tiques para caracterizar as suas “personagens” e, logicamente, um comportamento e uma postura distintos para cada uma. O intenso esforço físico e a carga emocional são trabalhados de forma impecável. Há de tudo, uma voz diferente, uma expressão facial diferente, até os olhos são diferentes. Se tiverem dúvidas sobre ver o filme ou não, vejam simplesmente por ele, não é uma performance que se vê todos os dias. Como era de esperar, o único problema é que não há tempo para se explorar as 24 personalidades totalmente. Deve ter havido uma razão para o M. Night Shyamalan ter escolhido esse número, mas apenas 8 identidades vêm à tona. O facto de nem todas serem exploradas tem um propósito útil e eu não duvido que desenvolver tantas seja possível, eu não estou a questionar a ciência. Mas pelo bem do personagem, esse número devia ter sido reduzido.

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     A Anya Taylor-Joy também está ótima, não ao nível do James McAvoy claro, mas se a atriz continuar a fazer filmes de terror como este e se, no futuro, se mostrar mais versátil, provavelmente se tornará numa das minhas atrizes favoritas. Depois de The Witch, eu quero ver mais trabalhos dessa atriz. É muito bom ver personagens inteligentes em filmes de “terror”, especialmente quando estas têm o devido desenvolvimento.

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     A Haley Lu Richardson e a Jessica Sula estão bem, fazem cara de assustadas, movimentam a história, porém são performances esquecíveis e sem nada de especial. Elas apenas cumprem o seu papel. Houve só uma decisão que elas tomaram que me incomodou, não pela decisão em si, mas sim pelo momento da decisão, que podiam ter sido mais prévio.

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     A Betty Buckley impressionou-me quase de imediato. Ela convence muito facilmente como uma psiquiatra extremamente empenhada num paciente que parece desesperadamente desorientado. Ela percebe do que está a falar, basicamente é isso que faz toda a sua interpretação. Houve só um momento em que pensei que a personagem ia ser completamente desperdiçada, mas felizmente não foi o caso.

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     A fotografia é bem suja. O filme passa-se quase inteiro numa cave, mas nas cenas ou de flashback ou na sala da psiquiatra do Kevin, já há um ambiente bem banal, sem nunca evidenciar se está tudo bem ou não. Isto é, devido à presença do James McAvoy, há sempre uma sensação de que algo de errado se passa ali.

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     A música é também um fator essencial. É suja, parece uma orquestra estragada, até me fez lembrar de The Shining. Talvez não tão irritante, mas também assusta. Ah e está uma surpresa no final que vai satisfazer os fãs de Unbreakable. Desta vez, descaí-me eu sei.

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     Split é um fantástico thriller de terror e suspense sobrenatural que vai agradar aos fãs do M. Night Shyamalan que esperavam ver algo bom dele. Prova que o realizador não desaprendeu a fazer cinema. Quem quiser também um James McAvoy inspirado e a dar a melhor interpretação da sua carreira, também vai ficar bem servido.

 

Nota: A-

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