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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street (Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street, 2007) - Análise e Crítica

     Hoje, dia 21 de Dezembro, o filme Sweeney Todd comemora 10 anos! Vamos celebrar este único musical!

     Baseado na peça musical homónima de Stephen Sondheim e de Hugh Wheeler, lançada em 1979, o filme conta a história de Sweeney Todd, outrora Benjamin Barker, um barbeiro londrino injustamente condenado, que regressa à sua cidade pela primeira vez em 15 anos sedento por vingança e em busca da sua família.

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     O filme foi realizado pelo Tim Burton, um realizador extremamente original e dedicado ao seu mundinho autoral e romântico de personagens e histórias amarguradas. Nos Anos 80, este viu pela primeira vez a peça em Londres e ficou obcecado. Aliás, viu-a 3 vezes seguidas. Só ao ver o filme uma vez nota-se a dedicação e paixão do realizador pelo projeto. Talvez seja daí que se possa concluir que Sweeney Todd talvez seja o último grande filme do Tim Burton, antes deste se meter em tantos blockbusters de fantasia falhados.

     Narrativa, musical e tecnicamente, o filme é absolutamente impecável. Os planos não variam muito, é verdade, mas quando o realizador quer, é capaz de orquestrar alguns dos melhores planos sequência vistos num musical violento e grotesco como este. Planos sequência já são difíceis de se fazer, agora num musical são muito mais. Mas funcionam perfeitamente, graças ao empenho e talento do elenco, à engenhosidade das letras das canções, à brilhante sincronização e coreografia das cenas musicais e, claro, à fantástica caracterização do mundo bizarro, poético e estupidamente detalhado do Tim Burton.

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     É acima de tudo, uma história de vingança apresentada na forma de um musical, mas é também um dos filmes mais marcantes, dramáticos, violentos e românticos (no verdadeiro sentido da palavra) de 2007. Tem elementos mais que suficientes para representar uma boa perspetiva trágica sobre a vida e morte, uma comédia negra (negríssima, aliás), e um slasher de terror brutal como nenhum antes (ou depois) visto. É um estudo sobre a longa e azeda vida e a esperada e aliviante morte dos desgraçados, dos injustiçados que vivem naquela cidade suja e tenebrosa, que lutam desesperada e diariamente contra a vigarice, malícia e hipocrisia dos advogados, militares, padres, reis e, especificamente, juízes. Na verdade, contra a natureza maldosa, cruel e invejosa do ser humano. Sweeney Todd é um daqueles exemplos perfeitos do equilíbrio narrativo dentro de uma história facilmente incluível em vários géneros cinematográficos.

“At the top of the hole sit the privileged few, making mock of the vermin in the lonely zoo, turning beauty to filth and greed …”

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“It’s man devouring man, my dear! / And who are we to deny it in here?”

     Falemos do elenco! Como já se falou neste site, esta é uma das melhores coisas que o Johnny Depp alguma vez fez na carreira. Ele é o espírito do filme. Sweeney Todd é, acima de tudo, uma alma perturbada e desesperada, à procura primeiramente de vingança em vez de salvação pela sua ingenuidade passada. Daí este abandonar a sua identidade de Benjamin Barker e assumir a persona genuinamente humana (agressiva, apática e indiferente) que lhe dará a última felicidade em forma da morte daqueles que lhe destruíram a vida e que o perseguem (Adolfo Pirelli, por exemplo, interpretado hilariantemente pelo Sacha Baron Cohen). São inúmeros os retratos no cinema de homens transformados pelo desmoronamento da sua família. No entanto, neste caso, não deixa de ser chocante a sua barbaridade para com os inocentes que visitam a sua barbearia. É toda esta imoralidade ambígua, desgraça e sentimento de pena que acompanham este rico personagem. É um arco envolvente, tocante e uma jornada minimamente compreensível, tendo em conta tudo aquilo pelo qual ele passou.

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“At last … my arm is complete again!”

     A Helena Bonham Carter está encantadora! Enquanto durou, a sua parceria com o ex-marido foi uma das melhores do Século XXI. Ela está absolutamente doce, querida e apaixonada pelo material, mas não menos bizarra ou emocionalmente abalada como de costume. É uma mulher vazia, infeliz, mas com diversos sonhos sobre uma casa e uma família bonita. A atriz prova-se muito versátil novamente, ela e o Johnny Depp têm uma química sensacional e inigualável e a Mrs. Lovett é uma das melhores personagens da sua carreira.

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“By the sea! Don’tcha love the weather? By the sea! We’ll grow old together!”

     Todo o elenco está impecável! É, de facto, um dos mais talentosos alguma vez reunidos para um musical! Escusado será dizer que todos cantam belissimamente! O Ed Sanders, o Jamie Campbell Bower e a Jayne Wisener são ótimos talentos ascendentes. O Timothy Spall está ótimo como de costume. A Laura Michelle Kelly tem uma pequena, porém marcante participação. E o Alan Rickman, como o ator espetacular que foi, construiu um homem simultaneamente cruel e indiferente ao sofrimento humano, mas extremamente charmoso e sedutor nas cenas musicais, graças àquela voz invejável.

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“How they make a man sing! Proof of heaven as you’re living. Pretty women!”

     Quanto à maquilhagem, aos penteados, à produção artística e ao guarda-roupa, o filme não podia ser melhor! Há um contraste muito interessante entre a palidez e morbidade dos dois protagonistas e o resto da cidade, realçando-os como almas perdidas. Escusado será dizer que a banda sonora composta pelo Danny Elfman é uma das melhores da sua carreira! Já as músicas, como já disse, são brilhantemente escritas e interpretadas. A fluidez entre as sequências musicais e cenas normais não podia ser mais simples e adequada. No topo do bolo, está a fotografia desconfortável do Dariusz Wolski, composta à base de tons mortos e apáticos, que realçam na perfeição a dureza e tristeza daquela Londres poluída e visualmente violenta. Deve-se também destacar as extraordinárias mudanças de fotografia em planos longos sem cortes.

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   Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street é um dos melhores musicais contemporâneos e um dos melhores alguma vez feitos, exaltado pela sua unicidade, por um Johnny Depp inspirado como nunca, pela estética de luxo e pela magia negra e singular do cinema típico do Tim Burton. É também uma obra provocadora, violenta e sangrenta (muito, aliás) com discussões sobre temas humanos e filosóficos que poucos musicais conseguem desenvolver.

 

Nota: A+

 

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