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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

01
Mai17

The Circle (O Círculo, 2017) - Crítica


Francisco Quintas

     A falta de originalidade é uma praga em Hollywood. Chega-nos mais um exemplo de um filme que pegou em várias ideias, juntou-as, mas não conseguiu fazer um bom filme no meio de uma bagunça tao grande.

     Baseado no livro de 2013 com o mesmo nome escrito por Dave Eggers, o filme conta a história de Mae, interpretada por Emma Watson, uma estagiária de uma empresa de tecnologia revolucionária, chamada Círculo. Á medida que investiga os reais objetivos da empresa e os planos dos fundadores Eamon Bailey e Tom Stenton, interpretados pelo Tom Hanks e pelo Patton Oswalt, depara-se com um perigoso cenário relacionado com vigilância e privacidade. Basicamente uma junção de Snowden com The Social Network.

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     O filme é realizado pelo James Ponsoldt, que mostrou o seu talento com o filme The Spectacular Now em 2013. Nota-se que aqui ele ficou demasiado agarrado às suas inspirações e ao elenco, ficando dependente demais deles.

     Este filme interessou-me desde a primeira vez que o trailer. É uma premissa não muito original como já disse, mas, ao contrário, de Snowden, este filme não é sombrio e não mostra a mesma paranoia, é um filme muito mais suave. Na verdade, ele consegue ser original dentro de uma trama previsível e vai por alguns caminhos diferentes, o que até é benéfico. Pelo menos no papel, porque na execução não é isso que acontece.

     O filme é um pouco arrastado. Sofre do mesmo problema do Snowden, que consiste em ter cenas bem frenéticas em que todo aquele mundo é apresentado, seguidas por cenas mais familiares que caiem para diálogos vazios e demorados.

     Porém, mesmo a edição não sendo a melhor ela consegue criar um estilo próprio para o filme. A banda sonora é operante, mas esquecível. A fotografia é brilhante, acentuando bem em tons de vermelho e branco, como era de esperar. Mas é no guião e no elenco que o filme cai bastante.

     A Emma Watson ainda é uma estrela em ascensão. Depois da série Harry Potter, ela convenceu-me como uma atriz mais madura no Noah, de 2014, mas ainda está longe de ganhar um Óscar. Aqui ela passa bem uma desconfiança e desconforto que crescem gradualmente no filme devido às coisas que vão acontecendo, nunca deixando isso óbvio para as pessoas à sua volta, é uma interpretação muito reservada, o que é bom.

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     O Tom Hanks dispensa comentários. É um ator com a capacidade de elevar qualquer material, por muito mau que ele seja. Ele não aparece tanto quanto eu estava à espera e isso pode frustrar algumas pessoas. Porém as cenas deles são muito boas, ele convence como um homem inspirador, mas com umas camadas, é um personagem bem cínico e egoísta. O Patton Oswalt mesmo não estando ao mesmo nível, consegue acompanhar o Tom Hanks, mesmo o seu personagem estar sempre em segundo plano.

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     Eu não comprei o Ellar Coltrane de maneira nenhuma. O ator ainda vai demorar para que eu pare de olhar para ele como o puto de Boyhood. Ele está bem medíocre e apenas debita texto, não é capaz de se expressar bem aqui, aliás, ele está sempre com a mesma cara. Era um personagem facilmente excluível ou substituível com apenas um ajuste no guião.

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     A Kerry Gillan está ótima como a amiga da Emma Watson. Ela é bem carismática e acompanha-a muito facilmente, mesmo ela sendo bem enérgica e a Mae bem mais reservada. Mas o que realizador fez com ela é inadmissível. Basicamente a personagem fica triste e passa da sua boa disposição para uma rapariga despenteada, desmaquilhada e a usar sweats a toda a hora. É um recurso preguiçoso. Eu queria ver a sua tristeza através da interpretação da atriz, e substituindo o Ellar Coltrane por ela seria uma decisão muito inteligente, quem assistir ao filme perceberá.

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     É bom ver o John Boyega aqui, ele parece à vontade com o seu papel, mas não interveio o suficiente quanto deveria na história, é um personagem bem mais relevante do o que seu tempo em filme sugere. Aliás a primeira vez que ele e a Emma Watson se conheceram foi bem esquisita, para não falar de forçada e conveniente.

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     Os pais da Mae são interpretados pela Glenne Headly e pelo Bill Paxton, no seu último filme. Eles estão ambos à vontade, mas os personagens são mais relevantes do que o tempo em cena de cada um sugere. Ambos mereciam mais interveniência na história.

     Quando o filme começa a fazer as tão esperadas perguntas sobre os temas propostos, ele acerta ao responder a umas, mas á maior parte delas não. Na verdade, pode-se apreciar o filme nesse aspeto, há algumas perguntas que, se fossem respondidas, tornar-se-iam em respostas presunçosas. Mesmo assim o ato final pode gerar algum debate, pode-se argumentar que ele não resolve nem conclui grande coisa, mas mesmo assim, houve ali alguma coragem que teve de ser tomada. Mas isso não salvou o filme de ser chato e dececionante.

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     The Circle tem uma boa criação de mundo e algumas ideias boas. Ainda assim, o filme tende a fazer mais perguntas do que a responde-las e erra feio no desenvolvimento e na resolução do seu arco principal, deixando um sentimento de desilusão e preguiça.

 

Nota: C