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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

23
Set17

To the Bone (2017) - Crítica


Francisco Quintas

     A Netflix é muito boa! É verdade que aparecem, de vez em quando, umas coisas más por lá, mas a verdade é que há filmes ótimos. Ainda não consegui ver Beasts of No Nation, de 2015, o seu primeiro filme original, mas acredito que seja muito bom!

     Ellen, uma jovem anorética de 20 anos, é internada pela quinta vez numa casa destinada a acolher pessoas com distúrbios alimentares. No percurso, esta luta para vencer a depressão e se reencontrar.

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     O filme foi escrito e realizado pela Marti Noxon e este trata-se do seu primeiro grande trabalho no cinema, depois de trabalhar muito na televisão e de escrever o fraco I Am Number Four e o razoável Fright Night, ambos de 2011. Sou sincero, quantas mais mulheres tiverem a oportunidade de virarem realizadoras melhor. Verdade é que a indústria cinematográfica é ainda muito machista, pior ainda quando há assuntos que uma mulher pode tratar de maneira única. A impressão que dá é que To the Bone é uma obra bastante pessoal, há diálogos que não me disseram nada, embora eu tenha a certeza que há pessoas que se identificarão.

     To the Bone consegue ser engraçado quando é preciso e realista e honesto quando certas cenas pedem, a realizadora sabe aproveitar os momentos com um potencial cómico sem nunca se esquecer do drama. Na verdade, o filme não se chega a diferenciar muito do típico teen drama, mas há diferenças originais e significativas. A protagonista não é uma drama queen, os arcos com os personagens secundários não são apressados ou forçados e há cenas genuinamente incómodas.

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     O filme não explora a fundo os distúrbios alimentares no geral, nós sabemos apenas o necessário. O foco esteve muito mais nos danos emocionais causados na própria pessoa e naqueles que gostam dela, assim como a perspetiva de alguém que fala daquilo que não percebe. Existem algumas cenas em que a madrasta da Ellen tenta achar justificações para a anorexia dela e maior parte daquilo que diz é absurdo. Por outro lado, dei por mim a pensar “Há pessoas que pensam assim …”.

     Os diálogos são honestos e suavemente ágeis, não há aquela fluidez de insultos e provocações que costumamos ver nos filmes do John Hughes, o que acaba por dar mais realismo ao filme, embora que haja sempre uma vibe acolhedora e coerente, não houve de todo momentos aborrecidos ou arrastados. O filme tem uma fotografia azulada, capaz de transmitir uma frieza que acompanha bem a depressão da protagonista. Porém, há cenas mais quentes e acolhedoras que trazem um pouco de leveza bem-vinda.

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     A Lily Collins está fantástica! Sou sincero, nunca dei muita atenção à atriz, mas ela convenceu-me totalmente aqui e se continuar com performances destas vai me ganhar a mim e ao mundo. O que ela fez aqui não foi apenas uma transformação física brutal, ainda que olhar para aquela cara e corpo faça confusão. Como uma jovem deprimida, ela consegue perfeitamente expressar desprezo, sarcasmo e um desgaste ambos físico e psicológico. Ainda assim, o que mais me convenceu foi a sua tristeza, a sua desilusão consigo própria. Ela mostra-se completamente apática com todos, embora saiba que tudo o que está a acontecer deve-se a ela, sendo assim, existe uma enorme culpa para carregar às costas.

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     O Alex Sharp tem um enorme charme típico inglês. Demorou-me um bocado para apreciar totalmente o personagem. Felizmente à medida que este empurra cada vez mais a narrativa para a frente, torna-se agradável vê-lo junto a contracenar com a Lily Collins, destacando a ótima química da dupla. A relação que estes desenvolvem é, à primeira vista, estranha, mas depressa ganhamos afeto pelos dois e torcemos por eles.

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     O Keanu Reeves está ótimo como um médico com métodos pouco convencionais com vontade de ajudar a protagonista sem saber o que dizer em determinadas situações. Daí as suas cenas serem as que eu mais ansiava.

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     A Lili Taylor prova novamente que é uma das atrizes mais underrated dos dias de hoje. Não há uma má performance vinda dela. A sua participação não é tão grande quanto podia, mas esta tem uma cena no ato final que é … tocante, muito tocante!

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     E um pequeno destaque para a Liana Liberato, que interpreta uma rapariga destroçada por ser obrigada a assistir uma pessoa que ama a morrer lentamente. Ela tem igualmente uma única cena que me impressionou.

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     Pena é o grupo de pacientes e funcionários que vivem na casa não serem desenvolvidos da mesma maneira. Não é algo necessariamente mau, visto que não eram esses que mereciam destaque. Ainda assim, reduzir o número de personagens seria a solução. Inclusive, há uma cena que me incomodou um pouco. Trata-se de um passeio do grupo a uma espécie de museu que, mesmo sendo visualmente bonita graças ao trabalho musical e de iluminação, caiu na falta de lógica e no mau CGI. Os personagens ficam debaixo de uma chuva artificial e praticamente não ficam molhados.

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     To the Bone é um retrato realista, honesto e, por vezes, incómodo sobre a luta individual contra os distúrbios alimentares e um ótimo estudo da sua protagonista, oferecendo um material constantemente elevado pela sua atriz principal.

 

Nota: A-

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