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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

10
Mai17

Toni Erdmann (2016) - Crítica


Francisco Quintas

   Posso estar um pouco atrasado, mas acho que um filme tão diferente como este merece destaque independentemente da altura em que a sua crítica é feita. Definitivamente 2016 foi um ano espetacular para filmes estrangeiros, vou ficar de olho nos filmes alemães a partir de agora.

     A ação central do filme decorre em Bucareste, na Roménia e segue um professor de música alemão que, espontaneamente, visita a bem-sucedida filha numa tentativa desesperada de reconciliar a sua relação e acabar o afastamento existente entre ambos.

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     O filme é escrito e realizado pela alemã Maren Ade e este é apenas o seu terceiro de realização. Mais um nome para a minha lista de realizadores obrigatórios! Uma coisa a que ela recorre e que faz muito bem é a constante câmara na mão. Não são todos os realizadores que conseguem usar este recurso sem o deixar mal feito ou cansativo. Jean-Marc Vallée e Andrea Arnold são uns dos poucos que conseguem e que o fazem muito bem.

     Algo que eu também gostei foi o facto de não haver cenas manipulativas, ou seja, sendo este um filme sobre uma reconciliação familiar, o risco de existir uma cena emocional forçada demais era bem grande, é uma coisa bem regular em filmes deste género. Felizmente nada disso acontece aqui.

     Agora falando na reconciliação em si, pode-se dizer que este filme é um dos mais realistas já feitos. Os silêncios usados são extremamente constrangedores e esse é o melhor elogio que se pode dar neste caso. É bastante difícil recriar momentos akward no cinema, mas é graças ao cuidado narrativo, à química e à dedicação dos atores que tudo corre bem.

     Há muita genuinidade e sinceridade nos diálogos e tal como em Moonlight, por exemplo, há muitas conversas entre os dois protagonistas em que um silêncio diz mais que as palavras, que muitas vezes são excluídas e dão lugar a olhares de dúvida, desilusão e infelicidade, coisas que preenchem por completo os momentos mais tocantes da trama principal.

     O Peter Simonischek está fantástico! É um dos mais verdadeiros retratos da solidão depois de One Hour Photo e também de tristeza e vazio presentes na altura em que uma pessoa se sente mais incompleta devido a coisas que fez na vida. Ele é engraçado, carismático, brincalhão, interativo, atencioso, mas nem o ator nem a realizadora se esquecem do drama do personagem. O homem passou os últimos anos a ansiar pela reconciliação com a filha e isso é muito notável. Ele sempre espera pelo melhor momento e até a uma cena específica que ele percebe que, para voltar a ter a relação com a filha que sempre quis, precisa de tomar medidas mais drásticas, e isso torna o personagem muito imprevisível.

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     A Sandra Hüller é um contraste ótimo do pai. Ela é mais séria, sisuda, controlada e dedicada à carreira. Aliás, ela dá muita importância a certos encontros com presidentes e representantes importantes e sempre que o pai dela está sempre presente, gera um clima de inquietação muito engraçado. Mas à medida que a personagem revela as suas camadas, mostra um lado mais frustrado, infeliz, incompleto e arrependido do que estava à espera.

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     O resto do elenco é simplesmente funcional, não há nenhuma performance secundária que chama muito à atenção, mas claro que não há nenhuma que comprometa o filme.

     Agora o que compromete um bocado o filme são as (quase) três horas de duração, que chegam a pesar. Eu adoro filmes que levam o seu tempo, Ben-Hur, The Godfather e The Godfather Part II, por exemplo, são alguns dos meus filmes preferidos. No entanto, o tempo aqui devia ter sido melhor preenchido. A lentidão serve o propósito para mostrar ao público como é a relação deles, mas também há lentidão demais onde não devia haver e cenas aborrecidas e desnecessárias. Por exemplo, a sub-trama da Sandra Hüller consiste na sua tentativa de ascensão na sua profissão. É tudo bem feito, menos o ritmo. Para um filme tão consiste, ou aquelas cenas eram cortadas mais cedo ou eram aceleradas com uma edição mais frenética ou diálogos mais dinâmicos, pois não é algo assim tão interessante.

     Outra coisa que me incomodou foram duas cenas bem específicas que pareciam não pertencer a este filme. Uma envolve uma cena de sexo e outra decorre num bar. Eu não reclamo de sexo em filmes, mas quando aquilo me dá vontade de rir sem querer, era sinal que não era aquela a sensação que a realizadora queria que eu sentisse. E a outra envolve uma conversa entre um casal homossexual onde parecia que a Maren Ade queria fazer um comentário social, o que me incomodou não foi o comentário (óbvio), mas sim o uso despropositado daquela cena.

     E o ato final é perfeito! Definitivamente não é algo que o público espera, mas posso dizer que é muito original, bizarro, mas também emocionante e inesquecível. É mais uma cena que não me vai sair da cabeça tão cedo.

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     Toni Erdmann é um lindo retrato de solidão, amor, família, compreensão, aceitação, significado de vida e felicidade. Pode não ser para todos e as três horas podem pesar. Mas se se investir na experiência, assistir-se-á a uma das obras mais ternurentas, interessantes e divertidas de 2016.

 

Nota: B+