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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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27
Jun17

Unbreakable (O Protegido, 2000) - Crítica


Francisco Quintas

     Hoje vi o filme Split, que estreou em fevereiro. Unbreakable foi lançado há 17 anos e é um dos meus filmes preferidos de sempre. Eu ainda pensei em esperar por 2020, quando o filme eventualmente faria 20 anos de existência. Mas 3 anos ainda demoram, juntando isso ao facto de eu querer fazer críticas de clássicos daqui para a frente. Aproveito para dizer que esta crítica terá spoilers. Já agora, porque não chamar ao filme "Inquebrável"? Ok, não interessa ... vamos a isto!

     David Dunn, um homem infeliz e cansado, é o único sobrevivente de um catastrófico acidente de comboio. Elijah Price, um estranho colecionador de bandas desenhadas, encontra-o e tenta convencê-lo que este é um super-herói.

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    O filme foi escrito e realizado pelo M. Night Shyamalan que, em 1999, surpreendeu o mundo com The Sixth Sense, ganhando assim aclamação imediata. Mesmo que a trama de Unbreakable seja um pouco bizarra para o ambiente em que decorre, maior parte das pessoas estava à espera de um novo The Sixth Sense. Claro que ficaram desiludidas. O twist final não foi satisfatório para algumas, e daí Unbreakable ser hoje um dos filmes mais underrated alguma vez feitos.

     O público também não sabia o que esperar. O marketing descrevia o filme com um thriller sobrenatural, tal como fora The Sixth Sense. Pois, na verdade Unbreakable deve ser considerado apenas como um filme de super-heróis, o mais original de sempre. O mais fascinante é que foi lançado há 17 anos, antes da explosão dos filmes de super-heróis, que hoje gera pelo menos 3 filmes por ano. Apenas Superman, de 1978, e Batman, de 1989, eram os grandes, mas estavam num canto, não conseguiam sair da sua própria sombra. Unbreakable é o tipo de filme que, se saísse nos dias de hoje, os críticos adorariam, iriam se sentir aliviados.

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     Logo na primeira cena, no nascimento do Elijah, sentimo-nos dentro da história quase de imediato. Confesso que esta é uma das cenas mais tristes e incómodas que vi na vida. O choro daquele bebé é horrivelmente desconfortável. À medida que o filme avança, é impossível não desenvolver empatia ou pena por ele. Graças à doença que o perturbou durante a vida inteira (Osteogénese imperfeita), foi muito fácil o filme também estender as suas ideias sobre infância, solidão e incompreensão. Realmente, 54 fraturas ósseas durante a vida é algo assustador. E este é apenas o 1º nível da doença.

     O Samuel L. Jackson pode não ter passado por um método elaboradíssimo de construção de personagem, mas desde cedo provou que é um dos atores mais talentosos, versáteis e empenhados de sempre. O Elijah Price é um dos personagens mais misteriosos e interessantes do cinema moderno. Tal como o David, este está também desesperado na sua busca por significado. Quem tiver interesse em questões de existencialismo, vai ter uma viagem enorme aqui. Somando essas questões ao tom sombrio e melancólico do filme, tudo se torna ainda mais delicioso. Ainda bem que Glass chega aos cinemas em 2019, eu quero o Elijah!

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     O David Dunn, ao contrário daquilo que podem esperar, não é um protagonista de Hollywood que luta contra os maus, ele é um homem completamente normal. Na primeira vez que vi o filme, desenvolvi logo uma pequena apatia com ele na cena do comboio. É aí que aprendemos muita coisa sobre ele. Vemo-lo a tirar o anel de noivado perante uma rapariga mais nova, a contar que já jogou futebol americano, que tem medo de água e outras coisas apenas através do seu olhar. Trata-se de um homem triste. Não faz o que gosta, não sabe o seu lugar no mundo, tem uma relação instável com a mulher e afastou-se do filho há algum tempo. Honestamente, eu acho que este é melhor trabalho dramático que o Bruce Willis já fez na vida. O Bruce Willis é o John McClane, sem dúvida, mas ultimamente o ator não tem feito grande coisa que o pusesse na ribalta de novo como ele merece. É um ator com muito para dar, mas que teve muito poucas oportunidades.

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     Vale também comentar as distinções entre o David e o Elijah, por exemplo, as cores que os rodeiam. Maior parte da roupa do David é um verde sujo, assim como a pintura da sua casa. Já o Elijah usa blazers estranhos “elásticos” e roxos. Da mesma maneira que tudo o que o envolve é estranho. A sua bengala de cristal, a sua casa, o seu escritório, aquela conversa com o cliente … tudo!

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     O Spencer Treat Clark está ótimo. Tendo desta vez mais câmaras apontadas para ele (depois de Gladiator, também em 2000) foi esta oportunidade que teve para mostrar o seu talento. Não chega a ser uma das grandes performances infantis, mas o personagem é também muito bom e consegue transmitir uma semelhante empatia e pena para o público. Vemos um rapaz que sente a falta do pai e quer se envolver na mesma jornada que ele, mesmo não tendo a maturidade suficiente.

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     A Robin Wright enquanto a Audrey, mesmo não sendo a personagem mais interessante do filme, cria também um vínculo que vem quase instantaneamente com a personagem. Facilmente torcemos por ela e queremos vê-la junta do David, queremos que eles se reconciliem.

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     A música do James Newton Howard é magistral. Eu gosto muito do John Williams, mas este sim foi a escolha perfeita para compor a música de Unbreakable. É tão triste e tão inspiradora ao mesmo tempo, dá vontade de a ouvir enquanto dormimos. É tão suave, tão sublime, tão perfeita!

     Depois de uma viagem tão fixe e tão surpreendente como esta, eis que chegamos à 2ª metade do filme. O David começa a duvidar do Elijah, uma crise familiar instala-se, este lembra-se que já se afogou e o perigo que a água representa para ele, o acidente de automóvel revela-se falso, e finalmente ele desenvolve os seus “poderes”. O seu poder resume-se ao instinto, um sentido completamente banal do ser humano. Visto desta forma, esta escolha do M. Night Shyamalan foi genial, aliás o ato final é genial. Desde a ida do David à estação de metro até ao salvamento daquela família sequestrada, Unbreakable torna-se na experiência cinematográfica mais inspiradora desde Rocky de 1976. Vemos o David finalmente salvar as pessoas, a fazer aquilo que deve fazer, aquilo pelo o qual veio ao mundo – salvar os restantes da Terra … tal como o Elijah disse. E adoro o facto de o cloke de segurança dele se torna a sua capa de super-herói.

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     É então que tudo parece correr bem para o protagonista. Ele livra-se da sua tristeza, reconcilia-se com a mulher e o filho e não podia estar mais satisfeito. É então que o grande twist, a grande reviravolta é revelada. Elijah Price/Mr. Glass é o responsável pelos recentes atos de terrorismo no mundo, ele é o vilão da banda desenhada. Algo que, se virmos bem, era a coisa mais previsível do filme inteiro. Numa banda desenhada, o vilão é o exato oposto do herói, sendo que os dois apenas partilham a mesma fraqueza. É uma sensação inexplicável, foi algo completamente inesperado para mim. Pensava eu que o M. Night Shyamalan não conseguia achar um final decente, e aí ele me dá algo inesquecível.

     Para não falar daquelas frases pré-créditos: “David Dunn led authorities to Limited Edition where evidence of three acts of terrorism was found.” e “Elijah Price is now in an institution for the criminally insane.”. Perfeito! À primeira vista, pareciam declarações de um filme baseado em factos reais, e faz sentido. Tal como os o Elijah disse anteriormente: “Os super-heróis existem e estão entre nós.”. Todos nós podemos escolher quem somos. Heróis ou Vilões.

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     Unbreakable é um filme monumental! É perfeito e discutivelmente um dos melhores do género de super-heróis e um dos melhores de sempre. É uma jóia do cinema hipster, realizado por um dos realizadores mais desprezados de Hollywood e mais à frente do seu tempo.

 

Nota: A+

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