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Vida de um Cinéfilo

Gosto de filmes, e vou falar deles, e muito ...

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Vida de um Cinéfilo

30
Set17

War Machine (Máquina de Guerra, 2017) - Crítica


Francisco Quintas

     A Netflix já provou ser mais que capacitada para fazer boas sátiras sobre a sociedade americana. War Machine não é das melhores, mas com o carisma do Brad Pitt é difícil ficar insatisfeito.

    Baseado no livro de não-ficção The Operators, escrito por Michael Hastings e publicado em 2012, o filme acompanha o general americano Glen McMahon, que, em 2010, contra os inimigos e aliados, ambiciona uma operação de renovação no Afeganistão.

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     O filme foi escrito e realizado pelo australiano David Michôd, responsável por Animal Kingdom e The Rover, os quais eu nunca vi. Sendo esta apenas a sua terceira longa-metragem, é compreensível que este, mesmo com alguma experiência, ainda tenha dificuldade em adaptar material sobre uma história controversa. E mesmo o filme tendo problemas consideráveis, foi-lhe fácil se divertir com o guião ao mesmo tempo que conta uma história séria e relevante.

     Os nomes dos personagens foram todos alterados com exceção das figuras políticas mais conhecidas. Sendo assim, hoje vamos começar pelas interpretações. O Brad Pitt nunca teve dificuldade em interpretar robustos e rígidos membros do exército, muito menos quando protagonista. Inglourious Basterds, Fury e Allied são ótimos exemplos do caso. Mas desta vez, é uma performance visualmente muito mais engraçada, o personagem comporta-se como um desenho animado e tem uma fisicalidade propositadamente risível, mas digna da sátira. Fora os aspetos físicos, o Brad Pitt demonstra facilmente o lado mais íntimo e conflituoso de um homem muito respeitado, embora que ainda pequeno e sem quase influência nenhuma.

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     E a sua figura é ostentada suavemente com a narração do Scoot McNairy, que consegue elaborar um estilo de narração quase de documentário enquanto explicita toda a ironia presente no guião. No entanto, há informações às quais eu facilmente podia reter e/ou que já tinha retido, acontece quando a narração se torna excessiva.

     O Ben Kingsley convenceu-me desde o início. Ele tem pouco tempo em cena, mas exemplifica perfeitamente aquilo que deve ser uma interpretação cómica de uma figura política. Nunca se viu uma “imitação” tão hilariante do Hamid Karzai. É o cinismo no seu auge!

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     Fora esses dois, o elenco é muito mal organizado. Um dos principais problemas é o enorme elenco e número de personagens. O grupo de oficiais é excessivamente grande, não dá para toda a gente se desenvolver. E por desenvolvimento não se entende uma narração apressada sobre cada um. Mesmo as interações do grupo sendo boas, se o mesmo fosse reduzido para 4 ou 5 membros seria muito mais fácil. Até porque o filme não precisava de 2 horas. Há demasiadas sub-plots. Se alguns arcos, personagens e cenas fossem excluídas, teríamos um filme muito mais sólido.

     Por exemplo, a Meg Tilly interpreta a mulher do general. Apesar de ser uma boa atriz, é desperdiçada e a personagem é completamente dispensável e chata. Eu nunca vi alguma utilidade na relação.

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     No entanto, há atores que surpreenderam com os pequenos momentos. A Tilda Swinton mostra numa cena o porquê de ser considerada uma das melhores character actresses.

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     O Will Poutler e o Lakeith Stanfield são uma boa dupla, embora raramente apareçam juntos. A liderança desesperada de um complementa-se com a coragem enfraquecida do outro. O retrato dos soldados é competente.

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     Dentro do grupo dos oficiais, o único que se destaca é o Anthony Michael Hall. É também uma performance raivosa e propositadamente afetada e exagerada. O personagem é um dos mais engraçados. Já Topher Grace, RJ Cyler, Anthony Hayes e muitos outros não me disseram nada.

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     Visualmente, o filme é impecável! A fotografia acastanhada típica dos filmes de guerra encaixa-se na perfeição com os diferentes cenários e atmosfera suja constante do filme. A banda sonora é muito interessante, há músicas completamente opostas àquilo que um realizador normalmente escolheria, mas aqui casam de maneira muito fluída com as montagens mais ágeis.

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     Outra coisa desnecessária foi o uso de um clipe original de um discurso do Obama. É assim … quando um filme decide (por questões evidentes) mudar os nomes das figuras desconhecidas intervenientes num período polémico da História, trata-se de uma situação compreensível. Claro que o Obama e outras personalidades políticas poderosíssimas da altura iriam ser referidas, uma vez que há uma enorme crítica ao governo americano, mas era preferível mostrar apenas o áudio, já que depois aparece um ator parecido com o Obama para contracenar com o Brad Pitt. Ás vezes, menos é mais. Mas tudo bem, esse não foi o maior dos problemas.

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     Como uma sátira social e política sobre a Guerra do Afeganistão, War Machine é uma boa escolha se quisermos aprender qualquer coisa. Maior parte do elenco é empenhado e o guião é inteligente e engraçado o suficiente. Mas personagens e sub-plots inúteis tornaram o filme inchado e desajudado por um ritmo muito problemático. A Netflix conseguia melhor.

 

Nota: B-

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